terça-feira, 29 de setembro de 2009

Pedro Costa, sublime!

A propósito da edição em DVD de Onde Jaz o teu Sorriso, de Pedro Costa, republicamos um texto de Rodrigues da Silva



Permitam-me a ênfase. E a sinceridade. Este é um dos mais inteligentes e também dos mais belos filmes que já vi. Este filme chama-se Onde Jaz O Teu Sorriso?, realizou-o o português Pedro Costa, e se não dispenso o «português» é porque é um orgulho saber nosso aquele que é hoje (e não só por este filme, mas por toda a sua obra anterior) um dos mais importantes cineastas vivos. Em todo o Mundo.
E vamos ao filme. Ou ao que é. Ou, para já, ao que lhe esteve na origem.
Na origem esteve um convite feito a Pedro Costa: fazer para o canal televisivo ARTE um filme a inserir na série Cineastas do Nosso Tempo. Os cineastas foram Jean-Marie Straub/Danièlle Huillet, que, desconhecendo a filmografia de Costa, só aceitaram depois de Jacques Rivette, que admiram, se confessar grande entusiasta dela.
A partir daqui foi o trapézio sem rede, já que, para fazer um filme sobre cineastas, há (ou haveria) um número ilimitado de modus faciendi. Atrevo-me a dizer que Pedro Costa escolheu não o melhor, mas aquele que para mim é, a partir de agora, o único. O único possível.
O único justo. Qual? Este que vos revelo.
Sabendo que o casal Straub/Huillet estava a fazer uma terceira montagem do seu filme Sicília! para um auditório de alunos do Studio National des Arts Contemporains de Fresnoy (Lille/França), Costa foi para lá que se dirigiu e foi lá que filmou. Praticamente tudo o que se vê passa-se, assim, na sala de montagem. Com três intérpretes: os dois cineastas e o seu filme. Melhor dizendo: os fotogramas do seu filme que Huillet, na mesa de montagem, vai deixando correr de frente para trás e de trás para a frente em busca do ponto exacto do corte. Isto enquanto Straub, na sombra, discute com a mulher a opção, deambula e fala de cinema.
Deveria haver um quarto personagem se Onde Jaz O Teu Sorriso? fosse um documentário, no sentido clássico do termo. Esse quarto personagem seria o auditório, isto é, os alunos que ocupam o espaço atrás da mesa de montagem. Pois, mas Costa eliminou esses alunos, esse auditório, esse espaço. Não documentou, ficcionou (todo o documentário ficciona, toda a ficção documenta), para se concentrar (e nos concentrar) apenas no trabalho dos cineastas.
Não só por saber (como alguém já referiu) que os filmes de Straub/Huillet são «feitos à mão».
Também na certeza de que para eles «aquilo que se filma é mais forte que o cinema».
Trabalho, sem dúvida, portanto. Logo, também paixão. Ou essa simbiose magnífica entre as duas entidades que acontece (quando acontece...) se os caminhos da Paixão são os caminhos do Calvário e vice-versa. Após o que há a Ressurreição. Pela obra feita. Perfeita. A obra acabada. E assim, porque o trabalho (dirá Straub durante o filme) só para uma ínfima parte da Humanidade é aquilo que as pessoas gostam de fazer. Straub/Huillet fazem parte dessa pequeníssima percentagem de humanos que fazem o que querem. Como querem. «Mas isto paga-se», dirá Straub. Paga-se com a natureza inerente à criação, mas paga-se também com a circunstância da incompreensão da sociedade do consumo de imagens pelo trabalho/paixão, no caso em apreço por aquilo que Bresson chamava «cinematógrafo», opondo o termo a «cinema».
O que vemos, com Huillet a trabalhar os fotogramas e Straub por detrás em solilóquio por vezes rabuja, é algo como um fazer amor. Amor com os fotogramas, na ânsia do melhor, do absoluto. Os fotogramas são a Matéria. Antes dela, dirá Straub, há a Ideia. E no final a Forma.
«Como uma escultura», conclui, e está tudo dito, nem é preciso dizer mais nada sobre o percurso de uma criação. Mas voltemos a Pedro Costa.
Já percebemos que, inteligentemente, ele dispensou o auditório, renegando a forma clássica do documentário, para se concentrar nos dois cineastas e na sua obra em mãos. Porquê? Por uma razão simples. Para que nós (espectadores), através dele e da sua câmara, nos concentrássemos no processo criativo. E aqui somos reconduzidos ao seu filme anterior, No Quarto da Vanda, onde nos obriga a confrontar com o essencial de um outro processo, uma outra realidade.
Mas Pedro Costa dispensa mais. Dispensa o cliché habitual de um filme sobre dois cineastas: a biografia.
Que se imagina intercalada com bocados de filmes + entrevistas. E fá-lo, convicto, decerto, que aquilo que verdadeiramente dá a ver um criador é a sua criação. Ou o labor que a ela conduz.
E sobre este labor, sim, Costa é exaustivo. Porque ele sabe que a obra acabada é precedida de um labor/dor que o público obviamente ignora. A pedra contém já em si a estátua, mas é o escultor que dela a fará brotar. Assim, Pedro Costa revela. Qual parteiro que nos expusesse o trabalho de um parto. Difícil, moroso, mas apaixonado e imensamente feliz.
Poderia eu ainda dizer (e digo) que Straub, nos seus peripatéticos passos em volta da mesa de montagem, alude a Pavese, a Brecht e a Vittorini, bem como a um sem número de cineastas tutelares, de Chaplin a Hitchcock, de Bresson a Dreyer, de Buñuel a Mizogouchi. Pelo meio, ficamos a saber também que o casal se conheceu em 1954, e da sua vida praticamente mais nada. Excepto o resto, que é a teoria que, a partir de uma prática longa de mais de 40 anos, foram, a dois, elaborando. Estética e ética em harmonia. Sobre a margem de liberdade que deve ser dada aos actores. Sobre essa outra margem de liberdade que deve sobrar ao espectador para que seja ele próprio, pela imaginação, a completar a obra, razão pela qual cada fotograma não deve jamais bloqueá-lo, mas libertá-lo. Sobre o tempo, a durée, esse tempo que não é dinheiro, ou por ele não deve ser medido. Sobre a montagem, também, que, tal como a arte toda ela, não é a vida, embora dela parta, e Straub explica-o de uma maneira lapidar: «Na vida não andamos a fazer planos».
Sabemos isto e como o sabemos? Sabemo-lo, via Pedro Costa, que (com duas câmaras, uma pequena Panasonic e uma digital, mais um técnico de som) tudo captou. Como? Dando-nos a ver os dois cineastas, criadores, sempre na penumbra e nunca em primeiro plano, porque o primeiro plano e a luz o destinou ele à obra que vai sendo criada, a partir da montagem.
Ideia-Matéria-Forma. Um filme assim, como Onde Jaz o Teu Sorriso? vai muito além do seu ponto de partida.
Na verdade, filmando Jean-Marie Straub/Da- nièlle Huillet, o que Pedro Costa filmou e nos oferece é uma autêntica ontologia da criação.
Graças a um acto de amor e conhecimento.
Absolutamente sublime!
JL 843, de 22 de Janeiro de 2003

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Concerto do Retrospect Ensemble ajuda Jardim Botânico


O Retrospect Ensemble dá um concerto único de apoio à reabilitação do Jardim Botânico da Universidade de Lisboa, amanhã, 29, às 21 e 30, na Aula Magna (Lisboa).
Vindo do Reino Unido, depois de uma temporada no Wigmore Hall, aquele que é um dos mais conceituados ensembles europeus de música antiga apresenta ao público português um Grande Concerto Barroco, com obras de Handel e Telemann.
O grupo esteve em Portugal nos Dias da Música 2009, no Centro Cultural de Belém, sob o nome “King’s Consort”. Este ano voltará a integrar a programação dos Dias da Música, já como Retrospect Ensemble. A renomeação traduz o facto de o grupo não se limitar a um período histórico preciso, nem a uma configuração rígida.
É o primeiro grupo a dar a cara pelo projecto Música pelo Jardim, que tem como objectivo angariar fundos para a reabilitação do Jardim Botânico. Outros concertos decorrerão até ao final do ano.

Bilhetes à venda: Fnac, Worten, C.C. Dolce Vita, El Corte Inglés, Lojas Viagens Abreu, Lojas Mega Rede e www.tickectline.sapo.pt e no local (dia do espectáculo)

Preço bilhetes
Doutorais – 40€
Anfiteatro inferior – 30€
Anfiteatro Superior – 20€

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Método para um voto consciencioso


Os partidos que se candidatam às próximas legislativas são 15. À partida não se deve excluir nenhum só porque tem um nome esquisito. O primeiro passo do eleitor dedicado é ler, de forma exaustiva e atenta, os programas de todos os partidos. Sublinhar com um marcador os principais pontos de vista nas diversas áreas de actuação e elaborar uma tabela comparativa, para perceber o que os une e o que os separa. De seguida deve confrontar as ideias dos partidos com as suas próprias, estabelecendo uma regra de ponderação, assinalando e valorizando as coincidências. Por exemplo, pode classificar de 1 a 10 cada uma das ideias e depois fazer as contas, para perceber o que mais lhe agrada. Quem marcar mais pontos merece o seu voto.

O esquema seria perfeito não fosse a demagogia. Funciona se acreditar que o que está escrito no programa dos partidos corresponde ao que estes realmente pretendem pôr em prática. Além disso dá uma trabalheira capaz de desesperar os mais picuinhas. Porque os programas dos partidos são, regra geral, longos, maçudos e mal escritos, e ninguém em seu perfeito juízo se predispõe a fazer essa leitura. E se porventura alguém o fizer, o mais provável é que perca o juízo a meio caminho.

Na Internet está disponível uma ferramenta que, supostamente, poupa-nos este exaustivo trabalho de leitura. Basta responder a 28 perguntas e a bússola eleitoral (http://www.bussolaeleitoral.pt) indica-nos a que zona ou família política pertencemos. Se não o partido exacto, pelo menos uma área. Porque há diferenças concretas entre os partidos, entre as esquerdas, entre as direitas e entre os centros. A bússola pode revelar algumas surpresas. Conheço militantes do BE que se descobriram no PS e outros do PS que se descobriram no PP. É um teste que todos os políticos deveriam fazer. Talvez alguns descobrissem que estão no partido errado. Pessoalmente, tinha alguma curiosidade em saber das coordenadas, à luz desta bússola, de figuras como Zita Seabra, Freitas do Amaral, Manuel Alegre, Joana Amaral Dias ou – porque não? – José Sócrates.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Nas bancas!

JL1017


Pedro Costa: O sangue do Cinema
Os 20 anos do primeiro filme do realizador, que agora volta às salas. E a monografia que faz a retrospectiva da sua obra. Um texto inédito de João Bénard da Costa

Vitorino Magalhães Godinho: A Grande Ilusão
Ensaio sobre a crise, suas causas e consequências

Oito jovens músicos
Perfis dos vencedores do Prémio RDP

Bolaño e Larsson: dois fenómenos editoriais

Eduardo Lourenço e Helder Macedo escrevem sobre Jorge de Sena

Figura: Legendary Tigerman, o homem-banda

Gabriel García Márquez, uma grande biografia

A autobiografia de Daniel Sampaio

JL/Educação • Camões • Agenda Cultural

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Black Vox

O Teatro do Eléctrico regressa à cena com Black Vox, Histórias Negras em Teatro de Terror. Uma mulher perseguida ou louca, uma princesa ou uma bailarina, um mágico ou um tolo? Personagens que se cruzam com vídeos e que ganham uma dimensão de bonecos de animação. Texto e encenação de Ana Lázaro, Patrícia Andrade e Ricardo Neves-Neves. Também com Sílvia Figueiredo e Vítor Oliveira. Teatro da Comuna, Lisboa, 20 de Setembro, às 21 e 30.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

A minha beatlomania




Já tinha feito a experiência há meia-dúzia de anos. Agora, a pretexto da reedição da discografia, voltei à carga. E propus-me a ouvir os álbuns dos Beatles todos de seguida, sem respirar entre as canções, por ordem cronológica (por ordem alfabética também seria curioso). Não sei se por carolice se por masoquismo. Talvez por prazer. Ainda é uma catrefada de álbuns. Para mim, que não sou um beatlomaníaco, daqueles que coleccionam crachás e palhetas, é um exercício entre o estimulante e o exasperante, com uma ânsia permanente: quando é que chega o Sgt Peppers?. Para já vou nos dois primeiros: Please, please, please me e With the Beatles, ambos de 1963. Álbuns curtos com muitas canções. Fica a sensação de que cada suspiro é um hit fácil e que os temas da imbatível dupla Lennon/McCartney sobressaem em relação às várias versões (à excepção de Twist and Shout). Ou seja, a descoberta da mais famosa dupla de compositores, numa fase ainda muito adolescente e ingénua. Aliás, convém não esquecer que vivia-se a idade de ouro dos singles e a imposição de lançar um álbum, após o sucesso estrondoso das canções traduziu-se numa concentração desses singles e apressada criação de alguns outros.
Gosto particularmente de I saw her standing there (esta é a parte Jukebox). É uma daquelas questões que se colocam nos bailaricos. Eu próprio, se a visse por ali seria incapaz de empernar, com outra qualquer, enquanto ouvia Chuck Berry, Roy Orbinson ou - porque não? - os Sheiks. Uma canção dos mais puros sixties, completamente datada, mas ainda assim cheia de ritmo.
O vídeo aqui acupulado não é obviamente o original. Algum brincalhão resolveu fazer uma releitura da letra à luz da história do triângulo amoroso Beatles (Paul McCartney), John Lennon e Yoko Ono, que sucedeu muito mais tarde. Como é que Lennon poderia continuara a dançar com os Beatles quando a Yoko Ono estava ali à espera? Mas não vamos avançar já para o final da história.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Os números da sorte

É tão provável ganhar o Euromilhões quanto ganhar o Euromilhões. Desculpem a redundância, mas é que é tão improvável acertar em cheio nos números da sorte, que poucas serão as comparações válidas. Por exemplo, um estudo revelou que a probabilidade de ganhar o Euromilhões é equivalente à de um jovem adulto saudável morrer dentro de uma hora. Tétrico? Altamente improvável. Mas também não é por deixar de jogar que se livra da segunda parte do algoritmo. No meu caso, ganhar o Euromillhões seria ainda mais difícil, uma vez que raramente jogo. Seria necessário que alguém apostasse em meu lugar (amigos desses já não se fazem) ou que tropeçasse num papelinho premiado no meio da rua.
Há que ter esperança, claro. Não tenho nada contra estas e outras apostas. Por mais improvável que seja ganhar, não é impossível. E Portugal é dos países onde mais se aposta, reflexo das piores condições de vida. No Brasil, paupérrimo, também se investe massivamente no Jogo do Bicho. Se não há dinheiro, resta-nos a fé. E não nos cortem a emoção semanal.
Feitas as contas não sai assim tão barato. Com uma aposta simples, gastam-se oito euros por mês e 104 por semana. Não apostando, a probabilidade de ganhar 104 euros é certa. Para quem faz mais do que uma aposta, o que é vulgar, multipliquem-se estes valores e verifique-se a despesa.
Em Histórias de Cabaret, um excelente filme de Abel Ferrara, Willem Defoe, um viciado no jogo, faz uma mega-aposta na lotaria, através de um cálculo rigoroso, que reduz o risco ao mínimo, e consegue… ganhar. No Euromilhões tal não é viável, a cobertura dos riscos sai demasiado cara.
Mas também há estatísticas. O número que mais vezes saiu é o 50. E o que saiu menos vezes é o 28. Como a probabilidade à partida igual, as ocorrências têm tendência a equilibrar-se pelo que, aparentemente, o 28 seria uma boa aposta. Há outras questões mais certas: as pessoas têm uma propensão para apostar em datas, sobretudo aniversários (de nascimento, casamento, namoro…), tal provoca que haja uma predilecção a nível de palpites por números entre 1 e um 31. Indo as estrelas de 1 a 9, a maior incidência dá-se mesmo entre 10 e 31. Tal não tem qualquer influência no apuramento da chave, mas significa que se, apostar em números entre 32 e 50 e ganhar é mais provável que seja o única totalista. Para já, dou-lhe a certeza que esta chave não vai sair: 7, 22, 38, 45, 46 + 4, 7. Vai uma aposta?

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Nas Bancas!

JL 1016

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Contadora de histórias

Paula Rego, uma Contadora de Histórias é o título da sessão que decorre hoje, quinta-feira, 3, na livraria Bertrand do Chiado, pelas 18 e 30. Com Dalila Rodrigues, directora do Museu Paula Rego, o cronista José Manuel dos Santos (que trabalhou com a artista aquando da série de quadros para o Palácio de Belém) e a jornalista e poeta Ana Marques Gastão (que escreveu um livro-diálogo com quadros de Paula Rego Nós/Nudos, 25 imagens sobre 25 poemas de Paula Rego (Gótica, 2004)). A moderação está a cargo de Anabela Mota Ribeiro. Em destaque, o carácter narrativo na obra de Paula Rego, a duas semanas da inauguração, a 18, do Museu Casa das Histórias, em Cascais.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Primeira carta

Tudo começou com Águas de Verão. «Era em Setembro que chegávamos em bando». Eu deveria ter uns 5 anos e, nas noites de Verão algarvio, a minha irmã, seis anos mais velha, deitada na outra cama, lia para mim, em voz alta, o romance acabado de sair de Alice Vieira. Foi assim que conheci os quatro irmãos Bé, Marta, Francisco e António; o senhor Gualberto, o do saxofone, as termas carregadas de sais, de achaques e de muita brincadeira entre a «canalha», como diria a Irene, com o cesto de roupa branca à cabeça, o que levaria a Mãe da história, a um quase desmaio. Parece que a estou a ouvir – «Chamar canalha aos meus filhos! Isso é que não!» – e com ela a lembrar-me da angustia, daquela que se prende atrás da garganta, pela injustiça de, nas últimas páginas, terem despedido o senhor Gualberto, só porque ele era um bocadinho doido («O menino é sócio dos que são sócios ou é sócio dos que não são sócios», costumava perguntar aos miúdos que por ele passavam), um bocadinho músico, um bocadinho alegre no meio dos vapores e da comida sem sal – onde nem a sobremesa, aletria acho, escapava à insipidez. Foi ali, com aquelas personagens vivas na voz da minha irmã, na escrita da Alice Vieira que, antes de aprender as letras, eu aprendi a ler.
E foi já sozinha que li Rosa, minha irmã Rosa, Lote 12, 2.º Frente, Chocolate à Chuva, o hilariante Graças e Desgraças da Corte d-El Rei Tadinho, A Espada do Rei Afonso, Este Rei que Eu Escolhi. Foi com Flor de Mel que imaginei, cantarolando sempre para dentro, a canção de embalar que ainda hoje sei de cor. Com Úrsula, a Maior que descobri o Frei Luís de Sousa, e com Joana Ofélia, de Se Perguntarem por mim digam que voei, que aprendi que todas as janelas servem para voar. E sorri com os jantares dos velhotes de Às dez a porta fecha, chorei com o Touro Sentado desaparecido nas pradarias do corredor, sem poder nunca mais ver Os Olhos de Ana Marta.
Em cada novo livro uma surpresa, longe do tonzinho didáctico que sempre me irritou nos livros ditos para a infância. Esse tom que Alice Vieira nunca quis ter, como diz na entrevista que publicamos nesta edição, onde conta que troca correspondência com alguns dos seus leitores há quase 30 anos. Para mim, foram precisos mais de 20 – e tantas outras histórias – para encontrar coragem para lhe escrever. Aqui fica a minha primeira carta.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O mundo do fim do mundo


Chega-se ao fim do mundo e vira-se à direita. Ali, onde o mar começa e o mar acaba, nos confins da Europa, a caminho da América. O fim do mundo, neste caso, é a Ilha das Flores, com os seus 4000 habitantes, sem contar com vacas, coelhos e hortênsias. Provavelmente, um dos sítios mais belos do planeta, com a sua harmonia selvagem. Dizem que é o ponto mais ocidental da Europa, embora, a rigor, a ilha se situe já na placa tectónica americana. Quando se vira à direita, por assim dizer, apanhando o barco Ariel, vai-se dar ao Corvo. Esse sim, seguramente, um dos pontos mais remotos do mundo. Longe de tudo, menos de si próprio, e da vizinha Flores, com a qual, em tempos que já lá vão, comunicava com sinais de fumo: duas fumaradas quando precisavam de um médico, três quando precisavam de um padre.
O Corvo está agora menos isolado. Há um aeroporto que é quase do tamanho da vila e barcos diários. Ainda assim, quando o Inverno aperta, o mar se balança em fúria e as nuvens descem à terra, não há barco que se desafie à travessia nem avião que arrisque a aterragem.
A ilha tem pouco mais de 400 habitantes, todos vivem na Vila do Corvo. Segundo me foi garantido, não há um único eremita, um aventureiro que seja, que se disponha a viver na montanha. As casas que lá existem servem apenas de apoio à agricultura. A terra é fértil e há uma enorme densidade de vacas. A ilha é curta. Atravessa-se a pé ao longo de um dia. Mas há uma carrinha que percorre a única estrada de alcatrão existente, que nos conduz ao sopé da montanha, onde se pode observar um monumento natural de beleza rara: o caldeirão.
De uma das encostas da montanha, a terra é de privados, do outro é pública, quem quiser cultiva ou leva as vacas a pastar. No Corvo há pleno emprego, só pode haver. A crise ali é outra. Se começarmos a contar as pessoas necessárias para o seu funcionamento prático, logo nos sobram os dedos. Ali há Correios, Polícia, Escola, Junta, Café, Mini Mercado, Igreja, Hotel, Bombeiros…
Também há televisão e rede no telemóvel. O senhor simpático, de bigode farto, que me conduz pela curta estrada da ilha, servindo também de guia turístico das pequenas coisas, leva no auto-rádio da carrinha uma espécie de pen. Explica-me que é um leitor de MP3 e que, naturalmente, serve para ouvir música. O mundo e o fim do mundo tornam-se cada vez mais próximos.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Nas Bancas!

JL 1015

De 26 de Agosto a 8 de Setembro

Alice Vieira do outro lado do espelho
Entrevista de Maria Leonor Nunes e texto de Ana Margarida Ramos

PEPETELA: O PESO DAS PALAVRAS
Escrita, Angola, crise, ganância, ética, Universidade e outros tópicos, num texto do Prémio Camões.
O Planalto e a Estepe lido por Pires Laranjeira

Raul Solnado (1929-2009)
Textos de Leonor Xavier, Millor Fernandes e poema de Manuel A. Valente

Tiago Gomes : Um apóstolo das artes
Figura e crítica ao livro e ao disco

Art Deco em Serralves e no CCB

O elogio da política, por Mário Soares

Allgosto, a crónica de Helder Macedo

A autobiografia de Isabel Fraga

JL/Educação
: Ana Maria Bettencourt, a nova presidente do CNE e entrevista a Fernando Catroga

Camões • Agenda Cultural

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Nas bancas!

Mia Couto
Pela Estrada Fora
De Tavira a Chaves, durante dez dias, o escritor andou pelo país a conversar com os leitores sobre o seu novo romance, Jesusalém. O JL acompanhou-o e conta tudo sobre o Mia on the road. Reportagem e entrevista de Luís Ricardo Duarte • Depoimentos de Luandino Vieira, Ondjaki e Zeferino Coelho • Crítica ao livro por Pires Laranjeira

O Homem na Lua, 40 anos depois
Crónicas de Álvaro Manuel Machado, Amadeu Lopes Sabino, José Saramago, José Carlos de Vasconcelos e Viriato Soromenho-Marques

Entrevistas: Estevão de Moura, os novos projectos da Imprensa Nacional, e João de Melo, o espaço em volta
Figura: António Pinto da França, os contos do embaixador

Letras: Rui Cardoso Martins lido por Miguel Real

Artes: Júlio Pomar: os caminhos da pintura, por Rocha de Sousa, e Laborinho Lúcio escreve sobre Ruy de Carvalho

Crónica: Troca de segredos, por Helder Macedo

A autobiografia de Mário Barradas

Suplemento Camões

Agenda Cultural

Pela Estrada Fora - Galeria de imagens

terça-feira, 28 de julho de 2009

Pela Estrada Fora

domingo, 26 de julho de 2009

Navegantes dos 7 sóis


Imagine-se que, no final do espectáculo, o público pediu bis para Maria Faia. E, na altura certa, todos cantaram em conjunto "Ó Maria Faia, ó Faia Maria". Foi assim, esta noite, em Pontedera, no Festival 7 Sóis 7 Luas, no concerto dos Navegante. O grupo de José de Barros, numa versão mais portátil, reduzida a quinteto, conquistou o público. Apenas ninguém dançou, apesar de elevarem a música portuguesa a um ritmo alucinante. Para dança, bastou ontem, no mesmo local, Sara Alhinho (filha de Teté), num bailarico bem cabo-verdiano, com o sr embaixador. São assim os dias de festa em Pontedera, e nas 29 outras cidades onde vai decorrendo o festival. Amanhã à noite, um grande momento: a 7 Luas Orkestra, formada especialmente para o festival, com Celina da Piedade, num dos principais papéis. É caso para dizer: felizmente há luar.

sábado, 25 de julho de 2009

7 sóis 7 luas 7 mares 7 mundos

Ontem o festival 7 Sóis 7 luas decorreu em 7 cidades em simultâneo. Em Pontedera (Itália), na sede do 7, no jardim da casa do marquês, bati 7 palmas a Teté Alhinho e outras 7 à sua filha Sara, num concerto de 7 sonhos. Gerassons assim se chama o disco de mãe e filha. Perspectivas diferentes que enriquecem o universo musical de Cabo Verde. A Teté canta mornas e funanás. A Sara, para espanto de todos, canta um rock crioula, com calor insular. O 7 sóis 7 luas é um festival do tamanho do mundo. Estende-se da Croácia ao Brasil e aproxima culturas mediterrânicas e lusófonas. A não perder a reportagem no próximo JL.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Eu Era Eu Sou

«Somos no fazer e existimos no sonhar. Por vezes, nuvens sentadas ao computador perguntando-nos até quando nos podemos perguntar o que queremos ser no futuro?». A dúvida é lançada pelo grupo de dança contemporânea péantepé, no seu espectáculo Eu Era Eu Sou, que se estreia no auditório do Centro Cultural da Malaposta, amanhã, sábado, 25, pelas 21 e 30 (repete domingo, 26, às 17).
A direcção artística está a cargo de Fátima Piedade que também assina a coreografia com Catarina Câmara e o colectivo de bailarinas. Interpretações de Alexandra Campos, Inês Teixeira, Joana Câmara, Patrícia Nunes, Raquel Nave, Rita Alves, Sílvia Pires e Vanda Almeida.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Jardim da Cascata

A assinalar a reabilitação dos antigos Viveiros de Pássaros e Cascata dos jardins do Palácio de Belém, o Museu da Presidência da República inaugura hoje, quarta-feira, 22, a exposição Jardim da Cascata. Encomendada por D. Maria I e erigida entre 1780 e 1785, esta estrutura arquitectónica servia de gaiola para aves exóticas que chegavam um pouco de todo o Império português. Plantas, desenhos, gravuras das colecções de vários arquivos, bibliotecas e museus nacionais e ainda de inúmeras espécies de aves embalsamadas compõe a mostra que estará patente até 26 de Julho (das 10 às 17 horas) e de 28 de Julho a 22 de Outubro (de terça a sexta, das 14, às 17 e 30).
Para os dias 23 a 26 de Julho, às 21h30, está igualmente prevista a apresentação da ópera Dido e Eneias, de Henry Purcell, numa co-produção da Presidência da República e do Teatro Nacional de S. Carlos (TNSC), a decorrer, precisamente, no Jardim da Cascata. Com encenação de André Heller-Lopes e direcção musical do maestro Geoffrey Styles, a obra de Purcell será interpretada por jovens cantores portugueses integrados no projecto Estúdio de Ópera, do TNSC. Nos dias do espectáculo, o Museu da Presidência da República abre as portas até à meia noite.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Cuidado com o degrau

As primeiras escadas rolantes públicas do país foram armadas no Shopping Brasília, no Porto, no início da década de 80. As pessoas iam ao centro comercial só para ter aquela experiência inolvidável de subir e descer, descer e subir, com a mesma emoção de quem anda na roda gigante. Mais do que um instrumento prático, era uma diversão, suficientemente nova para suscitar a curiosidade de locais e forasteiros. O Shopping Brasília, que inspirou Carlos Tê para a letra da Rapariga do Shopping, tornou-se um fenómeno nacional, com milhares de visitantes e lojas prósperas. O modelo de centro comercial multiplicou-se por todo país. Até que, os mais antigos, os de média dimensão, entraram em profunda decadência. Incluindo o próprio Brasília, outrora rei, hoje mono. Devia-se fazer um documentário sobre o Brasília. João Nicolau rodou ali parte do seu mais recente filme de ficção, Canção de Amor e de Saúde, distinguido agora com o prémio nacional do Curtas de Vila do Conde. Em grande.
Voltemos às escadas rolantes. Brilhante invenção. Chegou ao Porto e a Portugal com quase um século de atraso. Quem teve a ideia foi o americano Jesse Reno, em 1897. Eram pouco mais do que estudos, desenvolvidos depois por Charles Seeberger e, finamente, comercializados pela Otis. As primeiras escadas funcionais apareceram em Paris e em Londres nos anos 20.
Imagina-se que falar de uma escada rolante, no final do século XIX ou no princípio do século XX, soaria tão fantástico quanto imaginar um carro voador. Hoje tornou-se um dos grandes símbolos comerciais. As escadas rolantes são apanágio de centros comerciais e grandes armazéns. Tornaram-se lugares comuns, a tal ponto que hoje até há quem prefira apanhar o elevador. Para muitos, como as crianças, continuam a ser atractivas, porque é tentadora a ideia de nos deixarmos levar.
A invenção do tapete rolante não teve metade do mérito. Alguém pensou: «E se fizéssemos umas escadas rolantes sem escadas?» Revelou-se útil, porque funciona na horizontal e permite o transporte de volumes.
Genial, genial foi a invenção da escada, a que não rola. Alguém que pensou: «Isto é mais fácil de subir se cavarmos uns socalcos». Com a vantagem de ficar menos escorregadio, mesmo para quem desce... A invenção remonta à antiguidade, há quem arrisque falar em 2000 a.C. Os primeiros a usá-las foram os egípcios e os hebreus. A partir daí tornou-se mais fácil subir. Mas também passou a haver quem caísse das escadas abaixo. Até que, no século VII a.C, Willem Strügenföelznachemann inventou o corrimão. E agora já temos ao que nos agarrar.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Zerlina e Compota Russa

Chega hoje ao palco do Teatro de Almada, e em estreia mundial, Zerlina, de Hermann Broch, numa encenação de Robert Cantarella, já conhecido do público do festival, depois de ter apresentado, na última edição, Hippolyte. Zerlina é uma velha criada que nos mostra a descoberta do amor num corpo ainda desprovido de afectos amorosos. Um espectáculo «perturbador», nas palavras de Cantarella, «tanto mais (...) quanto o discurso vai aumentando progressivamente e se torna de tal modo preciso que é necessário fazer um esforço para imaginar semelhante intensidade do presente, dito por uma personagem que parece ter vivido essa paixão há tanto tempo». O espectáculo, interpretado por Thérèse Crémieux, é em francês, com legendas em português.
Ainda hoje estreia Compota Russa, peça de Liudmila Ulítskaia, uma das mais importantes autoras russas contemporâneas. A acção transporta-nos para um cerejal que já não dá cerejas e que, por isso, já não permite fazer a deliciosa compota que antes se produzia. Terá, assim, que se encontrar outra solução: fazer compota de groselha. Neste espectáculo, Ulítskaia reúne personagens e frases das peças O Ginjal, A Gaivota e Tio Vânia, de Tchecov. Uma produção do Teatro de Sátira da Ilha Vassilievski, São Petersburgo, encenada por Andrzej Bubien.

Zerlina, no Teatro Municipal de Almada, Sala Experimental. Hoje, sexta-feira, 10, às 19; amanhã, sábado, 11, às 18

Compota Russa, na Escola D. António da Costa, Almada, hoje, sexta-feira, 10, às 22.

Foto: Compota Russa

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Quarto Interior

É o regresso a Almada de Quarto Interior, pela companhia portuense Circolando, eleito pelo público do festival Espectáculo de Honra deste ano. Inserido no Ciclo Poética da Casa, invoca um homem inconformado, que cria novos mundos, procurando-os no quarto, espaço íntimo da casa, lugar de sonhos, memórias e devaneios. O cenário é composto por janelas, portas, mesas, cadeiras, que se desdobram e abrem para acolher o exterior: as árvores, o vento, os pássaros. O espaço transcende, assim, a geometria. Quarto Interior é um espectáculo de teatro dançado, sem palavras, numa abordagem multidisciplinar, que cruza várias linguagens, como é prática dos Circolando. Interpretação de André Braga e JoãoVladimiro

Quarto Interior, no Teatro Municipal de Almada, Sala Principal. Hoje, quinta-feira, 9, às 22 e 30.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Menina Else e Film Noir

Aos 19 anos, Else, uma rapariga da classe média vienense, tem que juntar 30 mil florins para salvar a sua família da ruína. Preâmbulo para Menina Else, de Arthur Schinitzler, que recentemente subiu ao palco da Cornucópia, numa encenação de Christine Laurent, e hoje chega a Almada. Uma excelente interpretação da actriz Rita Durão, no primeiro monólogo da sua carreira. Personagem carregada de sombras – ambíguas e inconscientes – que traça um retrato revelador de uma jovem mulher à época (Arthur Schnitzer viveu entre 1862 e 1931) embora, nalguns momentos se revista de uma enorme actualidade.
Construído a partir do Projecto Emergentes, que o Teatro Nacional D. Maria II criou para apresentar projectos artísticos no domínio das artes cénicas, Film Noir, de André Murraças, é um espectáculo de teatro construído a partir do género Filme Negro, muito em voga no pós-guerra. No palco conta-se uma história através de imagens cinematográfica. Com Anabela Brígida, Maria João Falcão e Sofia Correia.

Menina Else, no Fórum Romeu Correia, Almada. Auditório Fernando Lopes-Graça, hoje, quarta-feira, 8, às 21 e 30; e amanhã, quinta-feira, 9, às 18
Film Noir, no Teatro Nacional D. Maria II, Sala experimental. De 8 a 11, às 21 e 45, e a 12, às 16 e 15
Foto Film Noir, de Paulo Segadaes

Amin Maalouf em Lisboa

É já daqui a pouco que começa o encontro com Amin Maalouf. O escritor libanês irá conversar com o embaixador António Monteiro sobre os temas do seu último livro, Um Mundo Sem Regras, que agora se publica com a chancela da Difel: o desregramento intelectual, económico, geopolítico e ético do mundo no séc XXI. A sessão será moderada por António Vitorino.
Hoje, quarta-feira, 8, pelas 18, no Auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Deixem Passar o Homem Invisível

João Lobo Antunes apresenta o novo romance de Rui Cardoso Martins, Deixem Passar o Homem Invisível (Ed. Dom Quixote).
A sessão conta com um concerto de António Eustáquio (Guitolão) e Carlos Barreto (Contrabaixo).
Hoje, quarta-feira, 8, pelas 19, no Reservatório da Mãe d'Água das Amoreiras.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Cortamos e frisamos

Duas irmãs, cabeleireiras - Mabel e Marta - passam a vida no salão onde trabalham a falar da vida alheia. Entre um corte de cabelo e uma pintura de raízes comentam, a bom ritmo, a vida das clientes. Ciúmes, inveja e vingança são pontos chave de um diálogo com doses de brutalidade disfarçadas de uma aparente cordialidade e inocencia. Cortamos e frisamos, uma comédia hilariante que desde 2001 já passou por grandes palcos mundiais, baseia-se nos contos da escritora Silvina Ocampo e conta com a encenação de Inés Saavedra, que com Maria Marta Guitart e Cora Rezk, também interpreta. Saavedra, há alguns anos, transformou a sua própria casa, em Buenos Aires, na Argentina, numa sala de teatro - La Maravillosa - destinada à investigação, estudo e criação de textos dramáticos. Espectáculo em espanhol, legendado em português.
Hoje, terça feira, 7, às 22 horas, no palco grande da Escola D. António da Costa.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Carta aos actores e Diálogo de um cão...

Duas peças sobem hoje aos palcos do Festival de Teatro de Almada. Carta aos Actores, uma criação do dramaturgo, romancista e artista plástico francês Valère Novarina, com interpretação de Jorge Silva Melo, é uma reflexão sobre a arte de ser actor e o sentido do teatro. «Será preciso que um dia um actor entregue o seu corpo vivo à medicina, que seja aberto, que se saiba enfim o que acontece lá dentro, quando está a actuar. Que se saiba como é feito, o outro corpo. Porque o actor actua com um corpo que não o seu». Hoje, às 21 horas, e amanhã, 7, às 19 horas, no Instituto Franco- Português, em Lisboa.
Dialogue d'un chien avec son maître sur la nécessité de mordre ses amis ou Diálogo de um cão com o seu dono sobre a necessidade de morder os seus amigos é o texto de Jeann-Marie Piemme, com encenação de Philippe Sireuil, do Théâtre National de la Communauté Française que, hoje, às 22 horas, se estreia no palco grande da Escola D. António da Costa, em Almada. Um dos grandes êxitos do Festival d'Avignon, narra a história do encontro de um homem - porteiro num hotel de luxo - que vive numa caravana com um cão que está constantemente a fazer asneiras. Humor sem 'pinças' e 'ferocidade' quanto baste, numa peça que, segundo o encenador, nos dá «o osso, o nervo e a carne de um belo pedaço de teatro que deve ser devorado sem qualquer moderação». Com Philippe Jeusette e Fabrice Schillaci. Espectáculo em francês, legendado em português.
Na foto: Dialogue d'un chien avec son maître sur la nécessité de mordre ses amis

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Um Deus falhado

As metamorfoses dos media são por demais evidentes e o caso da morte de Michael Jackson só veio demonstrar os excessos do fenómeno. A notícia da morte do cantor foi adiantada, em primeiríssima mão, pelo TMZ, site maldito que coscuvilha a vida privada de personalidades (e, pelos vistos, também a morte). Ultrapassou largamente a televisão. A Sky News avançou com a notícia da notícia: «A TMZ noticiou que Michael Jackson morreu). A CNN recusou-se a seguir o portal, simplesmente ignorando-o. Esperou pela fonte seguinte, o on-line do credível jornal LA Times. E então, novamente noticiou a notícia, dizendo: «O LA Times anunciou que…» Colocando sempre a ressalva: «A CNN ainda não confirmou». E com este cuidado extremo da maior cadeia noticiosa do mundo (que também se verificou, por exemplo, nas eleições americanas), passadas duas horas ainda não tinha sido confirmada coisa nenhuma. Ao ponto de nos perguntarmos: «Será que estes tipos já confirmaram a notícia da morte do Elvis?».
O caso serve de paradigma. No que diz respeito a notícias de última hora, os meios on-line ultrapassam facilmente todos os outros, mesmo a televisão. Contudo, um canal como a CNN, tem que defender, a todo o custo, a sua credibilidade. Se a notícia é avançada pela CNN, sabemos que é verdade. Se é dada por um qualquer site é legítimo desconfiarmos.
Michael Jackson é, por si só, um paradigma tecnológico. Enquanto inúmeros cientistas desenvolveram a robótica de forma a criar máquinas que se pareçam com homens, Jackson dedicou grande parte da sua vida a querer parecer-se com uma máquina. Começando, de forma criativa, com alguns dos seus passos de dança, nomeadamente o famoso Moonwalking, em que desliza de forma tão perfeita que nos faz crer que não é humano.
Depois há toda uma questão tecnológica ligada à sua imagem. As mutações (ou mutilações) que provocou ao seu corpo, em busca do mais estranho conceito de beleza, contribuíram, com certeza, para significativos desenvolvimentos a nível da cirurgia plástica, entre outras ciências médicas.
Além disso, Michael Jackson quis convencer-nos de que era imortal. Já que era rei do pop ousou ser Deus. Numa divinização da sua imagem, chegou a limites extremos de isolamento, com medo de contágios. «Gosto muito de vocês, mas por favor não me toquem». Transformou-se numa espécie de alienígena, demasiado branco para ser real. E ficou por cumprir o sonho humano de que falava Raul Brandão: viver para sempre. Foi mais um Deus que falhou no momento decisivo.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

L. Ville, de Fernando Sobral

Zé Pedro (Xutos & Pontapés) apresenta L. Ville, romance policial urbano de Fernando Sobral, com a chancela da Quetzal. Diamantes, crimes e traições, numa trama que se desenrola entre Lisboa, Nigéria e Macau.
Hoje, quinta-feira, 7, às 19, na Livraria Ler Devagar, no Lx Factory, em Alcântara.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Morreu Pina Bausch



Simples, convencional, óbvia - nenhuma destas palavras se aplica à coreógrafa Pina Bausch. Sempre de cigarro na mão, este ícone da dança era descrito pelos seus próprios bailarinos como "obssessiva". Ela dizia que nunca desistia.

Começou como bailarina na Alemanha, seu país natal, com 15 anos. Mais tarde, partiu para Nova Iorque, onde estudou dança na prestigiada Juilliard School. Provavelmente, aprendeu todas as regras com perfeição para as quebrar repetidamente. Nos anos 70, as suas coreografias romperam com tudo o que se fazia na altura, reinterpretando (reinventando?) o conceito de dança-teatro. Com 33 anos, foi convidada para dirigir o Wuppertaler Tanztheater, que se transformou no Tanztheater Wuppertaler Pina Bausch. Dançar nesta companhia era fazer parte da coreografia, criar em conjunto com uma coreógrafa que tinha nos próprios bailarinos a sua inspiração. Foi com esses bailarinos-musos que se apresentou várias vezes em Portugal, a última das quais o ano passado.

Segundo o site da companhia, Pina Bausch descobriu que tinha cancro há cinco dias. Morreu hoje de manhã no hospital inesperadamente, com 68 anos. Por cima deste texto, deixamos uma amostra de Café Müller, a única coreografia sua que interpretou.

Um crítico de dança alemão descreveu a sua filosofia de dança como "a interpretação da alma e a batalha dos sexos". A interpretação da alma e nada menos que isso. Foi esta filosofia, as histórias e ambientes que inventou inspirados num universo surrealista, ao som de música inesperada (até Caetano Veloso) e, principalmente, os movimentos complexos, homicidas do óbvio, arriscados até roçar a estranheza que fizeram dela uma revolucionária da dança contemporânea.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Festival de Mérida

«Queremos dar um novo impulso, um novo alento, um olhar contemporâneo ao teatro clássico. Por isso escolhemos a palavra Fogo! para ilustrar a 55.ª edição do Festival de Mérida. Das cinzas poderão nascer as mais belas fenix», afirma Francisco Soares, director do festival na apresentação à imprensa que fez recentemente em Lisboa. O festival abre amanhã, sábado, 27, no Teatro Romano de Mérida com uma gala de onde soará a Sinfonia n.º 1, em Ré M, 'Titan', de Gustav Mahler e se poderá ver O rapto de Proserpina, com dramaturgia e direcção de Leandre Escamilla e Manuel Vilanova, pela Companhia Xarxa Teatre. Fedra, de Eurípedes, com direcção de Miguel Narros - «quisemos muito trabalhar com ele, antes que se reforme», afirma, entre risos, Francisco Soares - sobe ao palco do Teatro Romano, numa versão flamenca onde participam os bailarinos Lola Greco, Amador Rojas, Alejandro Granados e Carmelilla Montoya (de 1 a 5 de Julho). Na programação não podia faltar «o bardo Shakespeare». Tito Andrónico foi o espectáculo escolhido e conta com a direcção de Andrés Lima (8 a 12). Considerado um dos melhores cómicos de Espanha, Rafaek Álvarez 'El Brujo' apresenta a criação El Evangelio de San Juan, onde o contacto com o público é a principal pedra de toque (15 a 19). De risos também se faz o espectáculo Os gémeos, de Platão, com direcção de Tamzin Townsend, e as interpretações de, entre outros, Marcial Álvarez e Jesús Noguero (29 de Julho, a 2 de Agosto e de 5 a 9 de Agosto) . A dança também não foi esquecida e Diana y Acteón - pas de deux de Marius Petipá, pelo Corella Ballet Castillha y León, conta com os passos do primeiro bailarino Ángel Corella, entre outros (23 a 25). Todos os espectáculos são às 23 horas. Esta 55.ª edição estende-se até 30 de Agosto - com outras peças a que iremos dando destaque. Muito tempo para descobrir que Mérida não está assim tão longe...
FOTO: Fedra, de Eurípedes, na versão de Miguel Narros

Michael Jackson:apenas os negros dançam assim




Michael Jackson é uma das personagens mais fascinantes da história da cultura popular e merece ser estudado a nível artístico, sociológico, antropológico, racial, mercantilístico, genético, entre muitas outras perspectivas que vão muito além da minha competência. Musicalmente, considero-o pouco estimulante. Mas tal é apenas um pormenor. E não preciso de gostar de tenis para reconhecer o talento de Roger Federer. Quando se ouve Billie Jean o talento salta à vista. E salta literalmente à vista, porque as imagens são soberbas. Uma coreografia fora-de-série colmatada com o famoso passo Moon Walk, que o próprio inventou.
Quer se queira quer não, quer se goste quer não, Michael Jackson tem um lugar na história da música pop e da cultura popular. Por inúmeros motivos. Foi o mais prodigioso menino-prodígio da música negra. Thriller é o álbum mais vendido de todos os tempos – e dada a crise e a baixa de vendas de discos tão cedo ninguém superará o record. Foi também o primeiro negro com teledisco na MTV. E, de alguma forma, com Thriller, revolucionou o conceito de teledisco, tornando-o, de forma vanguardista, não só numa importante ferramenta de marketing, mas também um objecto com pretensões artísticas.
Curiosamente, este homem, que fez com que muitos brancos quisessem ser negros, quis ele próprio tornar-se branco, num insano desafio genético. Transformou-se num monstro, mais assustador do que a personagem interpretada em Thriller. Mas, mais grave do que essa questão estética, revelou um intolerável preconceito racial, ofensivo para toda a comunidade afro-americana (e a humanidade em geral), o que talvez seja a atitude mais imperdoável da sua história. E estou certo de que se ele tivesse nascido branco não saberia dançar assim.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Morreu Michael Jackson


Notícia de última hora: Michael Jackson morreu aos 50 anos, vítima de paragem cardíaca.
Ler mais aqui


Quem não falece?

Rústicos pelo Epicurismo, dos Gato Fedorento




Os Gato Fedorento não são músicos. Mas ao longo de alguns meses produziram os seus próprios telediscos (música de Armando Teixeira), no Zé Carlos, série marcante da televisão portuguesa. Esses telediscos, agora lançados em CD e DVD, contêm algumas pérolas de humor musical. O meu preferido é logo o primeiro, apresentado pelos Rústicos pelo epicurismo. Com uma influência directa dos Monty Python, respondem à questão: Qual é o sentido da vida? (A resposta é fácil: nenhum). E cantam alegremente sobre a morte, como o refrão: «Nós vamos todos falecer!». Ricardo Araújo Pereira disse certa vez numa entrevista que se pode brincar com tudo menos com o sagrado. Agora tudo depende do que é sagrado para cada um. Aqui, abalançam-se sobre um dos maiores tabus da humanidade de forma seca e improvável. Se há coisa na vida que não tem graça é a morte. Mas aqui rimo-nos da nossa condição humana e da crueldade realista das palavras cantadas. Um exorcismo inteligentíssimo e quase chocante… em nome da vida.

Lembra-te de comer bem,
Bober também
E rir com vontade.
Mas melhor do que isto até
É praticar a se-xualidade.

Não percas tempo na estrada,
Não serve para nada,
Evita as filas.
Arranja uma boa mulher
Ou um gajo qualquer,
Se fores larilas.

(Sabes porquê? PorqueÂ…)
Nós vamos todos falecer,
Patinar, bater as botas.
Eu vou esticar o pernil,
Conviver com as minhocas.

Tu vais fechar a pestana
E fazer para sempre ó-ó.
Nós vamos passar a ser húmus,
Que é uma espécie de cocó.

Prova o morango e a romã,
A uva, a maçã,
O figo e a cereja.
O mundo tem lindas cores
E belos odores,
Menos em Estarreja.

Tenta por todos os meios
Viver sem receios,
Não há que temer.
Quer tenhas ou não tenhas medo,
Mais tarde ou mais cedo tu vais falecer

Nós vamos todos falecer,
(Eu não vou! Olha que vais!)
Patinar, bater as botas.
Eu vou esticar o pernil,
Conviver com as minhocas.

Tu vais fechar a pestana
E fazer para sempre ó-ó.
Nós vamos passar a ser húmus,
Que é uma espécie de cocó.

Expirar, falecer, extinguir, apagar,
Cessar, fenecer, esvair, patinar,
Morrer, acabar, definhar, concluir,
Perecer, terminar, descansar, sucumbir.
(Estava a brincar!)

Nós vamos todos falecer,
Patinar, bater as botas.
Eu vou esticar o pernil,
Conviver com as minhocas.

Tu vais fechar a pestana
E fazer para sempre ó-ó.
Nós vamos passar a ser húmus,
Que é uma espécie de cocó,

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Porque na noite terrena...

«Elas e as coisas delas/ as histórias delas/ as fotografias/ aquelas coisas que elas tinham/ mesmo que contar/ elas e as suas coisas mínimas/ nós e elas frente a frente e a falta de/ coisas para dizer/ o chegar demasiado tarde/ demasiado cedo/ tudo demasiado/ aquela vez em que chegámos finalmente a tempo/ e tu não estavas lá/ os teus restos espalhados pelo chão da cozinha/ Oh, como te dilacerámos», palavras de Porque na noite terrena sou mais fiel que um cão, a 11.ª criação do Teatro do Vestido, em cena no Teatro da Comuna, em Lisboa, até 27 de Junho (sempre às 22 horas). Tendo como ponto de partida a obra de três poetisas – Elizabeth Bishop, Marina Tsvietaieva, Margaret Atwood – a peça assume-se como a procura da expressão «a partir de», colocando em cena três personagens em confronto entre si, consigo próprias e com as três poetisas. A direcção é de Joana Craveiro, que também assina textos, tal como Inês Rosado, Rosinda Costa e Tânia Guerreiro – que interpretam.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Este tempo também é dela

Este tempo também é dela é uma homenagem a Constança Capdeville, em formato de recriação, que sobe ao palco do Jardim de Inverno, do Teatro São Luiz, em Lisboa, hoje, sexta-feira, 19 e amanhã, sábado, 20, sempre às 22 horas.
Uma das mais marcantes figuras da música portuguesa contemporânea é revisitada na apresentação de uma das suas obras de teatro musical: Wom Wom Cathy. Paralelamente a esta recriação, Pedro Moreira compõe para a primeira parte do espectáculo um original a partir do imaginário da compositora. O espectáculo volta a reunir o ColecViva, grupo de teatro musical, fundado por Constança Capdeville, nos anos 80.
A direcção do projecto está a cargo de Nuno Vieira de Almeida, a cenografia e os figurinos são de José Fragateiro. Com António Sousa Dias, Carlos Martins, João Natividade, Joana Manuel, Luís Madureira, Manuel Cintra, Nuno Vieira de Almeida e Pedro Wallenstein.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Próximo Futuro na Gulbenkian

Música, cinema, instalações ao ar livre e encontros gastronómicos são algumas das propostas do Programa Gulbenkian Próximo Futuro, que arranca sábado, 20, às 21 e 30, com um concerto pela Orquestra Gulbenkian, no anfiteatro ao ar livre da Fundação. Sob direcção do maestro Osvaldo Ferreira, poderão ouvir-se peças de George Gershwin, Heitor Villa-Lobos, Aaron Copland ou Astor Piazzola. A partir deste dia estarão instalados no jardim toldos que formam um ‘passeio de sombra’ e que têm inscritos poemas de autores de vários pontos do globo, dos clássicos aos contemporâneos. Safo, Jorge Luis Borges, Sophia de Mello Breyner Andresen ou Philip Larkin foram alguns dos escritores escolhidos. Também para o fim-de-semana, a 21, às 19, está marcado o concerto Sublime Frequencies: Group Doueh e Omar Souleyman, com sonoridades do Sahara Ocidental e da Síria. O concerto é antecedido por uma sessão de DJs, na esplanada do jardim, e uma projecção de filmes no Centro de Arte Moderna (CAM), a partir das 17 horas, ambas com entrada livre.
O Próximo Futuro é um programa que se dedica à investigação e criação artística na Europa, na América Latina, nas Caraíbas e em África, que a Gulbenkian desenvolve até ao fim de 2011, dirigido por Emílio Rui Vilar e comissariado por António Pinto Ribeiro. Ainda nesta quinzena, a 23, às 18 e 30, no CAM, conferência (com entrada livre) do ensaísta, curador e crítico de arte Nicolas Bourriaud que apresenta o conceito de «altermodernidade». O cinema é outra das apostas do Próximo Futuro, que apresenta no anfiteatro ao ar livre, até 10 de Julho, 11 filmes. A 24, serão projectados Afrique-sur-Seine, de Paulin Soumanov Vieyra e Casa de Lava, de Pedro Costa. A 25, passa Passaporte Húngaro, da realizadora brasileira Sandra Kogut, e a 26, Orfeu Negro, de Marcel Camus. Todas as sessões começam às 22 horas.
The New Electric High Life, por A. J. Holmes é o concerto que chega da Grã-Bretanha e que se pode ouvir a 27, às 21 e 30; da Argentina vêm os sons de Dema y su Orquestra Petitera, a 28, às 19. Mas nem só de cinema e música se faz o futuro e os chefes de cozinha Miguel Castro Silva e José Avillez apresentam uma série de encontros gastronómicos que podem ser saboreados na cafetaria do Museu Gulbenkian.
FOTO: Os argentinos Dema y su Orquestra Petitera

O milagre aerodinâmico


Voei até Londres naquela que é, segundo dizem, uma das piores companhias aéreas do mundo ocidental (as linhas aéreas do Burkina Faso e a Air Namíbia batem-na aos pontos). É tão económica que os bilhetes às vezes até são de graça (pagam-se apenas as taxas), mas tudo é pretexto para cobrar uns euros. Vinte por cada mala, 10 pela bagagem de mão, 15 por cada quilo a mais, cinco para entrar primeiro no avião. Não há lugares marcados. Por isso, lá dentro, as pessoas (na maioria ingleses daqueles que vão para o Algarve) acotovelam-se para assegurar um lugar à janela. O pessoal de bordo, os mais antipáticos escolhidos a dedo, querem lá saber se as famílias vão separadas, ou se uma criança de quatro anos tem que viajar sozinha, porque não há espaço ao lado da mãe. É uma espécie de autocarro da Carris onde toda a gente tem que ir sentada. Os bancos não se reclinam, uma garrafa de água custa dois euros e pelo caminho vendem uma espécie de lotaria, alegando que é para fins humanitários. O Aeroporto de Stansted (pequenino e jeitozinho) é dos que fica mais longe da cidade. É como um lisboeta ir apanhar o avião a Leiria. Ou um portuense fazê-lo em Coimbra. A propósito, eu que moro em Lisboa, apanhei-o em Faro, mas isso já não é culpa da companhia. Quando, finalmente, já não sei quantas horas depois, cheguei, concluí: os melhores aviões são aqueles que não caem.
Mesmo num voo da Ryan Air, onde as parecenças com um autocarro nos distraem, há sempre uma grande tensão entre os passageiros, principalmente na descolagem e aterragem. Já não se fazem toilettes para o passeio como outrora e a solenidade do voo desgastou-se pela recorrência, mas há sempre uma comichão na barriga que se reflecte nos olhares, significativamente diferente de quando se entra num comboio, barco ou camioneta, apesar de, nestes outros meios, os acidentes serem mais vulgares. É natural: para leigos, como eu, um monstro daqueles conseguir voar sem bater as asas parece, ainda hoje, um milagre aerodinâmico. Uma experiência suprema, em que, de forma arrogante e radical, o homem desafia os limites que a gravidade lhe impôs.
O resto já se sabe: os aviões caem, os barcos naufragam e os comboios descarrilam. Estas são apenas algumas das formas mais espectaculares de morrer. Outra, mais triste, é deitado numa cama de hospital. Agora escolham. Viver para sempre não está no menu.


quarta-feira, 17 de junho de 2009

O dever da indignação

Nunca compreendi as virtudes da neutralidade, talvez por isso ainda não tenha visitado as Suíças deste mundo. Nos tempos em que as mães portuguesas agradeciam a Salazar o alegado esforço diplomático deste para manter o país fora da II Guerra Mundial, Miguel Torga (nas páginas do seu Diário) era uma das poucas vozes que se insurgia contra esta posição, não hesitando em qualificá-la de cobarde contemplação da desgraça dos outros. A seus olhos, nada, nem sequer a penúria militar do país, justificava tão obstinado encolher de ombros ante a barbárie que se desenrolava aqui ao lado.
Num filme ainda em exibição – No Limite do Amor, de John Maybury – é a não intervenção de Dylan Thomas (na foto), também durante a II Guerra Mundial, que é questionada. Objector de consciência, o poeta ficou em Londres a emprestar eloquência a textos de propaganda patriótica e a discutir política com ocioso cinismo. O argumento do filme relaciona esta escolha com posteriores actos de cobardia de Thomas, mas, embora se possa achar a ligação abusiva, a opção de ficar em Londres, vestido como um dandy enquanto os seus compatriotas repeliam, com enorme custo, a invasão nazi, macula-lhe a biografia.
Felizmente, nem todos se permitem tão decepcionantes incoerências. José Saramago, por exemplo, não se demite de intervir social e politicamente sempre que a ocasião o reclama. Mais do que o direito à indignação, o escritor sente a intervenção pública como o dever de quem sabe que, por mérito próprio, se tornou uma voz escutada. Enquanto a União Europeia, entre a complacência e o embaraço, se ri da boçalidade de Sílvio Berlusconi, o Nobel português denuncia o modo selvático como o italiano ameaça as liberdades e direitos do indivíduo e, por arrasto, a História e Cultura. «Esta coisa, esta doença, este vírus ameaça ser a causa da morte moral do país se um vómito profundo não conseguir arrancá-lo da consciência dos italianos antes que o veneno acabe corroendo as veias e destruindo o coração de uma das mais ricas culturas europeias», escreveu no El Pais. Assim mesmo, sem pruridos nem cuidados. Não estamos em tempo para eles.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Amanhã nas Bancas

JL 1010

de 17 a 30 de Junho

José António Pinto Ribeiro:A língua da Cultura
• O Acordo Ortográfico • A defesa do Português • O Instituto Camões • O futuro da Cinemateca • A reabilitação do Património • Os novos Museus e outros temas em entrevista com o ministro da Cultura

Eduardo Lourenço: Inédito(s)
Páginas do Diário • Carta melancólica aos leitores jovens do nosso País • Correspondência com Agustina

Arménio Vieira: Um inesperado Prémio Camões
Entrevista • Textos de Pires Laranjeira e Inocência Mata • Poemas inéditos

Teresa Villaverde escreve sobre Leite Derramado, de Chico Buarque

O novo romance de Mia Couto

A Correspondência de Eça em debate

Glória de Sant'Ana (1925-2009), por Eugénio Lisboa

José Sasportes: O centenário dos Ballets Russes

A autobiografia de Rui Nunes

sábado, 6 de junho de 2009

Para uma arqueologia da nudez

Por Vítor Oliveira Jorge





A nudez atrai? A nudez nunca é nua (ou seja, como tal não existe): o corpo sem roupas continua a ser um universo de signos. O próprio facto de um corpo se apresentar sem roupa é um trazer para a frente violento de um conjunto de signos, não os que estavam tapados (e que por só podermos entrevê-los ou adivinhá-los "funcionavam" de outra maneira), mas evidentemente os que são criados por esse destapamento. É o próprio destapamento, o seu movimento, ou intenção imaginada de tal acto acontecer, que desponta eventualmente o interesse. Um corpo desnudado não é uma verdade desvelada, é um outro tipo de encenação. Claro. Por isso o corpo do naturista, o corpo erótico e o corpo pornográfico (entre múltiplos) são coisas totalmente diferentes. Uma mulher que amamenta em público tira aos seus seios qualquer pregnância erótica, por exemplo - eis uma banalíssima ideia. E no entanto, tudo depende de quem e como olha para ela, nessa sobre-exposição de si.Não existe uma realidade feminina, existem mulheres, cada qual diferente da outra.Por isso não tem sentido por exemplo perguntar: por que atrai a nudez feminina?O que seduz é o jogo das permutações e metamorfoses, sobretudo se forem sustentadas, isto é, se uma pessoa tiver algo para além dela que valha mais que ela: é esse o foco da sedução. A sedução é uma força, num certo sentido produz-se, mas a maior parte das vezes esfarela-se no ar: não há ninguém que se deixe seduzir por aquilo que alguém pensou, sentiu, intuíu ser irresistível.A parafernália dos arranjos femininos, no seu sentido corrente (moda, roupas, sapatos, maquillage, cabeleireira, etc) sempre me fez um bocado de impressão: para quê tanto adereço em cima de algo que podia ser sedutor num sentido mais económico?... pois se uma simples reflexão genuína ou um evanescente gesto são o que nos prende e seduz... de uma forma tão subtil e fina! O mesmo à medida que observo o masculino e os seus tiques e arranjos. E quando passamos para as trans-sexualidades, bi-sexualidades, homosexualidades, fenómenos tão comuns, a estranheza (não repulsa nem menor consideração) acentua-se: é uma catadupa de máscaras, de enigmas. Não estou com isto a naturalizar a heterossexualidade e a considerar os outros fenómenos marginais; longe disso. Faz tudo parte da panóplia estranha do humano.Qual, apesar de tudo, o meu modelo de uma nudez feminina? Não tenho, é impossível definir, precisamente, tal generalidade: há uma textura e uma movimentação físicas que são algo de enigmaticamente atraente quando se apresentam desprovidas de artifícios demasiado evidentes. É no disfarce dos artifícios que está a performance perfeita, quando o artificial se cola à imagem espontânea, quando o longamente fabricado se apresenta como nu de fabricações e artificialidades: na pura presença do seu oferecimento. Mas, tal como na banal performance, ela tem sempre de ter um grão ou ruído, uma falha, um "pequeno objecto a" por onde se insinua a nossa atenção desejante. A performance perfeita é a da máquina, ou do monumento: esfria, assusta, torna impotente. Ora o acto de alguém se entregar a outra pessoa/ corpo, a essa mistura do abismo, é sempre muito complicado, é, como toda a decisão, uma loucura. Também da parte do masculino (pelo menos do masculino heterossexual em relação ao feminino do mesmo "tipo") todo o cuidado é pouco, porque qualquer objectificação do (a) outro(a) pode conduzir ao falhanço, à sobreposição da vigilância relativamente à imersão: eu não posso deitar-me ao abismo e ao mesmo tempo ficar na margem a ver-me cair. Mas isso acontece. E no homem não há modo de disfarce: não se pode encenar credivelmente um orgasmo, para ir à crueza das coisas! De modo que neste campo as mulheres têm um poder enorme.Tudo isto é complicado, e longe, bem longe, da maquínica congeminação médica ou sexológica. Um corpo nu é em princípio um evento, porque não há em geral nudez ou semi-nudez pública, excepto em certos locais designados. Mas um evento que pode ser uma catástrofe. E é dessa catástrofe, mais até do que da contaminação (esquecida lamentavelmente na nossa loucura) que temos medo, ao aproximar-nos de outrem sob a forma de corpo: que nos irá esperar? Quem (o quê) se nos entrega assim sob a forma do mais disfarçado desamparo? Quem come quem? Quem deglute quem? Este é o jogo social todo, nos seus extremos. Um jogo de poder, como sabemos há tanto tempo, dentro de uma sala forrada de espelhos, incluindo tecto e chão.




O arqueólogo Vítor Oliveira Jorge assina esta crónica mensal no Blogue de Letras

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Engenheiros do tempo desconhecido



Um conjunto de filmes em 35 milímetros, com propostas para uma ciência alternativa e revolucionária, dão corpo à exposição que João Maria Gusmão e Pedro Paiva levam à Bienal de Veneza, este ano dedicada ao tema Fazer Mundos. Trata-se da representação oficial portuguesa, patente ao público no Pavilhão da Fundação dell'Arte, entre os dias 7 de Junho e 22 de Novembro, com inauguração marcada para hoje, sexta-feira, 5.
Esta presença de João Maria Gusmão e Pedro Paiva numa das maiores iniciativas do circuito das artes plásticas é o coroar de uma crescente visibilidade internacional, confirmada pelas inúmeras mostras que apresentaram, nos últimos dois anos, em vários pontos do mundo. Experiências e Observações em Diferentes Tipos de Ar surge na sequência do projecto Abissologia, exibido na Cordoaria Nacional e na Mina Campina de Cima, em Loulé. Mantendo os mesmos pressupostos teóricos e artísticos, esta exposição convoca três dimensões, segundo o comissário Natxo Checa: «O estudo de fenómenos singulares numa tentativa de compreensão do mundo; a afeição a uma metodologia científica; e o entendimento da poesia como possibilidade de aferição de um mundo apenas parcialmente discernível». É a habitual apetência da dupla para a criação de um novo conhecimento, fundado na tradição científica e literária.
Neste caso, os artistas, nascidos em Lisboa, em 1979 e 1977, respectivamente, recuperam o dilema entre a tese de Antoine Lavoisier e a de Joseph Priestley acerca da natureza do oxigénio. De resto, o título da mostra recupera o tratado homónimo de Priestley, associando-o a uma leitura poética na busca da essência da «transmutação». «Estamos perante a construção de uma série de guiões ficcionais, de perfil literário, enraizados na observação de fenómenos particulares e no desenho de uma arquitectura filosófica própria», afirma Naxto Checa. «As propostas de João Maria Gusmão e Pedro Paiva, assentes num certo tipo de pesquisa empírica ou na especulação delirante, surgem a partir de um método racionalista que procura dar conta da excepção dos fenómenos. Mediante a sobreposição de estratos (fruto da penetração entre o literal e o metafórico), elaboram-se, ao longo da sua obra, relatos que não podem ser assumidos por um código instituído, lembrando, muitas vezes, uma compilação de factos documentados sem aparente explicação.»
É sobre este substrato teórico, criado por estes engenheiros do tempo desconhecido (aquele que a história e os vencedores não confirmaram), que assentam as obras de João Maria Gusmão e Pedro Paiva. Filmes na sua maioria, mas também instalações e fotografias, que evocam o processo que os artistas desenvolveram na criação desta ciência alternativa, que deve mais ao humor e à ironia do que ao rigor. Pois são efabulações artísticas e estéticas, em torno do invisível, do instável e do efémero. A perene matéria-prima da arte.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

A outra face do Facebook


«A cerimónia seria muito mais grandiosa se, em vez de levarem a N.ª Sr.ª Fátima ao Cristo-Rei, levassem o Cristo-Rei a Fátima.». Foi um post, até com alguma graça, colocado no Facebook, a propósito das comemorações do cinquentenário daquele monumento, inspirado no redentor do Rio de Janeiro, erigido para cumprir uma promessa: de afastar Portugal da II Guerra Mundial. E a história do post ficaria por aqui. Porque além de ter graça é totalmente verdadeiro: efectivamente, a festa seria muito mais grandiosa e o Cristo-Rei não faria mais do que retribuir a visita que a estátua original da Nossa Senhora de Fátima lhe fez, quando foi colocada a primeira pedra.
Contudo, alguém fez uma denúncia (talvez a própria Fátima), não a esse post, mas a um comentário que dizia: «Fátima! dá cá um abraço... venham daí esses ossos, mulher de deus!». Resultado: o utilizador ficou inibido de acrescentar amigos à sua lista. O que é um castigo severo para os facebookers. Eu conheço meia-dúzia de padres que ririam em alta-voz da graçola. E desconfio que os mais rígidos e ortodoxos, como o actual Papa, não pediriam a excomunhão por tão pouco. Até porque, à parte da piada ser inofensiva, Fátima, obviamente, não faz parte dos dogmas da Igreja. Não obstante, houve alguém sem graça (nem sequer divina) que se sentiu insultado e acusou este meu amigo aos administradores do condomínio. E os administradores fizeram jus à sua fama ultra-conservadora e aplicaram-lhe uma condenação sumária. Aplica-se literalmente o conselho: é preciso ter cuidado como os amigos que se escolhem. E também o outro: com amigos destes…
É tempo de parar para pensar: quem são estas pessoas que nos impõem as mais arbitrárias regras? Estes moralistas de meia-tigela que nos cortam o piu a troco de nada? Como lhes fomos dar o poder de nos controlar? Que direito tem uma plataforma destas de fazer condenações sumárias e aplicar penas por delito de opinião?
A Internet é um mundo sem regras, uma espécie de faroeste em que cada um faz o que lhe apetece. Quando um blogger insulta explicitamente alguém, por pura calúnia, accionam-se os meios ineficazes. Passado algum tempo podem fechar o site, mas nada inibe o blogger de abrir outro, duas páginas ao lado. Mas, enquanto reina este desgoverno, há uns xerifes moralistas, que se esforçam por ditar as suas próprias leis. E as pessoas, sem querer, deixam-se dominar por esta selva ideológica, perigosíssima, e muitas vezes escamoteando organizações extremistas. Quem se esconde por trás do livros dos rostos?

O homem do tanque


Ele está ali. Camisa branca. Calças azuis. Um saco na mão esquerda. A esperança em todo o corpo, a ilusão de um dia melhor, de um futuro diferente, de uma China tolerante. Ele está ali. Sozinho e destemido. Quatro tanques à sua frente. A carne contra o metal. Os ossos contra o aço. A coragem contra a força. A determinação contra a incerteza. A vida contra a morte.
Ele está ali, por pouco tempo, mas tempo suficiente para fazer tremer um regime. Tempo suficiente para o tanque militar que o ameaça começar a guinar, virar para a esquerda e para a direita, qual barata tonta sem saber o que fazer. Um homem em Tiananmen, há precisamente 20 anos, que se assinalam amanhã, quinta-feira, 4, um pouco por todo o mundo.
Como todas as imagens, o homem do tanque é alguém que extravasa a sua origem. Já não é só o chinês que luta por uma convicção, que esquece o seu eu e se entrega à Humanidade – são ambíguas as informações que se tem dele, embora se julgue que foi torturado e assassinado poucos dias depois. É daqueles que representam a insubmissão do indivíduo à máquina, ao poder, aos interesses superiores, à intolerância, à crise.
Passados 20 anos, que amanhã se recordam, quem sabe para esquecer poucos dias depois, é irónico ver neste chinês, de camisa branca, calças azuis, humilde e convicto, a representação dos milhares de desempregados que a crise – de dúbios contornos, causas pouco esclarecidas e responsáveis por identificar – atirou para a frente do tanque. Para a corrente do blindado que esmaga quotidianos e rouba esperanças. Porque nessas casas e nessas desgraças não há fotógrafo, nem You Tube para os salvar. Estão votados ao silêncio como o homem do tanque esteve mais tarde, na cela que provavelmente antecedeu o cadafalso.
As imagens são isso mesmo: símbolos. Alarmes para uma realidade que nos é vizinha. Mas símbolos como estes não se encontram nos museus. Fazem parte da arena do dia-a-dia, onde nem todos os tanques – como este, há precisamente 20 anos, em Tiananmen – evitam a morte de uma pessoa.