Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Morreu Pina Bausch



Simples, convencional, óbvia - nenhuma destas palavras se aplica à coreógrafa Pina Bausch. Sempre de cigarro na mão, este ícone da dança era descrito pelos seus próprios bailarinos como "obssessiva". Ela dizia que nunca desistia.

Começou como bailarina na Alemanha, seu país natal, com 15 anos. Mais tarde, partiu para Nova Iorque, onde estudou dança na prestigiada Juilliard School. Provavelmente, aprendeu todas as regras com perfeição para as quebrar repetidamente. Nos anos 70, as suas coreografias romperam com tudo o que se fazia na altura, reinterpretando (reinventando?) o conceito de dança-teatro. Com 33 anos, foi convidada para dirigir o Wuppertaler Tanztheater, que se transformou no Tanztheater Wuppertaler Pina Bausch. Dançar nesta companhia era fazer parte da coreografia, criar em conjunto com uma coreógrafa que tinha nos próprios bailarinos a sua inspiração. Foi com esses bailarinos-musos que se apresentou várias vezes em Portugal, a última das quais o ano passado.

Segundo o site da companhia, Pina Bausch descobriu que tinha cancro há cinco dias. Morreu hoje de manhã no hospital inesperadamente, com 68 anos. Por cima deste texto, deixamos uma amostra de Café Müller, a única coreografia sua que interpretou.

Um crítico de dança alemão descreveu a sua filosofia de dança como "a interpretação da alma e a batalha dos sexos". A interpretação da alma e nada menos que isso. Foi esta filosofia, as histórias e ambientes que inventou inspirados num universo surrealista, ao som de música inesperada (até Caetano Veloso) e, principalmente, os movimentos complexos, homicidas do óbvio, arriscados até roçar a estranheza que fizeram dela uma revolucionária da dança contemporânea.

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Festival de Mérida

«Queremos dar um novo impulso, um novo alento, um olhar contemporâneo ao teatro clássico. Por isso escolhemos a palavra Fogo! para ilustrar a 55.ª edição do Festival de Mérida. Das cinzas poderão nascer as mais belas fenix», afirma Francisco Soares, director do festival na apresentação à imprensa que fez recentemente em Lisboa. O festival abre amanhã, sábado, 27, no Teatro Romano de Mérida com uma gala de onde soará a Sinfonia n.º 1, em Ré M, 'Titan', de Gustav Mahler e se poderá ver O rapto de Proserpina, com dramaturgia e direcção de Leandre Escamilla e Manuel Vilanova, pela Companhia Xarxa Teatre. Fedra, de Eurípedes, com direcção de Miguel Narros - «quisemos muito trabalhar com ele, antes que se reforme», afirma, entre risos, Francisco Soares - sobe ao palco do Teatro Romano, numa versão flamenca onde participam os bailarinos Lola Greco, Amador Rojas, Alejandro Granados e Carmelilla Montoya (de 1 a 5 de Julho). Na programação não podia faltar «o bardo Shakespeare». Tito Andrónico foi o espectáculo escolhido e conta com a direcção de Andrés Lima (8 a 12). Considerado um dos melhores cómicos de Espanha, Rafaek Álvarez 'El Brujo' apresenta a criação El Evangelio de San Juan, onde o contacto com o público é a principal pedra de toque (15 a 19). De risos também se faz o espectáculo Os gémeos, de Platão, com direcção de Tamzin Townsend, e as interpretações de, entre outros, Marcial Álvarez e Jesús Noguero (29 de Julho, a 2 de Agosto e de 5 a 9 de Agosto) . A dança também não foi esquecida e Diana y Acteón - pas de deux de Marius Petipá, pelo Corella Ballet Castillha y León, conta com os passos do primeiro bailarino Ángel Corella, entre outros (23 a 25). Todos os espectáculos são às 23 horas. Esta 55.ª edição estende-se até 30 de Agosto - com outras peças a que iremos dando destaque. Muito tempo para descobrir que Mérida não está assim tão longe...
FOTO: Fedra, de Eurípedes, na versão de Miguel Narros

Michael Jackson:apenas os negros dançam assim




Michael Jackson é uma das personagens mais fascinantes da história da cultura popular e merece ser estudado a nível artístico, sociológico, antropológico, racial, mercantilístico, genético, entre muitas outras perspectivas que vão muito além da minha competência. Musicalmente, considero-o pouco estimulante. Mas tal é apenas um pormenor. E não preciso de gostar de tenis para reconhecer o talento de Roger Federer. Quando se ouve Billie Jean o talento salta à vista. E salta literalmente à vista, porque as imagens são soberbas. Uma coreografia fora-de-série colmatada com o famoso passo Moon Walk, que o próprio inventou.
Quer se queira quer não, quer se goste quer não, Michael Jackson tem um lugar na história da música pop e da cultura popular. Por inúmeros motivos. Foi o mais prodigioso menino-prodígio da música negra. Thriller é o álbum mais vendido de todos os tempos – e dada a crise e a baixa de vendas de discos tão cedo ninguém superará o record. Foi também o primeiro negro com teledisco na MTV. E, de alguma forma, com Thriller, revolucionou o conceito de teledisco, tornando-o, de forma vanguardista, não só numa importante ferramenta de marketing, mas também um objecto com pretensões artísticas.
Curiosamente, este homem, que fez com que muitos brancos quisessem ser negros, quis ele próprio tornar-se branco, num insano desafio genético. Transformou-se num monstro, mais assustador do que a personagem interpretada em Thriller. Mas, mais grave do que essa questão estética, revelou um intolerável preconceito racial, ofensivo para toda a comunidade afro-americana (e a humanidade em geral), o que talvez seja a atitude mais imperdoável da sua história. E estou certo de que se ele tivesse nascido branco não saberia dançar assim.

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Morreu Michael Jackson


Notícia de última hora: Michael Jackson morreu aos 50 anos, vítima de paragem cardíaca.
Ler mais aqui


Quem não falece?

Rústicos pelo Epicurismo, dos Gato Fedorento




Os Gato Fedorento não são músicos. Mas ao longo de alguns meses produziram os seus próprios telediscos (música de Armando Teixeira), no Zé Carlos, série marcante da televisão portuguesa. Esses telediscos, agora lançados em CD e DVD, contêm algumas pérolas de humor musical. O meu preferido é logo o primeiro, apresentado pelos Rústicos pelo epicurismo. Com uma influência directa dos Monty Python, respondem à questão: Qual é o sentido da vida? (A resposta é fácil: nenhum). E cantam alegremente sobre a morte, como o refrão: «Nós vamos todos falecer!». Ricardo Araújo Pereira disse certa vez numa entrevista que se pode brincar com tudo menos com o sagrado. Agora tudo depende do que é sagrado para cada um. Aqui, abalançam-se sobre um dos maiores tabus da humanidade de forma seca e improvável. Se há coisa na vida que não tem graça é a morte. Mas aqui rimo-nos da nossa condição humana e da crueldade realista das palavras cantadas. Um exorcismo inteligentíssimo e quase chocante… em nome da vida.

Lembra-te de comer bem,
Bober também
E rir com vontade.
Mas melhor do que isto até
É praticar a se-xualidade.

Não percas tempo na estrada,
Não serve para nada,
Evita as filas.
Arranja uma boa mulher
Ou um gajo qualquer,
Se fores larilas.

(Sabes porquê? PorqueÂ…)
Nós vamos todos falecer,
Patinar, bater as botas.
Eu vou esticar o pernil,
Conviver com as minhocas.

Tu vais fechar a pestana
E fazer para sempre ó-ó.
Nós vamos passar a ser húmus,
Que é uma espécie de cocó.

Prova o morango e a romã,
A uva, a maçã,
O figo e a cereja.
O mundo tem lindas cores
E belos odores,
Menos em Estarreja.

Tenta por todos os meios
Viver sem receios,
Não há que temer.
Quer tenhas ou não tenhas medo,
Mais tarde ou mais cedo tu vais falecer

Nós vamos todos falecer,
(Eu não vou! Olha que vais!)
Patinar, bater as botas.
Eu vou esticar o pernil,
Conviver com as minhocas.

Tu vais fechar a pestana
E fazer para sempre ó-ó.
Nós vamos passar a ser húmus,
Que é uma espécie de cocó.

Expirar, falecer, extinguir, apagar,
Cessar, fenecer, esvair, patinar,
Morrer, acabar, definhar, concluir,
Perecer, terminar, descansar, sucumbir.
(Estava a brincar!)

Nós vamos todos falecer,
Patinar, bater as botas.
Eu vou esticar o pernil,
Conviver com as minhocas.

Tu vais fechar a pestana
E fazer para sempre ó-ó.
Nós vamos passar a ser húmus,
Que é uma espécie de cocó,

Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

Porque na noite terrena...

«Elas e as coisas delas/ as histórias delas/ as fotografias/ aquelas coisas que elas tinham/ mesmo que contar/ elas e as suas coisas mínimas/ nós e elas frente a frente e a falta de/ coisas para dizer/ o chegar demasiado tarde/ demasiado cedo/ tudo demasiado/ aquela vez em que chegámos finalmente a tempo/ e tu não estavas lá/ os teus restos espalhados pelo chão da cozinha/ Oh, como te dilacerámos», palavras de Porque na noite terrena sou mais fiel que um cão, a 11.ª criação do Teatro do Vestido, em cena no Teatro da Comuna, em Lisboa, até 27 de Junho (sempre às 22 horas). Tendo como ponto de partida a obra de três poetisas – Elizabeth Bishop, Marina Tsvietaieva, Margaret Atwood – a peça assume-se como a procura da expressão «a partir de», colocando em cena três personagens em confronto entre si, consigo próprias e com as três poetisas. A direcção é de Joana Craveiro, que também assina textos, tal como Inês Rosado, Rosinda Costa e Tânia Guerreiro – que interpretam.

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Este tempo também é dela

Este tempo também é dela é uma homenagem a Constança Capdeville, em formato de recriação, que sobe ao palco do Jardim de Inverno, do Teatro São Luiz, em Lisboa, hoje, sexta-feira, 19 e amanhã, sábado, 20, sempre às 22 horas.
Uma das mais marcantes figuras da música portuguesa contemporânea é revisitada na apresentação de uma das suas obras de teatro musical: Wom Wom Cathy. Paralelamente a esta recriação, Pedro Moreira compõe para a primeira parte do espectáculo um original a partir do imaginário da compositora. O espectáculo volta a reunir o ColecViva, grupo de teatro musical, fundado por Constança Capdeville, nos anos 80.
A direcção do projecto está a cargo de Nuno Vieira de Almeida, a cenografia e os figurinos são de José Fragateiro. Com António Sousa Dias, Carlos Martins, João Natividade, Joana Manuel, Luís Madureira, Manuel Cintra, Nuno Vieira de Almeida e Pedro Wallenstein.

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

Próximo Futuro na Gulbenkian

Música, cinema, instalações ao ar livre e encontros gastronómicos são algumas das propostas do Programa Gulbenkian Próximo Futuro, que arranca sábado, 20, às 21 e 30, com um concerto pela Orquestra Gulbenkian, no anfiteatro ao ar livre da Fundação. Sob direcção do maestro Osvaldo Ferreira, poderão ouvir-se peças de George Gershwin, Heitor Villa-Lobos, Aaron Copland ou Astor Piazzola. A partir deste dia estarão instalados no jardim toldos que formam um ‘passeio de sombra’ e que têm inscritos poemas de autores de vários pontos do globo, dos clássicos aos contemporâneos. Safo, Jorge Luis Borges, Sophia de Mello Breyner Andresen ou Philip Larkin foram alguns dos escritores escolhidos. Também para o fim-de-semana, a 21, às 19, está marcado o concerto Sublime Frequencies: Group Doueh e Omar Souleyman, com sonoridades do Sahara Ocidental e da Síria. O concerto é antecedido por uma sessão de DJs, na esplanada do jardim, e uma projecção de filmes no Centro de Arte Moderna (CAM), a partir das 17 horas, ambas com entrada livre.
O Próximo Futuro é um programa que se dedica à investigação e criação artística na Europa, na América Latina, nas Caraíbas e em África, que a Gulbenkian desenvolve até ao fim de 2011, dirigido por Emílio Rui Vilar e comissariado por António Pinto Ribeiro. Ainda nesta quinzena, a 23, às 18 e 30, no CAM, conferência (com entrada livre) do ensaísta, curador e crítico de arte Nicolas Bourriaud que apresenta o conceito de «altermodernidade». O cinema é outra das apostas do Próximo Futuro, que apresenta no anfiteatro ao ar livre, até 10 de Julho, 11 filmes. A 24, serão projectados Afrique-sur-Seine, de Paulin Soumanov Vieyra e Casa de Lava, de Pedro Costa. A 25, passa Passaporte Húngaro, da realizadora brasileira Sandra Kogut, e a 26, Orfeu Negro, de Marcel Camus. Todas as sessões começam às 22 horas.
The New Electric High Life, por A. J. Holmes é o concerto que chega da Grã-Bretanha e que se pode ouvir a 27, às 21 e 30; da Argentina vêm os sons de Dema y su Orquestra Petitera, a 28, às 19. Mas nem só de cinema e música se faz o futuro e os chefes de cozinha Miguel Castro Silva e José Avillez apresentam uma série de encontros gastronómicos que podem ser saboreados na cafetaria do Museu Gulbenkian.
FOTO: Os argentinos Dema y su Orquestra Petitera

O milagre aerodinâmico


Voei até Londres naquela que é, segundo dizem, uma das piores companhias aéreas do mundo ocidental (as linhas aéreas do Burkina Faso e a Air Namíbia batem-na aos pontos). É tão económica que os bilhetes às vezes até são de graça (pagam-se apenas as taxas), mas tudo é pretexto para cobrar uns euros. Vinte por cada mala, 10 pela bagagem de mão, 15 por cada quilo a mais, cinco para entrar primeiro no avião. Não há lugares marcados. Por isso, lá dentro, as pessoas (na maioria ingleses daqueles que vão para o Algarve) acotovelam-se para assegurar um lugar à janela. O pessoal de bordo, os mais antipáticos escolhidos a dedo, querem lá saber se as famílias vão separadas, ou se uma criança de quatro anos tem que viajar sozinha, porque não há espaço ao lado da mãe. É uma espécie de autocarro da Carris onde toda a gente tem que ir sentada. Os bancos não se reclinam, uma garrafa de água custa dois euros e pelo caminho vendem uma espécie de lotaria, alegando que é para fins humanitários. O Aeroporto de Stansted (pequenino e jeitozinho) é dos que fica mais longe da cidade. É como um lisboeta ir apanhar o avião a Leiria. Ou um portuense fazê-lo em Coimbra. A propósito, eu que moro em Lisboa, apanhei-o em Faro, mas isso já não é culpa da companhia. Quando, finalmente, já não sei quantas horas depois, cheguei, concluí: os melhores aviões são aqueles que não caem.
Mesmo num voo da Ryan Air, onde as parecenças com um autocarro nos distraem, há sempre uma grande tensão entre os passageiros, principalmente na descolagem e aterragem. Já não se fazem toilettes para o passeio como outrora e a solenidade do voo desgastou-se pela recorrência, mas há sempre uma comichão na barriga que se reflecte nos olhares, significativamente diferente de quando se entra num comboio, barco ou camioneta, apesar de, nestes outros meios, os acidentes serem mais vulgares. É natural: para leigos, como eu, um monstro daqueles conseguir voar sem bater as asas parece, ainda hoje, um milagre aerodinâmico. Uma experiência suprema, em que, de forma arrogante e radical, o homem desafia os limites que a gravidade lhe impôs.
O resto já se sabe: os aviões caem, os barcos naufragam e os comboios descarrilam. Estas são apenas algumas das formas mais espectaculares de morrer. Outra, mais triste, é deitado numa cama de hospital. Agora escolham. Viver para sempre não está no menu.


Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

O dever da indignação

Nunca compreendi as virtudes da neutralidade, talvez por isso ainda não tenha visitado as Suíças deste mundo. Nos tempos em que as mães portuguesas agradeciam a Salazar o alegado esforço diplomático deste para manter o país fora da II Guerra Mundial, Miguel Torga (nas páginas do seu Diário) era uma das poucas vozes que se insurgia contra esta posição, não hesitando em qualificá-la de cobarde contemplação da desgraça dos outros. A seus olhos, nada, nem sequer a penúria militar do país, justificava tão obstinado encolher de ombros ante a barbárie que se desenrolava aqui ao lado.
Num filme ainda em exibição – No Limite do Amor, de John Maybury – é a não intervenção de Dylan Thomas (na foto), também durante a II Guerra Mundial, que é questionada. Objector de consciência, o poeta ficou em Londres a emprestar eloquência a textos de propaganda patriótica e a discutir política com ocioso cinismo. O argumento do filme relaciona esta escolha com posteriores actos de cobardia de Thomas, mas, embora se possa achar a ligação abusiva, a opção de ficar em Londres, vestido como um dandy enquanto os seus compatriotas repeliam, com enorme custo, a invasão nazi, macula-lhe a biografia.
Felizmente, nem todos se permitem tão decepcionantes incoerências. José Saramago, por exemplo, não se demite de intervir social e politicamente sempre que a ocasião o reclama. Mais do que o direito à indignação, o escritor sente a intervenção pública como o dever de quem sabe que, por mérito próprio, se tornou uma voz escutada. Enquanto a União Europeia, entre a complacência e o embaraço, se ri da boçalidade de Sílvio Berlusconi, o Nobel português denuncia o modo selvático como o italiano ameaça as liberdades e direitos do indivíduo e, por arrasto, a História e Cultura. «Esta coisa, esta doença, este vírus ameaça ser a causa da morte moral do país se um vómito profundo não conseguir arrancá-lo da consciência dos italianos antes que o veneno acabe corroendo as veias e destruindo o coração de uma das mais ricas culturas europeias», escreveu no El Pais. Assim mesmo, sem pruridos nem cuidados. Não estamos em tempo para eles.

Terça-feira, 16 de Junho de 2009

Amanhã nas Bancas

JL 1010

de 17 a 30 de Junho

José António Pinto Ribeiro:A língua da Cultura
• O Acordo Ortográfico • A defesa do Português • O Instituto Camões • O futuro da Cinemateca • A reabilitação do Património • Os novos Museus e outros temas em entrevista com o ministro da Cultura

Eduardo Lourenço: Inédito(s)
Páginas do Diário • Carta melancólica aos leitores jovens do nosso País • Correspondência com Agustina

Arménio Vieira: Um inesperado Prémio Camões
Entrevista • Textos de Pires Laranjeira e Inocência Mata • Poemas inéditos

Teresa Villaverde escreve sobre Leite Derramado, de Chico Buarque

O novo romance de Mia Couto

A Correspondência de Eça em debate

Glória de Sant'Ana (1925-2009), por Eugénio Lisboa

José Sasportes: O centenário dos Ballets Russes

A autobiografia de Rui Nunes

Sábado, 6 de Junho de 2009

Para uma arqueologia da nudez

Por Vítor Oliveira Jorge





A nudez atrai? A nudez nunca é nua (ou seja, como tal não existe): o corpo sem roupas continua a ser um universo de signos. O próprio facto de um corpo se apresentar sem roupa é um trazer para a frente violento de um conjunto de signos, não os que estavam tapados (e que por só podermos entrevê-los ou adivinhá-los "funcionavam" de outra maneira), mas evidentemente os que são criados por esse destapamento. É o próprio destapamento, o seu movimento, ou intenção imaginada de tal acto acontecer, que desponta eventualmente o interesse. Um corpo desnudado não é uma verdade desvelada, é um outro tipo de encenação. Claro. Por isso o corpo do naturista, o corpo erótico e o corpo pornográfico (entre múltiplos) são coisas totalmente diferentes. Uma mulher que amamenta em público tira aos seus seios qualquer pregnância erótica, por exemplo - eis uma banalíssima ideia. E no entanto, tudo depende de quem e como olha para ela, nessa sobre-exposição de si.Não existe uma realidade feminina, existem mulheres, cada qual diferente da outra.Por isso não tem sentido por exemplo perguntar: por que atrai a nudez feminina?O que seduz é o jogo das permutações e metamorfoses, sobretudo se forem sustentadas, isto é, se uma pessoa tiver algo para além dela que valha mais que ela: é esse o foco da sedução. A sedução é uma força, num certo sentido produz-se, mas a maior parte das vezes esfarela-se no ar: não há ninguém que se deixe seduzir por aquilo que alguém pensou, sentiu, intuíu ser irresistível.A parafernália dos arranjos femininos, no seu sentido corrente (moda, roupas, sapatos, maquillage, cabeleireira, etc) sempre me fez um bocado de impressão: para quê tanto adereço em cima de algo que podia ser sedutor num sentido mais económico?... pois se uma simples reflexão genuína ou um evanescente gesto são o que nos prende e seduz... de uma forma tão subtil e fina! O mesmo à medida que observo o masculino e os seus tiques e arranjos. E quando passamos para as trans-sexualidades, bi-sexualidades, homosexualidades, fenómenos tão comuns, a estranheza (não repulsa nem menor consideração) acentua-se: é uma catadupa de máscaras, de enigmas. Não estou com isto a naturalizar a heterossexualidade e a considerar os outros fenómenos marginais; longe disso. Faz tudo parte da panóplia estranha do humano.Qual, apesar de tudo, o meu modelo de uma nudez feminina? Não tenho, é impossível definir, precisamente, tal generalidade: há uma textura e uma movimentação físicas que são algo de enigmaticamente atraente quando se apresentam desprovidas de artifícios demasiado evidentes. É no disfarce dos artifícios que está a performance perfeita, quando o artificial se cola à imagem espontânea, quando o longamente fabricado se apresenta como nu de fabricações e artificialidades: na pura presença do seu oferecimento. Mas, tal como na banal performance, ela tem sempre de ter um grão ou ruído, uma falha, um "pequeno objecto a" por onde se insinua a nossa atenção desejante. A performance perfeita é a da máquina, ou do monumento: esfria, assusta, torna impotente. Ora o acto de alguém se entregar a outra pessoa/ corpo, a essa mistura do abismo, é sempre muito complicado, é, como toda a decisão, uma loucura. Também da parte do masculino (pelo menos do masculino heterossexual em relação ao feminino do mesmo "tipo") todo o cuidado é pouco, porque qualquer objectificação do (a) outro(a) pode conduzir ao falhanço, à sobreposição da vigilância relativamente à imersão: eu não posso deitar-me ao abismo e ao mesmo tempo ficar na margem a ver-me cair. Mas isso acontece. E no homem não há modo de disfarce: não se pode encenar credivelmente um orgasmo, para ir à crueza das coisas! De modo que neste campo as mulheres têm um poder enorme.Tudo isto é complicado, e longe, bem longe, da maquínica congeminação médica ou sexológica. Um corpo nu é em princípio um evento, porque não há em geral nudez ou semi-nudez pública, excepto em certos locais designados. Mas um evento que pode ser uma catástrofe. E é dessa catástrofe, mais até do que da contaminação (esquecida lamentavelmente na nossa loucura) que temos medo, ao aproximar-nos de outrem sob a forma de corpo: que nos irá esperar? Quem (o quê) se nos entrega assim sob a forma do mais disfarçado desamparo? Quem come quem? Quem deglute quem? Este é o jogo social todo, nos seus extremos. Um jogo de poder, como sabemos há tanto tempo, dentro de uma sala forrada de espelhos, incluindo tecto e chão.




O arqueólogo Vítor Oliveira Jorge assina esta crónica mensal no Blogue de Letras

Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

Engenheiros do tempo desconhecido



Um conjunto de filmes em 35 milímetros, com propostas para uma ciência alternativa e revolucionária, dão corpo à exposição que João Maria Gusmão e Pedro Paiva levam à Bienal de Veneza, este ano dedicada ao tema Fazer Mundos. Trata-se da representação oficial portuguesa, patente ao público no Pavilhão da Fundação dell'Arte, entre os dias 7 de Junho e 22 de Novembro, com inauguração marcada para hoje, sexta-feira, 5.
Esta presença de João Maria Gusmão e Pedro Paiva numa das maiores iniciativas do circuito das artes plásticas é o coroar de uma crescente visibilidade internacional, confirmada pelas inúmeras mostras que apresentaram, nos últimos dois anos, em vários pontos do mundo. Experiências e Observações em Diferentes Tipos de Ar surge na sequência do projecto Abissologia, exibido na Cordoaria Nacional e na Mina Campina de Cima, em Loulé. Mantendo os mesmos pressupostos teóricos e artísticos, esta exposição convoca três dimensões, segundo o comissário Natxo Checa: «O estudo de fenómenos singulares numa tentativa de compreensão do mundo; a afeição a uma metodologia científica; e o entendimento da poesia como possibilidade de aferição de um mundo apenas parcialmente discernível». É a habitual apetência da dupla para a criação de um novo conhecimento, fundado na tradição científica e literária.
Neste caso, os artistas, nascidos em Lisboa, em 1979 e 1977, respectivamente, recuperam o dilema entre a tese de Antoine Lavoisier e a de Joseph Priestley acerca da natureza do oxigénio. De resto, o título da mostra recupera o tratado homónimo de Priestley, associando-o a uma leitura poética na busca da essência da «transmutação». «Estamos perante a construção de uma série de guiões ficcionais, de perfil literário, enraizados na observação de fenómenos particulares e no desenho de uma arquitectura filosófica própria», afirma Naxto Checa. «As propostas de João Maria Gusmão e Pedro Paiva, assentes num certo tipo de pesquisa empírica ou na especulação delirante, surgem a partir de um método racionalista que procura dar conta da excepção dos fenómenos. Mediante a sobreposição de estratos (fruto da penetração entre o literal e o metafórico), elaboram-se, ao longo da sua obra, relatos que não podem ser assumidos por um código instituído, lembrando, muitas vezes, uma compilação de factos documentados sem aparente explicação.»
É sobre este substrato teórico, criado por estes engenheiros do tempo desconhecido (aquele que a história e os vencedores não confirmaram), que assentam as obras de João Maria Gusmão e Pedro Paiva. Filmes na sua maioria, mas também instalações e fotografias, que evocam o processo que os artistas desenvolveram na criação desta ciência alternativa, que deve mais ao humor e à ironia do que ao rigor. Pois são efabulações artísticas e estéticas, em torno do invisível, do instável e do efémero. A perene matéria-prima da arte.

Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

A outra face do Facebook


«A cerimónia seria muito mais grandiosa se, em vez de levarem a N.ª Sr.ª Fátima ao Cristo-Rei, levassem o Cristo-Rei a Fátima.». Foi um post, até com alguma graça, colocado no Facebook, a propósito das comemorações do cinquentenário daquele monumento, inspirado no redentor do Rio de Janeiro, erigido para cumprir uma promessa: de afastar Portugal da II Guerra Mundial. E a história do post ficaria por aqui. Porque além de ter graça é totalmente verdadeiro: efectivamente, a festa seria muito mais grandiosa e o Cristo-Rei não faria mais do que retribuir a visita que a estátua original da Nossa Senhora de Fátima lhe fez, quando foi colocada a primeira pedra.
Contudo, alguém fez uma denúncia (talvez a própria Fátima), não a esse post, mas a um comentário que dizia: «Fátima! dá cá um abraço... venham daí esses ossos, mulher de deus!». Resultado: o utilizador ficou inibido de acrescentar amigos à sua lista. O que é um castigo severo para os facebookers. Eu conheço meia-dúzia de padres que ririam em alta-voz da graçola. E desconfio que os mais rígidos e ortodoxos, como o actual Papa, não pediriam a excomunhão por tão pouco. Até porque, à parte da piada ser inofensiva, Fátima, obviamente, não faz parte dos dogmas da Igreja. Não obstante, houve alguém sem graça (nem sequer divina) que se sentiu insultado e acusou este meu amigo aos administradores do condomínio. E os administradores fizeram jus à sua fama ultra-conservadora e aplicaram-lhe uma condenação sumária. Aplica-se literalmente o conselho: é preciso ter cuidado como os amigos que se escolhem. E também o outro: com amigos destes…
É tempo de parar para pensar: quem são estas pessoas que nos impõem as mais arbitrárias regras? Estes moralistas de meia-tigela que nos cortam o piu a troco de nada? Como lhes fomos dar o poder de nos controlar? Que direito tem uma plataforma destas de fazer condenações sumárias e aplicar penas por delito de opinião?
A Internet é um mundo sem regras, uma espécie de faroeste em que cada um faz o que lhe apetece. Quando um blogger insulta explicitamente alguém, por pura calúnia, accionam-se os meios ineficazes. Passado algum tempo podem fechar o site, mas nada inibe o blogger de abrir outro, duas páginas ao lado. Mas, enquanto reina este desgoverno, há uns xerifes moralistas, que se esforçam por ditar as suas próprias leis. E as pessoas, sem querer, deixam-se dominar por esta selva ideológica, perigosíssima, e muitas vezes escamoteando organizações extremistas. Quem se esconde por trás do livros dos rostos?

O homem do tanque


Ele está ali. Camisa branca. Calças azuis. Um saco na mão esquerda. A esperança em todo o corpo, a ilusão de um dia melhor, de um futuro diferente, de uma China tolerante. Ele está ali. Sozinho e destemido. Quatro tanques à sua frente. A carne contra o metal. Os ossos contra o aço. A coragem contra a força. A determinação contra a incerteza. A vida contra a morte.
Ele está ali, por pouco tempo, mas tempo suficiente para fazer tremer um regime. Tempo suficiente para o tanque militar que o ameaça começar a guinar, virar para a esquerda e para a direita, qual barata tonta sem saber o que fazer. Um homem em Tiananmen, há precisamente 20 anos, que se assinalam amanhã, quinta-feira, 4, um pouco por todo o mundo.
Como todas as imagens, o homem do tanque é alguém que extravasa a sua origem. Já não é só o chinês que luta por uma convicção, que esquece o seu eu e se entrega à Humanidade – são ambíguas as informações que se tem dele, embora se julgue que foi torturado e assassinado poucos dias depois. É daqueles que representam a insubmissão do indivíduo à máquina, ao poder, aos interesses superiores, à intolerância, à crise.
Passados 20 anos, que amanhã se recordam, quem sabe para esquecer poucos dias depois, é irónico ver neste chinês, de camisa branca, calças azuis, humilde e convicto, a representação dos milhares de desempregados que a crise – de dúbios contornos, causas pouco esclarecidas e responsáveis por identificar – atirou para a frente do tanque. Para a corrente do blindado que esmaga quotidianos e rouba esperanças. Porque nessas casas e nessas desgraças não há fotógrafo, nem You Tube para os salvar. Estão votados ao silêncio como o homem do tanque esteve mais tarde, na cela que provavelmente antecedeu o cadafalso.
As imagens são isso mesmo: símbolos. Alarmes para uma realidade que nos é vizinha. Mas símbolos como estes não se encontram nos museus. Fazem parte da arena do dia-a-dia, onde nem todos os tanques – como este, há precisamente 20 anos, em Tiananmen – evitam a morte de uma pessoa.

Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

Colóquio sobre Daniel Faria

E agora sei que ouço as coisas devagar é o título do colóquio de evocação e escuta dedicado ao poeta Daniel Faria, que decorre a 8 e 9 de Junho, no Palacete Viscondes de Balsemão, na Praça de Carlos Alberto, no Porto. «Quando se assinalam os dez anos da morte do poeta reunimos um conjunto de especialistas e leitores privilegiados da obra de Daniel Faria que devolverão, cremos, nas mais diversas vertentes, toda a singularidade e limpidez da sua voz», afirma, ao JL, Constança Carvalho Homem, que com Francisco Fino, Francisco Topa e Joaquim Santos integra a comissão organizadora.
A sessão de abertura, a partir das 10 da manhã, conta com as intervenções de Raul Matos Fernandes, Marques dos Santos e de Francisco Topa. Religiosidade e poesia é a conferência de Fernando Guimarães que se segue. Pedra de Sísifo I, a sessão moderada por Manuel Frias Martins, terá contribuições de Celina Silva, Maria Cristina Santos e João Minhoto Marques. A sessão da tarde – Amarro dois degraus para não subir – será moderada por Rosa Maria Martelo e participam Carlos Nogueira, Marta Afonso e Francisco Saraiva Fino. Às 21 e 30, poderá ouvir-se o recital de poesia A distância que agora nos separa, com Ana Arqueiro, António Durães, Gaspar Queiroz e Sandra Andrade.
No dia 9, pelas 10 da manhã, Joaquim Santos modera Pedra de Sísifo II, com Carlos Moreira Azevedo, Rui Lage e Joana Matos Frias. Ando um pouco acima do chão e Escrevo do lado mais invisível das imagens são as sessões das 11 e 30 e 15 horas, respectivamente. O colóquio encerra com uma mesa-redonda moderada por João Minhoto Marques, com Jorge Reis-Sá, Manuel Frias Martins e Constança Carvalho Homem. O dia longo de Daniel Faria é a leitura encenada que fecha o colóquio, a partir das 18 e 30. Uma encenação de Pedro Manana, que também participa, ainda com Bruno Neiva e Helena Silva.

Nas bancas!

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Camões • Agenda Cultural

Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Nós na Arte

Nós na Arte-Tapeçarias de Portalegre e Arte Contemporânea é a mostra feita em colaboração com a Manufactura de Tapeçarias de Portalegre e o Museu da Tapeçaria de Portalegre-Guy Fino, patente no Museu da Presidência da República, até 31 de Julho.
O projecto expositivo organiza-se ao longo de três núcleos distintos: expõem-se os cartões originais dos artistas plásticos que viram as suas obras reproduzidas, os desenhos de tecelagem e o trabalho final em tapeçaria, com referências ao processo de tecelagem.
Vieira da Silva, Almada Negreiros, Júlio Pomar, Júlio Resende, José de Guimarães, Carlos Botelho, Camarinha, Le Corbusier, Cargaleiro ou Rui Moreira e Rigo são alguns dos artistas representados.