quinta-feira, 4 de junho de 2009

A outra face do Facebook


«A cerimónia seria muito mais grandiosa se, em vez de levarem a N.ª Sr.ª Fátima ao Cristo-Rei, levassem o Cristo-Rei a Fátima.». Foi um post, até com alguma graça, colocado no Facebook, a propósito das comemorações do cinquentenário daquele monumento, inspirado no redentor do Rio de Janeiro, erigido para cumprir uma promessa: de afastar Portugal da II Guerra Mundial. E a história do post ficaria por aqui. Porque além de ter graça é totalmente verdadeiro: efectivamente, a festa seria muito mais grandiosa e o Cristo-Rei não faria mais do que retribuir a visita que a estátua original da Nossa Senhora de Fátima lhe fez, quando foi colocada a primeira pedra.
Contudo, alguém fez uma denúncia (talvez a própria Fátima), não a esse post, mas a um comentário que dizia: «Fátima! dá cá um abraço... venham daí esses ossos, mulher de deus!». Resultado: o utilizador ficou inibido de acrescentar amigos à sua lista. O que é um castigo severo para os facebookers. Eu conheço meia-dúzia de padres que ririam em alta-voz da graçola. E desconfio que os mais rígidos e ortodoxos, como o actual Papa, não pediriam a excomunhão por tão pouco. Até porque, à parte da piada ser inofensiva, Fátima, obviamente, não faz parte dos dogmas da Igreja. Não obstante, houve alguém sem graça (nem sequer divina) que se sentiu insultado e acusou este meu amigo aos administradores do condomínio. E os administradores fizeram jus à sua fama ultra-conservadora e aplicaram-lhe uma condenação sumária. Aplica-se literalmente o conselho: é preciso ter cuidado como os amigos que se escolhem. E também o outro: com amigos destes…
É tempo de parar para pensar: quem são estas pessoas que nos impõem as mais arbitrárias regras? Estes moralistas de meia-tigela que nos cortam o piu a troco de nada? Como lhes fomos dar o poder de nos controlar? Que direito tem uma plataforma destas de fazer condenações sumárias e aplicar penas por delito de opinião?
A Internet é um mundo sem regras, uma espécie de faroeste em que cada um faz o que lhe apetece. Quando um blogger insulta explicitamente alguém, por pura calúnia, accionam-se os meios ineficazes. Passado algum tempo podem fechar o site, mas nada inibe o blogger de abrir outro, duas páginas ao lado. Mas, enquanto reina este desgoverno, há uns xerifes moralistas, que se esforçam por ditar as suas próprias leis. E as pessoas, sem querer, deixam-se dominar por esta selva ideológica, perigosíssima, e muitas vezes escamoteando organizações extremistas. Quem se esconde por trás do livros dos rostos?

2 comentários:

Paulo disse...

caro manuel

o que me parece preocupante não é tanto a regulação a que se está sujeito - que por muito que nos esqueçamos dela, é intrínseca a todas as plataformas sociais da internet e que portanto pressupõe que concordemos tacitamente quer com a sua existência, quer com os mais ou menos disparatdos castigos que nos possa impor - mas que alguém que primeiro se mostro interessado em tornar-se amigo de uma pessoa que na realidade desconhece e que tendo a simples e evidente hipótese de cessar essa electrónica amizade, sinta a necessidade de denunciar um comportamento ou comentário com o qual discorda, sabendo que da denúncia irá resultar uma sanção grave como é a de a outra pessoa deixar de poder fazer comentários ou acrescentar amigos. revanchismo, ressabiamento e incapacidade de lidar com opiniões contrárias à nossa parecem-me essas sim coisas graves numa sociedade que como a nossa viveu durante décadas na sombra dessas como de outras atitudes muito pouco consentâneas com a saudável convivência na mais democrática das comunidades...

paulo guimarães

achau disse...

É isso mesmo, Paulo...