Terça-feira, 12 de Janeiro de 2010

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Terça-feira, 15 de Dezembro de 2009

Amanhã nas bancas!


JL 1023


De 16 a 29 de Dezembro



A 'biografia' do Pai Natal

Textos de Alice Vieira, Carlos Ademar, Isabel d’Ávila Winter, João Tordo, Lídia Jorge, Miguel Castro Caldas, Paulo Castilho, Ricardo Adolfo, Rui Vieira e valter hugo mãe • A crónica de Helder Macedo

João Abel Manta
Pintura, pintura, pintura

D. Manuel Clemente, Prémio Pessoa
Entrevista: David Trueba, cineasta escritor

Sugestões de (novos) livros, discos e DVD para presentes

A autobiografia do astrónomo Nuno Santos

JL/Educação: Literacia em Portugal: um problema urgente

Arquitectura escolar: entrevista a Manuel Graça Dias e inquérito a cinco arquitectos

Propostas para as férias de Natal

Camões

Agenda Cultural

Lançamento Antologia da Poesia Portuguesa


Poemas Portugueses – Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI (ed. Porto Editora) é lançado hoje, terça-feira, 15, pelas 19, na Fundação Medeiros e Almeida, em Lisboa. Vasco Graça Moura irá apresentar a obra, que reúne oitocentos anos de poesia, 267 autores e mais de dois mil textos. Estarão presentes os seus coordenadores, Jorge Reis-Sá e Rui Lage e, no final da sessão, os actores Luís Lucas, Pedro Lamares e Carmen Dolores declamarão alguns dos poemas da antologia.

Sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009

ÚLTIMOS DIAS - A Bicicleta de Faulkner, n' A Barraca

É só até ao próximo Domingo, dia 13, que se pode ver A Bicicleta de Faulkner, de Heather McDonald, n'A Barraca, em Lisboa. Duas irmãs a braços com a doença da mãe. Claire escolhe ficar, ajudar, no Mississpi natal; Jett parte para Nova Iorque. É escritora. Mas atormentada pela 'página em branco' regressa a casa e o conflito instala-se. «O conflito entre as duas irmãs nasce da diferença de formas de lidar com o mal de Alzheimer: Jett não desiste de tentar chamar a mãe à realidade enquanto Claire, leitora voraz de O Som e a Fúria - uma rapariga desengonçada que corre até ao lago de cada vez que ouve a bicicleta de Faulkner dirigir-se para lá na esperança de poder falar com o escritor que alimenta o seu imaginário - desenvolveu a capacidade de acreditar que a realidade se pode apresentar sob vários planos e permite e embarca nos delírios da mãe na esperança de que o sítio onde ela está seja melhor do que aqui». Palavras da encenadora, Rita Lello. Com Maria do Céu Guerra, Rita Fernandes, Sérgio Moura Afonso e Susana Costa. Para ver hoje e amanhã, às 22. Domingo, às 17 horas.



Foto de Luís Rocha

Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009

Jello Biafra em Portugal

O lendário vocalista dos Dead Kennedys vem a Portugal, pela primeira vez, apresentar o seu novo projecto Jello Biafra and The Guantanamo School of Medicine. Sem deixar de lado as guitarras punk, os temas reflectem o seu ponto de vista político sobre a questão bélica EUA – Iraque. Acompanhado em palco por Andrew Weiss (Rollins Band, Ween, Butthole Surfers), Kimo Ball (Freak Accident), Ralph Spight (Victims Family), e Jon Weiss. Cine-Teatro Ginásio Clube, em Corroios, a 11, às 21 e 30

Segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009

Vulcão

VULCÃO. Valdete vive presa a Samuel. Mulher submissa que antes de casar sonhou um amor feliz, depois de ter um filho cego, revelou-se a verdadeira natureza do seu marido. Samuel vive obcecado com a ideia do extermínio dos ‘mais fracos’. Prisioneira na sua própria casa, algemada, resiste ao martírio na esperança de descobrir o paradeiro do seu filho. Peça de Abel Neves ligada ao Dia Internacional para a Eliminação de Todas as Formas de Violência contra as Mulheres, com encenação de João Grosso e interpretação de Custódia Gallego. Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II, até 20 de Dezembro; de quarta a sábado, às 21 e 45; domingos, às 16 e 15

Sábado, 5 de Dezembro de 2009

O quê?!

TEATRO DA TRINDADE. O quê?!, uma viagem pelo século XX às costas de Samuel Beckett é a proposta do encenador e actor João Lagarto, que com um grupo de jovens estudantes finalistas do Conservatório – Afonso Lagarto, Rita Brito e Tiago Nogueira – constrói um espectáculo a partir do universo de Beckett (Na Sala Estúdio até 6 de Dezembro; terça a sábado, às 21 e 45; domingos, às 17 e 30); De Fernando Pessoa e Alessandro Hellmann, em cena na Sala Principal, O Banqueiro Anarquista Esterco do Demónio, com encenação de Annalisa Bianchi e Virgínio Liberti (de 10 a 13 de Dezembro; terça a sábado, às 21 e 30; domingo, às 16). Teatro da Trindade, Lisboa

Sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009

As luzes de Natal

TRUPILARIANTE. As Luzes de Natal, um espectáculo de teatro e fantoches destinado aos mais novos, envolto num mistério principal: quem roubou a música natalícia? O público é convidado a ajudar o Duende Pompom nesta aventura. A produção está a cargo da Trupilariante Companhia de Teatro-Circo. Auditório do Espaço Monsanto, Lisboa. Amanhã, sábado, dia 5, e também dia 6, às 15 horas.

Quinta-feira, 3 de Dezembro de 2009

O falso Sócrates

Antes que me ponham um processo, o que não costuma acontecer a jornalistas culturais, deixem-me esclarecer o título. Longe de mim afirmar aqui que sua excelência, o primeiro-ministro de Portugal, é uma pessoa falsa. Nem quero dizer que este Sócrates que nos governa é relativamente falso comparando com o original grego. Quero apenas chamar a atenção para o facto de que existe um falso Sócrates no Facebook.

Este Sócrates postiço, chamemos-lhe antes assim para evitar a ambiguidade da palavra falso, farta-se de jogar ao Farmville e é amigo do Alberto João Jardim (não sei se do falso se do verdadeiro). À parte disso, até à data, ainda não proferiu quaisquer declarações que o prejudiquem. Pelo contrário, mostra-se dialogante com os regimes mais improváveis, lúdico e preocupado com questões agrícolas.

No mural uma mensagem moral: «Caros Portugueses, Deixem por aqui as vossas ideias para o país. Certificar-me-ei que todas as mensagens serão lidas em tempo útil por um membro do estado. Com os melhores cumprimentos, José Sócrates». Uma ideia inócua e oportuna. Aliás, a Câmara de Lisboa. Liderada pelo (seu) amigo António Costa, lançara já um Orçamento Participativo, tendo em vista uma comunicação mais próxima com as pessoas.

O Facebook do falso Sócrates encheu-se de mensagens verdadeiras, de verdadeiros amigos do primeiro-ministro ou eleitores socialmente atentos, empenhados em construir um Portugal melhor. Ana Barbosa revela-se disponível e alertada: «Primeiro-ministro de Portugal: tenho a honra em tê-lo como amigo!... Sempre que possível, vou dando-lhe umas dicas para o país... até naquilo que concordo ou não...». A Iolanda mais intimista: «Sr. Primeiro-ministro! Convido-o a visitar o meu álbum do Quénia! Estive lá no mesmo ano 2005!» O Cunha Manuel mais céptico: «Este país, assemelha-se muito ao Vaticano que apesar de perder fiéis todos os dias, não muda a sua forma rígida de proceder e pensar’.»

Quanto a mim, fui honrado com um convite de José Sócrates para aderir à página de fãs do Farmville. Achei-me por isso no direito de meter conversa com o dito. Só que sempre que eu o cumprimentava no chat, ele saía do Facebook. Imagine-se, um primeiro-ministro com medo de mim. Até que uma fonte próxima de Sócrates me garantiu que aquele Sócrates não é o Sócrates, nem o actual nem o antigo. O que me levou à questão socrática ou pós-socrática: até que ponto é que o Sócrates é o Sócrates? O que é ser Sócrates?

Quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

Nas bancas!

Cimeira de Copenhaga
Salvar a Terra
Entrevista com Filipe Duarte Santos e Viriato Soromenho Marques sobre Ambiente e alterações climáticas *As preocupações ecológicas na arte e na literatura
Rui Ramos
Uma nova 'síntese' da História de Portugal

Especial: O mito dos vampiros no cinema e na literatura

Entrevista: Alexandre Desplat, o cinema que se ouve
Artes: A pintura de Isabel Sabino e Uma Aventura no cinema
Letras: Um livro sobre António Sérgio, lido por Eugénio Lisboa
Crónicas: José Luís Peixoto, o regresso de 'Verdades quase Verdadeiras', e João Medina escreve sobre George Steiner

A autobiografia de Jorge Costa Pinto
Agenda Cultural

Quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

Kurt Vile e B Fachada no Frágil

Em noite de concerto duplo, Kurt Vile, músico indie/folk norte-americano, interpreta temas do seu primeiro disco a solo Childish Prodigy e, em jeito de pré apresentação do vindouro segundo disco, B Fachada apresenta algumas das novas canções em concerto. Frágil, em Lisboa, a 9, às 23

Sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

Animações de bolso

No cinema, o movimento é uma ilusão de óptica criada pela maquinaria. Na verdade, o que existe é uma sequência de fotografias, de imagens estáticas. A sua rápida sucessão cria essa ideia de realidade. O processo é de tal forma mecanizado que, muitas vezes, nem os realizadores se apercebem da sua complexidade. Nem têm que se preocupar com isso. Apesar do o cinema, mais do que outras, ser uma arte fortemente tecnológica, ao contrário do que acontecia no tempo dos Irmãos Lumiére, os realizadores já não são engenheiros.

Na animação esta ideia de frames, de imagens estáticas, de ilusão de óptica é mais explícita. Porque é sabido que aquelas imagens não têm uma existência real, só existem no ecrã porque alguém as desenhou. E é fácil exemplificar a ilusão de movimentos mesmo a uma criança. Através de um flipbook, livrinho que, passando rapidamente as páginas, nos dá a ideia de acção. Ou num flipbook de trazer por casa, que qualquer um pode fazer, por exemplo, nos cantos das folhas de um caderno. O processo é tão simples quanto isto. Num canto desenha-se um rapaz, uma bola e um cesto. Na folha seguinte, a bola sai-lhe das mãos, e, página por página, vai avançando até entrar no cesto. Uau! Para uma criança, é como entregar a fórmula da poção mágica do Astérix. Não se perde a magia, apenas se aprende a cozinhá-la.

A Nintendo desenvolveu na sua consola, a DSI, um programa que alimenta electronicamente este jogo óptico. Através de uma pentouch vão-se desenhando os frames, um por um. Mais tarde pode acrescentar-se o som e alguns efeitos. E o filme está feito. O software é simples, básico, e aproxima-nos de um conceito artesanal. Algumas obras assim feitas participam num concurso que decorre na Videoteca, no dia 2 de Dezembro. Será entusiasmante perceber o que pode ser feito com tão pouco. Eu próprio já me deixei deslumbrar com o software (de download gratuito). Mas quanto a mim, fica por resolver um problema básico: há que saber desenhar.

Terça-feira, 17 de Novembro de 2009

Amanhã nas bancas!


JL 1021

de 18 de Novembro a 1 de Dezembro


Luísa Costa Gomes: As Ilusões do Real
A escritora fala do seu novo romance, do 'espírito do tempo',
das linguagens contemporâneas e das relações com a Cultura

Isabel Alçada: A ministra que veio dos livros
Que desafios imediatos?
Textos de Roberto Carneiro, Júlio Pedrosa, G. d'Oliveira Martins e José M. Canavarro

Entrevista com Peter Handke e balanço do Estoril Film Festival

António Olaio, um artista no universo pop

Cristina Robalo Cordeiro, o último Lobo Antunes

Eunice Muñoz, a magia da grande actriz

Claude Lévi-Strauss, a paixão do outro

Helder Macedo, retrato do artista como cão

Ricardo Adolfo, Perdido na Tradução

Autobiografia de Nuno Crato

Quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Bungee Jumping social

Agora viver debaixo da ponte está ao alcance de todos. Há uma empresa sedeada na Holanda que propicia umas férias muito especiais. Por um preço nada simbólico, é oferecida a sensação de ser um sem-abrigo, nas ruas de Paris ou Londres. A organização distribui um cartão e assegura a segurança aos seus clientes. Como se não ter casa fosse divertido, e se colocasse a dúvida: vou para as Seicheles ou para debaixo de uma das pontes do Sena? Da mesma forma, no Brasil, fazem-se visitas guiadas às favelas. É a pornografia da pobreza, que, por algum motivo, seduz aqueles que não são pobres. Não para deixarem tudo e tornarem-se um deles, à imagem de um santo ou coisa assim, mas para ter uma experiência radical, como quem faz bungee jumping.

Um salto para o abismo, com a segurança do elástico que nos prende e nos puxa novamente para cima. Mas as sociedades são suficientemente acidentadas para podermos cair num precipício sem rede, nem corda, nem tempo para nos agarramos às paredes. O desemprego está a crescer, mais vale não brincar aos pobres. E nos Estados Unidos, terra de oportunidades onde se ‘cai na rua’ com uma facilidade incrível, vários blogues mostram que qualquer um pode ser um sem-abrigo.

O bungee jumping social tem como factor positivo, pelo menos, o interesse pelo Outro. Mesmo que seja uma curiosidade mórbida, para os dias que correm, não está mal. Há quem resolva o seu mal-estar com esse mundo de forma menos obscena. No documentário de Rui Simões, Ruas da Amargura, que agora se estreia em sala, encontramos algumas dessas personagens que habitam o submundo de Lisboa. E, lado a lado, uma série de voluntários que dedicam o seu tempo a ajudá-las. Sem fazer turismo.

Se a ideia é apenas conhecer melhor os jardins da cidade, mais vale fazê-lo de forma abrigada, como o eco-resort alternativo, de um só quarto, montado no Jardim da Estrela (ver www.dass.pt). Quanto ao resto, já se sabe: a rua não é sítio onde se more e é uma vergonha social não conseguirmos dar a volta a isso.

Terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Amanhã nas bancas!

JL 1020

de 4 a 17 de Novembro



A BÍBLIA
As respostas de A. M. Pires Cabral, Alice Vieira, Gastão Cruz, José Agostinho Baptista, José Augusto Mourão, José Mattoso, Teresa Toldy e Vasco Graça Moura. Inquérito a propósito de Caim, de José Saramago.

A literatura como heterodoxia, por Carlos Reis


LUÍS SEPÚLVEDA
Sem sombra de esquecimento. Entrevista sobre o novo romance e sobre o Chile de Allende e Pinochet


Gabriela Canavilhas: quem é a ministra da Cultura


João Aguardela, tradição e vanguarda


Albatroz Azul, de João Ubaldo Ribeiro: texto de Juva Batella e entrevista


Francisco José Viegas lido por Miguel Real


Os novos filmes de Fernando Lopes e Pedro Costa


A autobiografia de João Paulo Borges Coelho

Segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Jorge Pelicano: Fora da linha


Com Pare, Escute, Olhe, Jorge Pelicano foi um dos grandes vencedores da 7.ª edição do DocLisboa, ao receber três prémios na competição nacional: melhor longa-metragem, melhor montagem e melhor filme para o júri IPJ Escolas. É o culminar de uma intensa semana para o realizador de Ainda há Pastores?, já que o seu novo documentário foi ainda distinguido na XV edição do Festival Internacional de Cinema Ambiente de Seia, também em três categorias: Ambiente, Lusofonia e Juventude. O JL falou com Jorge Pelicano na sua última edição, num breve encontro que aqui republicamos.

Depois do sucesso de Ainda há Pastores?, Jorge Pelicano regressa ao documentário com novo retrato do Portugal profundo. Em Pare, Escute, Olhe, o realizador viaja até Trás-os-Montes para descobrir uma região abandonada pelo poder central, em que o despovoamento é quem mais ordena. Aí encontrou uma população resignada, sobretudo com a notícia do fecho da linha ferroviária do Tua e a decisão política de se construir uma barragem. Neste cenário, Jorge Pelicano, 32 anos, jornalista da SIC, não hesitou: assumiu como sua a causa da salvaguarda da identidade da região. O documentário, que passa amanhã, quinta-feira, 22, às 22 horas, no Festival Cine Eco, de Seia, depois de ter estado na competição nacional do DocLisboa, é uma arma ao serviço dessa luta. Que terá desenvolvimentos em exposições fotográficas, concertos com a banda sonora original ou em outras intervenções públicas, numa cidadania que se faz de câmara de filmar na mão. É que a indiferença não faz parte do guião de Jorge Pelicano.

Jornal de Letras: Este documentário surge na sequência dos acidentes ferroviários que têm vindo a ser noticiados, ou havia um interesse anterior?

Jorge Pelicano: Quando comecei o projecto ainda não havia notícias dos acidentes (quatro, nos últimos dois anos), nem da barragem. Eu queria tratar o tema do despovoamento e a melhor forma de o fazer era falar das linhas ferroviárias encerradas, nomeadamente em Trás-os-Montes. Essa é a razão principal porque decidi trabalhar na linha do Tua.

O despovoamento e um certo Portugal que está a desaparecer estão sempre presentes nos seus documentários. O que lhe interessa nesses temas?
A perda de identidade. O objectivo deste filme é levar as pessoas a reflectir sobre o que é realmente importante para o nosso país. Se o progresso, se a possibilidade de termos regiões com a sua própria identidade, com transmontanos, alentejanos, ribatejanos. Porque nem tudo tem de ser igual. É por isso que o filme se chama Pare, Escute, Olhe. Numa sociedade em constante mutação como a nossa, é importante de vez em quando pararmos, escutarmos as pessoas e olharmos para o que temos. E, a partir daí, estabelecer prioridades.

Nesse sentido, é uma reflexão sobre os últimos 35 anos de Democracia a partir deste caso concreto?
Sim. E por isso um filme mais político. Porque devíamos mesmo estabelecer essas prioridades e pensar para onde vamos, para onde queremos ir. Um exemplo: daqui a 20 ou 30 anos, as aldeias de Trás-os-Montes vão estar completamente despovoadas. O que ainda vamos a tempo de evitar. Mas os políticos, que estão sempre a falar em desertificação, contribuem para que isso aconteça, como se mostra no filme. Mais uma vez, a barragem do rio Tua vai trazer electricidade para o litoral à custa do interior.

Este é um documentário que não receia tomar partido?
Exactamente, isso é muito claro. Para mim, o documentário deve ser uma arma. Chamar à atenção e pôr o espectador a pensar. Pare, Escute, Olhe é totalmente parcial. É uma defesa da região de Trás-os-Montes.

Na rodagem, o que mais o surpreendeu?
Não haver luta. No início, estava à espera de encontrar pessoas revoltadas. Muitas sentem falta do comboio, mas estão resignadas. Com tantos anos de esquecimento, dizem que já não vale a pena lutar. Isso só acontece porque os responsáveis políticos não vão ao terreno. Este filme também tem como objectivo levar ao centralismo de Lisboa a grandeza daquele património.

A nível cinematográfico, ensaiou novas opções estéticas?
A grande novidade é o facto de ter uma banda sonora original, de Manuel Faria, Frankie Chavez e Francisco Faria. De resto, é a mesma óptica de Ainda há pastores?: um documentário muito cinematográfico, embora aqui a câmara passe mais despercebida. Não tem voz off, nem entrevistas. Vive do dia-a-dia das pessoas.

Sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Gabriela Canavilhas, Pianista de causas

A pianista e gestora cultural Gabriela Canavilhas será a partir de segunda feira, dia 26, a nova ministra da Cultura. Quando estava à frente da Associação Música - Educação e Cultura, entidade que gere a Orquestra Metropolitana de Lisboa o JL traçou-lhe o perfil que agora aqui republicamos.


É uma das mais talentosas pianistas portuguesas. Apaixonou-se pela obra de Schubert, mas foi a tocar música de câmara de compositores portugueses que fez escola. Depois de ter editado sete álbuns e passado por muitos palcos nacionais e internacionais, aceitou, em 2003, ficar à frente dos destinos da Associação Música – Educação e Cultura, que gere a Orquestra Metropolitana de Lisboa (OML). Gabriela Canavilhas, 46 anos, é uma pianista de causas. Acredita que os artistas têm um papel social importante e sempre o tomou nas mãos ao defender as obras de compositores portugueses. Na OML quer subir a fasquia e conta ao JL os planos para o futuro


Foi o cheiro do primeiro piano em que tocou que lhe guiou os passos. O perfume ficou-lhe colado à pele, à memória e ao coração. Hoje, sempre que pensa nas notas de uma partitura, inspira, e recorda o aroma desse instrumento «antigo, preto, nobre». Gabriela Canavilhas tinha então 12 anos e acabava de receber a sua primeira aula no Conservatório de Ponta Delgada, com a professora Natália Silva. Não começava cedo. «Nos Açores, ter uma formação musical não era tão vulgar quanto isso. Mas tive pais atentos que resolveram pôr-me a estudar.» Podia ter sido apenas um complemento da sua educação, mas acabou por revelar-lhe o verdadeiro talento. Nessa primeira aula, desconhecendo ainda o nome das notas, tocou com a professora uma peça a quatro mãos. E a pouco e pouco a linguagem musical foi sendo cada vez mais fácil de falar – embora reconheça que se tivesse começado mais cedo poderia ter chegado mais longe como instrumentista. «É determinante começar cedo até para moldar o físico ao instrumento. Além disso, as obras que se aprendem nessa altura, ficam consolidadas no corpo de uma forma muito mais intensa do que as que se estudam depois dos 25 anos.»
A adolescência foi um tempo cheio de actividades musicais, mas não só. Com as duas irmãs teve aulas no atelier de uma pintora, onde aprendeu a misturar pigmentos, a preparar telas, a segurar nos pincéis e todas as muitas técnicas da arte. A sua irmã mais velha, hoje poetiza e pintora, «estava ligada a tudo quanto era movimento radical e, sempre que havia algo que fosse um corte na tradição, lá estava ela. E levava as irmãs.» Os pais – pai militar, e mãe professora – a tudo assistiam sem grandes interferências. «Em plenos anos 70, estávamos entregues a nós próprias, com o apoio da família, mas com a liberdade para crescer e conhecer o mundo.» O universo da música começara a tornar-se cada vez mais sério para Gabriela e a irmã mais nova – hoje também pianista, a viver na Noruega – mas, como diz entre risos, «os pais só se aperceberam disso quando começaram a ver o nosso nome nos programas dos concertos.»
Acabado o liceu, sempre com boas notas, partiu da ilha rumo ao Curso Superior de Piano do Conservatório de Lisboa. Tinha 17 anos e a viagem não a assustava. Nascida em Angola – por acaso, durante uma comissão do pai – sempre se sentiu 100% açoriana e por isso herdeira de uma tradição de «cidadãos do mundo». «O facto de vivermos no meio do mar, com laços estreitos com os Estados Unidos e o continente, faz com que estejamos em permanente viagem, o que facilita muito a circulação. Vir estudar para Lisboa foi naturalíssimo», diz com um ligeiríssimo sotaque das ilhas.
À chegada encontrou um verdadeiro mestre: o professor António Menéres Barbosa. «Foi e é um transmissor de uma velha escola de piano que se tem vindo a perder: a da excelência.» Não lhe perdoava nenhum tipo de defeito sempre na busca da perfeição. Foi duro, reconhece, mas muito estimulante. Pois, como Gabriela Canavilhas costuma dizer, «nada é pior do que um artista satisfeito.»

À conversa com as notas
No Conservatório teve também aulas de música de câmara com Olga Pratz, com quem descobriu o prazer de tocar em conjunto. Gabriela Canavilhas fascina-se com o intimismo que se pode atingir nesta «conversa» entre músicos. Cada fala traz algo novo à discussão e o que se bebe de uns e de outros é sempre mais do que nos solos. Nessa «embriaguez» de querer aprender tudo o que se relacionasse com este tipo de música, resolveu partir para Siena e participar nos famosos cursos de Verão da Accademia Musicale Chigiana. Durante três inesquecíveis meses, tocou com músicos do Japão, Coreia, Alemanha ou Austrália, formando vários trios, quartetos, quintetos, num ambiente em que as tradições da Toscânia se misturavam com todas as notas. Saiu de Siena com um diploma de mérito. Depois voltou a Lisboa e acabou o curso. Começou então a sua aprendizagem no palco e surgiram vários convites para participar em diversos agrupamentos de música de câmara. Mas a pianista sempre gostou muito mais do estudo e dos ensaios do que dos concertos propriamente ditos. «Não há nada mais difícil do que subir a um palco e provar, através da linguagem da arte, toda a preparação que foi necessária para chegar ali. Mas quando se reúnem as condições ideais – um bom piano, um público atento, um artista concentrado – podem acontecer momentos verdadeiramente mágicos que compensam o intérprete de todo o esforço.»
Quanto ao repertório, sempre preferiu tocar compositores portugueses. «Acredito que temos obrigação de contribuir para a divulgação dos nossos músicos», afirma convicta. No princípio dos anos 90, quando começou a tocar em público e a gravar – tem sete álbuns editados – houve também o boom dos jovens compositores portugueses, de Eurico Carrapatoso a Sérgio Azevedo, com quem criou boas relações. Aliás, algumas das peças que lhe deram mais prazer tocar foram as que Carrapatoso escreveu para o trio Vocalizos, que a pianista formou com Ana Ferraz e António Costa, e que, entre outros, apresentava também peças de Victorino de Almeida ou Pinho Vargas. Seguiram-se mil actividades, desde concertos em que tocou obras de vários compositores portugueses, a recitais dedicados a Vianna da Mota, Alfredo Keil, Lopes-Graça ou Augusto Machado, e a participações nos mais variados festivais nacionais e internacionais – tocou nos Estados Unidos, Brasil, Itália, Macau ou Alemanha. Na Antena 2 (RDP), ao longo dos anos, participou nos programas O Despertar dos Músicos, A Quatro Mãos, A Força das Coisas e Império dos Sentidos. Fundou ainda o projecto do Festival Música Atlântico, que decorre nos Açores há já nove anos. «Foi uma pedrada no charco que começou a integrar os Açores no roteiro das grandes produções», diz com orgulho. Gosta de colaborar nas actividades da sua terra e chegou mesmo a ser assessora do director regional da Cultura. Aliás, acredita que, com mais ou menos visibilidade, todos temos uma quota-parte de responsabilidade social. «Cada vez tenho mais desprezo pelas pessoas que não se revêem na sociedade em que vivem.»

Subir a fasquia
Foi pela «consciência de serviço público» que, em 2003, resolveu aceitar o convite dirigido pela vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa (CML), para a direcção da Associação Música – Educação e Cultura que gere a Orquestra Metropolitana de Lisboa (OML) e a Orquestra Académica Metropolitana. Precisou de «arrumar a casa» e não foi fácil. A situação financeira que encontrou – após a saída da direcção do maestro Miguel Graça Moura – era «devastadora». Os seus objectivos foram preservar a instituição, assegurar a estabilidade da casa, melhorar a qualidade da orquestra e primordialmente prosseguir o trabalho de formação em simultâneo com divulgação musical e a performance. «Num ano e meio estava consolidado o projecto artístico e recuperado o caminho ascendente da orquestra e das escolas», conta. Mas nesse processo deixou de tocar piano. Os primeiros dois anos foram de tal forma duros que temeu não saber já ler partituras. Concentrou-se na tarefa que tinha em mãos. Pôs o piano em espera e, passados quatro anos, sente que há da parte do presidente da CML, António Costa, «uma vontade política forte de encerrar definitivamente os problemas do passado que se prendiam com questões financeiras.» Por isso aceitou a recondução no cargo – por mais três anos – e espera que políticos e fundadores cumpram as suas promessas. Gabriela Canavilhas pretende cumprir com o que acredita ser a obrigação da instituição: contribuir para o desenvolvimento intelectual e para a exigência do público. «O público tem de ser respeitado e acarinhado. É preciso fazê-lo subir à grande música. Os espectadores merecem que se apresentem mais do que high lighs da música clássica.»
De há dois anos para cá voltou a tocar. E, como nunca perdeu o contacto com os músicos da orquestra e com os maestros convidados, sente que as soluções musicais que hoje encontra lhe surgem naturalmente. Mas onde tudo soa melhor é no seu refúgio em Aviz, no Alentejo. Sabe que precisa de sair do reboliço da cidade e acalmar, ali, no contacto com a natureza. Sentada ao piano de cauda, com vista para o campo, encontra-se consigo própria. Ao fim de semana fica muito tempo a tocar. O marido, militar, não a acompanha a quatro mãos, prefere escutar, e sempre a apoiou em todos os seus passos. A filha, Joana, 23 anos, tocou vários instrumentos mas, embora seja «uma ouvinte atenta», pôs a música de lado para se dedicar ao jornalismo.
Nessas horas que dedica às teclas, Gabriela Canavilhas faz sobretudo escalas técnicas para voltar a treinar os dedos, mas não só. Anda a estudar um pouco de Schumann e uns improvisos de Schubert, o seu compositor preferido. «Tem uma emoção, poesia, intensidade e densidade que me tocam particularmente», explica. Além disso, prepara o concerto de Mozart, K 482 – com que passou no exame final do Conservatório. «Nunca o toquei com uma orquestra», diz com um sorriso na voz. Quem sabe se para o ano?

Quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

Uma escola que seja sua

Gostava de escrever isto de forma a não vos sobressaltar, mas não há maneira: em 2006, no Afeganistão, um director de escola foi decapitado diante da família por um grupo de homens armados. Cometera o «crime» de afrontar uma das leis fundamentais dos talibãs, dando aulas a meninas. No dia seguinte foi preciso explicar o sucedido a estas crianças: não “apenas” o horror da execução, como também o facto, irremediável, de que mais ninguém ousaria levá-las à escola.
Infelizmente, o Afeganistão está longe de ser o único país a favorecer deliberadamente o analfabetismo feminino. Segundo o relatório da ONG Internacional Save the Children, em 70 países do planeta boa parte das meninas são obrigadas a entrar no mercado de trabalho em plena infância. Na Etiópia ou na Nigéria, três quartos das alunas têm de deixar a escola para dar lugar aos rapazes. Mesmo na China, gigante industrial, o índice de sub-escolarização das raparigas é muito elevado. Estima-se que, ao todo, haja no mundo cerca de 200 milhões de meninas impedidas de frequentar a escola.
O que estes governos parecem não entender, para além do respeito pelos direitos humanos mais elementares, é que, como demonstram todos os estudos, o livre acesso do sexo feminino à escola está directamente associado à baixa dos índices de subnutrição, mortalidade infantil, propagação da SIDA e a uma melhor situação económica. Em contrapartida, uma jovem sem escolaridade está muito mais susceptível à pobreza, aos casamentos forçados, à violência sexual e aos maus tratos e tem muito mais possibilidade de criar filhos analfabetos, subalimentados, vítimas de doenças crónicas.
Como travar este flagelo? Em 2000, 189 países assinaram a Declaração Milénio, lançada pelas Nações Unidas, com vista à obtenção da paridade escolar em 2015. Oito anos decorridos, será esta uma meta realista? Três regiões do mundo assinalam ainda atrasos importantes: o Médio Oriente e o Norte de África, a África Ocidental e Central e no Sudeste asiático. Como se escreve no estudo encomendado pela UNICEF, The Gap Report – Gender achievements and prospects in Education, «já falhámos o objectivo da paridade em 2005, não podemos fazê-lo também em 2015.» No primeiro mundo, em que as mulheres ainda enfrentam tantos «obstáculos de cristal» (na política e no quotidiano laboral, por exemplo), não se pode continuar a olhar esta causa como uma acção de caridade ou beneficiência. No mundo globalizado deixou de haver lugar para exotismos. As ondas de choque provocadas pela borboleta, que bate as asas na China, são cada vez mais fortes.

Quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

Nas bancas!

JL 1019


José Saramago, o Peso de Deus

Caim, lido por Miguel Real

Entrevista com o romancista

Reportagem do 'Escritaria' dedicado ao Nobel português

João Tordo, Prémio Saramago: «Uma responsabilidade para o futuro»


Herta Müller, Nobel da Literatura: Escrever a Ditadura

Texto de Mª Teresa Dias Furtado

Depoimentos de Teresa Salema e João Barrento

Crónica de Alexandre Pastor


Sérgio Godinho, Fausto e José Mário Branco juntos e ao Vivo


J. P. Borges Coelho, Prémio Leya


A reabertura do Teatro da Trindade


Jonas Mekas no Doc: «O cinema será sempre novo»


Carlos Reis: A língua portuguesa e Lídia Jorge


Entrevista com Jean Daniel


A autobiografia de Zuenir Ventura


JL/Educação:

Ensinar o Ambiente

Que mudanças no Estatuto da Carreira Docente?


Camões • Agenda Cultural


Terça-feira, 13 de Outubro de 2009

Prémio Leya

João Paulo Borges Coelho, com o romance O Olho de Hertzog, é o vencedor da 2.a edição do Prémio Leya.

Sábado, 10 de Outubro de 2009

Seu Jorge ao vivo num planeta qualquer




«Me dá uma cerveja para molhar as palavras», disse esta noite Seu Jorge, no Campo Pequeno, num concerto onde tudo aconteceu. O brasileiro entrou em palco acompanhado por 14 músicos (que exagero!), disposto a fazer dançar a assistência bem composta, com os seus ritmos quentes que oscilam entre o samba, o funk e o hip-hop. Pelo caminho, uma desgarrada de pandeiretas, versões de Bowie em português, o público a cantar em coro os hits, e uma rapsódia de Carnaval (com direito a Mamãe eu Quero....). Ah e houve ainda espaço para que o João Vargas pedisse em casamento a Ana. E tudo o resto são cantigas. Amanhã, dia 10, repete no Porto.


Quinta-feira, 8 de Outubro de 2009

Herta Müller, segundo Gonçalo M. Tavares


A propósito da atribuição do Prémio Nobel da Literatura a Herta Müller aqui republicamos a coluna Biblioteca, de Gonçalo M. Tavares, do JL n.º 1009, precisamente dedicada à escritora e poetisa alemã.

Quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

Amália nunca cantou Guerra Junqueiro


Penas é de Fernando Caldeira

Como a propósito do 10.º aniversário da morte de Amália se tem repetido erroneamente que Guerra Junqueiro foi o primeiro poeta erudito que Amália cantou, republicamos o nosso artigo de 2005, onde se demonstra por A + B que a grande fadista nunca cantou tal poeta


O erro repetiu-se ao longo de décadas. Amália nunca cantou Guerra Junqueiro. O famoso poema Penas, que a fadista cantou no início da carreira, sobre o Fado Bacalhau, é da autoria de Fernando Caldeira, um outro poeta seu contemporâneo.

Quem, em carta ao nosso jornal, revelou o facto foi Maria Cristiano Moniz Ribeiro, uma atenta leitora , apaixonada por Amália, que tem quase 1400 gravações da fadista. O JL confirmou que o poema não é de Junqueiro, com a especialista da obra do poeta, Manuela Rêgo, e com a Casa-Museu Guerra Junqueiro, no Porto. Dentro do espólio não foi encontrado qualquer escrito que se assemelhasse.

Fica assim desfeito um erro que se tem repetido ao longo dos anos.

Em sucessivas edições de discos (incluindo a que o nosso jornal recentemente publicou) e em textos teóricos de ilustres especialistas em fado, o poema aparece sempre atribuído ao poeta portuense. O que é perfeitamente compreensível, pois, passando uma vez a informação errada, é natural que os teóricos do fado não se dediquem a verificar a autenticidade da autorias da diversas letras. Fernando Caldeira foi assim o primeiro poeta erudito que Amália cantou, logo em 1947. Terá descoberto o poema numa página de jornal, quando viajava para o Brasil. O fado, de resto, acabou por ser gravado apenas em terras de Vera Cruz e só posteriormente chegou a Portugal (diz-se que o dono do Café Luso não queria que Amália editasse em Portugal, porque tinha medo que os admiradores assim deixassem de ir vê-la ao vivo). Maria Cristiano desconfiou do equívoco logo de início, mas não quis expor a situação com medo de prejudicar Amália: «Quando, em Angola, em 1958, comprei discos da Amália vi, num 78 rpm, que o fado Penas vinha atribuído a Guerra Junqueiro disse ao JL. Estranhei, mas não me competia desfazer o erro; e, no meu pouco contacto com ela, não me atrevi a chamar-lhe a atenção. Mas quando em 2001 se começou a falar no Panteão e na 'coincidência' de o túmulo dela ser ao lado de Guerra Junqueiro 'o primeiro poeta erudito que ela cantou', achei demais que ele ficasse com os louros que são Fernando Caldeira (...)».

E chamou a atenção de várias personalidades, entre as quais Vítor Pavão dos Santos: «Como tenho visto recorrer-se a ele para quase tudo o que se queira fazer sobre Amália, escrevi a esse senhor e mandei-lhe fotocópias do livro; ele telefonou-me dizendo que 'não valia a pena falar no erro'».

Contudo, posteriormente, como explica a Maria Cristiano, o biógrafo reincidiu, no booklet de um vídeo dedicado a Amália: «Na página nove do livrinho que acompanha os vídeos, diz o Vítor Pavão do Santos que «julga que Amália deveria voltar a cantar Guerra Junqueiro».

Mas de quem é o erro? Nem Maria Cristiano nem o JL conseguiram descobrir o original da publicação consultada pela fadista, mas, das duas uma, ou Amália enganou-se a ler ou o jornal enganou-se a escrever. Maria Cristiano avança com uma tese: «A minha teoria é que os brasileiros arredados da nossa literatura erroneamente achavam que não existia o tal Fernando Caldeira e substituíram-no pelo conhecido Guerra Junqueiro e Amália, na sua proverbial modéstia e timidez, calouse! E o erro perpetuou-se, tendo embora havido possibilidade de o corrigir.» Este equívoco histórico tomou tal dimensão que quando se falou da transladação dos restos mortais de Amália para o Panteão Nacional vários se referiram à coincidência de ficar sepultada ao lado de Guerra Junqueiro, incluindo o Presidente da República, Jorge Sampaio.

O fado Penas teve uma importância decisiva na carreira de Amália e na história do próprio Fado. Foi o primeiro prenúncio do que havia de ser um dos mais pertinentes contributos da cantora para o fado: a adaptação de poemas eruditos.

Tal intuito ganhou maior relevância com a adaptação de Fria Claridade, de Pedro Homem de Mello e, mais tarde, já com Alain Oulman, ao chamar para o fado grandes poetas como Camões, David Mourão-Ferreira, Alexandre O'Neill ou Manuel Alegre.

Essa tendência para adaptar poetas eruditos, de resto, foi-se mantendo ao longo dos tempos, até à actualidade, com nomes como Carlos do Carmo, Mísia, Cristina Branco, Katia Guerreiro ou Liana. Nascido na Casa da Borralha, em Águeda, Fernando Caldeira (1841-1894) foi governador civil de Aveiro, deputado em várias legislaturas, pintor e músico amador. Licenciou-se em Direito, pela Universidade de Coimbra. Escreveu várias peças de teatro, sobretudo comédias, que foram interpretadas pelos melhores actores do seu tempo, como Lucinda Simões, Rosa Damasceno ou Ferreira da Silva. Entre outras obras é o autor de O Sapatinho de Cetim, Os Missionários, A Mantilha de Renda, Sara, As Nadadoras, As Médicas, A Congressista, A Mosca e Madrugada.

O livro de poesia Mocidades, editado em 1882, com reedição em 1903, prefaciada por D. João da Câmara, inclui meia centena de poemas, entre os quais Penas, dedicado ao seu irmão, Eduardo Caldeira. Fernando Caldeira é ainda o patrono da Escola Básica do 2º e 3º ciclos de Águeda. Não há qualquer livro do autor disponível no mercado.


Nas bancas!


JL 1018

AMAR AMÁLIA

No 10º aniversário da sua morte, dez ‘olhares’ sobre a diva, com textos e testemunhos de, entre outros, Bruno de Almeida, David Ferreira, Fernando Dacosta, Jorge Fernando, Nuno Vieira de Almeida, Tiago Torres da Silva e Vasco Graça Moura


ANTÓNIO LOBO ANTUNES: A VIDA TODA

Entrevista (sobre o novo romance) de Luís Ricardo Duarte


A ARTE NOS ANOS 70

O que vai ser a grande exposição na Gulbenkian • Histórias de uma década experimental


Figura: Anália Torres • Os bastidores da ópera Crepúsculo dos Deuses • Pré-publicações de João Ubaldo Ribeiro, F. J. Viegas, João Miguel Fernandes Jorge e Mário Zambujal • O que ver no DocLisboa • A autobiografia de Emília Nadal


Terça-feira, 6 de Outubro de 2009

Alô, Belém, escuto

Se os presidentes tivessem cognomes como os reis, as venturas da nossa república seriam ainda mais ilustráveis. Eanes, o sisudo, claro está, é sabido que o general é mais duro de roer do que os guardas da rainha de Inglaterra. Soares, com certeza, o viajado, até se dizia, por graça, que Deus está em todo o lado enquanto o Mário Soares já esteve. Sampaio, o Chorão, porque foi o chefe-de-estado que, tal como a fadista Mariza, nunca se escusou a verter uma lágrima sempre que a situação o exigia. Quanto ao nosso actual Presidente, o cognome está encontrado: Aníbal, o calado, o Presidente Tabu, que não fala ou que quando fala ninguém entende, ou pensa que mais valia estar calado. Se houvesse escutas em Belém o mais provável é que tivessem resultado numa fita em branco.

Outrora as escutas eram feitas com um copo encostado a uma parede, hoje existem para isso sofisticados gravadores. Outrora a correspondência era violada, hoje os e-mails são vulneráveis. Mas Aníbal Cavaco Silva fez, entre outras, uma baralhação electrónica, que deixou o país em estado de choque tecnológico. Começou a falar de escutas e acabou a falar em e-mails, não sabendo, porventura, que os e-mails não se ouvem, a não ser que tragam atrelados um ficheiro de MP3 ou um vídeo do Youtube.

Houve ali uma elipse extraordinária, que passou inclusive pelas suas férias no Algarve, na vivenda Mariani e uma visita a Querença. Os mais velhos dizem que o discurso lembrou os de Américo Tomás. Só que no tempo deste não havia e-mails. Cavaco questionou a segurança da sua caixa de correio electrónica. E, não se sabe bem porquê, naquele dia, nem antes nem depois, talvez por lhe dar jeito ao discurso, consultou alguns técnicos, que é como quem diz, chamou o Help Desk.

Todas as caixas de correio electrónico são vulneráveis, como é que a de Cavaco não havia de ser? Se os hackers entram inclusive nas páginas da FBI e da Casa Branca, não haviam de ser os serviços informáticos de Belém que lhes iriam cerrar as portas. Pois está claro que os responsáveis lhe comunicaram que tem vulnerabilidades. Então, o Presidente, solicitou um estudo para reduzir essa mesma vulnerabilidade. Sem pensar muito, o técnico eventualmente terá dito: talvez não fosse má ideia se o Presidente usasse outra password que não Boliqueime. Poderá ser Mariani? Não, porque tem poucos caracteres. Que tal algo totalmente insuspeito como…. José Sócrates?

Terça-feira, 29 de Setembro de 2009

Pedro Costa, sublime!

A propósito da edição em DVD de Onde Jaz o teu Sorriso, de Pedro Costa, republicamos um texto de Rodrigues da Silva



Permitam-me a ênfase. E a sinceridade. Este é um dos mais inteligentes e também dos mais belos filmes que já vi. Este filme chama-se Onde Jaz O Teu Sorriso?, realizou-o o português Pedro Costa, e se não dispenso o «português» é porque é um orgulho saber nosso aquele que é hoje (e não só por este filme, mas por toda a sua obra anterior) um dos mais importantes cineastas vivos. Em todo o Mundo.
E vamos ao filme. Ou ao que é. Ou, para já, ao que lhe esteve na origem.
Na origem esteve um convite feito a Pedro Costa: fazer para o canal televisivo ARTE um filme a inserir na série Cineastas do Nosso Tempo. Os cineastas foram Jean-Marie Straub/Danièlle Huillet, que, desconhecendo a filmografia de Costa, só aceitaram depois de Jacques Rivette, que admiram, se confessar grande entusiasta dela.
A partir daqui foi o trapézio sem rede, já que, para fazer um filme sobre cineastas, há (ou haveria) um número ilimitado de modus faciendi. Atrevo-me a dizer que Pedro Costa escolheu não o melhor, mas aquele que para mim é, a partir de agora, o único. O único possível.
O único justo. Qual? Este que vos revelo.
Sabendo que o casal Straub/Huillet estava a fazer uma terceira montagem do seu filme Sicília! para um auditório de alunos do Studio National des Arts Contemporains de Fresnoy (Lille/França), Costa foi para lá que se dirigiu e foi lá que filmou. Praticamente tudo o que se vê passa-se, assim, na sala de montagem. Com três intérpretes: os dois cineastas e o seu filme. Melhor dizendo: os fotogramas do seu filme que Huillet, na mesa de montagem, vai deixando correr de frente para trás e de trás para a frente em busca do ponto exacto do corte. Isto enquanto Straub, na sombra, discute com a mulher a opção, deambula e fala de cinema.
Deveria haver um quarto personagem se Onde Jaz O Teu Sorriso? fosse um documentário, no sentido clássico do termo. Esse quarto personagem seria o auditório, isto é, os alunos que ocupam o espaço atrás da mesa de montagem. Pois, mas Costa eliminou esses alunos, esse auditório, esse espaço. Não documentou, ficcionou (todo o documentário ficciona, toda a ficção documenta), para se concentrar (e nos concentrar) apenas no trabalho dos cineastas.
Não só por saber (como alguém já referiu) que os filmes de Straub/Huillet são «feitos à mão».
Também na certeza de que para eles «aquilo que se filma é mais forte que o cinema».
Trabalho, sem dúvida, portanto. Logo, também paixão. Ou essa simbiose magnífica entre as duas entidades que acontece (quando acontece...) se os caminhos da Paixão são os caminhos do Calvário e vice-versa. Após o que há a Ressurreição. Pela obra feita. Perfeita. A obra acabada. E assim, porque o trabalho (dirá Straub durante o filme) só para uma ínfima parte da Humanidade é aquilo que as pessoas gostam de fazer. Straub/Huillet fazem parte dessa pequeníssima percentagem de humanos que fazem o que querem. Como querem. «Mas isto paga-se», dirá Straub. Paga-se com a natureza inerente à criação, mas paga-se também com a circunstância da incompreensão da sociedade do consumo de imagens pelo trabalho/paixão, no caso em apreço por aquilo que Bresson chamava «cinematógrafo», opondo o termo a «cinema».
O que vemos, com Huillet a trabalhar os fotogramas e Straub por detrás em solilóquio por vezes rabuja, é algo como um fazer amor. Amor com os fotogramas, na ânsia do melhor, do absoluto. Os fotogramas são a Matéria. Antes dela, dirá Straub, há a Ideia. E no final a Forma.
«Como uma escultura», conclui, e está tudo dito, nem é preciso dizer mais nada sobre o percurso de uma criação. Mas voltemos a Pedro Costa.
Já percebemos que, inteligentemente, ele dispensou o auditório, renegando a forma clássica do documentário, para se concentrar nos dois cineastas e na sua obra em mãos. Porquê? Por uma razão simples. Para que nós (espectadores), através dele e da sua câmara, nos concentrássemos no processo criativo. E aqui somos reconduzidos ao seu filme anterior, No Quarto da Vanda, onde nos obriga a confrontar com o essencial de um outro processo, uma outra realidade.
Mas Pedro Costa dispensa mais. Dispensa o cliché habitual de um filme sobre dois cineastas: a biografia.
Que se imagina intercalada com bocados de filmes + entrevistas. E fá-lo, convicto, decerto, que aquilo que verdadeiramente dá a ver um criador é a sua criação. Ou o labor que a ela conduz.
E sobre este labor, sim, Costa é exaustivo. Porque ele sabe que a obra acabada é precedida de um labor/dor que o público obviamente ignora. A pedra contém já em si a estátua, mas é o escultor que dela a fará brotar. Assim, Pedro Costa revela. Qual parteiro que nos expusesse o trabalho de um parto. Difícil, moroso, mas apaixonado e imensamente feliz.
Poderia eu ainda dizer (e digo) que Straub, nos seus peripatéticos passos em volta da mesa de montagem, alude a Pavese, a Brecht e a Vittorini, bem como a um sem número de cineastas tutelares, de Chaplin a Hitchcock, de Bresson a Dreyer, de Buñuel a Mizogouchi. Pelo meio, ficamos a saber também que o casal se conheceu em 1954, e da sua vida praticamente mais nada. Excepto o resto, que é a teoria que, a partir de uma prática longa de mais de 40 anos, foram, a dois, elaborando. Estética e ética em harmonia. Sobre a margem de liberdade que deve ser dada aos actores. Sobre essa outra margem de liberdade que deve sobrar ao espectador para que seja ele próprio, pela imaginação, a completar a obra, razão pela qual cada fotograma não deve jamais bloqueá-lo, mas libertá-lo. Sobre o tempo, a durée, esse tempo que não é dinheiro, ou por ele não deve ser medido. Sobre a montagem, também, que, tal como a arte toda ela, não é a vida, embora dela parta, e Straub explica-o de uma maneira lapidar: «Na vida não andamos a fazer planos».
Sabemos isto e como o sabemos? Sabemo-lo, via Pedro Costa, que (com duas câmaras, uma pequena Panasonic e uma digital, mais um técnico de som) tudo captou. Como? Dando-nos a ver os dois cineastas, criadores, sempre na penumbra e nunca em primeiro plano, porque o primeiro plano e a luz o destinou ele à obra que vai sendo criada, a partir da montagem.
Ideia-Matéria-Forma. Um filme assim, como Onde Jaz o Teu Sorriso? vai muito além do seu ponto de partida.
Na verdade, filmando Jean-Marie Straub/Da- nièlle Huillet, o que Pedro Costa filmou e nos oferece é uma autêntica ontologia da criação.
Graças a um acto de amor e conhecimento.
Absolutamente sublime!
JL 843, de 22 de Janeiro de 2003

Segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

Concerto do Retrospect Ensemble ajuda Jardim Botânico


O Retrospect Ensemble dá um concerto único de apoio à reabilitação do Jardim Botânico da Universidade de Lisboa, amanhã, 29, às 21 e 30, na Aula Magna (Lisboa).
Vindo do Reino Unido, depois de uma temporada no Wigmore Hall, aquele que é um dos mais conceituados ensembles europeus de música antiga apresenta ao público português um Grande Concerto Barroco, com obras de Handel e Telemann.
O grupo esteve em Portugal nos Dias da Música 2009, no Centro Cultural de Belém, sob o nome “King’s Consort”. Este ano voltará a integrar a programação dos Dias da Música, já como Retrospect Ensemble. A renomeação traduz o facto de o grupo não se limitar a um período histórico preciso, nem a uma configuração rígida.
É o primeiro grupo a dar a cara pelo projecto Música pelo Jardim, que tem como objectivo angariar fundos para a reabilitação do Jardim Botânico. Outros concertos decorrerão até ao final do ano.

Bilhetes à venda: Fnac, Worten, C.C. Dolce Vita, El Corte Inglés, Lojas Viagens Abreu, Lojas Mega Rede e www.tickectline.sapo.pt e no local (dia do espectáculo)

Preço bilhetes
Doutorais – 40€
Anfiteatro inferior – 30€
Anfiteatro Superior – 20€

Quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

Método para um voto consciencioso


Os partidos que se candidatam às próximas legislativas são 15. À partida não se deve excluir nenhum só porque tem um nome esquisito. O primeiro passo do eleitor dedicado é ler, de forma exaustiva e atenta, os programas de todos os partidos. Sublinhar com um marcador os principais pontos de vista nas diversas áreas de actuação e elaborar uma tabela comparativa, para perceber o que os une e o que os separa. De seguida deve confrontar as ideias dos partidos com as suas próprias, estabelecendo uma regra de ponderação, assinalando e valorizando as coincidências. Por exemplo, pode classificar de 1 a 10 cada uma das ideias e depois fazer as contas, para perceber o que mais lhe agrada. Quem marcar mais pontos merece o seu voto.

O esquema seria perfeito não fosse a demagogia. Funciona se acreditar que o que está escrito no programa dos partidos corresponde ao que estes realmente pretendem pôr em prática. Além disso dá uma trabalheira capaz de desesperar os mais picuinhas. Porque os programas dos partidos são, regra geral, longos, maçudos e mal escritos, e ninguém em seu perfeito juízo se predispõe a fazer essa leitura. E se porventura alguém o fizer, o mais provável é que perca o juízo a meio caminho.

Na Internet está disponível uma ferramenta que, supostamente, poupa-nos este exaustivo trabalho de leitura. Basta responder a 28 perguntas e a bússola eleitoral (http://www.bussolaeleitoral.pt) indica-nos a que zona ou família política pertencemos. Se não o partido exacto, pelo menos uma área. Porque há diferenças concretas entre os partidos, entre as esquerdas, entre as direitas e entre os centros. A bússola pode revelar algumas surpresas. Conheço militantes do BE que se descobriram no PS e outros do PS que se descobriram no PP. É um teste que todos os políticos deveriam fazer. Talvez alguns descobrissem que estão no partido errado. Pessoalmente, tinha alguma curiosidade em saber das coordenadas, à luz desta bússola, de figuras como Zita Seabra, Freitas do Amaral, Manuel Alegre, Joana Amaral Dias ou – porque não? – José Sócrates.

Quarta-feira, 23 de Setembro de 2009

Nas bancas!

JL1017


Pedro Costa: O sangue do Cinema
Os 20 anos do primeiro filme do realizador, que agora volta às salas. E a monografia que faz a retrospectiva da sua obra. Um texto inédito de João Bénard da Costa

Vitorino Magalhães Godinho: A Grande Ilusão
Ensaio sobre a crise, suas causas e consequências

Oito jovens músicos
Perfis dos vencedores do Prémio RDP

Bolaño e Larsson: dois fenómenos editoriais

Eduardo Lourenço e Helder Macedo escrevem sobre Jorge de Sena

Figura: Legendary Tigerman, o homem-banda

Gabriel García Márquez, uma grande biografia

A autobiografia de Daniel Sampaio

JL/Educação • Camões • Agenda Cultural

Sexta-feira, 18 de Setembro de 2009

Black Vox

O Teatro do Eléctrico regressa à cena com Black Vox, Histórias Negras em Teatro de Terror. Uma mulher perseguida ou louca, uma princesa ou uma bailarina, um mágico ou um tolo? Personagens que se cruzam com vídeos e que ganham uma dimensão de bonecos de animação. Texto e encenação de Ana Lázaro, Patrícia Andrade e Ricardo Neves-Neves. Também com Sílvia Figueiredo e Vítor Oliveira. Teatro da Comuna, Lisboa, 20 de Setembro, às 21 e 30.

Quinta-feira, 17 de Setembro de 2009

A minha beatlomania




Já tinha feito a experiência há meia-dúzia de anos. Agora, a pretexto da reedição da discografia, voltei à carga. E propus-me a ouvir os álbuns dos Beatles todos de seguida, sem respirar entre as canções, por ordem cronológica (por ordem alfabética também seria curioso). Não sei se por carolice se por masoquismo. Talvez por prazer. Ainda é uma catrefada de álbuns. Para mim, que não sou um beatlomaníaco, daqueles que coleccionam crachás e palhetas, é um exercício entre o estimulante e o exasperante, com uma ânsia permanente: quando é que chega o Sgt Peppers?. Para já vou nos dois primeiros: Please, please, please me e With the Beatles, ambos de 1963. Álbuns curtos com muitas canções. Fica a sensação de que cada suspiro é um hit fácil e que os temas da imbatível dupla Lennon/McCartney sobressaem em relação às várias versões (à excepção de Twist and Shout). Ou seja, a descoberta da mais famosa dupla de compositores, numa fase ainda muito adolescente e ingénua. Aliás, convém não esquecer que vivia-se a idade de ouro dos singles e a imposição de lançar um álbum, após o sucesso estrondoso das canções traduziu-se numa concentração desses singles e apressada criação de alguns outros.
Gosto particularmente de I saw her standing there (esta é a parte Jukebox). É uma daquelas questões que se colocam nos bailaricos. Eu próprio, se a visse por ali seria incapaz de empernar, com outra qualquer, enquanto ouvia Chuck Berry, Roy Orbinson ou - porque não? - os Sheiks. Uma canção dos mais puros sixties, completamente datada, mas ainda assim cheia de ritmo.
O vídeo aqui acupulado não é obviamente o original. Algum brincalhão resolveu fazer uma releitura da letra à luz da história do triângulo amoroso Beatles (Paul McCartney), John Lennon e Yoko Ono, que sucedeu muito mais tarde. Como é que Lennon poderia continuara a dançar com os Beatles quando a Yoko Ono estava ali à espera? Mas não vamos avançar já para o final da história.

Quinta-feira, 10 de Setembro de 2009

Os números da sorte

É tão provável ganhar o Euromilhões quanto ganhar o Euromilhões. Desculpem a redundância, mas é que é tão improvável acertar em cheio nos números da sorte, que poucas serão as comparações válidas. Por exemplo, um estudo revelou que a probabilidade de ganhar o Euromilhões é equivalente à de um jovem adulto saudável morrer dentro de uma hora. Tétrico? Altamente improvável. Mas também não é por deixar de jogar que se livra da segunda parte do algoritmo. No meu caso, ganhar o Euromillhões seria ainda mais difícil, uma vez que raramente jogo. Seria necessário que alguém apostasse em meu lugar (amigos desses já não se fazem) ou que tropeçasse num papelinho premiado no meio da rua.
Há que ter esperança, claro. Não tenho nada contra estas e outras apostas. Por mais improvável que seja ganhar, não é impossível. E Portugal é dos países onde mais se aposta, reflexo das piores condições de vida. No Brasil, paupérrimo, também se investe massivamente no Jogo do Bicho. Se não há dinheiro, resta-nos a fé. E não nos cortem a emoção semanal.
Feitas as contas não sai assim tão barato. Com uma aposta simples, gastam-se oito euros por mês e 104 por semana. Não apostando, a probabilidade de ganhar 104 euros é certa. Para quem faz mais do que uma aposta, o que é vulgar, multipliquem-se estes valores e verifique-se a despesa.
Em Histórias de Cabaret, um excelente filme de Abel Ferrara, Willem Defoe, um viciado no jogo, faz uma mega-aposta na lotaria, através de um cálculo rigoroso, que reduz o risco ao mínimo, e consegue… ganhar. No Euromilhões tal não é viável, a cobertura dos riscos sai demasiado cara.
Mas também há estatísticas. O número que mais vezes saiu é o 50. E o que saiu menos vezes é o 28. Como a probabilidade à partida igual, as ocorrências têm tendência a equilibrar-se pelo que, aparentemente, o 28 seria uma boa aposta. Há outras questões mais certas: as pessoas têm uma propensão para apostar em datas, sobretudo aniversários (de nascimento, casamento, namoro…), tal provoca que haja uma predilecção a nível de palpites por números entre 1 e um 31. Indo as estrelas de 1 a 9, a maior incidência dá-se mesmo entre 10 e 31. Tal não tem qualquer influência no apuramento da chave, mas significa que se, apostar em números entre 32 e 50 e ganhar é mais provável que seja o única totalista. Para já, dou-lhe a certeza que esta chave não vai sair: 7, 22, 38, 45, 46 + 4, 7. Vai uma aposta?

Quarta-feira, 9 de Setembro de 2009

Nas Bancas!

JL 1016

Quinta-feira, 3 de Setembro de 2009

Contadora de histórias

Paula Rego, uma Contadora de Histórias é o título da sessão que decorre hoje, quinta-feira, 3, na livraria Bertrand do Chiado, pelas 18 e 30. Com Dalila Rodrigues, directora do Museu Paula Rego, o cronista José Manuel dos Santos (que trabalhou com a artista aquando da série de quadros para o Palácio de Belém) e a jornalista e poeta Ana Marques Gastão (que escreveu um livro-diálogo com quadros de Paula Rego Nós/Nudos, 25 imagens sobre 25 poemas de Paula Rego (Gótica, 2004)). A moderação está a cargo de Anabela Mota Ribeiro. Em destaque, o carácter narrativo na obra de Paula Rego, a duas semanas da inauguração, a 18, do Museu Casa das Histórias, em Cascais.

Quinta-feira, 27 de Agosto de 2009

Primeira carta

Tudo começou com Águas de Verão. «Era em Setembro que chegávamos em bando». Eu deveria ter uns 5 anos e, nas noites de Verão algarvio, a minha irmã, seis anos mais velha, deitada na outra cama, lia para mim, em voz alta, o romance acabado de sair de Alice Vieira. Foi assim que conheci os quatro irmãos Bé, Marta, Francisco e António; o senhor Gualberto, o do saxofone, as termas carregadas de sais, de achaques e de muita brincadeira entre a «canalha», como diria a Irene, com o cesto de roupa branca à cabeça, o que levaria a Mãe da história, a um quase desmaio. Parece que a estou a ouvir – «Chamar canalha aos meus filhos! Isso é que não!» – e com ela a lembrar-me da angustia, daquela que se prende atrás da garganta, pela injustiça de, nas últimas páginas, terem despedido o senhor Gualberto, só porque ele era um bocadinho doido («O menino é sócio dos que são sócios ou é sócio dos que não são sócios», costumava perguntar aos miúdos que por ele passavam), um bocadinho músico, um bocadinho alegre no meio dos vapores e da comida sem sal – onde nem a sobremesa, aletria acho, escapava à insipidez. Foi ali, com aquelas personagens vivas na voz da minha irmã, na escrita da Alice Vieira que, antes de aprender as letras, eu aprendi a ler.
E foi já sozinha que li Rosa, minha irmã Rosa, Lote 12, 2.º Frente, Chocolate à Chuva, o hilariante Graças e Desgraças da Corte d-El Rei Tadinho, A Espada do Rei Afonso, Este Rei que Eu Escolhi. Foi com Flor de Mel que imaginei, cantarolando sempre para dentro, a canção de embalar que ainda hoje sei de cor. Com Úrsula, a Maior que descobri o Frei Luís de Sousa, e com Joana Ofélia, de Se Perguntarem por mim digam que voei, que aprendi que todas as janelas servem para voar. E sorri com os jantares dos velhotes de Às dez a porta fecha, chorei com o Touro Sentado desaparecido nas pradarias do corredor, sem poder nunca mais ver Os Olhos de Ana Marta.
Em cada novo livro uma surpresa, longe do tonzinho didáctico que sempre me irritou nos livros ditos para a infância. Esse tom que Alice Vieira nunca quis ter, como diz na entrevista que publicamos nesta edição, onde conta que troca correspondência com alguns dos seus leitores há quase 30 anos. Para mim, foram precisos mais de 20 – e tantas outras histórias – para encontrar coragem para lhe escrever. Aqui fica a minha primeira carta.

Quarta-feira, 26 de Agosto de 2009

O mundo do fim do mundo


Chega-se ao fim do mundo e vira-se à direita. Ali, onde o mar começa e o mar acaba, nos confins da Europa, a caminho da América. O fim do mundo, neste caso, é a Ilha das Flores, com os seus 4000 habitantes, sem contar com vacas, coelhos e hortênsias. Provavelmente, um dos sítios mais belos do planeta, com a sua harmonia selvagem. Dizem que é o ponto mais ocidental da Europa, embora, a rigor, a ilha se situe já na placa tectónica americana. Quando se vira à direita, por assim dizer, apanhando o barco Ariel, vai-se dar ao Corvo. Esse sim, seguramente, um dos pontos mais remotos do mundo. Longe de tudo, menos de si próprio, e da vizinha Flores, com a qual, em tempos que já lá vão, comunicava com sinais de fumo: duas fumaradas quando precisavam de um médico, três quando precisavam de um padre.
O Corvo está agora menos isolado. Há um aeroporto que é quase do tamanho da vila e barcos diários. Ainda assim, quando o Inverno aperta, o mar se balança em fúria e as nuvens descem à terra, não há barco que se desafie à travessia nem avião que arrisque a aterragem.
A ilha tem pouco mais de 400 habitantes, todos vivem na Vila do Corvo. Segundo me foi garantido, não há um único eremita, um aventureiro que seja, que se disponha a viver na montanha. As casas que lá existem servem apenas de apoio à agricultura. A terra é fértil e há uma enorme densidade de vacas. A ilha é curta. Atravessa-se a pé ao longo de um dia. Mas há uma carrinha que percorre a única estrada de alcatrão existente, que nos conduz ao sopé da montanha, onde se pode observar um monumento natural de beleza rara: o caldeirão.
De uma das encostas da montanha, a terra é de privados, do outro é pública, quem quiser cultiva ou leva as vacas a pastar. No Corvo há pleno emprego, só pode haver. A crise ali é outra. Se começarmos a contar as pessoas necessárias para o seu funcionamento prático, logo nos sobram os dedos. Ali há Correios, Polícia, Escola, Junta, Café, Mini Mercado, Igreja, Hotel, Bombeiros…
Também há televisão e rede no telemóvel. O senhor simpático, de bigode farto, que me conduz pela curta estrada da ilha, servindo também de guia turístico das pequenas coisas, leva no auto-rádio da carrinha uma espécie de pen. Explica-me que é um leitor de MP3 e que, naturalmente, serve para ouvir música. O mundo e o fim do mundo tornam-se cada vez mais próximos.

Terça-feira, 25 de Agosto de 2009

Nas Bancas!

JL 1015

De 26 de Agosto a 8 de Setembro

Alice Vieira do outro lado do espelho
Entrevista de Maria Leonor Nunes e texto de Ana Margarida Ramos

PEPETELA: O PESO DAS PALAVRAS
Escrita, Angola, crise, ganância, ética, Universidade e outros tópicos, num texto do Prémio Camões.
O Planalto e a Estepe lido por Pires Laranjeira

Raul Solnado (1929-2009)
Textos de Leonor Xavier, Millor Fernandes e poema de Manuel A. Valente

Tiago Gomes : Um apóstolo das artes
Figura e crítica ao livro e ao disco

Art Deco em Serralves e no CCB

O elogio da política, por Mário Soares

Allgosto, a crónica de Helder Macedo

A autobiografia de Isabel Fraga

JL/Educação
: Ana Maria Bettencourt, a nova presidente do CNE e entrevista a Fernando Catroga

Camões • Agenda Cultural

Quarta-feira, 29 de Julho de 2009

Nas bancas!

Mia Couto
Pela Estrada Fora
De Tavira a Chaves, durante dez dias, o escritor andou pelo país a conversar com os leitores sobre o seu novo romance, Jesusalém. O JL acompanhou-o e conta tudo sobre o Mia on the road. Reportagem e entrevista de Luís Ricardo Duarte • Depoimentos de Luandino Vieira, Ondjaki e Zeferino Coelho • Crítica ao livro por Pires Laranjeira

O Homem na Lua, 40 anos depois
Crónicas de Álvaro Manuel Machado, Amadeu Lopes Sabino, José Saramago, José Carlos de Vasconcelos e Viriato Soromenho-Marques

Entrevistas: Estevão de Moura, os novos projectos da Imprensa Nacional, e João de Melo, o espaço em volta
Figura: António Pinto da França, os contos do embaixador

Letras: Rui Cardoso Martins lido por Miguel Real

Artes: Júlio Pomar: os caminhos da pintura, por Rocha de Sousa, e Laborinho Lúcio escreve sobre Ruy de Carvalho

Crónica: Troca de segredos, por Helder Macedo

A autobiografia de Mário Barradas

Suplemento Camões

Agenda Cultural