Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009
Capas escolhidas 2
Publicada por Manuel Halpern em 16:55 1 comentários
Etiquetas: JL 1000
Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009
Capas Escolhidas - 1
Podiam ser muitas outras ao longo de 17 anos de trabalho diário nesta redacção. Outras cores, outros temas, outros enquadramentos, mil pequenas coisas que, dando conta da actualidade cultural, não deixam de reflectir um pouco de cada um de nós. Ou do que cada um de nós foi naquele momento particular da História do jornal.
Bati-me por esta capa - porque é Espanha, país que amo tanto como o meu, porque, arvorando a bandeira da lusofonia, o JL não pode voltar as costas ao mundo, porque recordar episódios trágicos como a Guerra Civil de Espanha é uma forma de intervenção no presente de que o jornalismo não pode abdicar.
Publicada por Maria Joao Martins em 17:31 3 comentários
Etiquetas: JL 1000
Quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009
Que mil floresçam
Uns sapatos meio cambados, biqueira larga, talvez um 42 ou mais, estavam atirados para o meio de um armário cinzento entre livros e papéis. Não seriam sapatos de defunto, mas ninguém sabia a quem pertenciam e nunca ninguém os reclamou. Nesse tempo, os sapatos ainda não tinham ganho o estatuto de digno petardo de que hoje gozam legitimamente, mas não deixavam esses, esquecidos entre letras, de constituir um dos insólitos mistérios do JL, quando cheguei a esta redacção. Havia quem suspeitasse que eram de Carlos Vaz Marques que tinha saído há pouco do jornal para, como se diz, seguir outros passos na TSF. Nunca se tirou isso a limpo e não valia a pena tentar a prova de Cinderelo. Porque a história não se repete, nem os abandonados sapatinhos valiam meias solas. Descobri, aliás, rapidamente, que o JL é um poço sem fundo, onde se pode perder tudo. Às vezes a cabeça e as estribeiras. Nunca o amor à camisola.
«Há coisas que só neste jornal», queixa-se muitas vezes o Zé Carlos, nosso director. Assiste-lhe a razão. «É o último jornal do século XIX», costumava dizer o Rodrigues da Silva, que foi nosso editor durante 15 anos. Era uma espécie de cartão de visita na recepção aos estagiários que por cá foram passando, uns 40 em números redondos e o Zé Manel tinha-os contados, E não se ficava por aí, atirava logo, a lucidez contra as ilusões, com os ossos do ofício: «Quando deixamos de escrever nos jornais, ninguém nos conhece, acabam-se os convites, as dedicatórias». Também dizia ele muitas vezes que estava feita a história da imprensa, mas faltava fazer a dos jornalistas: Conhecíamos nós, tal e tal nome que tinha sido um grande repórter? Não, não sabíamos, acabávamos por reconhecer com uma ponta de vergonha como quem é apanhado em falso. Numa tal história que se fizesse, o Zé Manel teria o seu justo lugar, entre o amor da escrita e a observação crítica e amável do mundo, subjectiva, sempre como era sua bandeira, que sabia que a objectividade em jornalismo não existe. Foi uma das coisas essenciais que aprendi com ele.
Estou certa que tudo isso ficará para a história dos jornalistas do JL. Tal como o dia em que a Francisca chorou, quando ligou pela primeira vez a um escritor de que gostava muito; as agendas cheias de ideias e de tentativas de organização, aplicadas ‘pautas’ do Ricardo, as notas pop muito soltas e a desarrumação orquestrada do Manel, as apostas entre ambos e mais recentemente os matrecos; as falas de cor do Casablanca ou do Almodóvar, da Maria João, o «brilhozinho nos olhos» das fotos do João, as directas da Rita, o sossego da Marta, os gatos das redondezas que a Otília sustenta, os poemas e cantorias do Miguel Eduardo que come insaciavelmente papel e rói os lápis até ao carvão. Ou a vez em que, ainda na Avenida da Liberdade, o nosso gráfico-cantor subiu a um estirador, com o Luís Almeida Martins, e começaram a gritar à janela, alto e bom som, o nome de um certo escritor lusófono, como num grito de guerra. Ou ainda, toda a espécie de palavrões e vernáculos mimos que são o pão nosso de cada dia destas santas bocas da cultura, os recortes e montagens fotográficas nas paredes, a célebre legenda Bela, a mulher de Bartók, aquele livro da vida As Memórias de um Açoreano, o mítico tema dos poetas bissextos, o quid juris das reuniões ou o estranho caso das emendas que o Zé Carlos perde invariavelmente nos textos em computador. Outro mistério que nem a melhor informática pode deslindar.
Os sapatos, esses talvez fossem apenas feitos para andar. Que a este jornal, ninguém apanha descalço. «Uma instalação», como insinuaria provocatoriamente o R. da S. E havia de dizer: «Que mil JL floresçam».
Publicada por Maria Leonor Nunes em 18:49 0 comentários
Etiquetas: JL 1000, Par ou ímpar
Enapá 1000!
Se as edições do JL fossem acompanhadas com a mesma seriedade, empenho e profissionalismo que os jogos de futebol, talvez dispuséssemos daqueles dados estatísticos, facultados por empresas especializadas. Aquelas que sabem ao certo quantos toques de calcanhar deu determinado jogador ao longo da época, e quantas assistências fez o jogador que fez a assistência para golo. São maravilhas tecnológicas que envolvem uma atenção ímpar e recursos humanos qualificados.
Por aqui não temos nada disso. Por amor de Deus, isto é cultura, coisa sem importância. Quase ninguém vai à bola connosco. Enfim, ainda são alguns milhares. Ao longo dos anos contam-se milhões. Poucos mas bons. Uma imensa minoria, como dizia o outro. Obrigado.
Voltemos à estatística. Os dados não são rigorosos, mas eu estive aqui de lápis atrás da orelha e calculadora em punho e fiz umas contas. Estes mil números devem conter aproximadamente 396 123 322 caracteres. Quem não acreditar que os conte um por um. Tudo somado, ou dividido, dá uma data de páginas.
Os recordistas são o José Carlos de Vasconcelos e o José Manuel Rodrigues da Silva, cada um com cerca de 10 milhões de caracteres. Quantos livros dariam… O que é surpreendente é que o camarada Rodrigues da Silva, recentemente falecido, conseguiu alcançar esse número em apenas 15 anos. Escrevia desenfreadamente. E lembro-me de edições, sobretudo nas férias, em que ele praticamente fazia o JL do princípio ao fim.
De seguida neste estranho top, virão a Maria Leonor Nunes e a Maria João Martins (sete milhões de caracteres cada), juntamente com colaboradores quase lendários, dos quais destaco o Jorge Listopad. O nosso gráfico, Miguel Eduardo Serrano, paginou cerca de 30 mil páginas. E o João Ribeiro, o nosso fotógrafo decano, terá tirado para cima de 10 mil fotografias. Quanto a mim, calculo, cinco milhões de letras. Os jornais são de quem os dirige, de quem os pensa, de quem os escreve, de quem os ilustra, de quem os pagina e, acima de tudo, de quem os lê.
Ao longo dos anos, confundimo-nos com o boné que usamos. Mais ainda quando a ficha técnica e sobretudo a redacção nos faz sentir o orgulho e a responsabilidade da investida. Aos poucos também me tornei JL. Passo a explicar: durante estes dez anos fui repetindo o meu nome com esse sufixo: «Fala o Manuel Halpern do JL». Como quem diz da Silva, da Costa, dos Santos. E, às tantas, já não sei bem onde termina o meu nome.
Publicada por Manuel Halpern em 13:39 4 comentários
Etiquetas: homem do leme, JL 1000
1000!
O DURO CAMINHO DE UM JORNAL Foi um longo, duro e difícil caminho para chegar até aqui - ao n.º 1000 do JL, jornal de letras, artes e ideias. Que exigiu imenso trabalho, muita devoção, bastante sacrifícios - e, já agora, para ser inteiramente sincero, creio que também algum saber do «ofício» e porventura talento… Além ainda de certas características, como o desprendimento - por e para fazer um jornal com escassos recursos e raras recompensas, que tão pouco proporciona a visibilidade e o 'êxito' de outros media. Ou seja: é uma tarefa quase sempre humilde, discreta, quase obscura, e amiúde mal compreendida, injustiçada num meio dado a injustiças, nada comparável a outras mais rentáveis e propícias ao sucesso, ou ao que hoje em geral assim se considera.
E porquê? Primeiro porque sabemos - é um facto, não um juízo de valor - ser este um jornal a vários títulos único em Portugal e na nossa cultura, bem como em todo o mundo da língua portuguesa (e, em vários aspectos, talvez não só. Mais único ainda pela periodicidade, regularidade e persistência no tempo, sem qualquer interrupção: com períodos melhores e piores, mas sempre igual a si próprio, ao longo de mil edições. Segundo porque, bem ou mal, entendemos que o JL teve, tem e deverá continuar a ter um papel significativo na cultura portuguesa, na defesa e promoção da nossa Língua, no intento de aproximar os países e povos que a falam - mesmo como instrumento, independente, da sua Comunidade e do que, à falta de melhor designação, se chama a Lusofonia.
TESTEMUNHOS SOBRE UM PROJECTO Contribuem para a firmeza desta convicção, e para nos dar o ânimo necessário ao prosseguimento do esforço, os múltiplos e diversificados testemunhos que nesse sentido ao longo do tempo nos têm chegado. Testemunhos também de figuras cimeiras dos países lusófonos, aos quais nesta edição outros se acrescentam. Ao publicá-los, e ao recordar fragmentos de testemunhos anteriores, fazemo-lo, embora nos satisfaçam e honrem muito, não por qualquer coisa que se assemelhe a 'ostentação', vaidade ou narcisismo, mas por uma razão muito simples: tendo o JL estado já ameaçado de acabar, e de forma latente se mantendo esse perigo num momento de crise como o actual, impõe-se sublinhar, através de vozes altamente representativas e insuspeitas, o que o nosso jornal significa - e, em consequência, como seria inadmissível a sua perda.
É tal consciência que nos leva, por um lado, a nunca ter desistido, agradecendo a todos os que contribuíram e contribuem, em alguns casos decisivamente, para tornar viável e manter este projecto, e, por outro lado a chamar a atenção para os que não o fazem tendo obrigação de o fazer, até para prosseguir os fins e interesses das instituições ou empresas que dirigem.
ESPAÇO PARA OS CRIADORES Sabemos ainda ser este um espaço privilegiado para os criadores, em particular os de língua portuguesa. Desde a «apresentação» que assinei no n.º 1 destacamos o objectivo de os valorizar, de lhes dar voz e lugar, de serem eles e suas obras os verdadeiros sujeitos, e não 'objectos', das colunas deste jornal. Escritores, artistas, mulheres e homens de pensamento, e de acção na defesa dos valores humanistas, sabem que esta é uma sua «casa comum». E foi como um «projecto jornalístico, cultural e cívico» que sempre vi e defendi o JL. Continuando a pensar que é exactamente isso e a lutar para que o continue a ser...
Privilegiar a qualidade, sem elitismo(s), tentando compatibilizá-la com a acessibilidade e a divulgação, foi e é outro nosso propósito constante, embora nem sempre atingido. Mas muitos, incluindo prestigiosos universitários, reconhecem que a sua colaboração no JL e a nossa insistência, por vezes acompanhada de sugestões, contribuiu para que já não escrevam para um público mais alargado como se estivessem a fazê-lo para um congresso científico.
A NOSSA HISTÓRIA: ALGUNS DESTAQUES Não vem para aqui sequer uma muito breve síntese da história do jornal, e muito menos eu próprio, que o fundei e dirijo desde o n.º 1, falar de alguns dos aspectos e factos mais relevantes ou curiosos do seu percurso. Também fica de fora desta edição, por falta de espaço, a reprodução de umas dezenas de capas ilustrativas da sua evolução e da atenção dada aos vários domínios de que se ocupa (aliás, o que verdadeiramente se impunha ou se impõe, até para consulta dos estudiosos, era ou é a publicação de um volume com todas as capas, só viável com apoio institucional ou mecenático). Creio no entanto interessante ou de justiça salientar algumas coisas, através de rápidos tópicos.
Porquê? O arranque No princípio dos anos 80 tinham acabado os suplementos literários dos jornais e era mínima a presença da cultura nos media. Além disso, não era valorizada nem a língua portuguesa e sua presença no mundo, nem a ligação entre os países do idioma comum. Sobretudo por isso tive a ideia de criar um jornal que correspondesse ao projecto de que atrás falei, um jornal de letras (logo me ocorreu o JL), artes e pensamento.
Essa criação só era e foi possível no âmbito da Projornal, a sociedade de jornalistas que fizera O Jornal - de que eu próprio era director, bem como director editorial do grupo - e já lançara outros títulos e iniciativas, com êxito. No entanto, em geral os meus camaradas não escondiam o cepticismo quanto à viabilidade do 'empreendimento', incluindo o Fernando Assis Pacheco, que eu gostaria o dirigisse. Mas só aceitou ser chefe de redacção, e na convicção de que o quinzenário que eu idealizara, sem nenhum 'modelo' nem similar conhecido, «não duraria mais de seis meses».
Como orientador artístico e ilustrador, não podia pensar se não no «maior» -- e além disso meu amigo e excelente colaborador desde o DN pós-25 de Abril, o João Abel Manta, que impôs a imagem do JL (o grafismo estava sobretudo a cargo do João Segurado) e fez das suas dez primeiras edições 'obras' raras.... Para o «conselho editorial« chamei ainda os também meus amigos próximos e colaboradores n'O Jornal, Augusto Abelaira e Eduardo Prado Coelho - sendo este, EPC, que sugeriu a designação de «ideias» e teve especial importância na constituição da equipa de críticos das diversas áreas.
Perspectivas e primeiras mudanças - Pensava que o Jornal de Letras, quinzenal, viria a situar as vendas num patamar de cerca de oito mil exemplares. O n.º 1, saído a 3/3/1981, com uma tiragem de 30 mil, esgotou-se rapidamente; uma reimpressão, de mais 10 mil, também se esgotou. Depois, manteve-se anos na casa dos 20 mil. Assim, face a um êxito que ultrapassou tudo que se poderia imaginar, a 22/11/1983 passou a semanal. E como semanário se manteve quase 11 anos, até 13/4/1994, voltando então a ser quinzenário, até hoje - mas com um aumento substancial do n.º de páginas, a cores e com grafismo renovado.
Com a passagem a semanal, Assis voltou a ficar apenas em O Jornal, passando a ser chefe de redacção do JL o António Mega Ferreira, que também ali trabalhava. O Mega, como o Assis, embora com outras características, um excelente profissional, deu também um precioso contributo a este periódico, na época em que nele estive menos presente, embora continuando a dirigi-lo, dado o empenhamento num projecto cívico que me levou designadamente a ser deputado. Entretanto, em 1986, o EPC foi substituído naquele consultivo «conselho editorial» pelo já também colaborador Jorge Listopad
Redacção e seus colaboradores - Quando o Mega foi dirigir editorialmente o Círculo de Leitores, em finais de 1985, substituiu-o como chefe de redacção, com o cargo também de director-adjunto, o Luís de Almeida Martins (LAM), que era um dos societários de O Jornal e vinha de dirigir o Se7e, o semanário de espectáculos que criáramos em 1978, com grande sucesso. O LAM, assegurou essas funções até 1992 , com a competência e o empenho que se lhe conhece, e hoje continua na Visão
A partir de 1992, passamos a ter apenas um editor e, desde a criação do JL/Educação nos actuais moldes, uma coordenadora desse suplemento. Os editores foram o José Jorge Letria e o José Manuel Rodrigues da Silva, falecido há menos de três semanas, e que aqui longa e emocionadamente evocamos na última edição, para a qual remeto os leitores.
Entre as dezenas de redactores, colaboradores permanentes da redacção e sobretudo estagiários que por aqui passaram, e boa parte dos quais aqui mais ou menos começaram, recordo, por exemplo, ao correr da memória: Clara Ferreira Alves (a primeira, que veio falar comigo, muito jovem estagiária do Correio da Manhã, e de imediato trouxe para o jornal), Francisco José Viegas, Pedro Borges, Tereza Coelho (agora tão prematuramente desaparecida, e que foi um dos tais inúmeros jornalistas e/ou escritores a começar aqui), Carlos Oliveira Santos, Inês Pedrosa, Maria João Guardão, António Cabrita, Manuel João Gomes, Isabel Fragoso, Clara Pinto Correia, Carlos Câmara Leme, Manuel Cadafaz de Matos, Doris Graça Dias, Carlos Vaz Marques, Margarida Ferra, Nair Alexandra, Sara Belo Luís, Suzana Neves, Margarida Botelho, Ricardo Araújo Pereira, Susana Martins, José Pedro Rodrigues, Elena Fernandes, José Manuel Marmeleira, Joana Seara, Patrícia Carvalho, Júlio Carmo Gomes, Rui Freire, etc. Mais, a certa altura, vieram para o JL, digamos que para nos conhecer por dentro e 'praticar', alguns jornalistas/ escritores africanos, como Luís Carlos Patraquim e Nelson Saúte. E toda esta acção, que muitos reconhecem ter contribuído para a sua formação, enriquece o nosso 'património'.
Por outro lado, entre os jornalistas, de outros órgãos de comunicação social, em especial de O Jornal, que mais colaboraram connosco, sobretudo nos primeiros números, lembro Manuel António Pina, Fernando Dacosta, Miguel Serras Pereira, Pedro Vieira, Rogério Rodrigues, Francisco Vale, Fernando António Almeida, Adelino Cardoso, Francisco Bélard, Regina Louro, etc.
Hoje, temos a equipa que consta da nossa ficha e os leitores bem conhecem das nossas páginas, não sendo próprio estar aqui a falar de cada um. Trata-se, como sempre, de meia dúzia de jornalistas, um grupo muito pequeno mas muito unido, com verdadeiro «amor á camisola»: pessoas de diferentes formações e gerações, predominando os mais novos, de talentos vários ao serviço de um esforço comum e solidário. Um raro ambiente de trabalho e entreajuda, em que se tenta assegurar a competência e fomentar a criatividade individual, sem 'competição', num sadio espírito de equipa que sempre entendi absolutamente essencial numa redacção livre e participativa como deve ser. Tudo sem prejuízo de uma direcção clara mas que procura ser sempre propiciadora daquele ambiente e estimuladora, dinamizadora, da liberdade criativa.
Outros colaboradores - Um jornal como o nosso assenta também muito, às vezes principalmente, em colaboradores: críticos, colunistas, cronistas, articulistas, ensaístas. E a assinalável qualidade dos nossos tem constituído quase invariavelmente uma das chaves do reconhecimento do JL. Não vamos falar dos actuais (alguns, aliás, de longa data, de par com outros bem recentes), e é impossível passar em revista mesmo só os mais destacados deles ao longo destas mil edições.
O que podemos garantir é que a maioria das figuras de topo da literatura e da cultura portuguesa colaboraram no nosso jornal. E todas, sem excepção, bem como as mais destacadas dos outros países de língua comum, estão presentes, designadamente em textos sobre as suas obras, nas talvez mais de 40 mil páginas que demos a lume e constituem um acervo raro para o estudo do nosso país e da nossa cultura, pelo menos nas três últimas décadas.
E podemos também, nesta edição em que assinalando o 1000 'partimos' sobretudo dos primeiros números, reparar no invulgar nível de toda a colaboração e na alta gama de críticos. Adiante, nestas páginas, isso se recorda e atesta, além de Carlos Reis escrever especificamente sobre o n.º 1. Quero sublinhar, no entanto, que a 'amostra' é mesmo assim muito incompleta. Basta realçar que, além dos que mais à frente aparecem, sobre música escrevia (e continuou a escrever, até à morte) João de Freitas Branco, decerto o nosso mais notável musicólogo, divulgador, do último século; que assinavam as críticas de cinema João Mário Grilo (que só por ausência não colabora neste n.°), EPC, Fernando Lopes, Guilherme Ismael, Dinis Machado, João Lopes; António Sena tinha uma coluna sobre fotografia; as artes plásticas eram vistas por Sílvia Chicó, Alexandre Melo, João Pinharanda; e sobre livros, dos vários 'géneros', é um sem acabar que impossibilita a referência só a alguns.
Quanto a colunistas e/ou cronistas, além, igualmente, dos que à frente aparecem, dos referidos em caixa e dos actuais, sempre apenas ao correr da memória - e seguramente neste como nos outros itens com involuntários mas indesculpáveis esquecimentos, de que desde já peço desculpa -, lembro, por exemplo: Irineu Garcia (que desde o n.° 2 e até à morte assinou a «Zona tórrida», sobre literatura brasileira, muito importante para os primeiros contactos com o Brasil), Rui Knopfli, Fernando Campos, Alberto Pimenta, Luís Fagundes Duarte, António Osório, Rentes de Carvalho, Diogo Freitas do Amaral, António Barreto (pouco tempo), Carlos Nejar, Affonso Romano de Sant'Ana, João Rui de Sousa, Manuel Frias Martins, E. M. Melo e Castro, David Mestre, Luís Filipe Barreto, Ilídio Rocha António Manuel Hespanha, Boaventura Sousa Santos, Fernando Venâncio, Marcello Duarte Mathias, Joaquim-Francisco Coelho, Possidónio Cachapa, etc.
ALGUMAS MARCAS IMPRESSIVAS Sendo absolutamente inviável referir os múltiplos contributos deste jornal em diversos domínios da cultura e da língua portuguesa, bem como o que lhe terá permitido dá-los e manter-se até hoje, ficam apenas, sem nenhuma sistematização, breves tópicos.
Instrumento da presença da nossa cultura e língua O JL está presente em universidades, leitorados, bibliotecas, etc., em todo o mundo da língua portuguesa e onde se estuda a literatura e a cultura que nela se exprime, sendo considerado um instrumento fundamental de trabalho e consulta, para especialistas e não só. Embora depois se tenha desenvolvido, essa presença começou a verificar-se logo em 1981, com o decisivo contributo de António Alçada Baptista, como primeiro presidente do Instituto Português do Livro; obviamente que, desde a sua criação, o Instituto Camões tem um papel fundamental neste domínio.
Em especial nos primeiros tempos, não havia ainda internet nem outros media a dar relevo a estes assuntos, o nosso jornal ajudou a criar aquilo que se designaria como o boom da ficção portuguesa no estrangeiro. Havia até editoras a fazer as suas escolhas para traduções a partir do JL e recebíamos muito frequentes pedidos de informações, livros, etc.
Também a nível interno essa presença é assinalável e potencia os índices de leitura. Presença em instituições culturais diversas e bibliotecas, com destaque para as municipais e as das escolas - pois a Educação, que é outro nome da Cultura e está na sua base, constitui outro nosso campo preferencial de atenção e intervenção, sobretudo através do nosso suplemento mensal a ela especificamente dedicado (por exemplo, quando ainda existia a rede de bibliotecas da Gulbenkian, o JL era o único jornal nelas disponível).
Por outro lado, temos nas nossas páginas vasto noticiário do que se passa em todo o país, na Agenda Cultural, e das manifestações culturais portuguesas no estrangeiro, no Suplemento Camões. Assim, os ministérios da Educação e da Cultura souberam atempadamente compreender, reconhecer e contribuir para viabilizar a consecução de objectivos que não são comerciais mas culturais e de interesse nacional.
A luta pela CPLP e pela lusofonia Esta tem sido outra constante na história do jornal, através de uma intervenção quase «militante» para a criação dos instrumentos indispensáveis à concretização de uma verdadeira Comunidade entre os países e povos de idioma comum; e ao seu funcionamento, depois de criados, quando isso não tem acontecido - como é o caso do Instituto Internacional de Língua Portuguesa.
O JL promoveu mesmo, em Dezembro de 1993, com o apoio da embaixada do Brasil em Lisboa e do nosso amigo, o idealizador/ dinamizador da CPLP, José Aparecido de Oliveira, a primeira grande Mesa Redonda Luso-Afro-Brasileira, com a participação de figuras destacadas (membros dos governos, embaixadores, escritores, intelectuais) de todos ios países lusófonos. E ao tema, que continua sempre vivo nas nossa páginas, dedicamos também suplementos especiais nas edições de 22/6/1994, 9/11/1994 e 17/7/1996.
Sendo actualmente Portugal o país presidente da Comunidade e tendo anunciado que iria privilegiar a defesa e difusão da Língua Portuguesa através de novos mecanismos e novas iniciativas (até agora ainda não visíveis), este jornal espera continuar a dar o seu contributo nesse sentido e julga ser consensual que pode ser, para o efeito, um meio único.
Independência, pluralismo, valorização da qualidade Por último, importará salientar o que suponho serem alguns dos factores que explicam a permanência, e para não poucos prestígio, deste jornal. Esses factores estão muito ligados ou inter-ligados, e sem os hierarquizar sublinho desde logo a independência, que pressupõe a liberdade, e o pluralismo. Independência face a todos os poderes - políticos, económicos, sociais, empresariais, mas também (e neste sector eles são amiúde os de facto mais influentes) de grupo, escola, 'capela', lóbi, marketing, até «gosto»... Não sendo nem admitindo ser orgão ou porta-voz de nenhum movimento, associação, corrente estética, sempre tivemos como objectivo privilegiar apenas a qualidade, recusando correr atrás dos foguetes da «socialite», das «modas» e dos «interesses» que por vezes infestam as letras, as artes, o mundo da cultura em geral.
Por privilegiar a qualidade entendo não impor os nossos gostos e as nossas opções, mas avaliá-la segundo os melhores e mais abertos critérios jornalísticos; e: 1) dar espaço e relevo ao que de muito bom há na literatura e na arte mas se encontra injustamente esquecido ou minimizado, em particular pelos media: o exemplo pode ser o Tema que da última edição, sobre Afonso Duarte; 2) dedicar uma especial atenção aos mais novos, aos que começam (e daí secções permanentes como o «primeiro livro», «filme», «exposição») e o justificam, pelo menos pela potencialidade que mostram, não ruído que provocam e por vezes assegura um efémero êxito fácil.
Quem compulsar as dezenas de milhares de páginas deste jornal encontrará inúmeros exemplos do que dizemos e verá como sempre nestas colunas conviveram as figuras dos maiores criadores, já consagrados ou não, com os novos, ao tempo mais ou menos desconhecidos. Esta coexistência, ou melhor: esta pluralidade - de idades, gerações, opções literárias e artísticas, etc. - nas nossas colunas, pode não ser compreendida, é mesmo criticada, pelos mais dados aos dogmas e às imposições de vários géneros; nós, pelo contrário, procuramos estimulá-la, orgulha-nos e é parte importante do projecto do JL.
E AGORA? Agora, pela minha parte, a intenção e o desejo é que o JL continue na fidelidade aos mesmo valores, princípios e objectivos essenciais. Na atenção constante ao tempo que nos cumpre viver e na renovação necessária sempre que a substância das coisas o justifica. Não por e para meras operações de propaganda ou cosmética, mas para inclusive sermos dignos dos objectivos deste jornal: um espaço decerto modesto, mas, repete-se, único, da cultura e da língua portuguesas, das culturas dos povos que nessa língua de todos nós se exprimem, da comunidade que deve ligar esses países e povos, da lusofonia e tudo que ela significa. Veremos o que o futuro nos reserva.
Esta edição
Assinalamos este n.° 1000 com colaboração de alguns dos que ao longo do tempo foram, e muitos continuam a ser, presenças marcantes nas nossas colunas. Muitos mais aqui poderiam e deveriam estar, mas a natural limitação de espaço obrigou-nos a restringir-nos quase exclusivamente aos que nos acompanham desde o início. E mesmo assim ficaram de fora vários, nessas circuntâncias, que aqui gostaríamos de ter. Ou porque, prevendo tal limitação, nem os chegamos a convidar, ou porque os textos não 'couberam' (como o de João Medina). Dos colunistas das primeiras edições que já desapareceram - e de Agustina, impossibilitada de escrever por doença - publicamos inéditos ou reproduzimos textos nelas incluídos (mas não ficaram de fora, pela mesma razão, os de Alexandre O'Neill, João de Freitas Branco e Alexandre Pinheiro Torres). Em todos os casos, excepto quanto a alguns dos que mantêm colaboração permanente, há uma nota final, de rodapé, sobre o autor e sua relação com o JL.
Aos nossos colunistas e cronistas neste n.° não pedimos que escrevessem sobre o jornal. Mas não pudemos naturalmente impedir que os que quiseram o fizessem. Alguns dos textos vêm nas áreas (letras, artes e ideias) em que poderiam ser incluídos, sendo certo que esta edição tem, como inevitável, uma organização e paginação diferentes do habitual. Não publicamos várias secções fixas e incluímos apenas uma página de notícias, no final do «debate-papo».
O JL 1001
Sendo este n.° 1000, por razões óbvias, muito centrado no nosso jornal e sua história, e por isso fundamentalmente virado para o presente e o passado, o próximo, o 1001, será sobretudo virado para o futuro. E virados também essencialmente para o futuro, inclusive o que há de futuro no passado e no presente, continuaremos nas edições seguintes.
Publicada por Manuel Halpern em 11:42 4 comentários
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Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009
Joana Costa no Maxime
É, porventura, a grande revelação do fado de 2008. Com sensibilidade e contenção exemplares, Joana Costa apresenta o seu primeiro disco, Recado, em Lisboa. Uma voz que nos leva longe, como poemas de, entre outros, António Lobo Antunes.A não perder!
Maxime, quinta-feira, 27, às 23 horas
Publicada por Manuel Halpern em 13:06 0 comentários
Etiquetas: Música
Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009
The Stranglers em Lisboa e no Porto
No final dos anos 70, foram uma banda punk no tempo certo. Mas na década de 80, comeram uns cogumelos estragados, enlouqueceram, e até começaram a cantar em francês (La Folie). Os Stranglers fazem uma revisão da carreira ao vivo em Lisboa no Porto. Esperemos que tocquem este No More Heroes. Uma desilusão punk, com um órgão à Ray Manzarek e uma guitarra à Phil Manzanera.
NO MORE HEROES
Whatever happened to Leon Trotsky?
He got an ice pick that made his ears burn
Whatever happened to dear old Lenny?
The great Almyra, and Sancho Panza?
Whatever happened to the heroes?
Whatever happened to the heroes?
Whatever happened to all of the heroes?
All the Shakespearoes? They watched their Rome burn
Whatever happened to the heroes?
Whatever happened to the heroes?
No more heroes any more
No more heroes any more
Whatever happened to all of the heroes?
All the Shakespearoes? They watched their Rome burn
Whatever happened to the heroes?
Whatever happened to the heroes?
No more heroes any more
No more heroes any more
No more heroes any more
No more heroes any more
Aula Magna, sexta-feira, 30
Batalha, sábado, 31
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Terça-feira, 20 de Janeiro de 2009
Identidades - Maria Gil
Rádio Pirata: Arquivos Íntimos Tudo começou com uma residência na ZDB. «Foram dois meses em que trabalhámos à volta do imaginário das rádios», diz Maria Gil, a ideóloga do projecto Rádio Pirata: Arquivos Íntimos, uma performance radiofónica, ao vivo, que hoje estreia e terá oito sessões na Galeria Zé dos Bois, ao Bairro Alto. «As rádios piratas serviam uma comunidade, falavam sobre o íntimo. Construímos os nossos textos a partir dessas ideias», conta a actriz e encenadora. Cada sessão conta com a presença do músico de improvisação Manuel Mota e de um/a convidado/a: Miguel Manso, Ana Brandão, Gisela Mendonça, Francisco Luís Parreira, Sara de Castro, John Cavanagh, Miguel de Jesus e João Poppe. Haverá ainda uma sessão para o programa Teatro Sem Fios, da Antena 2, e também para a Radio Six International, uma emissora on-line, que transmitirá a performance para o Chile e a Austrália.
Terrorismo poético
«Ir para um café e escrever tudo o que se ouve» eis uma das tarefas que Maria Gil descreve como «terrorismo poético». A partir daí, e entre outros exercícios, foram construídos os textos que chegam agora a Rádio Pirata. E a artista usa sempre o plural. «Este é um trabalho de equipa», afirma. Por isso mesmo refere-se a cada um dos que, das mais diversas formas, contribuíram para o levar a bom porto: Tânia Guerreiro, Miguel Bonneville, Neil Davidson, John Cavanagh, Pedro Silva, Laura Barbeiro, Sérgio Milhano, Susana Guardado e Catarina Varatojo.
Licenciada em Teatro, pela Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa, Maria Gil iniciou o seu percurso a trabalhar como actriz, especialmente no Bando, tendo mais tarde encenado os seus próprios projectos. Fez um curso de Encenação para Teatro, do programa de Criatividade e Criação Artística da Gulbenkian, onde descobriu «a zona da autobiografia como material para criar textos para performance». E, mais tarde, frequentou o mestrado em Performances Autobiográficas, na Universidade de Glasgow, na Escócia.
Teatro do Silêncio
Maria Gil dirige ainda o Teatro do Silêncio, numa colaboração estreita com a artista visual Ana Rito. «É uma associação que se dedica a projectos trans-disciplinares – embora não goste muito desta expressão», explica. No fundo pretendem juntar várias formas de arte para comporem os mais diversos trabalhos. E já têm o próximo previsto. Participarão numa residência em Huesca, uma vila espanhola, onde se realiza o Festival Okuparte. O Teatro do Silêncio vai recolher os sonhos dos habitantes da vila.
Ainda era aluna do Liceu D.Pedro V, quando conheceu a professora que seria a primeira grande referência: Estrela Novais. Seguiram-se outros como Madalena Vitorino ou João Brites. Na criação, interessa-lhe particularmente o trabalho de Joana Craveiro, do Teatro do Vestido e ainda o de Bruno Bravo.
Maria Gil, 30 anos, actriz e encenadora. Apresenta Rádio Pirata: Arquivos Íntimos, na ZDB, até 24, sempre às 21 e 30
Publicada por Francisca Cunha Rêgo em 15:47 0 comentários
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João Aguardela: Só o sonho fica
O pop português está de luto. Morreu o músico dos Sitiados e d’A Naifa. E a morte fica-lhe tão mal.
«Original por falta de comparência», assim, com a sua habitual modéstia, se dizia João Aguardela, em entrevista ao JL, aquando do lançamento do primeiro disco de A Naifa, em 2004. Agora, com a sua morte, aos 39 anos, no domingo, dia 18, na sequência de um cancro no estômago, são imensamente menos os originais que comparecem na música portuguesa.
João Aguardela foi um dos maiores iconoclastas da nossa música popular. Nunca se cansou de experimentar, de fugir aos padrões, de fazer e refazer. Até experimentou ser um dos maiores ícones do pop português, quando as massas se renderam aos encantos de Vida de Marinheiro. Mas actualmente refundia-se nos bastidores de A Naifa, a mais cortante banda portuguesa dos últimos tempos. Um divagador musical? Nem tanto. Cortando a direito, toda a música de Aguardela, nos Sitiados, Megafone, Linha da Frente ou A Naifa, responde a uma premissa. A tradição já não é o que era. Nem nunca foi. Há que reinvetá-la, sem peneiras, mas com estilo.
Aguardela reinventou-a com sucesso. Os Sitiados, a sua primeira banda, ficaram em segundo lugar no concurso do Rock Rendez-Vous de 1987, com o tema A Noite (Aqui ao luar/ perto de ti/ perto do mar…), uma das suas muitas composições. Na altura era apenas pop rock. Mas logo o som foi alterado, convertendo-se no mais bem sucedido grupo de folk-rock português. Explodiram, em 1992, quando lançaram o álbum de estreia, que incluía Vida de Marinheiro. O raparaparaparaparaparaparim entrou no ouvido de toda a gente. Seguiram-se quatro álbuns, todos nos anos 90, com sucesso decrescente, e algumas colaborações, incluindo os tributos a José Afonso, António Variações e Xutos & Pontapés. Aguardela explicou assim os Sitiados: «Penso que fizemos uma coisa semelhante ao Conjunto António Mafra. Costumo dizer que ele é o avô, o Sérgio Godinho o pai e os Sitiados os filhos.»
Na década de 2000, iniciou novas aventuras. Incluindo uma das mais ousadas experiências da música portuguesa. No Projecto Megafone criou uma amálgama de sons a partir das recolhas de música tradicional de Michel Giacometti e José Alberto Sardinha. Os quatro discos editados revelam uma peculiar leitura da tecnologia e são pérolas da música experimental.
Pelo caminho, um projecto megalómano. Um supergrupo alternativo, da geração seguinte aos Rio Grande e Resistência, com Viviane, Janelo Costa, Luís Varatojo, entre outros. Os Linha da Frente cruzaram electrónica com poesia portuguesa. Apesar do sucesso de Não posso adiar o Coração, a partir de António Ramos Rosa, foi um projecto de um disco só.
Talvez a cozedura de ideias entre Megafone e Linha da Frente explique A Naifa. O trio, com Luís Varatojo e Mitó, consolidou, numa semântica original, a linguagem que Aguardela sempre procurou. Um projecto experimental e popular, um fado que vai muito além do fado, onde se cantam, nos dois primeiros álbuns, poetas contemporâneos portugueses, de José Luís Peixoto a Adília Lopes. Aguardela optou por uma postura discreta, longe do microfone, tratando da electrónica, baixo e selecção de poemas, enquanto Luís Varatojo inventava a sua maneira de tocar guitarra portuguesa e Mitó afadistava-se.
No ano passado, lançaram Uma Inocente Inclinação para o Mal, onde revelavam uma letrista misteriosa e extraordinária, que, segundo alegaram, preferia não ser identificada. Houve até quem pensasses que se tratava do próprio Aguardela. Nada de que ele não fosse capaz. Agora, o rock soa em acordes menores. E só o sonho o fica, só ele pode ficar.
Publicada por Manuel Halpern em 13:18 0 comentários
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Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009
Pedro Costa entre os melhores do ano nos Cahiers
Juventude em Marcha, de Pedro Costa, foi considerado o segundo melhor filme estreado em França em 2008, pela conceituadíssima revista Cahiers du Cinema. O filme do cineatsa português, realizado em 2006, ficou em primeiro lugar nas listas pessoais dos críticos Jen Pierre Rehm, Charlotte Garson e Cyril Neyrat.
Ver aqui texto de Rodrigues da Silva sobre o filme!
Top ten 2008:
1 Redacted, de Brian de Palma
2 Juventude em Marcha, de Pedro Costa
3 Cloverfield, de Matt Reeves
4 Este país não é para velhos, de Joel e ethan Cohen
5 Two Lovers, de James Gray
6 Valsa com Bashir, de Ari Folman
7 Dernier maquis, de ranbah Ameur Zaïmeche
8 Fome, de Steve McQueen
9 A short filme about the indio nacional, de Raya martin
10 De la guerre, de Bertrand Bonello
Publicada por Manuel Halpern em 12:58 0 comentários
Etiquetas: Cinema
Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2009
Que estranho, o JL sem o Rodrigues da Silva
Pareceu-nos pertinente converter este comentário em post
Publicada por Manuel Halpern em 13:19 0 comentários
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Terça-feira, 13 de Janeiro de 2009
Um imenso adeus
Deixou cinco volumes de memórias, a que chamou Prova de Vida. Os três primeiros, com a chancela da Quimera, do seu amigo José Carlos Alfaro, tiveram, por decisão do autor, uma tiragem reduzidíssima, não ultrapassando os 20 exemplares, distribuídos exclusivamente entre os familiares e os amigos mais próximos. Os volumes quatro e cinco, este último inacabado, não foram (ainda) impressos, estando os originais guardados em dossiers amarelos. No total, são quase 300 textos, com fragmentos de uma vida recordada entre o passado e o presente. O mote é sempre uma fotografia, que dá início à viagem no tempo.
Entrevistas, reportagens e crónicas eram os seus géneros jornalísticos de eleição, embora soubesse que a notícia e a breve são a base de tudo, entregando-se a elas com igual apego. Tinha uma inclinação especial para o fait divers, para a pequena história que a imprensa dita de referência abandonou, deixando-a nas mãos de um jornalismo sensacionalista. Qualquer assunto dava um bom artigo, o segredo era saber fazê-lo. Ir ao local, ouvir os protagonistas, estabelecer as ligações, dar a ver o que realmente aconteceu. E não exigia muitas letras gordas, dizia, nem fotografias com choros, desgostos e outras desgraças alheias. Apenas um repórter da «pena» e outro da «foto», sempre atentos, com faro e respeito pelos factos e pelas pessoas. Nada disto, porém, fazia do Zé Manel um advogado da académica «objectividade» jornalística. Era um defensor da «subjectividade», do homem ou da mulher, do editor ou do estagiário que dava corpo à assinatura que validava o texto. Que lhe dava identidade. Era o jornalista do eu, nu e cru perante o leitor. Sem subterfúgios.
Militou nos jornais durante 40 anos, depois de ter regressado da Guerra Colonial e de ter sido expulso do ensino. Uma paixão antiga, alimentada pelos jornais que o seu pai levava para casa, sempre que as economias permitiam. Era o tempo – as décadas de 40 e 50 – dos vespertinos e dos matutinos, das duas edições diárias. Recordava com particular carinho a 2.ª edição do Diário de Lisboa que o pai comprava após os jogos do Belenenses, o seu clube de sempre, já com a crónica do encontro. Era o tempo do jornalismo do imediato, muito antes da hegemonia da Internet, que o Zé Manel exemplificava com o exemplar d’A Capital do dia 25 de Abril de 1974. No canto inferior direito, na última página, lá estava uma breve a anunciar o golpe militar em curso e a Revolução que se avizinhava. «Na altura, os jornais fechavam às quatro da manhã», ironizava. Os factos esmagavam as sinergias.
Não se via como um profeta do antigamente, antes pelo contrário. Tomava como suas todas as épocas. Mas em relação ao jornalismo peremptório. As cedências foram muitas, e a maximização dos recursos trouxe poucos benefícios. E não havia computadores, ficheiros electrónicos, mails ou redes informáticas que substituíssem a sensação, que tantas vezes descrevia, de ir à cave do ‘Popular’ sujar as mãos a compor um texto. «A sentir a prosa». Ou a ver o prédio a tremer assim que a rotativa começava a trabalhar. Uma nova edição estava a caminho.
Começou como estagiário no Diário Popular, a 30 de Julho de 1968. Nesse dia inaugural, a primeira notícia que escreveu foi logo cortada pela Censura. Não seria a última. Passado um mês, ganhou o concurso de admissão e foi contratado. Na mesma altura sindicalizou-se. Trabalhou naquele jornal durante 20 anos, coordenando a secção Trabalho e, mais tarde, a da Cultura e Espectáculos. Aí teve a sua escola de jornalismo.
Foi depois para o Diário de Lisboa, no outro lado da Rua Luz Soriano, entre 1988 e 1990, onde foi chefe de redacção adjunto e coordenador da secção Cultura e Espectáculos. Quando este vespertino fechou (um dos maiores desgostos da sua vida), ingressou n’O Jornal, até 1992, e finalmente aqui no Jornal de Letras, onde foi editor até a doença o atingir e se reformar, no passado dia 10 de Outubro. «Os jornais são seres vivos e as Redacções são como famílias», dizia.
Repórter atirador especial
José Manuel Amaral Rodrigues da Silva nasceu no dia 1 de Outubro de 1939 – o ano do fim da Guerra Civil Espanhola, como sempre lembrava –, em Lisboa. Era a cidade que amava, a par de Paris. Conhecia-lhe as histórias, os cantos e recantos e muitos encantos, os nomes das ruas, os novos e os velhos, e dos bairros, os populares e os modernos, que explorava como um antropólogo urbano. Via nos transportes públicos, principalmente no metro das sete da manhã, uma tese de doutoramento em potência. Um documentário que nenhum realizador ousou fazer.
Cresceu na freguesia dos Anjos, para onde os seus pais, nascidos na província – a mãe, no concelho de Mangualde, o pai, em Oliveira do Hospital –, foram morar depois de se casarem. Fez a escola primária no Colégio Egas Moniz. Era conhecido por Bacigalupo, em homenagem ao guarda-redes do Torino, que morreu, juntamente com o resto da equipa italiana, num desastre de avião, quando andava na 4.ª classe. Seguiu-se o Liceu Camões, até completar o antigo 2.º ciclo.
Quando teve de escolher, seguiu o ramo Histórico-Filosóficas, o que o levou ao Liceu D. João de Castro e a uma das maiores influências da sua vida: o professor de Filosofia Augusto Abelaira. «A luz na idade das trevas», escreveu numa crónica publicada no JL após a morte do autor d’A Cidade das Flores. «As aulas eram de Filosofia e ele dava a matéria com exemplar rigor, mas o milagre era como, entre a Psicologia e a Lógica, a Teoria do Conhecimento e a Teodiceia, o Abelaira, em dois anos, conseguia falar de tudo o mais… e o tudo o mais é que era importante». Foi a descoberta da música, da poesia, da pintura, da literatura, do existencialismo, do realismo russo, das cidades de Itália. «O melhor professor que tive em toda a minha vida de estudante foi ele. Sobretudo porque, para além de tudo o resto, o que afinal me deu de maior foi ensinar-me a pensar e a pensar-me.»
O seu destino definiu-se nesses anos. Normalmente, os filhos da classe média, como era a sua – o pai trabalhava nas oficinas da Guarda Nacional Republicana, a mãe era doméstica –, seguiam um curso profissional. Mas os pais sempre apostaram na sua formação, ainda que o futuro não apresentasse garantias. O Zé Manel foi ultrapassando etapa a etapa, surpreendendo familiares e vizinhos. Ingressou na Faculdade de Letras (FL), para o curso de História, com a maioridade recém atingida. Foram anos intensos, feitos de tertúlias nos cafés, manifestações contra o regime, movimentos estudantis, muito cinema e alguns exames.
Participou activamente na crise académica de 1962, ao lado de José Medeiros Ferreira, Teresa Amado, Maria Benedita, Maria Antónia Fiadeiro, Ramos Lopes e Fernando Correia, todos do seu ano escolar. Fortaleceram as trincheiras alguns caloiros e outros estudantes, como Eduardo Prado Coelho, Maria Emília Brederode, Ana Maria Alves, Mário Sottomayor Cardia, Gastão Cruz, Fiama Hasse de Pais Brandão, Fernando J. B. Martinho, Vasco Pulido Valente ou Ruy Belo. No ano seguinte, era eleito vice-presidente da Comissão Pró-Associação de Estudantes da FL, presidida por Alberto Teixeira Ribeiro e, depois, por Teresa Amado.
Na verdade, o Zé Manel recusou ser presidente, atitude que o acompanhou ao longo de toda a vida. A liderança não o seduzia. Preferia os bastidores, e só aceitou chefiar uma secção, nos jornais por onde passou, por razões muito claras: «Porque sempre temi que um incompetente qualquer, quiçá arrogante (um defeito por norma atrai o outro) exercesse poder sobre mim. E, mais ainda do que sobre mim, sobre o que eu escrevia».
Esta recusa das altas patentes consolidou-se na tropa. Em Janeiro de 1964, iniciou o curso de Oficiais Milicianos, na Escola Prática de Infantaria, em Mafra (foi-lhe atribuída a especialidade de atirador, mesmo sendo míope…). A Guerra Colonial, ainda estar no início, era uma ameaça para qualquer jovem. A guia de marcha chegou a 21 de Maio de 1965: Moçambique, no navio Niassa. Ficou colocado na Companhia de Caçadores de Mocímboa da Praia, permanecendo no «mato», na frente de batalha, até Junho de 1966. Depois ficou um ano em Lourenço Marques, regressando a Lisboa, em 1967, já com a Ponte sobre o Tejo inaugurada, uma nova ligação para a Costa da Caparica, onde passou as férias na infância.
O que mais o impressionou em África foi a injustiça. Uma guerra sem sentido, por um ideal que não era o seu. Injustiça também no seio dos militares, na abissal diferença entre quem arrasta bandeiras num mapa, assim decidindo um ataque, e quem os sofre na pele e no terreno. «Tornei-me racista na guerra? Tornei, só que o meu ‘racismo’ não tem nada a ver com raças ou cores de pele, mas, isso sim, com o desprezo que passei a sentir por todos aqueles que são incapazes de fazer aquilo que ordenam que os outros façam, sobretudo quando isso implica risco», escreveu no seu livro de memórias. «Daí que hoje (de há muito), o jornalista que sou olhe de cima aquele que tem ideias e as não leva a prática, escrevendo. Daí que o jornalista que sou se considere, no fundo, cá bem no fundo, o alferes miliciano da infantaria do jornalismo, com a especialidade de repórter atirador especial.»
De volta à vida civil, gastou as suas últimas balas na docência. Foi professor de História no D. João de Castro. Uma experiência que acabou abruptamente. As suas liberdades pedagógicas – e opções políticas – não passaram desapercebidas à PIDE, que o proibiu de ensinar (Muito mais tarde, após o 25 de Abril, seria professor, mas de jornalismo, durante 12 anos, na Escola Secundária D. Pedro V). Chegava ao fim um ciclo da sua vida. Abria-se a porta dos jornais.
Sem arrependimentos
Se o jornalismo foi a sua casa, a Cultura foi o seu quarto. A sua grande paixão. Tudo convergia para aí. É verdade que se preocupava com a política – militou na UDP nas lutas contra o fascismo, embora tenha abandonado o partido depois do 25 de Abril, e teve uma participação activa no sindicato dos jornalistas. Por outro lado, olhava o mundo e Portugal pelo filtro da História. O século XIX, tema da sua tese de licenciatura, afigurava-se a sua bitola para analisar o presente.
Contudo, a sua vocação era a literatura, o cinema, a música e o teatro, desde os tempos dos cineclubes, dos livros emprestados entre amigos, das aulas do Secundário e da Faculdade. Tinha a casa – um autêntico museu, forrado de memórias e vivências – cheia de livros. Em lugar de destaque, junto à secretária, três obras: a Fotobiografia de Manoel de Oliveira, O Livro da Agustina e a edição comemorativa dos 25 anos da Cornucópia. E seria possível fazer um ciclo de cinema só a partir dos cartazes que tinha na parede. Era capaz de receber um livro de manhã e lê-lo de enfiada, ao correr das horas, independentemente do sítio em que se encontrasse. Eça, Camilo, Pessoa (antes do aparato dos estudos pessoanos e das descobertas da arca sem fundo, como brincava), Irene Lisboa, José Saramago, Herberto Helder, Lobo Antunes, em que viu, logo na obra de estreia, um grande escritor, pedindo-lhe a primeira entrevista, publicada em duas edições do Diário Popular; Sartre e Simone de Beauvoir, em particular a correspondência entre ambos, Marguerite Yourcenar, Tolstoi, de quem acabara de ler recentemente Guerra e Paz, pela quarta vez… Não esquecendo os policiais de Georges Simenon, Donna Leon, Henning Mankell e Aleksandra Marínina. A lista dos seus autores é infindável, e não tinha limitações. A curiosidade permanecia em aberto. Da História à Filosofia – foi o primeiro a chamar a atenção para o livro de José Gil, Portugal, Hoje, O Medo de Existir –, passando pela Sociologia, sobretudo os títulos de José Machado Pais, com quem partilhava o olhar sobre a sociedade contemporânea e as suas solidões.
Com o cinema tinha uma relação idiossincrática. Desde criança que se habituou a apontar todos os filmes que viu – quase cinco mil – na sua velha máquina de escrever, um hábito que nunca abandonou, nem quando recebeu um computador de presente. Houve uma altura, ainda no Diário Popular, em que os compromissos eram muitos durante a semana. Para remediar o problema, ao sábado entrava à tarde no Quarteto, o primeiro multiplex português, que tinha um pão-de-ló (do sr. Juvenal) que adorava. Só saía à noite, com material para as críticas semanais. Foi um defensor acérrimo do cinema de autor e do cinema português. E não admitia concessões.
Não ia ao cinema para se divertir, como muitas vezes escrevia nos seus textos. Ia para «divergir», para se confrontar com a linguagem do realizador, com a visão do outro, com uma cinematografia. Deixava contagiar pelos filmes, vivendo-os interiormente. Quando viu Salò ou os 120 Dias de Sodoma, de Pasolini, saiu do antigo cinema Condes, aos Restauradores, e começou a andar pela rua, tentando assimilar a obra. Só parou em Belém... Assim que acabou de assistir à primeira projecção de Francisca, para si a obra-prima absoluta de Manoel de Oliveira e do Cinema Português, comprou imediatamente o bilhete para a sessão da noite. Só nesse ano de 1981, viu-o seis vezes (14 no total). Era uma pessoa de impulsos. E de paixões.
A sua rede de afectos e amores era grande, e variada. Teve duas filhas, a Bárbara e a Francisca (devido ao filme de Manoel de Oliveira). Os seus amigos e familiares conheciam-no pelos seus telefonemas e postais. Ao pai, por exemplo, telefonava todos os dias. Uma chamada breve, para saber como estava o «Sr. Silva» e para dizer que ligava à noite. Outros telefonemas eram intermináveis conversas, que o Zé Manel gostava de prolongar, escondido atrás do computador, clandestinamente na redacção. Postais mandava-os de qualquer sítio, com qualquer feitio, em qualquer dia. Tornou-se a sua conta-corrente com os amigos, numa espécie de chat da internet ao ritmo dos tempos antigos.
Regia-se por hábitos que consolidou ao longo da vida. Cortava o cabelo duas vezes por ano, no mesmo barbeiro, ao Largo do Chiado. Religiosamente. Não precisava de marcação, nem de calendário para saber quando tinha de ir. «É quando o cabelo começa a bater nos ombros», explicava a brincar.
A sua doença chegou sem aviso. Não havia indícios, nem suspeitas. Apenas uma vida inteira a fumar. Houve épocas, como recordou entre sorrisos e olhares melancólicos já depois de ter deixado de fumar, em que era capaz de tomar banho sem apagar o cigarro. Um vício. Mas também uma companhia para a escrita. Soube que tinha um cancro pulmonar em Abril do ano passado. Revelou-o publicamente numa crónica, no JL n.º 981, de 7 de Maio. Escrevia então: «Até que um dia és tu que mingas, não apenas na coisa assim da alma, mas também no coiso já muito assado do corpo, que, com gozo e respectivo proveito, sempre deste ao manifesto. E és tu que mingas, porque há aquele nódulo que… Que a radiografia detectou, a TAC confirmou, a endoscopia revelou, a biopsia te coisou.» E acrescentava: «E tu sentes que o filho da puta do cancro te minga até a identidade. E que, por detrás do que passaste a ser, porque assim te passaram a chamar, ele te reduziu a um nódulo de ti mesmo. E só então – Sr. José, Sr. Silva – é que percebes que começaste a desnascer…»
Agarrou-se às esperanças que a Medicina lhe proporcionou, cumprindo as indicações dos médicos, sempre no Hospital de Santa Maria, onde veio a falecer, na madrugada de sábado, dia 10. Aguentou as filas, as limitações das camas, os incómodos das urgências, mas também se espantou com o profissionalismo dos enfermeiros e dos especialistas do serviço público.
Acima de tudo, não lamentou nada. Não se queixou da vida que teve, nem das imprudências que poderá ter cometido. No seu epitáfio bem podiam constar as palavras que enviou à redacção do JL, a anunciar a triste notícia da sua doença. «Não sou um arrependido, um convertido, ou um cristão-novo. Sou um cristão-velho, um escriba velho, um marxista velho e faço parte da esquerda velha. Por isso, sou pela missa em latim, rejeito o novo Acordo Ortográfico, creio na luta de classes e no punho erguido, estremeço quando vejo uma bandeira vermelha com a foice e o martelo, e hei-de ir para a cova com a cagança de jamais ter votado PS (não se esqueçam deste último pormenor, daqui a uns tempos, no meu elogio fúnebre).» Nós não o esquecemos. Nós nunca te esqueceremos.
Publicada por Luís Ricardo Duarte em 17:03 4 comentários
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O "meu" jornalista
Para o José M. Rodrigues da Silva!
Foste hoje a enterrar e eu não pude acompanhar-te mas quero deixar aqui, preto no branco, que foste o "meu" jornalista. Há muitos e bons jornalistas mas tu foste para mim o melhor, porque sempre te li com prazer e porque estavas por trás do "meu" jornal: O JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias, que são os temas que mais me fascinam.Espero que o teu profissionalismo seja exemplo para outros e que, lá onde estiveres, estejas como queres.
12 de Janeiro de 2009
Irene Gonçalves
Publicada por Manuel Halpern em 13:50 0 comentários
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He's one of us
Boa noite,
Sou o cineasta Bruno de Almeida.
Queria deixar aqui as minhas condolências pelo falecimento do jornalista José Rodrigues da Silva pelo qual fui entrevistado para o vosso jornal e com o qual ao longo dos anos partilhei belas conversas sobre o cinema e sobre a vida. O Rodrigues da Silva era um original, um jornalista
apaixonado, um pensador independente e um "verdadeiro".
Vi-o pela última vez no Chiado, em Março de 2008, na altura do lançamento do meu filme "The Lovebirds", e a memória que tenho é do actor americano John Ventimiglia, que também estava na entrevista, se virar para mim e dizer "this guys is the reporter? He's one of us. He should be in our movies!" E é assim que me lembro dele: "he's one of us". Sentiremos a sua falta.
Deixo aqui os meus sinceros pesamos.
Melhores cumprimentos,
Bruno de Almeida
Publicada por Manuel Halpern em 03:13 1 comentários
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Para o Rodrigues da Silva com lágrimas do...
Melhor professor que tive na memoria, RODRIGUES DA SILVA, grande carácter. Foi na escola D. Pedro V em 97 e 98, adorava a sua atitude e ele era adepto da liberdade, tinha grande carinho por ele, ele tinha a sua vida, não via televisão, gostava fumar do belo cachimbo e a sua maneira de vestir já dava nas vistas. Era um professor que deixava-nos copiar, ele abandonava a sala quando fazíamos testes, deixava-nos tirar todos os apontamentos sem a presença dele. Era uma pessoa que gostava de viver e sentir prazer, era uma pessoa destinta das outras, uma pessoa muito à frente. Com imensa pena minha, como é óbvio.Não vai ser possivel estar no funeral, mas aqui vão todas as minhas condulências para voces e para a familia do grande mestre de viver. Com lagrimas do (ele destestava isso, mas eu não aguento),
Rui Carvalho
Publicada por Manuel Halpern em 00:44 0 comentários
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Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2009
«Foi optíssimo. Gostei enorme»
«Trata-me por tu, pá» atirou-me à primeira, no dia em que cheguei para estagiar no JL. Foi logo ali, quando lhe disse que me chamava Francisca (como a sua filha mais nova, como o filme do Oliveira,) que senti que tinha ganho um amigo. E foi exactamente isso que ele foi. Um amigo querido, companheiro e camarada – mesmo quando se baldava com um «até amanhã», dito muito baixinho, para que ninguém notasse a sua saída da redacção – um cúmplice de muitas paredes, de desenhos e de palavras. De correcções de textos, feitas noutra sala, discretamente, para que ninguém soubesse que me tinha encontrado falhas. O Zé Manel era assim, cuidadoso.
Lembro a letra deitada com que nos via os textos, quase sempre, a vermelho. E a forma estática com que ficava ao nosso lado, quando nos pedia para lermos os dele. Minucioso à vírgula, revisor até à quinta casa.
O cachimbo era uma imagem de marca, como as t-shirts do Miró, mais as do Festival Sete Sóis e ainda a do Oliveira, os sapatos enormes – «Sempre tive os pés grandes» –, as mãos compridas e o anel prateado no dedo mindinho.
Zé Manel, companheiro de tantos filmes, sempre vistos da primeira fila da sala de cinema, mesmo que ao visionamento só tivessem ido três jornalistas… Zé Manel, da casa em Campo de Ourique, cheia de memórias espalhadas pelas paredes, pelas ombreiras das portas, casa rodeada de livros por todos os lados e nenhuma televisão. O banco de jardim como sofá, onde me deu o presente de casamento mais surpreendente, as fotografias, os jornais, os postais.
Tantas objectos, tantas frases, tantas histórias e recordações que não cabem num só texto, para o tanto de Zé Manel que permanece. «Foi optíssimo. Gostei enorme».
Publicada por Francisca Cunha Rêgo em 23:14 1 comentários
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Ainda deste lado
Do lado de fora do edifício do hospital imagino aí estás tu, preso a uma cama, a morrer depressa. Tu que passas a vida em cafés, a escrever a tinta roxa e a fumar cachimbo sem parar - o cachimbo que tanto te inspirou e agora ajudou a matar-te. De fora da casa hospitalar que tantos sustos me tem dado espero uma amiga para irmos juntas até ao teu quarto. A enorme diferença entre nós neste momento, é que posso fazer-te uma visita e, passado umas horas, sair para o frio da rua, com a liberdade nas pernas, a vida no coração e a minha morte adiada, por umas décadas talvez, apesar da dor de ver morrer e perder os outros. É a diferença entre a minha liberdade e a tua prisão: a de ficares deitado de costas para a janela, respirar a custo, sentir o Inverno deste início do ano ser o último Inverno da tua vida, e senti-lo num edifício cinzento cheio de gente a lutar com a morte e uns poucos a vencê-la, com a ajuda dos profissionais de serviço. E, nessa condição estupidamente humana da tua mortalidade, agarras-te às memórias que já escreveste mas há outras que na altura não te tinhas lembrado e agora vêm surgindo. Um pormenor aqui, outro ali, sem a lógica sequencial que te permitiu escrever três volumes de uma Prova de Vida, com aquela escrita lúcida e visual (é que vê-se mesmo tudo!), a distância possível e a ternura também, de uma narração que fez justiça às personagens da tua vida. Testemunho subjectivo, que se implica nas coisas, no tempo histórico que atravessas, com todas as combinações dos amores e passos que o acaso te fez dar. Há qualquer coisa de extrema honestidade que desarma pela excepção, por conseguirmos seguir o mapa vivencial e afectivo que te situa num centro e numa disponibilidade para a vida.
Agora que te despedes desta vida disponível a maneira de recordar há-de ser diferente. Surgem revisitações no escuro do quarto da secção de internamento de doenças pulmonares. Abeiram-se amigos e amantes junto à tua cama de doente durante a noite para te sussurrarem coisas belas e tu a eles, a nós todos que nos cruzámos algures contigo. Para não nos esquecermos das coisas importantes. E uma delas é que não querias perder tempo a escrever e a pensar sobre aquilo que não gostavas, com tanta coisa que valia a pena divulgar. Era a mesma generosidade de quem no liceu davas 20 a qualquer aluno a quem reconhecesses um despontar do pensar e criar, uma vontade que se transformasse em paixão pela cultura. A tantos ajudaste em auto-estima. Lembro-me de uma aluna que desatou a chorar com a tua nota avantajada porque nunca lhe tinham dito que era inteligente. Disseste a uns que tinham jeito para teatro, e eles foram aprender teatro e são hoje actores; outros para estudarem filosofia e eles fizeram disso uma ética de vida. A mim e a outras amigas para escrevermos, escrevermos, escrevermos muito, ainda estávamos na fase da escrita do eu, e um dia podíamos ser escritoras. Escritora, essa palavra ficou assim a crescer dentro de mim estes anos todos com muita vontade de o ser, mas muita timidez também pois era para pessoas como tu, leitores exigentes, que me apetecia escrever. Leitor e crítico que um dia me deste uma resposta zangada a uma pergunta imbecil sobre poderes literários para um artigo, mas depois arrependeste-te do teu próprio tom. “E quando me irrito, quando tenho que fazer uma coisa que não me apetece de todo, transformo-me num pequeno animal. Sabes, sou Gato (símbolo chinês). Se ninguém me chateia, não chateio ninguém. Caso contrário, arranho.”
Da última vez que te vi, no cruzamento da linha azul com a amarela, eras um recém-doente. Acabavas de saber a tua condenação e, assustado mas sem perder a ironia, disseste que andavas há 50 anos numa dança com a morte e que um dia tinhas de “ir para a cama com a gaja”. Hoje também troquei da azul para a amarela para te vir visitar e a morte já está a insinuar-se na tua cama. Mas na altura desse diagnóstico, quando o médico deu a notícia com um ar pouco animador, no fundo de ti havia aquela esperança, semelhante à que tinhas quando dançavas com a morte e pensavas: “a mim a gaja não me apanha”. Não antes de fazer as coisas que encheram a tua vida e a de tanta gente, além dessa militância num tipo de jornalismo personalizado e literário que já poucos assinam. Quando a evidência da morte é total, os milagres são os de deixar um sopro de vida.
Subimos, a minha amiga e eu, o elevador até a secção de doenças pulmonares. Estás magro, pá!
Marta Lança, 7/1/09
Publicada por Manuel Halpern em 22:00 2 comentários
Etiquetas: Rodrigues da Silva
No princícipo eras as palavras
Para o Zé Manel Rodrigues da Silva, grande amigo e inspirador
I
No princícipo eras as palavras
Milhões delas
Daquelas que saem pelos cotovelos
E continuam pelo corpo fora
Eras o coração também
O coração batendo palavras
Feliz com aquele brilho
De quem ensina a alguém
No princícipo sempre foste algo muito precioso
Um pedaço de terra onde nasce a variedade dos frutos
Uma ave rara que se mistura
Com o resto do mundo porque ele está cheio de diversidade
Uma pessoa generosa que se empenha
A lutar pelos mais indefesos
Queria dizer-te que sempre foste demasiado grandioso
Estás acima de muitos
Pertences àqueles que não se curvam:
São os mergulhares do mundo
Dizes as formas das cousas ousadas
Abrindo as janelas dos saberes
A qualquer gente
A tua compaixão e crença
No ser humano são as tuas maiores virtudes
És um homem que dá rumo
À vida de outros com a tua luz
No princícipo eras a palavra e sempre serás
II
Seguro uma vela
A uma grande profundidade do céu
Segura-a para ti
Iluminando um caminho que não conheço
Seguro-a e tu virás atrás de mim
Rir-nos-emos de todos os momentos coloridos
Que somos nós dois
Que és com os outros
De repente muitas velas acendem-se para ti
E tu saberás que eu não te largarei a mão
III
Dás-me a mão da palavra?
Porque penso que me perdi no caminho
Dirias: claro
Porque é isso que tu és
Um humanista
Dás, dás e pensas em formas de dar
Algures no teu caminho
Incomparável e imensurável
Adjectivos nada exagerados
As pessoas simples, às vezes, são mesmo essas
Não foi também o que nos ensinaste?
IV
As noites serenas que passas
Escutando os grilos da cidade
À volta dos teus livros
Abandonado a um corpo meio sonolento
Mas ainda meio agitado
Um rio que não pára
Pois as suas correntes são energéticas
E misturam-se pelo outro adentro
O amor é um mistério dizes
Deambulamos em areias movediças
Mas é uma oferenda, dizes
Dizes muitas coisas,
Sou, às vezes, incapaz
De as ouvir de todas
Mas é assim que a sabedoria avança
A tua fertilidade inspira e fecunda
Rebentando a seiva límpida
Dos pomares em época de colheita
Dizes sempre que se deve crer no melhor
Pois se de esperanças somos desprovidos
As brasas da vida
Acabarão por desvanecer
Os frutos já maduros
Aguardam a tua mão como sempre
Sofia Fontes Leal, 10/01/2009
Publicada por Manuel Halpern em 21:27 1 comentários
Etiquetas: Rodrigues da Silva
Afinfa-lhes, Zé, e não os deixes estrebuchar
Sim, o Zé é o nosso Zé Manel, o que acreditava que não há maus assuntos, apenas maus jornalistas; o que me ensinou a odiar narizes de cera mascarados de má poesia; o que amava a reportagem acima de todos os géneros e abominava que o sentassem a uma secretária; o que preferia de longe as lições informais às regras do desk; o que me ensinou quase tudo sobre a profissão com infinita paciência e uma esperança a que se calhar nunca correspondi; o que detestava ser desiludido mesmo que fingisse nunca estar iludido; o amigo a que me amparei quando fecharam o caixão de minha mãe, o que me faz uma extrema falta.
Publicada por Maria Joao Martins em 18:41 1 comentários
Etiquetas: Rodrigues da Silva
Um chá nas nuvens
Acho que não é vulgar uma colega publicitária meter a colherada no editorial. mesmo assim esta colega tem o privilégio de participar em cada número do JL, há mais de 15 anos. por isso e porque hoje tem algo a dizer, sente-se no direito de ter umas palavras escritas, em pé de igualdade com os seus colegas jornalistas.
aqui entre nós Zé Manel, tinhas dificuldade em abdicar do teu espaço nas páginas do jornal. os anúncios exigem colocações estratégicas, às vezes de última hora e os textos têm muitas vezes de ser alterados. acho que tu sentias que os números estavam a sobrepor-se às letras, às palavras, aos pensamentos, à estética...
(mal sabes tu que eu sou das letras e os números são para mim um mal necessário)
foram estas questões que originaram alguns desentendimentos entre nós, editor Rodigues da Silva. felizmente sem consequências, porque o bom senso e o bom gosto acabavam por tudo apaziguar.
fico com esta lembrança de em tempos darmos os parabéns um ao outro nos dias 1: tu de outubro e eu de setembro! e de trocarmos latinhas de chá e comentários cúmplices.
quem sabe um dia, em outro tempo, não seremos protagonistas de uma curta metragem, tomando um chá.. nas nuvens!
Conceição Carvalho (publicitária do JL)
Publicada por Manuel Halpern em 18:16 0 comentários
Etiquetas: Rodrigues da Silva
Domingo, 11 de Janeiro de 2009
Funeral de Rodrigues da Silva no Alto de São João
O funeral de José Manuel Rodrigues da Silva será amanhã, dia 12, às 15 e 30, no Cemitério do Alto de São João, em Lisboa. Às 15 horas decorrerá uma cerimónia na Igreja de São João de Deus.
Publicada por Manuel Halpern em 17:56 0 comentários
Velório em São João de Deus
O corpo de José Manuel Rodrigues da Silva vai estar na Igreja de São João de Deus (Praça de Londres, Lisboa), hoje, dia 11, a partir das 18 e 30.
Publicada por Manuel Halpern em 17:13 0 comentários
Estamos tristes, morreu o Rodrigues da Silva...

Nós não nos esquecemos.
O Zé Manel morreu na madrugada de dia 10. Brevemente daremos a informação do velório e funeral.
Crónicas do Rodrigues da Silva:
Publicada por Manuel Halpern em 15:01 1 comentários
Etiquetas: Rodrigues da Silva
Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009
Doppio Ensemble
Ana Queirós, ao piano, e Evandra Gonçalves, no violino, compõe o duo Doppio Ensemble que se apresenta em concerto, no próximo dia 11, pelas 18 horas, no Café do Teatro, em Viana do Castelo. (Re)descobrir novas sonoridades e valorizar o património musical português são alguns dos objectivos do duo que irá interpretar peças de Olivier Messiaen, Pedro Faria Gomes, Jean-François Lézé, Hector Vill-Lobos e Maurice Ravel.
Publicada por Francisca Cunha Rêgo em 17:30 0 comentários
Segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009
Os melhores filmes de 2008
Os melhores filmes estreados em Portugal em 2008, segundo os 'dados' do Blogue do JL
4 meses, 3 semanas e 2 dias, de Cristian Mungiu- Walle.E, de Andrew Stanton
- Este Pais não é para Velhos, Joel e Ethan Coen
- No Vale de Elah, de Paul Haggis
- Destruir depois de ler, de Joel e Ethan Coen
- O Lado Selvagem, de Sean Penn
- O meu Irmão é filho único, de Daniele Luchetti
- Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes
- O Segredo de um Cuscuz, de Abdellatif Kechiche
- Quatro Noites com Anna, de Jerzy Skolimowski
Publicada por Manuel Halpern em 12:58 0 comentários





