terça-feira, 31 de março de 2009

O génio de Gogol

Os 200 anos do nascimento de Nikolai Gógol vão ser assinalados amanhã, quarta-feira, 1 de Abril, no CCB, em Lisboa, com um conjunto de leituras e uma sessão de cinema. O título da iniciativa, Gógol = 2+2=5, é retirado da biografia que Vladimir Nabokov dedicou ao autor de Almas Mortas: «A arte de Gógol tal como nos é revelada no Capote sugere que as linhas paralelas podem não só encontrar-se, mas até contorcer-se e embrulhar-se da maneira mais extravagante, tal como dois pilares que se reflectem na água e se abandonam às mais loucas contorções provocadas pela ondulação», afirma Nabokov. «O génio de Gógol é precisamente essa ondulação – dois e dois são cinco, e até a sua raiz quadrada».
As leituras de três contos de São Petersburgo, na Sala Almada Negreiros, estão a cargo de Bruno Nogueira (Avenida Névski), às 15, António Pinho Vargas (Diário de um Louco), às 16, Jorge Silva Melo (O Nariz), às 17. Às 18, será exibido O Capote, um filme de Morris Panych, com interpretação de Peter Anderson e música de Schostakovich, baseado na produção original da companhia de teatro canadiana Playhouse.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Blasted Mechanism na Lagoa das Sete Cidades

O novo disco dos portugueses Blasted Mechanism, Mind At Large, será apresentado na Lagoa das Sete Cidades (Açores) no dia 8 de Abril, numa festa que se prolonga por três dias. A banda convida 160 fãs a embarcarem no 'Blasted Fan Plane” e assim poderem conhecer, em primeira mão, o novo álbum, as novas coreografias e vestimentas. Para isso basta adquirir no regime de précompra o dito álbum nas lojas FNAC. O concerto de dia 8 é gratuito para o público em geral.

Bes Photo 2009


André Gomes, Edgar Martins e Luís Palma foram os artistas seleccionados para a 5.ª edição do Bes Photo, que nos últimos anos tem divulgado o que de melhor se faz em Portugal na área da fotografia. Agora, no Museu Berardo, em Lisboa, até 17 de Maio, apresentam-se os trabalhos criados no âmbito da bolsa atribuída por esta iniciativa.
A ideia de transcendência é uma das linhas de força dos trabalhos de André Gomes, bem com a componente narrativa que se estabelece através de uma sequência de imagens, sempre com remissões para a literatura e para o teatro. A paisagem é, por seu turno, um dos temas centrais da obra de Edgar Martins, interpretada num sentido lado, como criação humana ou natural, mas também como exercício estético. Por último, a relação entre a fotografia e a arquitectura é o que mais distingue o percurso de Luís Palma. O vencedor desta 5.ª edição, a anunciar durante a mostra, será escolhido Agnès Sire, Helena Almeida e Paul Wombell.

sexta-feira, 27 de março de 2009

A vanguarda romena

Traçar uma panorâmica do complexo e contraditório fenómeno histórico-cultural da Roménia, fruto das tensões entre tradição e vanguarda, de 1910 a 1950, é o principal objectivo de Cores da Vanguarda. Organizada pelo Instituto Cultural Romeno, a mostra reúne cerca de 70 pinturas, proveniente de nove museus do país. «Partindo do modernismo expressionista e pós-impressionista da primeira década do século XX a exposição revela as experiências simultaneamente traumáticas e utópicas do rescaldo da Primeira Guerra, que explicam a emergência e o desenvolvimento de uma vanguarda local», afirma Erwin Kessler. «Da coabitação e contaminação entre esta vanguarda emergente e uma via mais tradicional, floresceu um puzzle multi-cultural de linguagens divergentes com raízes em tradições distintas mas complementares», acrescenta o comissário da exposição. Arthur Segal, futuro líder do Grupo de Novembro, Marcel Janco, um dos fundadores do movimento Dada, Victor Brauner, representante do surrealista francês, Hans-Marttis Teutsch e M. H. Maxy são alguns dos nomes representados, numa exposição que inclui ainda artistas arménios, alemães, húngaros e judeus. Até porque, como conclui Erwin Kessler, «a contaminação, a rivalidade, a provocação, a imitação, a interpretação, a crítica, ou mesmo a caricatura, consequência deste diálogo inter-cultural, estão na origem do singular modernismo romeno». A mostra, que abre ao público hoje, sexta-feira, 27, no Museu do Chiado, em Lisboa, está patente até 21 de Junho.

quinta-feira, 26 de março de 2009

O peso e a graça

Demandou a luz nas mais cerradas trevas, associando o despojamento dos santos à inteligência de um prodígio. Fosse Simone Weil viva e teria feito 100 anos a 3 de Fevereiro. Mas morreu aos 34, durante a Segunda Guerra Mundial, de uma tuberculose agravada pela sua determinação em partilhar a "sorte" dos prisioneiros de guerra na França ocupada pelos alemães. Não foi um acto de desespero, ditado pela militância política ou pela sua condição de judia não praticante; antes o corolário de uma obra e de uma vida conduzidas "apenas" por um ideal de purificação interior.
Na sua existência, breve e fulgurante, Simone deixou alguns dos trabalhos filosóficos mais importantes do século XX como L'Enracinement ou La Pesanteur et la Grâce, mas recusou sempre a condição de erudita encerrada em torre de marfim. Foi trabalhadora na Renault porque quis conhecer, no terreno, as condições de vida dos operários, convenceu os pais a dar guarida a Trotsky, alistou-se nas fileiras anarco-sindicalistas na Guerra Civil de Espanha e, finalmente, descobriu Deus e o catolicismo para os viver como tudo o mais: sem cálculo nem sentido de auto-preservação. Até ao limite derradeiro.
Na espuma dos meus dias, feita de mil pequenos egoísmos, releio La Pesanteur et la Grâce (edição Plon, embora haja uma boa tradução portuguesa na Relógio d'Água), em busca de um instante de graça que me liberte de tanto peso inútil. Mas o caminho, mesmo que não conduza ao sublime, está coberto de espinhos. Quem será capaz de renunciar tão obstinadamente ao passado e ao futuro, de substituir a imaginação pela disponibilidade total, de não procurar uma compensação para a infelicidade? Penso em todas as cobardias, vaidades, hedonismos, confortos do corpo e da alma, obrigações reais ou consentidas. As minhas, as tuas, as deles. E depois penso em Roberto Saviano, o jornalista autor de Gomorra, que, aos 29 anos, abdicou dos mais elementares gestos quotidianos porque ousou dizer quem são e onde estão os mafiosos de Nápoles. As palavras de Simone Weil adquirem então uma ressonância diferente. A das coisas que nunca deixam ser novas.

Arado, de A. M. Pires Cabral

Arado

I

A mecânica do arado é rudimentar,
clarividente e sóbria. Nada tem
em demasia: o que a função requer
e nada mais.

No perfil eficiente do arado
há qualquer coisa de navalha, qualquer coisa
de falo em riste, em transe de fecundar.

De facto, noutros tempos,
era o arado que rasgava a terra,
fazia dela um ventre aconchegado -
cenário certo para o deflagrar da vida
que vai dentro das sementes.

Isto foi no tempo em que havia agricultura
nos gestos quotidianos dos homens
e das mulheres.

II

O arado ainda está no curral,
encostado a um canto.

Já ninguém o usa, à excepção
das galinhas que se empoleiram nele
quando chega a hora de cismarem.

Por enquanto tem sido poupado ao fogo,
como se no seu futuro estivesse
ainda escrito um último regresso
às genésicas tarefas da lavoura.

Mas ele sabe que nada disso está escrito.
Melancólico, antecipa
a hora da corrosão.

III

Mas o arado perpetua-se em mim.
De facto, em horas de arriscada exaltação,
gosto de pensar nestes versos como sendo
um arado com que rasgo outras terras
mais voláteis e menos aráveis,
e nelas julgo deixar alguma semente.

Pura ilusão.
Nem as tais terras se deixam rasgar
assim facilmente,
nem o meu arado tem vocação de vida.

De modo que retorno ao arado
que de facto arou.

Ei-lo cabisbaixo no quintal.
Não sei de mais lastimosa coisa
do que um arado ferido de desuso,
encostado a um canto,

poleiro improvisado,

pasto de ferrugem e carcoma,

lenha em breve.

Do novo livro de A. M. Pires Cabral, Arado, recém-lançado pela Cotovia.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Laranja Mecânica

Numa obra tão genial como diversificada quanto a de Stanley Kubrick fazer uma escolha torna-se realmente difícil. No inquérito promovido pelo JL houve um equilíbrio notável quase até final. Acabou por vencer o mais impressionante e violento de todos os seus filmes: A Laranja Mecânica (1971). O filme gerou uma polémica imensa aquando da sua estreia e houve quem o acusasse de tudo. Uma coisa é certa, depois deste filme, e do sintetizador de Wendy Carlos, nunca mais se ouviu Beethoven da mesma forma.

A Laranja Mecânica 25
2001 Odisseia no Espaço 21
Shining 10
Dr. Estranho Amor 9
De Olhos bem Fechados 8

Nas bancas!


Maria Teresa Horta: Palavra(s) de Mulher

Os livros de Poesia Reunida revisitados, um a um, pela autora • Textos de Ana Luísa Amaral, Ana Marques Gastão, António Carlos Cortez, António Chagas Rosa, Gastão Cruz e Teresa Sousa de Almeida

Filipe Duarte Santos: Clima, Ambiente e Desenvolvimento

Entrevista e perfil

Biblioteca, a nova coluna de Gonçalo M. Tavares

Figura: Joana Carneiro, uma maestrina feliz

Entrevista: A Ofensa, segundo Ricardo Menéndez Salmón

Pré-publicações: Ruy Duarte de Carvalho e Fernando Pinto do Amaral falam dos seus novos livros

Reler Nuno Bragança, por Guilherme d’Oliveira Martins

A exposição de Cruzeiro Seixas

As Crónicas de Onésimo e José Luís Peixoto

A autobiografia de Luiz António Assis Brasil

Agenda Cultural

terça-feira, 24 de março de 2009

Gonçalo M. Tavares colunista do JL

Gonçalo M. Tavares é o novo colaborador permanente do JL, com a coluna «Biblioteca». Os primeiros dois artigos são publicados já na próxima edição, n.º 1004, que amanhã chega às bancas. À semelhança do livro homónimo, publicado em 2004, pela Campo das Letras, «o ponto de partida é a obra dos autores – nunca aspectos biográficos. Uma ideia ou apenas uma palavra mais usada pelo escritor (por vezes, mesmo associações inconscientes e puramente individuais) estão na origem do texto. Mas cada fragmento segue o seu ritmo próprio», explica o autor de Jerusalém. Trata-se, agora, de novos curtos textos ficcionais, autónomos, subjectivos, que o escritor vê «como entradas num dicionário». E, diz ao JL, pretendo «ir actualizando este dicionário-biblioteca, como diria um céptico realista, até à actualização final…» O estudioso do urbanismo Kevin Lynch e o jornalista e historiador Sebastian Haffner são os primeiros autores abordados.

segunda-feira, 23 de março de 2009

As «interinvenções» de Mia Couto

E se Obama fosse africano? e outras interinvenções é o título do novo livro de Mia Couto. Editado pela Caminho, com capa de Pedro Proença e uma tiragem de cinco mil exemplares, o volume reúne um conjunto de textos de intervenção do escritor moçambicano, resultado da participação em encontros e colóquios no seu país e no estrangeiro. «Tal como o anterior Pensatempos, este não é um livro de ficção. Os textos que aqui se reúnem cumprem a missão de intervenção social que a mim mesmo me incumbo como cidadão e como escritor», explica Mia Couto na introdução. «Alguns destes textos foram concebidos para o contexto de Moçambique e, eventualmente, pecarão por essa especificidade para o leitor não moçambicano. Acredito, porém, que os rios que percorrem o imaginário do meu país cruzam territórios universais e desembocam na alma do mundo.»
A história de um velho guarda, de uma localidade isolada, que durante anos cumpriu a sua missão de registar os níveis de um rio, mesmo depois do início da «guerra de desestabilização» e de ter ficado sem formulários, passando a assentar as medições nas paredes da sua estação hidrométrica, serve de metáfora à crença do autor no futuro e na Humanidade. «A esperança é a última a morrer, diz-se. Mas não é verdade. A esperança não morre por si mesma. A esperança é morta. Não é um assassínio espectacular, não sai nos jornais. É um processo lento e silencioso que faz esmorecer os corações, envelhecer os olhos dos meninos e nos ensina a perder crença no futuro», diz Mia Couto. «O episódio da estação hidrométrica passou a ser um dos alimentos do meu sentimento de esperança. Como se me lembrasse que devo dialogar com invisíveis rios e tudo em meu redor podem ser paredes onde eu nego a tentação do desalento».
O título do livro, E se Obama fosse africano?, refere-se ao artigo que o autor de Terra Sonâmbula, O Último Voo do Flamingo ou Venenos de Deus, Remédios do Diabo publicou no jornal Savana, em Novembro de 2008, após a eleição do novo Presidente dos EUA. As contradições de África e o olhar exterior dos europeus são evidenciadas com o conhecimento de quem convive diariamente com os costumes e os dilemas de Moçambique. Esse é, de resto, o denominador comum de todas estas «interinvenções». O testemunho de alguém que aceita a velocidade contemporânea e a sua modernidade, mas que não quer abdicar de uma identidade que se afirma pela diferença.
Uma visão que também pressupõe a aceitação da pluralidade linguística do homem africano. «O que advogo é um homem plural, munido de um idioma plural. Ao lado de uma língua que nos faça ser mundo, deve coexistir uma outra que nos faça sair do mundo. De um lado, um idioma que nos crie raiz e lugar. Do outro, um idioma que nos faça ser asa e viagem», defende Mia Couto num destes textos. E acrescenta: «Ao lado de uma língua que nos faça ser humanidade, deve existir outra que nos eleve à condição de divindade».

sexta-feira, 20 de março de 2009

Motown faz 50 anos

The sound of Motown. Toda a gente queria fazer aquele som. Artistas rumavam a Detroit, terra natal da editora, achando que ele estava na atmosfera, que seria só fechar a mão e agarrá-lo. A verdade é que os músicos da Motown nem sequer gravavam todos em Detroit (a editora tinha aí apenas um estúdio) e nem por isso deixavam de ter 'aquele' som. Smokey Robinson, uma das estrelas, disse: «para mim, o som Motown não é um som que se possa ouvir. É espiritual e vem de dentro das pessoas que o fazem». Seria uma perfeita definição de música soul. Mas não é só de soul que se fala aqui.

Diana Ross and the Supremes, Jackson 5, Marvin Gaye, Mary Wells, Gladys Knight, The Commodors, Lionel Richie, Stevie Wonder – são alguns exemplos dos exímios criadores e intérpretes de uma música que soube misturar a alma da soul (perdoe-se o pleonasmo) e a simplicidade da pop. Será seguro dizer que nenhum teria sido o que foi (e é, como referência para todos os artistas r’n b que hoje nascem como cogumelos) se não tivessem a etiqueta com o característico M colada às suas peles.





Todas as grandes obras nascem de grandes ideias e estas de grandes cabeças. O ‘idiota’ de serviço nesta história foi Berry Gordy, jovem compositor afro-americano de Detroit, que percebeu que faria mais dinheiro se produzisse discos numa editora própria. Criou, em 1959, a Tamla Records, que rapidamente renomearia de Motown Records, e revolucionou o meio musical (e, como consequência, o meio social) da altura. É que a época que se vivia era tudo menos simpática para os artistas afro-americanos. Brancos e negros tinham espaços separados, tanto nos programas de televisão como na mentalidade geral. Berry Gordy assinou só com artistas afro-americanos e mudou as cores dos primeiros lugares dos tops e nos prémios de música. Vários hits, canções que permaneciam no número 1 várias semanas, Grammys – a Motown pôs os Estados Unidos, o Reino Unido e rapidamente o mundo inteiro a ouvir a soul-pop especial que saía daqueles músicos e daquelas vozes. O sucesso talvez se deva à extrema exigência de Gordry na escolha das músicas a serem gravadas, que deu até curiosos episódios como a recusa inicial de Heard it through the gravepine, tema depois celebrizado por Marvin Gaye.

A Motown soube crescer, abraçando novos talentos e criando sub-editoras. Além disso, sempre cuidou dos seus músicos (a elegância que lhes era característica não era um acaso – a editora oferecia-lhes aulas de estilo e postura, para que agissem como estrelas). Conseguiu ainda entrar em Hollywood, onde fez de Diana Ross uma estrela.

Mas o grande feito não está nos prémios, tops ou lucros. Berry Gordy and friends criaram um som próprio, de tal forma que a certa altura não se percebe se Motown é nome de etiqueta discográfica ou de estilo de música.

Já passaram 50 anos, agora celebrados com a reedição de álbuns e um triplo CD especial com músicas escolhidas em votação pelos fãs. O aniversário da editora é uma desculpa tão boa como outra qualquer para ouvir (mais uma vez e outra e outra) este som inconfundível. Ladies and gentlemen, put your hands together for the sound of Motown.



Encontro de escritores em Torres Vedras

Arnaldo Espírito Santo, Helena Vasconcelos, José Afonso Furtado, José Mário Silva, Miguel Manso e Pedro Mexia são alguns dos participantes da 3.ª edição do SobreEscritas, o encontro de escritores de Torres Vedras, que arranca já amanhã, sábado, 21, Dia Mundial da Poesia, e se prolonga até 28. A organização é da associação Académico de Torres Vedras e da livraria Livrododia.
Livros e Leitores – Uma perspectiva, amanhã, às 15 e 30, é o tema do primeiro debate do encontro, com Arnaldo Espírito Santo, José Afonso Furtado e Cristina Pimentel. Às 17 e 30, é a vez de Miguel Manso, Lauren Mendinueta e José Mário Silva falarem sobre Um dia feito de Poesia, todos os dias. Ambas as sessões decorrem na sala polivalente da Cooperativa Comunicação e Cultura.
O SobreEscritas prossegue, durante a próxima semana, com um conjunto de oficinas de línguas em várias escolas do concelho: Árabe, na EB 1 Freiria, a 23; Russo, na EB 2,3 Padre Francisco Soares, a 24; Grego, na EB 1 Maxial, a 25; e Latim, na Esc. Internacional, a 26.
As duas últimas sessões realizam-se na livraria Livrododia - Centro Histórico. Sexta, 27, às 21 e 30, com Pedro Mexia e Telmo Mourinho Baptista, sobre O humor anda muito melancólico ou a melancolia também tem a sua graça?. E sábado, 28, às 16, com Isabel Castanheira, Helena Vasconcelos e Sara Figueiredo Costa, sobre Os planos para a leitura e a promoção da literatura.

quinta-feira, 19 de março de 2009

A Mãe, de Brecht

Não é encenada em Portugal há mais de 30 anos. O jovem encenador Gonçalo Amorim (cujo percurso destacámos na edição dedicada aos 'Novíssimos', no JL nº 1001) aventurou-se pelas palavras do dramaturgo e estreia A Mãe, de Bertold Brecht, hoje, pelas 19 e 30, no grande auditório da Culturgest, em Lisboa. A música original de Hanns Eisler, será tocada ao vivo pelo pianista João Paulo Esteves da Silva.
«Vamos imaginar uma guerra perpétua entre ricos e pobres. E no meio dessa guerra vamos seguir uma heroína: Palagea Vlassova», diz Gonçalo Amorim. Dias 20, 21, pelas 21 e 30, e dia 22, pelas 17, é possível seguir esta viúva de um operário e mãe de um operário que «ainda tem tanto que fazer!»

A sorte dos filmes

Três poemas de Herman Melville

Stonewall Jackson
mortalmente ferido em Chancellorsville
(Maio de 1863)

O Homem mais temido na batalha,
aaCujas espada e oração longas eram -
aaaaaaaaaaaaaaaStonewall!
aaAté ele, que resoluto persistiu no Erro,
Como o podemos louvar? Porém, dias vindouros
aaNão o esquecerão com esta canção.

Morto o Homem cuja Causa morreu,
aaEm vão morreu e sua marca deixou -
aaaaaaaaaaaaaaaStonewall!
aaSincero no erro, assim sentimos;
Fiel ao que sentia ser dever seu,
aaFiel como John Brown ou o aço.

Implacável derrotou-nos;
aaMas nós compadecêmo-nos, na queda -
aaaaaaaaaaaaaaaStonewall!
aaCom justiça sua fama banimos; mas soltamos
Uma lágrima sobre o ataúde do corajoso Homem da Virgínia
aaPois coroa de flores não temos.

Longe da Margem

Vede, a jangada, um sinal flutuando,
aaFrágil - um fragmento;
Ninguém jaz sobre esses mastros fustigados,
aaVivo ou morto.

Gemem as aves sobre ela pairando,
aa«Marinhagem, marinhagem?»
E as vagas, incessantes, atacam-na,
aaAssaltam-na uma vez mais!

O lamento de C________

aaQuão bela era a luz do céu,
Que anjos dos céus desceram
Quando a juventude era algo mais do que vinho
E o homem e a natureza pareciam divinos
Aqui senti, porém, que a juventude devia perecer.

aaAqui senti, porém, que a juventude devia perecer.
Quão insubstancial parecia a terra,
A terra de Aladino! em cada avanço,
Ou ali ou aqui, um novo romance;
Jamais sonhei poderem desvanecer-se.

aaE nada então tinha senão o seu valor,
A própria dor. Sim, prazer ainda e dor
Numa rápida reacção da vida fizeram
Uma disputa de um amante, feliz disputa
Não juventude que não volta mais.

aaMas não voltará a juventude?
Também para o seu leito de morte ele partiu,
E só me deixou para à noite despertar
Com um coração, outrora leve?
Oh, junto à sua cabeça depositai - uma pedra!

Da antologia de Poemas, de Hermam Melville, uma edição da Assírio & Alvim, com selecção, tradução e introdução de Mário Avelar.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Um conto de reis

O canto dos pássaros, de Albert Serra





Apenas o Evangelho segundo São Mateus fala dos Reis Magos, referindo-se a eles como «uns magos que vieram do Oriente a Jerusalém». Não há qualquer menção dos seus nomes, nem que um deles era de raça negra, nem sequer explicita que eram três. Tal pode ser deduzido pelo número de ofertas: ouro, incenso e mirra. Foram enviados pelo Rei Herodes (personagem histórica), alegadamente, para O adorar. Mas o que ele realmente pretendia era matar Jesus, pois temia que, cumprindo as profecias, este se tornasse o rei dos Judeus, tomando de assalto o seu trono. Os magos foram avisados em sonhos e alertaram José e Maria para o perigo que corriam.
Este conto de reis serve para contextualizar outro: depois de se ocupar dos tempos mortos de Dom Quixote e Sancho Pança, em Honra e Cavalaria, o catalão Albert Serra regressa com um trio de personagens de ficção, ou, pelo menos, amplamente ficcionadas ao longo da história, na tradição cristã. E, apesar de, ao contrário de Honra e Cavalaria, O Canto dos Pássaros ser rodado a preto-e-branco, a essência mantém-se. Trata-se de um filme com um ritmo lentíssimo, com personagens à deriva, não só no argumento, mas no próprio ecrã. Um estilo muito próprio de filmar os nadas, ou o que acontece quando nada acontece.
Na apresentação, em Lisboa, Serra, talvez com alguma ironia, apelidou-se o melhor realizador espanhol desde Buñuel, e queixou-se de uma incompreensão geral do público. Claro que os seus filmes estão reservados a uma elite. Uma elite esteticamente sofisticada, capaz de apreciar a beleza de uma boa fotografia, conhecedora da história do cinema e da sua cumplicidade com as outras artes, e sem sono. Os planos fixos, a montagem minimal, a reduzida acção, repudiam os espectadores mais irrequietos. A obra (sem dúvida que é uma obra na mais nobre acepção da palavra) tem uma inequívoca riqueza estética, cheia de bons pormenores e o burlesco das personagens é bem explorado, mas apenas na parte final do filme.
Ironicamente, Albert Serra, que é um catalão feroz e independentista, ao ponto de se queixar por ter de falar castelhano no estrangeiro, nos seus dois filmes exportados foi pegar nos maiores ícones de Espanha e de Castela: em primeiro lugar Dom Quixote e depois os Reis Magos (nenhum dos países vizinhos, França, Portugal, Itália ou Inglaterra lhes dá tanta importância, como a Espanha, da Galiza à Catalunha).
Tal como em Honra e Cavalaria, tentou contar o que não está escrito, no ambiente onírico sugerido pela passagem da Bíblia. E se o que está escrito é sempre menos do que está por escrever, aqui a diferença é abissal, por que a passagem do Evangelho resume-se a um parágrafo. Cria-se todo o espaço para que estas personagens tão confundíveis com as de contos de fadas, se desenvolvam e se recriem enquanto personagens. Tal é bem conseguido no diálogo perto do final, uma conversa própria do surrealismo, num universo de sonhos e adivinhações, em que um dos reis afirma, vindo de nada: «Um dia vi um homem que voava». E mais à frente, outro diz: «Há muitos anjos e são todos bons». Enfim, depois de visitar o menino, os reis vão à sua vida… e nós vamos à nossa.

O Canto dos Pássaros, de Albert Serra, com Lluís Carbó, Lluís Serrat Batlle e Lluís Serrat Masanellas, 98 min, Espanha 2008


Edição e estratégia

A Edição de Livros e a Gestão Estratégica, de José Afonso Furtado, com a chancela dos Booktailors, vai ser lançado hoje, quarta-feira, 18, às 18 e 30, na Casa Fernando Pessoa. A obra será apresentada por Vasco Teixeira, presidente da Administração da Porto Editora, que aproveitará a ocasião para fazer uma análise do mercado editorial português.
A sessão é aguardada com muita expectativa, na medida em que reunirá dois nomes com grande influência no mundo da edição. O primeiro, pela atenção que tem dedicado enquanto investigador a esta área ao longo das últimas décadas, o segundo, pela importância que a própria Porto Editora tem no sector do livro.
Perceber os «novos paradigmas» com que o sector editorial se confronta, no início deste novo milénio e no advento de novos formatos, é o principal objectivo de A Edição de Livros e a Gestão Estratégica, que surge depois do estudo do mesmo autor O Papel e o Pixel: Do Impresso ao Digital - Continuidades e transformações, publicado no ano passado pela Ariadne. Ao longo de cerca de 300 páginas, o director da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian inventaria as transformações que a cadeia de valor do livro tem vindo a sofrer, apresentando algumas ideias e exemplos para se repensar a forma de produzir e comercializar livros. Entre outras, são analisadas as propostas teóricas de Michael Porter (as estratégias genéricas e o conceito de «cadeia de valor»), Paola Dubini (a publishing in the 21st Century Research Series), Carl Shapiro e Hal Varian (a economia da informação), Philip Evans e Thomas Wurster (o trade-off richness/reach) e John Seely Brown e John Hagel (o modelo push/pull).
Ex-presidente do Instituto Português do Livro e da Leitura, José Afonso Furtado é autor ainda de O Que é o Livro? e Os Livros e as Leituras: Novas Ecologias da Informação, além de um dos twitters portugueses com maior projecção internacional [jafurtado]. A Edição de Livros e a Gestão Estratégica é o primeiro lançamento da editora dos Booktailors, que pretende «construir uma biblioteca fundamental para todos os profissionais, investigadores e interessados no sector da edição e do livro».

terça-feira, 17 de março de 2009

Domínio Público

Soube que este site brasileiro corre o risco de fechar. O que seria lamentável. O Domínio Público disponibiliza gratuitamente centenas de vídeos, pinturas, livros, músicas. Inclui, por exemplo, a obra completa de Machado de Assis em formato digital, música erudita brasileira, vários livros de Pessoa...

Vale mesmo a visita: www.dominiopublico.gov.br

O legado de E. A. Poe em debate


Fernando Pinto do Amaral, Hélia Correia, José Luís Peixoto, Pedro Mexia e Rui Lage são alguns dos escritores que vão participar no colóquio internacional Poe e Criatividade Gótica, que se realiza nos próximos dias 18, 19 e 20, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL), na Casa Fernando Pessoa, na Biblioteca Nacional e na Cinemateca Portuguesa. A organização é do Centro de Estudos Anglísticos (CEA) da FLUL.
O colóquio, que reúne investigadores nacionais e estrangeiros, escritores, músicos e outros artistas, tem como objectivo «partilhar o imaginário multifacetado» do escritor norte-americano, numa altura em que se assinala o bicentenário do seu nascimento. Em análise também estarão as relações do género gótico com outras formas de arte e cultura. Para os organizadores, «a vertente negra e insólita da psique humana, assim como os conceitos de perversão, criminalidade, monstruosidade, transgressão, violência e destruição, têm vindo a exercer uma profunda influência em muitos artistas e escritores contemporâneos».
A abertura de Poe e Criatividade Gótica estará a cargo de Teresa F. A. Alves, coordenadora da linha de acção de estudos americanos do CEA, amanhã, quarta-feira, 18, às 14 e 30, na FLUL. Segue-se a conferência de Fred Bottting, da Lancaster University, sobre Dark Poeisis: Romanticism, Phantasmagoria, American Gothic. Nesse mesmo dia, entre as 15 e 45 e as 17, abre-se espaço para comunicações académicas e, às 17, para um debate com David Soares, Hélia Correia, José Luís Peixoto, Pedro Mexia e Luís Filipe Silva. À noite, às 21 e 30, na Cinemateca, passa o filme A Queda da Casa de Usher, de Roger Corman.
Na quinta-feira, 19, o dia arranca, na FLUL, às 9 e 30, com mais um conjunto de comunicações académicas e, às 11 e 30, com a conferência de Henri Justin, da Universidade Sorbonne, sobre The Paradoxes of Poe’s Reception in France. A tarde passa-se na Casa Fernando Pessoa, com comunicações académicas, a partir das 15, com especial enfoque na recepção de Poe em Portugal e na sua ligação com Fernando Pessoa. Na ocasião será inaugurada a exposição de Filipe Abranches, com as ilustrações que fez para a edição da Obra Poética Completa de Edgar Allan Poe, editada pela Tinta-da-china. António de Macedo, Fernando Ribeiro, Filipe Abranches, Filipe Melo, Maria Antónia Lima e Paula Ribeiro participam, depois, às 18 e 30, num debate sobre arte fantástica em Portugal, seguido de leituras encenadas de poemas do escritor norte-americano.
A conferência de Darry Jones, do Trinity College, sobre Omphalos: Arthur Gordon Pym and the Hollow Earth, às 11 e 30, na FLUL, é o grande destaque de sexta-feira, o último dia do colóquio, que inclui ainda três sessões na Biblioteca Nacional. A primeira, com um painel sobre criatividade gótica; a segunda, com a inauguração de uma exposição bibliográfica; a terceira, com um debate sobre tradução e recepção de Edgar Allan Poe, com Fernando Pinto do Amaral, Helena Barbas, José Manuel Lopes, Margarida Vale de Gato e Rui Lage. O colóquio encerra, a partir das 22 e 30, na discoteca Incógnito, com uma festa gótica.
Recorde-se que o tema da última edição do JL, n.º 1003, ainda em banca, é dedicado à obra e ao legado de E. A. Poe, com textos de Mário Avelar, Maria Antónia Lima e Maria Leonor Nunes, além de inúmeros testemunhos de escritores e artistas.

Ilustração de Filipe Abranches.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Arte Digital




«A Arte não pode rejeitar tanto a tecnologia ou a ciência como deixar de ver o mundo tal como ele é». Eis o mote do ciclo exposições que a Galeria das Salgadeiras, em Lisboa, está a dedicar à arte digital. São duas mostras (de Ana Portugal e de Jaime Vasconcelos) que procuram levantar algumas questões sobre o que poderá ser o futuro: «Será que através de um programa de computador, feito de funções com variáveis bem distintas das que o artista normalmente está habituado a controlar, se conseguem transmitir emoções e criar discursos?» Ou: «Que novas fronteiras para a Arte se estão a ultrapassar, se é que estão?».
A primeira a sugerir uma possível resposta a estas perguntas é Ana Portugal, em Variações, patente até 28 de Março, uma exposição feita de trabalhos recentes, realizados na sequência do curso de Arte e Multimédia da Universidade da Madeira. A artista, nascida em 1949, parte de registos fotográficos, que depois são metamorfoseados pelo filtro do computador. Quer mudando a cor e a forma, segundo os tradicionais métodos pictóricos, mas numa esfera digital; quer desenvolvendo um programa informático, orientado por coordenadas específicas, que executa a obra. Neste caso, lê-se na apresentação da exposição, «entramos no campo da software art, em que o artista cria o seu objecto de arte através de uma linguagem lógica de léxico e gramática restritos – uma linguagem de programação – e de um algoritmo – sequência de instruções que podem ter um carácter aleatório ou predefinido».
O resultado é um conjunto de telas preenchidas por variações tonais pautadas por uma certa ideia de harmonia. Na ausência de textura, elemento fundamental na pintura, contrapõe-se a ilusão óptica, na busca de uma profundidade sensorial.

domingo, 15 de março de 2009

Por Vítor Oliveira Jorge*


Los Millares


Durante o III milénio a. C. construiram-se na Península Ibérica sítios de grande porte, destacados (pelo menos em relação a certos pontos de observação) no território, e que "faziam corpo" com a paisagem circundante.
Esses sítios "monumentais" são normalmente designados, na "literatura da especialidade", "povoados fortificados". Estou evidentemente a referir-me não a locais com estruturas em negativo, do tipo fosso, situados em vales e/ou em encostas, e a muitos outros atribuíveis a este período dito "calcolítico", e portanto desde logo a escolher uma sub-categoria de sítios, se tal categoria é concebível, e não uma simplificação abusiva.
Em 1994, Susana Oliveira Jorge, a partir da sua experiência de Castelo Velho de Freixo de Numão (V.ª N.ª de Foz Côa), e de uma análise comparativa que fez à escala peninsular, concluíu pelo carácter arbitrário e redutor da designação "povoados fortificados", mostrando como debaixo dela se esconde uma enorme variabilidade e toda uma ignorância nossa, decorrente de serem muito poucos os sítios sistematicamente (bem) escavados e publicados.
A verdade é que só o estudo sistemático de toda uma região, com escavação de vários tipos de sítios potencialmente conexos, poderia abrir-nos portas para a compreensão da rede de locais e de trajectos em que estes sítios se inseriam.
A arquelogia portuguesa - e mesmo a arqueologia a nível internacional - nunca teve fôlego para um trabalho dessa natureza e escala, envolvendo equipas estáveis, dezenas de pessoas e décadas de estudo, como acontece em qualquer outro ramo produtivo do conhecimento científico. Assim sendo, não se pode mais do que ter intuições apoiadas nas pesquisas que se vão conseguindo fazer, sendo muitos dos debates meramente "académicos" no pior sentido. Não há nenhuma fraqueza intrínseca à arqueologia (destruição de grande arte dos seus "documentos" pelo tempo, e outras banalidades) - há apenas uma debilidade política que conduz ao seu processo débil de produção. A capacidade negocial é mínima.
Quer dizer, enquanto alguns arqueólogos se entretêm a debater, os "gestores do território", e outros utilizadores "práticos" do mesmo, maravilhados com tal entretenimento, vão procedendo à devastação do que existe em área para a resolução do problema. De modo que a questão teórica e prática estão mais uma vez ligadas: pequenos meios, grandes debates...grandes sábios, impotentes actores sociais que vão cedendo sempre e agradecem muito por um quadradinho de espaço... ou seja, agradecem a esmola de poderem ir continuando a escavar um sítio, como se fosse uma questão de sobrevivência ou um prazer privado...
Seja como for, neste campo do Calcolítico português, o trabalho de S. O. Jorge não pode ser esbatido na sua importância inovadora (considerando-se Castelo Velho como uma excepção e continuando a tratar os restantes sítios da mesma maneira), como também o que já outros autores vêm felizmente fazendo, e que mostra à evidência a complexidade do assunto.
Aqui queria lembrar sobretudo o seguinte:
Quando se observam as plantas, as fotografias, e a realidade ao vivo de sítios como Los Millares (Almería, Espanha), Leceia ou Zambujal (Estremadura portuguesa) e Castanheiro do Vento (Horta do Douro, Vª. N.ª de Foz Côa), para só citar alguns deles, torna-se evidente um certo "ar de família" ao nível da concepção do espaço e de outras características arquitectónicas. Esse "ar de família" (a que alguns chamariam "estilo", mas essa é uma palavra perigosa, porque entifica), que por intuição observamos, pode evidentemente vir a revelar-se ilusório.





Castanheiro do Vento


Mas vejamos: o que caracteriza basicamente estes sítios, tão importantes no património arqueológico peninsular (Los Millares e Vila Nova de S. Pedro - Azambuja, neste caso - são dos locais mais citados em toda a bibliografia sobre a Pré-historia da Península Ibérica)?
Têm nomalmente várias linhas de muretes mais ou menos concêntricas, e por assim dizer as elevações (colinas, ou outras) em que se inserem são "transformadas" por esses dispositivos, tornando-se desse modo toda a elevação no que hoje chamamos um "monumento", quer dizer, nma estrutura imponente, complexa, labiríntica, e com grande quantidade de objectos para ali transplantados.
Essa "transformação" é no sentido de "acasalar" sistematicamente as características geomorfológicas do local com as realizadas pelos seres humanos, numa união entre "natural" e "cultural" que esbate, por absurda, esta dicotomia, como se de uma gigantesca escultura se tratasse. Ora, ninguém se lembraria, numa escultura, ou mesmo numa "instalação", de querer conectar certas características com "o natural" e outras com "o cultural". Uma vez em curso o processo de esculpir e de fazer/refazer - processo esse certamente mais importante do que o próprio "objecto acabado", como tendemos a pensar hoje - o que seria importante seria a enorme afectação de energia (física e "moral", digamos), suportada por uma convicção, por uma crença partilhada, a um determinado local.
Uma vez iniciado o processo, parece que este funcionava como bola de neve, no sentido de ser mantido e eventualmente reforçado e transformado. Ou seja, há aqui uma temporalidade importante, uma memória. Querer saber o sentido último ou único dessa memória não é apenas uma utopia, é uma questão mal posta: não há sentidos primeiros para as coisas, o mundo não nasceu virgem num momento determinado, qualquer passado tinha já, também ele, passado, antecedentes. E mesmo as fases de ruptura , a comprovarem-se, acarretam muito do que existia antes, remodelam e retrabalham evidentemente o que já havia...




Leceia
Os chamados "sítios calcolíticos" (da Idade do Cobre, enfim, tudo designações convencionais), que em abundantes casos entrarão claramente pelo II milénio a. C., eram susceptíveis de muitas representações por parte das populações que os construiram e mantiveram, e a eventual conflitualidade de tais "negociações de sentido" é apenas admissível como hipótese, uma vez que não somos contemporâneos dos "jogos de estatuto" que se disputavam através da construção destas "cenografias" e das performances de que elas eram "cenário" (para usar umas palavras convencionais).
Mesmo que fôssemos contemporâneos de cada um dos momentos em que, ao longo dos séculos, "aconteceram coisas", se deram eventos, nestes locais, apenas ficaríamos tal como o antropólogo actual: com um "presente etnológico" (fabulosa invenção) que tem tudo de artificial, até nas narrativas que as pessoas transmitem.
É muito importante esta consciência básica de quem aborda os temas do ser humano e da sociedade: estas realidades são "matérias sensíveis", a criatura humana é uma criatura da ambiguidade por definição, de forma que a ilusão de uma realidade "aí fora" estática, atingível pelos métodos da ciência, a realidade de um passado acontecido, é um mito ingénuo. Perceber essa ingenuidade é condição "sine qua non" de um maior aprofundamento dos problemas, do seu afastamento em relação à consciência espontânea, não elaborada.
Há uma realidade que se nota em algumas destas edificações: os muretes estruturantes do espaço (seguindo tendencialmente a linha curva e casando-se com o terreno) são providos de protuberâncias sub-circulares, voltadas para o exterior, que são espaços secundários de deposição, e a que por convenção os arqueólogos se habituaram a chamar "bastiões". Sem dúvida que eles criariam um efeito cénico e uma ritmicidade estética, mas o mais importante é serem locais onde se punham coisas junto a linhas de limite, de limiar. Ridiculamente, algumas furações baixas existentes nestes "bastiões" foram interpretadas como "seteiras", quando podiam ter servido para uma multiplicidade de outros fins relacionados com as construções e com o que nelas se depunha (como por exemplo para o encaixe de vigas...). Para mim é mais importante essa característica objectiva que se observa do que a sua interpretação apressada.
Também é muito importante ver que alguns pelo menos destes sítios estão em esporões ou em plateaux alongados, e que a sua zona mais reservada (nuclear) podia estar numa extremidade (como no caso da famosa "cidadela" de Los Millares) em posição oposta às linhas de muretes com "bastiões", ou pelo menos em relação às mais importantes destas linhas, como se vê em Los Millares, Leceia ou Zambujal. Mas esses esporões, mesmo qe assentem na rocha de base e estejam mais erosionados ou as suas estruturas menos visíveis, devem ser estudados cuidadosamente. O arqueólogo tem de deixar de andar atrás do mais visível, tem de deixar de ser um antiquário de vez, para ter um método de varrimento do terreno, estando atento às mais pequenas coisas.
Ver o que toda a gente vê não é mérito nenhum; importa tentar por intuição encontrar o exemplo paradigmático (no sentido de G. Agamben) de algo que ainda não conseguimos demonstrar, de uma generalização ou síntese de que ainda estamos à procura. Há que, ao lado da dedução e da indução instaurar um procedimento "para" (Agamben - no sentido em que falamos de paradigma ou de paradoxo), um movimento no sentido de abertura à novidade que não está em lado nenhum, para ser desvelada, mas pode demonstrar a sua própria racionalidade a um olhar novo, inter-subjectivo, como quando acontece estarmos numa escavação e de repente sermos surpreendidos por uma ntuição partilhada. É por esse momento precioso, por esse encantamento, que a pesquisa científica é tão maravilhosa, e não pelo achado de objectos retumbantes e misteriosos, porque então nesse caso íamos para um país exótico recolher múmias. Quer dizer, estar atento à capacidade paradigmática, exemplar, que a realidade tem de apontar para algo que ainda não é, nem precisa de ser, universalizável. No sentido de uma para-ontologia de que fala Agamben.
Os sítios calcolíticos do nosso território são um património muito importante, como são as necrópoles megalíticas (tão estraçalhadas já) ou os castros mais tardios, para o entendimento de como se estruturou o espaço, de como o espaço e os objectos eram realidades transaccionais, quer dizer, elementos activos de um diálogo entre seres humanos.
Nenhuma sociedade humana alguma vez se constituíu sem elementos fora do humano (verdade de La Palisse), fossem eles animais, plantas, objectos diversos. A fabricação de grandes objectos arquitectónicos é um elemento básico da constituição de um fundamento (archè, radical comum a arquitectura e a arqueologia) para a vida colectiva. Não tratemos pois estes grandes dispositivos do III/II milénios de ânimo leve. É preciso é lê-los com cuidado e atenção, e tempo, que é aquilo a que praticamente não temos acesso, o que é gravíssimo, pois o tempo é o elemento básico do amadurecimento e da criatividade.
Desculpem a brutalidade das palavras, mas retirarem-nos o tempo de investigação (criando cursos apressados e obrigando as pessoas a trabalharem em empresas para poderem pagar pós-graduações que entretanto não estão a fazer dignamente porque não têm tempo) é uma perversão terrível. É uma castração. Este problema da arqueologia é muito interessante porque traz atrás de si, como sintoma, tudo o que carecemos. E o que carecemos é de mais gente competente no terreno, enquanto não são varridas do espaço público formas com que comunidades orais, que pensavam e sentiam diferentemente de nós, inscreveram nele sentidos, que desapareceram. Agora só estamos nós e a nossa responsabilidade.
*O arqueólogo, Prof. da Universidade do Porto e poeta, Vítor Oliveira Jorge, assina mensalmente uma coluna sobre Arqueologia no Blogue do JL

sexta-feira, 13 de março de 2009

A reescrita de Tennesee Williams

Um dia, Gore Vidal foi à casa do seu amigo Tennessee Williams. Encontrou-o no escritório, às voltas com um conto que acabara de ser publicado. Vidal perguntou-lhe: «Porquê reescrever o que já está impresso?» A resposta foi rápida: «Parece-me que não está terminado».
É parte desse trabalho interminável que se pode ler na antologia
A Noite da Iguana e outras histórias, uma edição da Assírio & Alvim que reúne nove contos do escritor e dramaturgo norte-americano, nascido em 1911 e falecido em 1983. «Na minha opinião, os contos, e não as Memórias, são as verdadeiras memorias de Tennessee Williams», escreve Gore Vidal numa nota publicada na contra-capa do livro. «Transformou em prosa todos os acontecimentos da sua vida, reais ou imaginários. Excepto algumas incursões ocasionais pelo irreal, agarra-se à vida, à que viveu ou imaginou, com todas as suas forças». Além de A Noite da Iguana, o volume inclui os contos A Maldição; O Campo das Crianças Azuis; O Mutilado; Retrato de Uma Rapariga em Vidro; A Semente entre um Estojo de Violino e um Caixão; A Coisa Importante; O Pássaro Amarelo; e Sociedade a Dois. As traduções são de José Agostinho Baptista.
Entretanto, continua em cena, n'A Barraca, até dia 29, o espectáculo Peça Para Dois, de Tennessee Williams. A encenação é de Rita Lello, que também a interpreta, juntamente com Pedro Giestas.

quinta-feira, 12 de março de 2009

A cabeça de Fernando Pessoa

«Portugal, / questão que trago comigo mesmo./ Leio o poeta e aceno com a cabeça./ Mas devagar,/ para não bater nas paredes.» A cabeça de Fernando Pessoa, poema que dá nome ao livro de Luís Filipe Cristóvão, que será lançado hoje, pelas 18 e 30, na Casa Fernando Pessoa. Nascido em Torres Vedras, em 1979, Luís Filipe Cristóvão é também autor de Registo de Nascimento, Pequena Antologia para o Corpo, E como ficou chato ser moderno e Santa Cruz. A cabeça de Fernando Pessoa é mais um título da Colecção Pasárgada, coordenada pelo editor e também poeta Ozias Filho.

Não vi, mas gostei




«Não vi, mas não gostei», a frase pode soar de uma ignomínia inaceitável, mas talvez não seja assim tão disparatada. Quantos são os filmes que basta olhar para o trailer para perceber de que se trata? Quem não gostar de filmes de espionagem, vê a apresentação do último 007 e já sabe que o filme não se adequa ao seu gosto.
Este «não vi» não é literal. Porque outras informações foram vistas ou recolhidas para chegar a este pré-conceito: o género em que o filme se enquadra, as outras obras do autor, uma crítica, o argumento, ou o trailer.
O trailer, por si só, é uma refinada arte, de enorme importância comercial. Deve ser um espelho da obra e, ao mesmo tempo, aguçar a curiosidade do espectador. Se o trailer não resulta, perde-se o isco e o mais provável é que o espectador não goste sem ver.
É por isso que grandes realizadores e os grandes estúdios recorrem aos mais experientes técnicos para a sua realização. Sendo que os trailers são sobretudo obras do engenho dos montadores. Há uma síntese de minuto e meio, a perícia que tudo exige. Dali sai o pré-juízo do espectador que, eventualmente, assim decide se vai ou não ver o filme.
Os trailers são construídos para serem vistos antes dos filmes mas, como é óbvio, são feitos depois. Tornando-se subservientes à obra maior. No díptico À prova de Morte / Planeta Terror, de Quentin Tarantino e Robert Rodríguez, uma homenagem a Grindhouse, para o intervalo entre os dois filmes, os realizadores propuseram trailers para filmes inexistentes.
É precisamente isso que trata o Teaserland, o primeiro Festival Internacional de Trailers Falsos, que decorre em Espanha, mas cujas obras a concurso (as 20 finalistas) podem ser vistas on-line. Nenhum destes filmes existe. O desafio é tornar o trailer tão apelativo que se imponha a realização do filme. Ou tratar-se-á possivelmente da assumpção do trailer enquanto subgénero cinematográfico. A maioria dos concorrentes optaram por filmes de terror, onde é mais fácil, num curto espaço de tempo, provocar sensações fortes.
O festival está a ser um enorme sucesso. Houve mais que mil inscrições e o site já recebeu 500 mil visitas. Por exigência do público, os trailers vão ser exibidos em salas de Madrid e Barcelona. Não é para menos. Alguns são muito apelativos. Com uma feliz conjugação de elementos, onde o ritmo de montagem, os intertítulos e a combinação com a banda sonora são essenciais. É caso para dizer: «Não vi, mas gostei imenso».Que inventem um prémio literário paras as melhores badanas.

A mão de Pedro Almeida Vieira

A Mão Esquerda de Deus é o terceiro romance de Pedro Almeida Vieira, depois de Nove Mil Passos e O Profeta do Castigo Divino. Sempre entre a história e a ficção, o jornalista e escritor, autor do blogue Estrago da Nação, apresenta-nos desta vez a biografia do falso núncio de Portugal, que conseguiu enganar as autoridades portuguesas e romanas, fazendo-se passar pelo primeiro Inquisidor-Geral de Portugal. Dirigindo-se ao governador de Badajoz, Alonso Perez de Saavedra confessa o seu embuste, relatando as peripécias de uma vida e de uma época. «Partindo desta fábula, este romance é uma reconstrução histórica deste falsário e de todos os acontecimentos dos séculos XV e XVI que culminaram na criação do Santo Ofício», escreve, numa nota final, Pedro Almeida Vieira. «Aproveitando apenas alguns (poucos) traços das suas biografias (ou pseudobiografias), traçou-se-lhe assim um percurso de vida, imaginando também os motivos e expedientes para se tornar núncio apostólico e Inquisidor-Geral.» O respeito pelos factos é particularmente visível na criação das personagens secundárias, sendo que praticamente todas existiram. O livro, editado pela Dom Quixote, à semelhança dos romances anteriores, incluiu uma cronologia e uma tábua bibliográfica.

Poe em Lobo Antunes

«O prédio que constroem à minha frente emparedar-me-á em breve à maneira dos personagens de Poe e somente os meus dentes cintilarão nas trevas, como os dos esqueletos antigos acocorados num ângulo de caverna, a abraçarem os ossos dos joelhos com os tendões amarelecidos»
(António Lobo Antunes in Os Cus de Judas)

quarta-feira, 11 de março de 2009

Nas bancas





JL 1003


O Estranho caso de Edgar Allan Poe
Textos de Mário Avelar, Maria Antónia Lima e Maria Leonor Nunes. Testemunhos de escritores e artistas

João Botelho n’A Corte de Agustina

Evocação de Lagoa Henriques (1923-2009)

Alberto Lacerda

o poeta e o coleccionador

Figura: António Torrado

Helder Macedo fala do seu novo romance

Cristina Branco

o «tempo» dos escritores de canções

A autobiografia de Eduardo Nery

JL/ EDUCAÇÃO – Ciência Viva: o prazer do Conhecimento

Camões • Agenda Cultural

O Sentido da Vida por $9.99

$9.99, de Tatia Rosenthal




Trata-se muito provavelmente da primeira longa metragem de animação por marionetas realizada por uma mulher. Trata-se muito provavelmente da primeira longa metragem de animação co-prioduzida por Israel e Austrália. Trata-se certamente de um dos melhores filmes de animação do ano. $9.99, de Tatia Rosenthal, é uma película fascinante sustentada num argumento multi-plot, onde marioentas animadas procuram o sentido na vida, numa sociedade sem rumo, decadente e opressiva. Um filme de social e metafísico, grande candidato ao grande prémio do Monstra, que terá exibição comercial no nosso país, ainda este ano.
Hoje, dia 11, às 22.30, no S. Jorge (lisboa), outro grande candidato ao grande prémio do Monstra:: Idiots and Angels, do americano Bill Plympton, que ganhou o principal prémio do fantasporto.

Tiago Patrício vence Prémio Daniel Faria

Tiago Patrício, com o inédito O Livro das Aves, foi o vencedor do Prémio Daniel Faria 2009, promovido pela Câmara Municipal de Penafiel e pelas edições Quasi.
Nascido em 1979, no Funchal, Tiago Patrício foi um dos jovens escritores incluídos no tema que o JL dedicou, no n.º 1001, aos novíssimos talentos da cultura portuguesa. É licenciado em Farmácia, pela Universidade de Lisboa, e tem vários contos publicados no DN Jovem e em jornais regionais. Foi duas vezes distinguido no programa Jovens Criadores, na categoria de Literatura, e participou, nesse âmbito, em duas residências artísticas, na Tunísia e na República Checa.
O mesmo júri, constituído por Francisco José Viegas, Francisco Saraiva Fino, Jorge Reis-Sá e Tito Couto, decidiu atribuir ainda uma menção honrosa a António Rodrigues, pelo livro Potência do Meio do Nós. As duas obras serão editadas pelas Quasi. A entrega dos prémios realiza-se a 17 de Abril, às 21 e 30, no salão nobre da Câmara de Municipal de Penafiel.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Inquérito Stanley Kubrick



Nos dez anos da morte de Stanley Kubrick, o Blogue do JL lança um inquérito, que pretende ser uma homenagem àquele que foi um dos mais subversivos e incatalogáveis realizadores da história do cinema.
Fica aqui uma peculiar retrospectiva da sua obra, em apenas dois minutos...

A Bomba-relógio de Cristina Branco



Até podia ser um chimpanzé bem-ensinado a cantar que, à terceira frase, perceberíamos logo que a música é de Sérgio Godinho. Mas esta Bomba-relógio explode na voz de Cristina Branco. Melodia e ritmo, num perspicaz jogo de palavras, tão típico como genial. O single do álbum Kronos é um casamento feliz entre o maior escritor de canções português e uma das grandes vozes. «Feito tique o taque o teu amor passa ao ataque»

Quadros de uma amizade


Aos poucos, através do Centro de Arte Manuel de Brito, vai sendo possível conhecer, com maior profundidade, o papel que o fundador da Galeria 111 teve na dinamização das artes plásticas do século XX. Divulgando novos nomes, incentivando-os a continuar ou segurando-os nas alturas mais difíceis, a contribuição foi de tal forma decisiva que a sua colecção privada é suficiente para dar uma panorâmica das últimas décadas ou mesmo para a realizarão de retrospectivas individuais. É o que acontece agora com António Palolo. Em 1964, Manuel de Brito organizou a primeira exposição do artista, nascido em Évora, em 1964, e falecido em 2000. Aqui se apresentam obras desde essa época até à década de 80, período em que a sua estética se afirmou na plenitude. Num primeiro momento, ligada ao informalismo e à recusa de qualquer forma; mais tarde, navegando pelos terrenos da neofiguração, da nova abstracção e, inclusivamente, do conceptualismo. A sua marca, no entanto, sempre se expressou em cores fortes e justapostas, reinterpretando as temáticas do maravilho e da infância. A ilusão óptica é muitas vezes utilizada com o objectivo de introduzir várias camadas na leitura dos quadros. Embora o pintor tenha tido uma sólida formação teórica, há em toda a sua obra uma ironia que procura desmontar o léxico artístico da contemporaneidade. Nesse sentido, é um artista profundamente actual. Como esta exposição, patente no Palácio Anjos, até 17 de Maio e espelho de uma amizade, consegue provar.

sexta-feira, 6 de março de 2009

A afirmação da fotografia em Portugal




Iniciada em 1999, a colecção de Fotografia do Museu do Chiado tem vindo a estudar e a divulgar uma época particularmente importante para a afirmação desse suporte artístico em Portugal: os anos 50. «A fotografia portuguesa, neste período, reflecte de forma ímpar muitas das dissonâncias e conflitos estéticos então vividos, que só podem ser lidos e entendidos em articulação e cruzamento permanente com todas as outras áreas da vida cultural, social e política», afirma Emília Tavares, a comissária da exposição Batalha de Sombras, que reúne um conjunto de obras dessa década. «Mais do que uma batalha entre tradição e inovação assistimos a uma ambivalência entre representação e apresentação, técnica e inspiração, alta e baixa cultura, estética e ética, arte e ideologia.» A mostra estará patente no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, entre amanhã, sábado, 7, e 14 de Junho. A partir dela é possível fazer o retrato de uma sociedade, em pleno Estado Novo, dividida entre a arte pela arte e a mensagem política.

Fotos de Hugo Sena, Poligonal, António Paixão, Sedução, Gérard Castello-Lopes, Paris, e Carlos Afonso Dias, Nazaré.

quinta-feira, 5 de março de 2009

André Fernandes Quarteto

«Questiono-me algumas vezes sobre a fonte da inspiração. De onde vêm as ideias, porque decido escrever ou tocar uma nota e não outra», afirma o guitarrista de jazz André Fernandes a propósito de Imaginário, o seu novo CD, que será apresentado ao vivo, amanhã, 6, pelas 21 e 30, no Auditório de Espinho. Depois de Cubo, editado em 2007, o guitarrista explora agora novas sonoridades. A acompanhar André Fernandes estarão Mário Laginha no piano, Nelson Cascais no contrabaixo e Alexandre Frazão na bateria.

Natália no Grémio Literário

Natália, de Helder Macedo, vai ser lançado hoje, quinta-feira, 5, às 1 8 e 30, na Biblioteca do Grémio Literário, em Lisboa. O romance, o quarto do autor, depois de Partes de África, Pedro e Paulo, Vícios e Virtudes e Sem nome, sempre com a chancela da Presença, será apresentado por Luísa Mellid-Franco.

quarta-feira, 4 de março de 2009

A Inexistência de Eva

Eva conhecia o medo inicial, não da solidão, não do pecado, mas de alguma inexistência. Trazia consigo a sensação da inexistência do mundo. Não sabia de onde chegara, e talvez por isso lhe parecesse errado partir.

aaaOuviu: - Se partires, não regressarás
aaaa lugar algum. Nunca se regressa
aaapartindo.

***

Talvez Eva não soubesse falar, ainda ou já. Mas pensava, como todos os homens, durante as horas em que não dormia. Como desconhecia as palavras exactas através das quais se pensa, e desconhecia as imagens do mundo por fora da sala, era essencialmente naquela brancura que pensava.

aaaOuviu: - Não precisarás de saber dizer
aaaas palavras. Para lá deste lugar, ninguém diz
aaaas palavras - que se pensam.



Do novo livro de Filipa Leal, A Inexistência de Eva, publicado pela Deriva.

terça-feira, 3 de março de 2009

O Tigre Branco nas livrarias

A estreia literária do indiano Aravind Adiga, distinguida com o Man Booker Prize 2008 e, mais recentemente, com o Grinzane Cavour Literary Prize para primeiras obras, chega hoje às livrarias portuguesas, com a chancela da Presença. O Tigre Branco conta a história de Balram Halwai, que consegue romper com a sua condição (e casta) de pobre e chegar ao mundo empresarial de Bangalore. É um retrato nu e cru da Índia actual, com todas as suas contradições. Quando Balram ouve a notícia da visita oficial ao seu país do primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, decide escrever-lhe e contar-lhe a sua vida. É uma conversa que se prolonga durante sete dias e na qual vamos conhecendo todas as suas peripécias, desde o quotidiano na Escuridão até ao golpe com que conquistou a liberdade e um lugar na Luz. Entre metáforas e descrições da realidade indiana, O Tigre Branco é um romance sobre os desafios que se colocam às potências emergentes do Oriente, nomeadamente em relação à democracia, à corrupção, às injustiças sociais e aos sistemas de castas. Irónico e com uma extraordinária gestão do suspense da narrativa, é livro para se ler de enfiada.

segunda-feira, 2 de março de 2009

George Schwizgebel, um monstro da animação

George Schwizgebel, um dos maiores génios do cinema de animação experimental europeu, vai estar em Lisboa, no Festival Monstra, de 9 a 15 de Março, no Cinema S. Jorge, Museu da Marioneta, Museu do Oriente, Museu Nacional da Etnologia e Teatro Meridional.

Fica aqui 78 tours (1985), o exemplo máximo da sua capcaidade lúdica, de como tudo se transforma, numa espécie de constante citação de Escher elevada a um extremo

O que andam a fazer os arquitectos portugueses?

What Are You Doing? é o nome da nova iniciativa mensal da Ordem dos Arquitectos. Manuel Aires Mateus, Pedro Domingos, José Adrião, Cristina Veríssimo/Diogo Burnay e Maximina Almeida/Telmo Cruz são os primeiros convidados deste espaço de troca de ideias, cujo principal objectivo é perceber o que andam a fazer os profissionais da área.
Além de grandes nomes da arquitectura portuguesa, What Are You Doing? abre espaço a qualquer arquitecto que queira apresentar trabalhos, ideias, conceitos e projectos em desenvolvimento. A primeira sessão (sempre na primeira terça-feira de cada mês) realiza-se amanhã, 3, às 21, na sede da Ordem dos Arquitectos, com a presença de Manuel Aires Mateus.
Nos meses seguintes, é a vez de Pedro Domingos (2 de Abril), José Adrião (8 de Maio) e das duplas Cristina Veríssimo/Diogo Burnay (5 de Junho) e Maximina Almeida/Telmo Cruz (2 de Julho).
Com o seu ambiente informal, esta iniciativa procura recriar o espírito das tertúlias e do Twitter, a mais recente ferramenta da internet para troca de ideias, informações e cumplicidades.