terça-feira, 26 de maio de 2009

Kenneth Anger: Da magia e do oculto

Alexandre Estrela, António Poppe, Brian Butler, Jannis Varelas, Joachim Koester, John Bock, Jonathan Meese, Manuel Ocampo, Markus Selg e Tamar Guimarães são os artistas que compõem a mostra internacional Estrela Brilhante da Manhã, patente até 1 de Agosto, integrada no ciclo que a Associação Zé dos Bois está a dedicar ao realizador norte americano Kenneth Anger, uma das referências do cinema independente e undergroud.
Esta exposição sugere um percurso iniciático, pondo, num primeiro plano, a evidência dos fantasmas do humano», sugere o comissário, Natxo Checa, no texto de apresentação. «Acedemos a narrativas mediúnicas, manifestações xamânicas, construções simbólicas, figurações híbridas que sublinham o constante sentimento metafísico que o homem experiência na busca incansável do absoluto».
São trabalhos que reclamam as propriedades da magia, dos rituais e da tradição hermética, que procuram, introspectivamente, perceber os grandes mistérios da humanidade. Brian Butler propõe uma travessia do abismo, Tamar Guimarães defende que o papel do historiador é equiparável ao do médium. Também há deambulações pelos sonhos (Jannis Varelas), personagens utópicas (Jonathan Meese), críticas ao fundamentalismo religioso (Manuel Ocampo). E não faltam simulacros, por Joachim Koester, ligações entre o sagrado e o profano, por John Bock, reflexões sobre a quarta dimensão, por Markus Selg, ensaios sobre a impossibilidade de entendimento global, por António Poppe, e aproximações à temática do poder, por Alexandre Estrela.
Múltiplas abordagens (como se pode ver pelos tópicos aqui reunidos) à fascinante obra de Kenneth Anger, de quem se apresenta a curta-metragem Brush of Baphomet, inspirada na simbologia esotérica de Aleister Crowley. Uma exposição do outro mundo.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Paisagens familiares



Há uma profunda melancolia nas imagens que compõem a nova exposição de Raquel Mendes, Verosímil, patente na Galeria Sopro, em Lisboa, até 16 de Maio. Recorrendo à fotografia e ao vídeo, a artista capta ambientes e paisagens familiares, em que os recantos, os objectos, as mobílias, os rostos e as marcas do quotidiano revelam histórias que as palavras não sabem contar. Porque é de tempo e de espaço, de silêncio e de memória, de imaterialidades que estas imagens nos falam. São retratos de casas habitadas por pessoas, de pessoas habitadas por emoções. São retratos de uma vivência concreta, que não foi encenada e que Raquel Mendes, nascida em 1978, em Setúbal, registou para criar, no seu conjunto, uma narrativa que tem tanto de verdadeira, como de imaginária. «Existe uma elegante, directa simplicidade no [seu] trabalho multi-media. Os trabalhos de vídeo são filmados em tempo real, sem edição, nenhuma manipulação. Os assuntos que capta com a câmara – a casa, pertences pessoais, e reuniões de família – são familiares a todos nós», escreve John Calcutt na apresentação da mostra. «E ainda o poder real do seu trabalho decorre de coisas – o chamado abstracções – que escapam totalmente à câmara: tempo e mortalidade, amor e perda. Debaixo da superfície de mundanas aparências do quotidiano, além do poder de descrição, Verosímil consegue transmitir algo mais, algo que evita o olho».

(clicar nas imagens para aumentar)

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Gabriel Abrantes, Prémio EDP

Gabriel Abrantes é o vencedor do Prémio EDP Novos Artistas 2009. Com um trabalho desenvolvido na pintura, no cinema ou na instalação e na performance, o artista foi distinguido pela «energia criativa» do seu projecto, que aborda de forma «singular» o mundo contemporâneo globalizado, segundo o entendimento do júri internacional, que sublinhou ainda a capacidade de criação de «universos narrativos», onde se cruzam, através de várias linguagens, «visões sarcásticas da cultura, da política e do quotidiano». Mauro Cerqueira foi distinguido com uma menção honrosa, o que acontece pela primeira vez na história do Prémio EDP. As obras dos nove artistas finalistas podem ser vistas na exposição patente no Museu da Electricidade, em Lisboa. O filme Visionary Iraq, de Gabriel Abrantes, de que o JL traçou o perfil no seu número 1001 e que agora recuperamos, passa no Festival Indie Lisboa dias 24, às 19, no Cinema São Jorge, 26 e 30, às 15 e 45 e às 21 e 15, respectivamente, no Cinema Londres.

«Primeiro, foi a pintura, ainda no liceu em Washington, seguindo as pinceladas do irmão. Era então «muito pequeno» e pintar dava-lhe altura, elevava-lhe a auto-estima e o reconhecimento alheio. «Era quase o meu único poder social, a minha identidade», recorda. Carregou nas tintas, tirando o retrato aos colegas. De compulsiva e útil socialmente a pintura, inicialmente muito à maneira de Paula Rego ou de Lucien Freud, tornou-se ao correr do tempo uma prática constante e que lhe valeu a atenção da crítica logo nas primeiras exposições – Shitfest 2006 or Oh my god it was amazing, you should have been there, na Houghton Gallery, em Nova Iorque, Visionary Iraq ou 20 30 experiências no relativismo moral, na Galeria 111, entre outras. Tem agora outra utilidade: financiar os seus filmes.
Gabriel Abrantes, 24 anos, encontra no cinema uma forma de «preenchimento em termos sociais»: «No atelier, estou a fazer um esforço intelectual, mas a actividade social não é grande. O cinema tem vindo a cumprir esse espaço que foi a razão principal que me levou a trabalhar em arte». Também a possibilidade de realização de todas as artes. Tanto mais que o seu cinema está «longe de obedecer a qualquer convenção». Prepara agora um filme, em três «capítulos», que irá apresentar em locais distintos, a Maumaus - Escola de Artes Visuais, a ZDB e o Museu da Electricidade – é um dos finalistas do Prémio EDP Novos Artistas 2009 – para contar a história de um casal homossexual, em eco-férias na Amazónia, que decide ter um filho com recurso a uma barriga de aluguer e aos óvulos de uma irmã. Em cada um dos lugares, irá construir um cenário e filmar lá mesmo o que vai projectar nesse espaço. «É um filme dividido na cidade», adianta, sublinhando por outro lado a importância do «públicoalvo». «Houve uma grande abertura nas artes plásticas, como na escrita ou na filosofia, o que resultou numa grande perda de sentido. O capitalismo tem o objectivo de fazer dinheiro e esse é também o de Hollywood, que produz os filmes que têm sentido para o seu público-alvo. Eu opero da mesma maneira, procurando um público-alvo e um objectivo claro, até porque a maior parte das coisas que vemos hoje não querem dizer absolutamente nada».
Procura, aliás, diferentes ângulos de abordagem, como aconteceu em Visionary Iraq, um filme que fez sobre o Iraque. Aposta sempre num «exercício de imaginação». Fez já uma longa-metragem, O grande abraço de Gabriel Abrantes, em Trás-os-Montes, na aldeia dos seus bisavós paternos, onde costumava passar os Verões e que um dia demandou numa tentativa de encontrar qualquer coisa que não achava em Nova Iorque, onde vivia. Instalou-se na velha casa da avó e pensou rodar um dilúvio, usando os jovens locais como actores: «Tenho sempre a ideia de escolher audiências muito estranhas, que não têm voz, como a desta aldeia, uma das que
vão desaparecendo por causa da globalização », diz. Usou também elementos de telenovelas como contos tradicionais, do folclore transmontano e da recolha de Leite de Vasconcelos. É um filme que pretende fazer passar no circuito dos festivais, não em galerias. E não esconde o desejo de fazer um épico. Assim venda quadros para isso. Em todo o caso, experimenta já um certo toque conservador, «no caminho do ICAM», comenta irónico.
Gabriel Abrantes nasceu em Chapel Hill, na Carolina do Norte, Estados Unidos, para onde os pais médicos, haviam emigrado. Veio para Portugal aos quatro anos, seguindo depois para Bruxelas, até aos sete, e de novo para os EUA. Fez o curso de Fine Arts and Cinema, na Cooper Union for the Advancement of Science and Art, em Nova Iorque, onde experimentou intensamente as diferentes práticas artísticas, da escultura ao cinema. Frequentou no ano passado um mestrado no Le Fresnoy, Studio Nacional des Arts Contemporains, em França e actualmente vive em Lisboa.
A inclinação para a arte, que vem de alguma maneira de família – o pai também pintava e é parente do pintor João Vieira e de Manuel João Vieira – tornouse total. Também faz música e performance, o projecto de one man band, em que pode tocar bombo com o pé, bandolim com as mãos e ainda cantar. Apresentou-se pela primeira vez em público se recentemente no Maxime. Não correu mal: «Algum pessoal disse que tinha muita lata e houve algumas pessoas que gostaram da música. Eu estava muito nervoso eenvergonhado. E nesse sentido foi importante no meu trabalho. Porque há muita vergonha na arte contemporânea».
Em Agosto vai expor em Brasília um filme que irá fazer na Amazónia e em Novembro terá uma exposição em Paris.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Inaugurações simultâneas

A Associação Portuguesa de Galerias de Arte promove este sábado, 18, às 15, mais um ciclo de inaugurações simultâneas, em 24 espaços de Lisboa e do Porto. Eis a lista completa.

Em Lisboa:


E no Porto:

Fotografia de Raquel Mendes

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Tiago Baptista, Prémio Jovens Pintores


Tiago Baptista é o vencedor do Prémio Fidelidade Mundial Jovens Pintores, no valor de 7 500 euros. O júri, constituído por Miguel Lobo Antunes, João Queiroz, José Loureiro, Leonor Nazaré e Miguel Wandschneider, atribuiu ainda três menções honrosas, no valor de 3 750 euros, a André Trindade, Inês Rebelo e Sara Bichão. A exposição com os finalistas está patente, até 8 de Maio, na Galeria Chiado 8, em Lisboa.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Prémio Fidelidade Mundial Jovens Pintores

André Silva, André Trindade, Inês Rebelo, Jorge Lopes, Sara Bichão e Tiago Baptista são os finalistas da exposição referente ao Prémio Fidelidade Mundial Jovens Pintores 2009, que se inaugura hoje, terça-feira, 14, às 19, no espaço Chiado 8, em Lisboa, ficando patente até 8 de Maio. Na altura, serão conhecidos os quatros artistas premiados.

Pensar a arte

Eduardo Matos, João Fonte Santa, João Pombeiro, João Tabarra, Mafalda Santos, Miguel Carneiro, Miguel Palma, Paulo Mendes, Pedro Amaral, Pedro Barateiro, Pedro Cabral Santo + Ruy Otero, Sara & André e Susana Gaudêncio são os artistas que compõem a exposição A Escolha da Crítica, um projecto de Lígia Afonso, patente na Plataforma Revólver, em Lisboa, até 2 de Maio. Trata-se de uma selecção de obras de artistas de várias gerações, dos anos 90 à actualidade. O denominador comum de todos estes trabalhos é o posicionamento crítico, sistemático ou episódico, dos seus autores face ao sistema da arte contemporânea e a reflexão sobre os papéis sociais e económicos que a cultura desempenha. «Querer pensar acrítica e descontextualizadas as práticas artísticas contemporâneas é assumir passivamente o lugar do conforto dentro da sua estrutura estabelecida e alienar a possibilidade de encontro pelo diálogo e a criação, aos quais assiste a própria ideia de provocação e conflito», defende Lígia Afonso no texto introdutório a esta mostra. Nesse sentido, esta exposição «é uma tentativa de mapeamento de um discurso, mais ou menos polémico e interventivo, tornado possível com a lenta ultrapassagem dos limites e fronteiras historicamente herdados, ainda que porém, e agora em democracia, mais frequentemente normalizado que radicalizado.»

segunda-feira, 16 de março de 2009

Arte Digital




«A Arte não pode rejeitar tanto a tecnologia ou a ciência como deixar de ver o mundo tal como ele é». Eis o mote do ciclo exposições que a Galeria das Salgadeiras, em Lisboa, está a dedicar à arte digital. São duas mostras (de Ana Portugal e de Jaime Vasconcelos) que procuram levantar algumas questões sobre o que poderá ser o futuro: «Será que através de um programa de computador, feito de funções com variáveis bem distintas das que o artista normalmente está habituado a controlar, se conseguem transmitir emoções e criar discursos?» Ou: «Que novas fronteiras para a Arte se estão a ultrapassar, se é que estão?».
A primeira a sugerir uma possível resposta a estas perguntas é Ana Portugal, em Variações, patente até 28 de Março, uma exposição feita de trabalhos recentes, realizados na sequência do curso de Arte e Multimédia da Universidade da Madeira. A artista, nascida em 1949, parte de registos fotográficos, que depois são metamorfoseados pelo filtro do computador. Quer mudando a cor e a forma, segundo os tradicionais métodos pictóricos, mas numa esfera digital; quer desenvolvendo um programa informático, orientado por coordenadas específicas, que executa a obra. Neste caso, lê-se na apresentação da exposição, «entramos no campo da software art, em que o artista cria o seu objecto de arte através de uma linguagem lógica de léxico e gramática restritos – uma linguagem de programação – e de um algoritmo – sequência de instruções que podem ter um carácter aleatório ou predefinido».
O resultado é um conjunto de telas preenchidas por variações tonais pautadas por uma certa ideia de harmonia. Na ausência de textura, elemento fundamental na pintura, contrapõe-se a ilusão óptica, na busca de uma profundidade sensorial.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Quadros de uma amizade


Aos poucos, através do Centro de Arte Manuel de Brito, vai sendo possível conhecer, com maior profundidade, o papel que o fundador da Galeria 111 teve na dinamização das artes plásticas do século XX. Divulgando novos nomes, incentivando-os a continuar ou segurando-os nas alturas mais difíceis, a contribuição foi de tal forma decisiva que a sua colecção privada é suficiente para dar uma panorâmica das últimas décadas ou mesmo para a realizarão de retrospectivas individuais. É o que acontece agora com António Palolo. Em 1964, Manuel de Brito organizou a primeira exposição do artista, nascido em Évora, em 1964, e falecido em 2000. Aqui se apresentam obras desde essa época até à década de 80, período em que a sua estética se afirmou na plenitude. Num primeiro momento, ligada ao informalismo e à recusa de qualquer forma; mais tarde, navegando pelos terrenos da neofiguração, da nova abstracção e, inclusivamente, do conceptualismo. A sua marca, no entanto, sempre se expressou em cores fortes e justapostas, reinterpretando as temáticas do maravilho e da infância. A ilusão óptica é muitas vezes utilizada com o objectivo de introduzir várias camadas na leitura dos quadros. Embora o pintor tenha tido uma sólida formação teórica, há em toda a sua obra uma ironia que procura desmontar o léxico artístico da contemporaneidade. Nesse sentido, é um artista profundamente actual. Como esta exposição, patente no Palácio Anjos, até 17 de Maio e espelho de uma amizade, consegue provar.

sexta-feira, 6 de março de 2009

A afirmação da fotografia em Portugal




Iniciada em 1999, a colecção de Fotografia do Museu do Chiado tem vindo a estudar e a divulgar uma época particularmente importante para a afirmação desse suporte artístico em Portugal: os anos 50. «A fotografia portuguesa, neste período, reflecte de forma ímpar muitas das dissonâncias e conflitos estéticos então vividos, que só podem ser lidos e entendidos em articulação e cruzamento permanente com todas as outras áreas da vida cultural, social e política», afirma Emília Tavares, a comissária da exposição Batalha de Sombras, que reúne um conjunto de obras dessa década. «Mais do que uma batalha entre tradição e inovação assistimos a uma ambivalência entre representação e apresentação, técnica e inspiração, alta e baixa cultura, estética e ética, arte e ideologia.» A mostra estará patente no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, entre amanhã, sábado, 7, e 14 de Junho. A partir dela é possível fazer o retrato de uma sociedade, em pleno Estado Novo, dividida entre a arte pela arte e a mensagem política.

Fotos de Hugo Sena, Poligonal, António Paixão, Sedução, Gérard Castello-Lopes, Paris, e Carlos Afonso Dias, Nazaré.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Novos comissários na Arte Contempo


Adriana Delgado Martins, Leonor Veiga e Marisa Vinha foram as vencedoras da iniciativa anual Novos Comissários, da Associação Arte Contempo, cujo principal objectivo é contribuir para a divulgação de novos criadores, tanto na área artística, como na curadoria. Com o sugestivo título Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, esta proposta procura reflectir sobre a existência fragmentada e sobre o ténue equilíbrio diário que cada pessoa enfrenta no quotidiano.
As próprias comissárias são mulheres «desterritorializadas», recém-chegadas a Lisboa depois de longos e diferentes percursos por outras latitudes, inquietas e contraditórias, entre explosões e apatias que tocam, por vezes perigosamente, os seus limites psicológicos», como se pode ler na apresentação da mostra.
Para trabalhar este conceito Adriana Delgado Martins, Leonor Veiga e Marisa Vinha convidaram dez artistas. São elas Ana B, Claudia Fischer, Daniela Krtsch, Eduarda Silva, Margarida Palma, Paula Albuquerque, Raquel Schefer, Silvia das Fadas, Tatiana Macedo e Valeria Galizzi.
Neste diálogo entre as mulheres e a cidade, as noções de territorialidade e identidade são exploradas através de obras que evocam a paixão, ansiedade, stress, pânico, medo, dor, melancolia, apatia e vazio. Almodôvar, Deleuze e Homi Bhabba são algumas referências cinematográficas, sociológicas e filosóficas presentes nestes trabalhos, num constante confronto com o Outro.
A exposição é inaugurada hoje, na sede da Associação Arte Contempo, na rua dos navegantes, em Lisboa, ficando patente até 28 de Março de 2009.

Duas obras, e respectivas sinopses, presentes na exposição:

GMT minus 5, de Paula Albuquerque (2009, 5’’ DV Pal – Stereo): Duas jovens semi-nuas trabalham num bar em Nova Iorque. É Inverno. Matam o tempo a retocar maquilhagem e a falar ao telefone, esporadicamente recebem clientes. Através de um trabalho de montagem de imagem e de som constroem-se e desconstroem-se possíveis narrativas, desestabilizadas pela inclusão de ruídos, música atonal, sons de rua, manipulações e sugestões de soundscapes. Nos espaços intermédios da imagem, encontramos a experiência de uma proximidade artificial com o objecto. Um objecto virtual, no espaço e no tempo (imagens recolhidas através de uma web cam oculta).

Sem Sobressalto, de Silvia das Fadas (2009, 8’’ DV Pal): Inspirado no livro Memórias de um Amnésico, do escritor e músico Eric Satie, este é um exercício que nos permite várias camadas de leitura. Da precisão à obsessão, da rotina à loucura. O branco. Pautado pelo som de um microondas, o gesto do universo doméstico sobrepõem-se ao gesto do universo do conto.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Um acaso freak


O nome é desde logo um desígnio: The Magnificent Seven. Tal e qual a música dos Clash. E não por acaso. Mas não se trata de revivalismo ou de nostalgia musical. Antes de uma exposição, talvez melhor de um happening. Um «acaso freak», como adianta um dos artistas intervenientes, Paulo Catrica, acrescentando que «não foi idealizada em torno de um conceito ou de um tema o que contradiz o enunciado usual da Arte Contemporânea». The Magnificent Seven junta trabalhos recentes de sete. A relação numérica e qualificativa não será também casual. São eles Pedro Alfacinha , Katherine E. Bash, Emmanuel Booss, Paulo Catrica, Carlos Lobo, Deirdre O'Dwyer  e Max Schleser. O denominador comum é Londres, onde vivem e se conheceram. Daí também os Clash, o tal «desígnio freak» que o título acabou por carrear para o «exercício colectivo» da discussão e da montagem da exposição. E expostas vão estar obras diversas, da fotografia ao vídeo, da pintura ao desenho, passando pela cerâmica ou pela instalação. Vão ocupar  o espaço de um terceiro andar do nº 68, da Rua Pinheiro Chagas, em Lisboa. A inauguração é amanhã, sexta-feira, 3, às 19 horas. E The Magnificent Seven poderá ser vista apenas mais um dia, no sábado, entre as 15 e as 23 horas. A seguir talvez o andar seja ocupado por outras obras.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Géricault ou Delacroix?

Duas capas de discos fantásticas que reinventam obras primas da pintura francesa. O último dos Coldplay e um clássico dos Pogues. Para ver... e também para ouvir











quinta-feira, 10 de abril de 2008

O site de Pollock



Gostava de pintar um quadro como o Jackson Pollock, mas acha que não tem o talento nem os meios? Não há problema. Hoje, a tecnologia permite-lhe tudo. E depois de ler o nosso último par ou ímpar, sobre O chão de Pollock, passe por este site dedicado ao artista. Não dá para colocar na parede, mas a experiência e a ilusão artística valem a pena.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Vieira da Silva na sala de estar

E porque não levar um quadro de Vieira da Silva para casa? Talvez fique bem na sala de estar ali naquela parede onde normalmente está ligada a televisão… Caso ganhasse o Euromilhões, a maioria dos nossos leitores optou por Les Échauguettes, de Vieira da Silva. O quadro será licitado amanhã. A estimativa aponta para que seja arrematado algures no intervalo entre 175 mil e 250 mil euros. Não está ao alcance de todos. Mas se, por acaso, alguns dos leitores ganhou mesmo o Euromilhões, não se esqueça de mostrar aos amigos...

quarta-feira, 5 de março de 2008

Ora tomem, Bordalo

Há pelo menos três razões para ir até ao Campo Grande, em Lisboa, e descobrir Queres Bordalo?, até dia 23, na galeria de exposições temporárias do Museu Rafael Bordalo Pinheiro.
A primeira é naturalmente a própria exposição. São umas sete dezenas de trabalhos de Pedro Proença, as ilustrações que o pintor fez para um livro de Manuel António Pina, justamente intitulado Queres Bordalo?, uma obra encomendada pela Câmara Municipal de Lisboa, que tutela o museu, e que lá poderá ser adquirida.
Os desenhos de Proença e as histórias de Pina retomam o universo de Bordalo Pinheiro, o genial caricaturista e ilustrador da segunda metade do século XIX, que acrescentou ao nosso património cultural e gestual o famoso Zé Povinho, com o seu providencial «Ora toma», verdadeiro ex-libris do brioso espírito de cidadania nacional, sempre com uma resposta se não na ponta da língua pelo menos na convicção do médio. Mas Bordalo criou uma galeria de personagens jocosas que bem mordiam os calcanhares da política, da finança, dos costumes e demais Aquiles do seu tempo. Pedro Proença seguiu-lhes o traço numa série de desenhos, em que a paleta é viva e mordaz. São divertidos «proenças» sobre o signo de Bordalo.
Também Manuel António Pina cria uma série de quatro ficções, identificáveis da sua lavra, mas mergulhando no caldo dos «bordalos». O Pedido de Casamento, O Génio da Garrafa, O Grande Gato e Notícias de Lisboa são narrativas exemplares, que tomam o próprio Bordalo como personagem. Mas os «Pinas» são sempre textos que dispensam qualquer pretexto. Daí que o livro que reúne essas histórias bordalescas seja a mais que justificada segunda razão para uma visita a Queres Bordalo?.
E ora tomem a terceira: vistas as ilustrações, lidas as histórias, é de espreitar o outro lado do edifício, devidamente remodelado há pouco tempo, onde mora a colecção permanente e apreciar um universo único. Porque queremos Bordalo, sempre.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Rauschenberg por Rauschenberg



Depois de A borracha de Rauschenberg, a explicação na primeira pessoa.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Noé Sendas - Construtor de personagens


No passeio, em frente à entrada da Lada Projects Gallery, em Berlim, vai estar uma escultura Fallen, que evoca Damiel, o anjo caído de As Asas do Desejo, de Wim Wenders. Dentro da galeria, Noé Sendas apresenta, a partir do dia 9, The Dreamers, duas instalações-objecto e uma vídeo-instalação. Os sonhadores são, de resto, mais uma série de personagens que o artista, actualmente residente em Berlim, acrescenta à sua galeria de figuras criadas para melhor desenvolver as suas «investigações» ou «visões» sobre as imagens, os objectos de uso corrente, de alguma maneira marcantes no mundo em que vivemos.
Nesse trabalho de persistente redescoberta e reavaliação, inscreve-se outra personagem que Sendas construiu, O Caçador/ The Hunter, que apresenta em Lisboa, na Galeria Cristina Guerra, até 23. mostra dois vídeos e uma foto-instalação, em que a ideia de «montagem» é fulcral. As fotografias resultam da sobreposição de imagens de filmes e dos lugares que os actores habitam como fantasmas. Nos vídeos, Noé Sendas parte de imagens de filmes, que caíram em domínio público, para construir, frame a frame, uma outra narrativa, quase onírica, sem princípio nem fim.
«Os fragmentos de imagem funcionam como palavras, relógio, faca, candelabro, olho, etc», explica o artista sobre esse obsessivo e paciente trabalho de edição. «O mesmo se passa com os sons todos eles são separados em pequenos fragmentos. Mesmo quando retirava parte de um monólogo de um filme acabava por separar palavra a palavra e colocá-las em diferentes partes da banda sonora. O trabalho assemelha-se ao de um músico que cria uma determinada melodia, neste caso de imagens».
Todas as peças da exposição estão justamente implicadas no «olhar do caçador, que capta as imagens em movimento», como presas. «Mas ao longo da construção das obras», acrescenta o artista, «quase sempre o olhar do caçador acabou por se tornar no da presa e vice versa». Em The dreammers, por seu lado, o jogo narrativo que Noé Sendas propõe é quase o de uma «colectânea de short stories». Os seus sonhadores, que remetem, por exemplo, para Gente de Dublin, de James Joyce, são aqueles que estão perto do «espírito das coisas», ou «aqueles que imaginam ter a vida dos outros». Como O Caçador ou antes O Coleccionador são nós da arte de Noé Sendas para deslindar em Lisboa e Berlim.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Duchamp revisitado


Provavelmente, nunca um artista foi tão mal entendido. E se dissermos que esse artista se chama Marcel Duchamp, e que o «urinol» é o mal entendido, talvez se perceba porquê.
Chamaram-lhe de tudo. A impostura do século, o fim da arte, o triunfo da mediocridade, a destruição dos valores tradicionais. E, na verdade, pouco se disse sobre o alcance da ousadia duchampiana, ao submeter a concurso, em 1917, no salão da Sociedade dos Artistas Independentes de Nova Iorque, o seu readymade Fountain. Ainda para mais fazendo Duchamp parte do júri.
Nove décadas depois, avalia-se o impacto da obra e o seu significado pela interpretação que artistas e críticos cristalizaram ao longo do século XX; olha-se às consequências do seu acto, mas esquece-se do acto em si, em particular as circunstâncias e o contexto da Europa e da América dos inícios da I Guerra Mundial.


É a esse exercício, ao mesmo tempo histórico e crítico, que se dedica David Santos, em Marcel Duchamp e os readymade, uma edição da Assírio e Alvim (91 pp, 12 euros). O director do Museu do Neo-Realismo, de Vila Franca de Xira, filia os readymade de Duchamp na tradição Romântica do século XIX. Numa época de racionalismo e de progresso, os simbolistas defendiam «o poder significacional do inconsciente, ou da desrazão». É a altura da poesia automática, do nonsense, das livres associações, do inconsciente, do acaso. Estratégias artísticas que os movimentos dadá e surrealista sublimaram na poesia, no teatro, na pintura e também na cidadania.
Neste sentido, Marcel Duchamp desempenha um papel fulcral. Não só pela sua contribuição para o dadaísmo, mas também pelas reflexões teóricas em torno do lugar do artista, da obra de arte e do espectador na Arte Contemporânea.
Muito antes do conceptualismo se definir como modelo dominante, Duchamp questiona-se sobre o valor da produção em série, em sintonia com o ensaio seminal de Benjamin, A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica. E afirma, acima de qualquer outro valor, a primazia da ideia sobre o fazer, através da tríade «sujeito, objecto e assinatura».
Como nota David Santos, cada obra passa a produzir «as regras do seu próprio jogo, bem como a medida da sua aceitação». É o «observador quem faz a obra», como sublinha Duchamp no seu ensaio Acto Criativo, de 1953. No génio e no embuste.