segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Tachos & refogados

Era uma vez um fotógrafo (escapa-me o nome), que, questionado por um jornalista sobre lentes & objectivas, respondeu assim: «Já perguntou ao Hemingway qual a máquina de escrever em que ele escreve os seus romances?» Está de ver que esta história é antiga – as máquinas de escrever foram substituídas pelos computadores, hoje pau para toda a obra. De tal modo que, há dias, colado num poste, junto a uma paragem do 9, em Campo de Ourique, deparei com um anúncio, daqueles espontâneos, que dizia como segue: «Procurasse apartamento pequeno…»
Escrito em computador (corpo 18, caixa alta, bold, Garamond, a preto e magenta), com chamativos floreados gráficos, era uma obra de arte, o anúncio, mas… Mas, havia nele aquele pequeno «procurasse» que deveras me incomodou. Vai daí, aproveitando a calada da noite, a ausência de pessoas na paragem e da Polícia por perto, eu, num gesto rápido, rapei da bic (ainda as trago comigo – sou um dinossauro) e zás: risquei o primeiro «s» do «procurasse» e, em seu lugar, rabisquei um hífen («-»), transformando o «procurasse» em «procura-se». Após o que, a pé (não esperei pelo autocarro), discreto, dei às de vila-diogo, não fosse alguém topar-me. Talvez ninguém me tivesse visto, mas, pelo sim, pelo não, pirei-me, tal como, outrora, ladino, me sabia pirar depois de meter nas caixas do correio múltiplos «Viva a Liberdade!» (escritos à máquina). Em suma, aquele «procura-se» versus «procurasse» fez-me sentir outra vez jovem, insubmisso, subversivo, eficaz.
Quase tão eficaz como o nosso primeiro-ministro José Sócrates (oxalá o próximo se chame Voltaire – José Voltaire – para, em Portugal, à evocação da maiêutica suceder a da tolerância). Quase tão eficaz com o nosso primeiro-ministro – dizia eu –, que tem andado pelo país a distribuir computadores, numa de choque tecnológico. E muito bem! Só que… Só que eu estava tentado a sugerir-lhe que, já agora, acopladas a cada computador, ele distribuísse umas tantas gramáticas. Sabe Vossa Senhoria porquê? Porque, quando eu, em miúdo, atraído pelo cheiros e antegozando os sabores, metia o bedelho na cozinha, minha mãe corria comigo de lá, dizendo-me assim: «Aprende a fazer o refogado, que depois mexes no tacho.»

1 comentários:

Mónica disse...

como se aprende a fazer refogado sem mexer no tacho?