segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Jorge Pelicano: Fora da linha


Com Pare, Escute, Olhe, Jorge Pelicano foi um dos grandes vencedores da 7.ª edição do DocLisboa, ao receber três prémios na competição nacional: melhor longa-metragem, melhor montagem e melhor filme para o júri IPJ Escolas. É o culminar de uma intensa semana para o realizador de Ainda há Pastores?, já que o seu novo documentário foi ainda distinguido na XV edição do Festival Internacional de Cinema Ambiente de Seia, também em três categorias: Ambiente, Lusofonia e Juventude. O JL falou com Jorge Pelicano na sua última edição, num breve encontro que aqui republicamos.

Depois do sucesso de Ainda há Pastores?, Jorge Pelicano regressa ao documentário com novo retrato do Portugal profundo. Em Pare, Escute, Olhe, o realizador viaja até Trás-os-Montes para descobrir uma região abandonada pelo poder central, em que o despovoamento é quem mais ordena. Aí encontrou uma população resignada, sobretudo com a notícia do fecho da linha ferroviária do Tua e a decisão política de se construir uma barragem. Neste cenário, Jorge Pelicano, 32 anos, jornalista da SIC, não hesitou: assumiu como sua a causa da salvaguarda da identidade da região. O documentário, que passa amanhã, quinta-feira, 22, às 22 horas, no Festival Cine Eco, de Seia, depois de ter estado na competição nacional do DocLisboa, é uma arma ao serviço dessa luta. Que terá desenvolvimentos em exposições fotográficas, concertos com a banda sonora original ou em outras intervenções públicas, numa cidadania que se faz de câmara de filmar na mão. É que a indiferença não faz parte do guião de Jorge Pelicano.

Jornal de Letras: Este documentário surge na sequência dos acidentes ferroviários que têm vindo a ser noticiados, ou havia um interesse anterior?

Jorge Pelicano: Quando comecei o projecto ainda não havia notícias dos acidentes (quatro, nos últimos dois anos), nem da barragem. Eu queria tratar o tema do despovoamento e a melhor forma de o fazer era falar das linhas ferroviárias encerradas, nomeadamente em Trás-os-Montes. Essa é a razão principal porque decidi trabalhar na linha do Tua.

O despovoamento e um certo Portugal que está a desaparecer estão sempre presentes nos seus documentários. O que lhe interessa nesses temas?
A perda de identidade. O objectivo deste filme é levar as pessoas a reflectir sobre o que é realmente importante para o nosso país. Se o progresso, se a possibilidade de termos regiões com a sua própria identidade, com transmontanos, alentejanos, ribatejanos. Porque nem tudo tem de ser igual. É por isso que o filme se chama Pare, Escute, Olhe. Numa sociedade em constante mutação como a nossa, é importante de vez em quando pararmos, escutarmos as pessoas e olharmos para o que temos. E, a partir daí, estabelecer prioridades.

Nesse sentido, é uma reflexão sobre os últimos 35 anos de Democracia a partir deste caso concreto?
Sim. E por isso um filme mais político. Porque devíamos mesmo estabelecer essas prioridades e pensar para onde vamos, para onde queremos ir. Um exemplo: daqui a 20 ou 30 anos, as aldeias de Trás-os-Montes vão estar completamente despovoadas. O que ainda vamos a tempo de evitar. Mas os políticos, que estão sempre a falar em desertificação, contribuem para que isso aconteça, como se mostra no filme. Mais uma vez, a barragem do rio Tua vai trazer electricidade para o litoral à custa do interior.

Este é um documentário que não receia tomar partido?
Exactamente, isso é muito claro. Para mim, o documentário deve ser uma arma. Chamar à atenção e pôr o espectador a pensar. Pare, Escute, Olhe é totalmente parcial. É uma defesa da região de Trás-os-Montes.

Na rodagem, o que mais o surpreendeu?
Não haver luta. No início, estava à espera de encontrar pessoas revoltadas. Muitas sentem falta do comboio, mas estão resignadas. Com tantos anos de esquecimento, dizem que já não vale a pena lutar. Isso só acontece porque os responsáveis políticos não vão ao terreno. Este filme também tem como objectivo levar ao centralismo de Lisboa a grandeza daquele património.

A nível cinematográfico, ensaiou novas opções estéticas?
A grande novidade é o facto de ter uma banda sonora original, de Manuel Faria, Frankie Chavez e Francisco Faria. De resto, é a mesma óptica de Ainda há pastores?: um documentário muito cinematográfico, embora aqui a câmara passe mais despercebida. Não tem voz off, nem entrevistas. Vive do dia-a-dia das pessoas.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Pedro Costa, sublime!

A propósito da edição em DVD de Onde Jaz o teu Sorriso, de Pedro Costa, republicamos um texto de Rodrigues da Silva



Permitam-me a ênfase. E a sinceridade. Este é um dos mais inteligentes e também dos mais belos filmes que já vi. Este filme chama-se Onde Jaz O Teu Sorriso?, realizou-o o português Pedro Costa, e se não dispenso o «português» é porque é um orgulho saber nosso aquele que é hoje (e não só por este filme, mas por toda a sua obra anterior) um dos mais importantes cineastas vivos. Em todo o Mundo.
E vamos ao filme. Ou ao que é. Ou, para já, ao que lhe esteve na origem.
Na origem esteve um convite feito a Pedro Costa: fazer para o canal televisivo ARTE um filme a inserir na série Cineastas do Nosso Tempo. Os cineastas foram Jean-Marie Straub/Danièlle Huillet, que, desconhecendo a filmografia de Costa, só aceitaram depois de Jacques Rivette, que admiram, se confessar grande entusiasta dela.
A partir daqui foi o trapézio sem rede, já que, para fazer um filme sobre cineastas, há (ou haveria) um número ilimitado de modus faciendi. Atrevo-me a dizer que Pedro Costa escolheu não o melhor, mas aquele que para mim é, a partir de agora, o único. O único possível.
O único justo. Qual? Este que vos revelo.
Sabendo que o casal Straub/Huillet estava a fazer uma terceira montagem do seu filme Sicília! para um auditório de alunos do Studio National des Arts Contemporains de Fresnoy (Lille/França), Costa foi para lá que se dirigiu e foi lá que filmou. Praticamente tudo o que se vê passa-se, assim, na sala de montagem. Com três intérpretes: os dois cineastas e o seu filme. Melhor dizendo: os fotogramas do seu filme que Huillet, na mesa de montagem, vai deixando correr de frente para trás e de trás para a frente em busca do ponto exacto do corte. Isto enquanto Straub, na sombra, discute com a mulher a opção, deambula e fala de cinema.
Deveria haver um quarto personagem se Onde Jaz O Teu Sorriso? fosse um documentário, no sentido clássico do termo. Esse quarto personagem seria o auditório, isto é, os alunos que ocupam o espaço atrás da mesa de montagem. Pois, mas Costa eliminou esses alunos, esse auditório, esse espaço. Não documentou, ficcionou (todo o documentário ficciona, toda a ficção documenta), para se concentrar (e nos concentrar) apenas no trabalho dos cineastas.
Não só por saber (como alguém já referiu) que os filmes de Straub/Huillet são «feitos à mão».
Também na certeza de que para eles «aquilo que se filma é mais forte que o cinema».
Trabalho, sem dúvida, portanto. Logo, também paixão. Ou essa simbiose magnífica entre as duas entidades que acontece (quando acontece...) se os caminhos da Paixão são os caminhos do Calvário e vice-versa. Após o que há a Ressurreição. Pela obra feita. Perfeita. A obra acabada. E assim, porque o trabalho (dirá Straub durante o filme) só para uma ínfima parte da Humanidade é aquilo que as pessoas gostam de fazer. Straub/Huillet fazem parte dessa pequeníssima percentagem de humanos que fazem o que querem. Como querem. «Mas isto paga-se», dirá Straub. Paga-se com a natureza inerente à criação, mas paga-se também com a circunstância da incompreensão da sociedade do consumo de imagens pelo trabalho/paixão, no caso em apreço por aquilo que Bresson chamava «cinematógrafo», opondo o termo a «cinema».
O que vemos, com Huillet a trabalhar os fotogramas e Straub por detrás em solilóquio por vezes rabuja, é algo como um fazer amor. Amor com os fotogramas, na ânsia do melhor, do absoluto. Os fotogramas são a Matéria. Antes dela, dirá Straub, há a Ideia. E no final a Forma.
«Como uma escultura», conclui, e está tudo dito, nem é preciso dizer mais nada sobre o percurso de uma criação. Mas voltemos a Pedro Costa.
Já percebemos que, inteligentemente, ele dispensou o auditório, renegando a forma clássica do documentário, para se concentrar nos dois cineastas e na sua obra em mãos. Porquê? Por uma razão simples. Para que nós (espectadores), através dele e da sua câmara, nos concentrássemos no processo criativo. E aqui somos reconduzidos ao seu filme anterior, No Quarto da Vanda, onde nos obriga a confrontar com o essencial de um outro processo, uma outra realidade.
Mas Pedro Costa dispensa mais. Dispensa o cliché habitual de um filme sobre dois cineastas: a biografia.
Que se imagina intercalada com bocados de filmes + entrevistas. E fá-lo, convicto, decerto, que aquilo que verdadeiramente dá a ver um criador é a sua criação. Ou o labor que a ela conduz.
E sobre este labor, sim, Costa é exaustivo. Porque ele sabe que a obra acabada é precedida de um labor/dor que o público obviamente ignora. A pedra contém já em si a estátua, mas é o escultor que dela a fará brotar. Assim, Pedro Costa revela. Qual parteiro que nos expusesse o trabalho de um parto. Difícil, moroso, mas apaixonado e imensamente feliz.
Poderia eu ainda dizer (e digo) que Straub, nos seus peripatéticos passos em volta da mesa de montagem, alude a Pavese, a Brecht e a Vittorini, bem como a um sem número de cineastas tutelares, de Chaplin a Hitchcock, de Bresson a Dreyer, de Buñuel a Mizogouchi. Pelo meio, ficamos a saber também que o casal se conheceu em 1954, e da sua vida praticamente mais nada. Excepto o resto, que é a teoria que, a partir de uma prática longa de mais de 40 anos, foram, a dois, elaborando. Estética e ética em harmonia. Sobre a margem de liberdade que deve ser dada aos actores. Sobre essa outra margem de liberdade que deve sobrar ao espectador para que seja ele próprio, pela imaginação, a completar a obra, razão pela qual cada fotograma não deve jamais bloqueá-lo, mas libertá-lo. Sobre o tempo, a durée, esse tempo que não é dinheiro, ou por ele não deve ser medido. Sobre a montagem, também, que, tal como a arte toda ela, não é a vida, embora dela parta, e Straub explica-o de uma maneira lapidar: «Na vida não andamos a fazer planos».
Sabemos isto e como o sabemos? Sabemo-lo, via Pedro Costa, que (com duas câmaras, uma pequena Panasonic e uma digital, mais um técnico de som) tudo captou. Como? Dando-nos a ver os dois cineastas, criadores, sempre na penumbra e nunca em primeiro plano, porque o primeiro plano e a luz o destinou ele à obra que vai sendo criada, a partir da montagem.
Ideia-Matéria-Forma. Um filme assim, como Onde Jaz o Teu Sorriso? vai muito além do seu ponto de partida.
Na verdade, filmando Jean-Marie Straub/Da- nièlle Huillet, o que Pedro Costa filmou e nos oferece é uma autêntica ontologia da criação.
Graças a um acto de amor e conhecimento.
Absolutamente sublime!
JL 843, de 22 de Janeiro de 2003

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Um Amor de Perdição em Debate

Um Amor de Perdição, filme de Mário Barroso, baseado na obra de Camilo, a que o JL dedicou capa recentemente, vai estar em debate sexta-feira, dia 15, no Cinema Nimas, em Lisboa
Com o tema «Transposição para a actualidade de uma obra clássica e outras adaptações cinematográficas», conta com a participação do realizador, da actriz Catarina Wallenstein e da professora Maria do Rosário Lupi. Será moderado por Ana Margarida de Carvalho.


É uma organização da Clap Filmes e do blogue Final Cut que dedica um dossier e um inquérito ao filme.


19.30 – Projecção do Filme


20.50 - Debate

terça-feira, 5 de maio de 2009

Todos os prémios do Indie Lisboa

Grande Prémio de Longa Metragem “Cidade de Lisboa”
Ballast, de Lance Hammer, de Ficção, EUA, 2008, 92', 35mm

Prémio TOBIS para Melhor Longa Metragem Portuguesa
Ruínas, de Manuel Mozos, Documentário, Portugal, 2009, 60', Beta Digital

Prémio de Distribuição
Jalainur, Zhao Ye, Ficção, China, 2008, 92', Digi Beta PAL

Grande Prémio de Curta Metragem
Kempinski, de Neil Beloufa, Experimental, França, 2007, 14', Beta SP
Menção Honrosa: It's Nick's Birthday, de Graeme Cole, Ficção, Reino Unido , 2009, 34', Digi Beta PAL; Bernadette, de Duncan Campbell, Experimental, Reino Unido , 2008, 37', Beta Digital

Prémio para Melhor Curta Metragem Portuguesa
Arena, de João Salaviza, Ficção, Portugal , 2009, 15', 35mm

Prémio RESTART para Melhor Realizador Português de Curta Metragem
Pássaros, de Filipe Abranches, Animação, Portugal , 2009, 6', HD

Prémio Novo Talento FNAC
Visionary Iraq, de Gabriel Abrantes, Ficção, Portugal , 2009, 20', Beta Digital

Prémio de Melhor Imagem para Curta Metragem Portuguesa AIP
Para o director de fotografia de Alasca, Paulo Menezes

Prémio RTP2 Onda Curta
Tierra y Pan, de Carlos Armella, Ficção, Mexico , 2008, 8', 35mm
The Herd, de Ken Wardrop, Documentário, Irlanda , 2008, 4', Beta Digital
Dix, de BIF, Animação, França , 2008, 7', 35mm
Ballad of Marie Nord and Her Clients, de Alexander Onofri, Ficção, Suécia , 2008, 28', 35mm
2 Birds, de Runar Runarsson, Ficção, Islandia , 2008, 15', 35mm
Prémio atribuído pelo Júri FIPRESCI/Fipresci Jury Award (Demtrious Matheou, Miguel Somsen e Vladan Petkovic)

Prémio FIPRESCI
The Happiest Girl in the World, de Radu Jude, Ficção, Romania , 2009, 100', 35mm

Prémio Amnistia Internacional
Los Herederos, de Eugenio Polgovsky, Documentário, Mexico , 2008, 90', Beta Digital
Menção Honrosa: L'encerclement, de Richard Brouillette, Documentário, Canadá , 2008, 160', Beta Digital; D’Arusha à Arusha, de Christophe Gargot, Documentário, Canadá, França , 2008, 115', HDCam PAL

Prémio Revista Pais e Filhos para o Melhor Filme IndieJúnior
O Peso das Pedras, de Hanne Larsen, Ficção, Noruega , 2008, 15’, 35mm
Menção Honrosa: Ex-E.T, de Benoit Bargeton, Nicolas Gracia, Rémy Froment, Yannick Lasfas, Animação, França , 2008, 8’, Beta SP

Prémio do Público Johnnie Walker para Melhor Longa Metragem
L'encerclement, de Richard Brouillette, Documentário, Canadá , 2008, 160', Beta Digital

Prémio do Público Johnnie Walker para Melhor Curta Metragem
Visita Guiada, de Tiago Hespanha, Documentário, Portugal , 2009, 56', Beta Digital

Prémio do Público Revista Pais e Filhos para o Melhor Filme IndieJúnior
Sem Rede, de Ari Kristinsson, Ficção, Islandia , 2007, 83’, 35mm

segunda-feira, 27 de abril de 2009

A não perder no Indie


Encounters at the End of the World, de Werner Herzog

Não se percebe porque é que Herzog, que já se deslocou aos locais mais improváveis do planeta, não há-de vir também a este fim do mundo, ou fim da Europa, que é Portugal, durante a 6ª edição do Indie, onde é homenageado, enquanto herói independente. Pode ser que venha, ainda não está é confirmado. De qualquer forma, o público irá encontra-se com ele, em mais um dos seus filmes de fim do mundo, que nunca teve oportunidade de ver as luz dos projectores nas salas de cinema portuguesas. Encounters at the End of the World é um documentário rodado no ponto exacto para onde todas os meridianos do planeta convergem. Não se espere mais um filme sobre pinguins… Encounters… vem sempre acompanhado pelo olhar assombrado e pela própria voz de Herzog, em off. E, de facto, é um documentário especial, porque o realizador alemão (que agora é mais ou menos do mundo) tem um daqueles olhares de criança, ou de poeta, que ainda guardam a extraordinária capacidade de se deslumbrar com as coisas mais corriqueiras da vida. Diz-se que as pessoas normais se ocupam de coisas especiais, os verdadeiros sábios apenas de coisas normais – tão normais como uma estalactite de gelo numa gruta ou um catterpiller a abrir caminho entre a neve suja. Herzog faz do cinema uma reflexão, a muitos graus abaixo de zero, na latitude sul 66º, onde durante cinco meses não existe noite. Este pólo não está ocupado, como nos clichés, de iglus, mas de laboratórios, barracões, escavadoras, barulho, confusão como nas terreolas recentes dos filmes do faroeste. E é este ponto, infinitamente branco – tão branco que se torna azul – , que Herzog filma e disseca. Não só as focas e as estrelas-do-mar debaixo de gelo. Mas a outra fauna humana tão especial, que na realidade o habita: cientistas, sábios, biólogos, glaciologistas… Herzog chama-lhes «sonhadores profissionais».

Domingo, 3, 16 , São Jorge 1


Singularidades de uma Rapariga Loira, de Manoel de Oliveira

É um dos grandes acontecimentos do IndieLisboa, que tem sido amplamente publicitado. Singularidades de uma Rapariga Loira, o primeiro filme de Manoel de Oliveira depois dos 100 anos, vai ter a sua ante-estreia nacional no festival. Oliveira adapta o conto de Eça de Queirós transpondo-o para os nossos tempos, numa média-metragem de 63 minutos. Num estilo muito seu, cria facilmente uma sensação de espanto, um anacronismo transversal à obra e uma despreocupação com pormenores importantes para a credibilidade da história. Do elenco fazem parte os habituais Ricardo Trêpa e Leonor Silveira, mas quem realmente se destaca é Catarina Wallenstein. A jovem actriz tornou-se a figura do momento do cinema português, e aqui é uma rapariga loira deslumbrantemente singular.

Terça, 28, 22, Cinema São Jorge 1

The Happiest Girl in the World, de Radu Jude

O cinema romeno teve a sua efervescência, com uma mão cheia de bons filmes surgidos nos últimos dois anos. Mas agora corre o risco, no caso dos seus autores não reincidirem com filmes de qualidade, de se tornar fora-de-moda. Radu Jude era uma das promessas. E este ano tornou-se certeza. Em 2007, ganhara o prémio para a melhor curta-metragem, num filme sobre a Roménia profunda, chamado The Tube with a Hat. Agora estreia-se no formato longo, com A Rapariga mais feliz do mundo. Não será um Sr. Lazarescu, nem um 4 meses, 3 semanas e 2 dias. Aproxima-se antes do realismo satírico de 12:08 A Este de Bucareste, de Corneliu Porumboiu. A obra conta a história de uma jovem que ganhou um carro num concurso de um sumo de laranja e consequentemente é forçada a gravar um anúncio à marca. Numa estrutura minimal, Radu Jude expõe as contradições de um país em vias de desenvolvimento, mas que sabe rir de si próprio

Sexta, 1, 21.45, Londres 1

Ricky, de François Ozon

No ano passado, François Ozon trouxe ao Indie um filme chamado Angel. Mas só este ano ganhou asas, com Ricky. Ganhou asas literalmente. O filme tem todos os contornos de banalidade, até com alguns pormenores de mau gosto, com o uso abusivo de lugares comuns. Mas a meio tudo muda, quando Ricky, o bebé, filho de um casal disfuncional, deixa crescer umas asas e aprende a voar. Tudo se transforma. E é, acima de tudo, o próprio filme que se liberta, no domínio de um fantástico realista. Ou de um surrealismo contido. Há todo um universo de possibilidades que se abre juntamente com as asas do bebé. Mas o filme, tecnicamente exemplar, também pode ser entendido como uma metáfora sobre a perda de um filho. Certo é que Ozon se transcende e se eleva ao nível do coração dos pássaros, onde mora a felicidade.

Sexta, 1, 21 e 45, São Jorge 1

Dernier Maquis, de Rabah Ameur-Zaïmeche

Durante os 90 minutos desta película, não aparece uma única mulher. Nem como secundária, nem como figurante, nem sequer a passar distraidamente em plano de fundo. É um filme de homens num mundo de homens. De imigrantes, operários e muçulmanos. Onde tudo se mistura como faces concorrentes da mesma luta: religião e relação patronais. Não há Satã. Não há infiéis. O filme passa-se numa extraordinária comunidade árabe algures perdida em França, que é, acima de tudo, uma comunidade laboral. Parece enquadrar-se na tendência, apontada em O Segredo de um Cuscuz, para dar voz à larga comunidade árabe em França. Para espreitar pelo buraco da fechadura e descobrir este mundo que nos é particularmente estranho. Só que radicaliza o conceito, abolindo todos os franceses, e deixando de parte as questões de integração. Ali está tudo perfeitamente integrado, aquela fábrica é uma colónia islamita, e desenquadrados estão aqueles que ainda não se converteram. O chefe constrói uma mesquita, com o duplo objectivo de chegar ao paraíso e manter a concertação social com os seus trabalhadores. Mas a luta de classes é inevitável. E não se pode servir dois deuses ao mesmo tempo.

Sexta, 1, 18 às 30, Cinema Londres 1

Crítico, de Kleber Mendonça Filho

Todo o mundo tem pele fina, mesmo… Este documentário brasileiro, filmado ao longo de dez anos, foca os dois lados da barricada: de um lado a crítica, do outro os criticados, realizadores e actores de cinema. Curiosamente em vez de um tiroteio de parte a parte, Kléber consegue uma polifonia de discursos e análises. Em vez de duelo, Kléber consegue diálogo. Aliás, o filme passa na secção Director’s Cut, que tem esta vocação de pensar o cinema. Recorrendo a cerca de 70 testemunhos, recolhidos em festivais e ante-estreias (de Gus Van Sant a Carlos Saura), a imagens de épocas díspares, entremeadas de uma forma particularmente hábil e feliz, relata-se como se sente esta estranha metamorfose, das imagens em movimento da tela até às palavras estáticas dos jornais. Muitos contam como uma má crítica, uma análise leviana ou mesmo injusta pesa tanto como uma agressão a um filho. Outros realizadores não se sentem tão pessoalmente atingidos por estas reinterpretações das suas obras. Os mal-amados críticos são intermediários entre o filme e o público. E, neste sentido, «todo o crítico é um passador». Afinal, só pode haver uma boa crítica quando a matéria-prima é boa. O bom cinema é formador. E, como se diz no documentário, é impossível ser-se especialista em samba no Japão.

Terça, 28, 15 e 15, Classic Alvalade 1, Domingo, 3, 21e 30, Classic Alvalade 1

Muitos Dias tem o Mês, de Margarida Leitão

O endividamento das famílias portuguesas é um tema deste documentário de Margarida Leitão. Um filme de uma actualidade extrema, que procura mostrar a complexidade deste problema que assola milhares de famílias. A realizadora procura abordar a questão de diversos ângulos, desde o balcão da DECO, às casas de penhores, passando pelos leilões imobiliárias e as confissões intimistas de vários devedores. Sobretudo revela uma notável dimensão humana. Num filme urgente, que pode ser tomado como uma obra sóbria de intervenção social. Porque a maior lição que se toma é que é preciso manter-nos alerta numa sociedade em que o apelo ao consumo se torna tantas vezes irresistível.

São Jorge, dia 27, às 21 e 45; Londres, dia, às 21 e 45

La belle personne, de Christophe Honoré

Não é de agora o interesse do cinema pela escola. Basta lembrar Jean Vigo, e o seu Zero em Comportamento (de 1933), para perceber quão frutíferas são as relações, os conflitos e as paixões sociais que se desenvolvem durante as aulas, os convívios nos pátios e as tertúlias dos cafés. Em intensidade, talvez se assemelhem mesmo ao ambiente das cortes das velhas monarquias absolutas. Não é, por isso, descabida esta adaptação que Christophe Honoré, realizador de Dans Paris, fez do clássico romance psicológico de Madame de La Fayette, La Princesse de Clèves. A chegada da bela Junie, a meio do ano lectivo, vem desconcertar o equilíbrio da turma. Rapidamente se estabelecem jogos amorosos, que escondem, substituem e se sobrepõem aos já existentes. Amantes e amados, traidores e traídos desfilam perante a câmara num subtil bailado que tem tanto de encenado, como de familiar. Se os atributos de Louis Garreal, que participou em quatro filmes de Christophe Honoré, eram conhecidos, é surpreendente o desempenho de Léa Seydoux. É o fio condutor desta comédia de enganos, reclamando a atenção do espectador quando estes sentimentos se revelam excessivamente contidos para os dias de hoje.

Cinema City Classic Alvalade (Sala 3), dias 29 Abril, às 18 e 15, 1 de Maio, às 21 e 45, e 3 de Maio, às 18:15

João Rosas: London Calling

De um lado, Yasujiro Ozu, do outro, Pedro Costa. De um a forma de conceber o enquadramento. Do outro a radical postura face à indústria do cinema. É nestas duas grandes referências que João Rosas procura inspiração para mergulhar no mundo da sétima arte, na qual começa a dar os passos decisivos. Depois de algumas curtas-metragens e da frequência do Programa Gulbenkian Criatividade e Criação Artística, o realizador português, nascido em Lisboa, em 1981, leva ao Indie Lisboa a sua estreia na longa-metragem. Em Birth of a City, que passa hoje, às 21 e 45 , no Cinema Londres (com nova exibição, na mesma sala, dia 1 de Maio, às 15), lança-se um olhar sobre a cidade onde viveu nos últimos três anos. E é no confronto com a pintura de Claire Fahys que Londres, afastada dos circuitos turísticos, se revela. Num registo íntimo e diarístico, esta «tentativa de filme», como João Rosas lhe chama, feita de fragmentos do quotidiano, é uma resposta ao apelo da cidade.

Jornal de Letras: Este documentário é o testemunho de uma relação ambivalente com Londres, entre o amor e o ódio, a identificação e a estranheza?
João Rosas: Sim, há muita admiração, mas também distância. Por um lado, sentia-me londrino, por outro, continuava a ser um estrangeiro. Mas essa é a própria riqueza da cidade, como digo no início do filme. Por mais coisas que não goste, continuo a adorá-la. Acima de tudo, é uma homenagem a uma Londres que senti necessidade de ‘embalsamar’ dentro de mim.

É por isso um retrato de uma cidade habitada por pessoas e por circuitos turísticos?
Exactamente, porque esses circuitos turísticos não faziam parte do meu dia-a-dia. O filme é fruto de uma relação directa com Londres, como se estivesse a fazer um diário daqueles bairros do leste da cidade, que estão a passar por uma profunda recuperação urbana e artística, por causa dos Jogos Olímpicos.

Como surgiu depois a pintura?
Sempre me interessou fazer um filme sobre Londres, sobretudo porque me fascina a quantidade de vidas que é possível viver nela. Mas a certa altura via-me num beco-sem-saída. A dificuldade era ter a cidade como personagem principal. A pintura surgiu por acaso. Uma noite, estava à porta de um bar, a fumar um cigarro, quando conheci uma rapariga que me disse que pintava cidades. Outro acaso levou-me ao conhecimento da sua obra. Quando me disse que ia começar um novo quadro decidi arriscar, mesmo não tendo nada planeado. As filmagens no estúdio foram feitas primeiro, só depois o discurso sobre a cidade.

Num jogo de espelhos, a montagem do documentário sugere que se conhece melhor a cidade através da pintura, e a pintura através da cidade.
Foi essa a intenção, embora tenha evitado fazer um filme sobre artes. Tal como ela usa padrões e colagens, eu tentei criar essa sensação de camadas, de sentidos que se sobrepõem, como se fosse de facto um diário da minha vida em Londres. Porque os jornais, as lojas e os transportes que faziam parte do meu dia-a-dia estão lá todos.

Por que razão privilegiou a câmara fixa, sem movimento?
É uma opção estética, um registo que sempre me interessou e que já vem das curtas-metragens, na linha de um realizador japonês que gosto muito, Yasujiro Ozu. Além disso, há um aspecto prático: filmei sempre sozinho. No entanto, mesmo com outros meios, seria igual. A ideia foi escolher os enquadramentos e deixar que a cidade entrasse na sua coreografia.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Não mais do que desamparo

THIS IS ENGLAND, DE SHANE MEADOWS




Poucos sentimentos humanos são mais devastadores do que o medo. Com a ganância, é talvez a causa que mais vezes encontramos associada ao mal e a todas as suas formas. No filme de Shane Meadows, This is England (vencedor do BAFTA para melhor filme britânico do ano), Shaun (deslumbrantemente interpretado pelo muito jovem Thomas Turgoose) é uma criança aterrorizada pela sua própria fragilidade: o pai morto na Guerra das Malvinas, o bullying de que é alvo na escola, a desesperança da mãe e a fealdade da cidade em que vive mergulham-no num estado próximo da depressão. Até ao dia em que um grupo de punks o toma sob protecção e Shaun volta a ter pequenos sonhos que lhe iluminam o rosto: umas botas Doc Martens, um novo corte de cabelo, uma primeira namorada, mais velha e experiente como fica bem a um rapaz da sua (pouca) idade. Não são felizes para sempre. No seio desta nova e benigna família há-de infiltrar-se Combo, um skinhead saído da prisão, a quem o desamparo há muito conduziu à violência e ao racismo.
Shane Meadows (nascido em 1972) é um herdeiro confesso da tradição realista britânica, de que são intérpretes maiores realizadores como Ken Loach ou Mike Leigh. This is England, ambientado na democracia musculada (chamemos-lhe assim) de Thatcher, é dominado por conflitos laboriais e sociais muito graves, em que o desemprego (ou o subemprego) do proletariado desencadeia, entre outros fenómenos, a hostilidade contra os emigrantes (nomeadamente indianos e paquistaneses) e o chauvinismo. Para este panorama sombrio, o regime encontra fórmulas anestesiantes de diversão como o «casamento do século» entre Carlos e Diana e a «última guerra patriótica», contra a Argentina, pela posse das minúsculas ilhas Malvinas. Em pano de fundo, bandas punk como os Joy Division ou os Sex Pistols dão o mote musical: temas como Anarchy in UK ou God Save the Queen não deixavam margem para dúvidas. O mau-estar grassava e tomava a forma de uma crise de identidade. Perdido o sonho do Império e do rule Britannia, o que restava ao britânico médio?
Shane Meadows, que cresceu nesta Inglaterra proletária e sombria (mas, como tantas vezes nos dois últimos séculos, na vanguarda cultural), constrói uma narrativa brilhante, sem maniqueísmos nem lições de moral. Demonstra como, insidioso, o mal cresce num grupo humano à semelhança dos cancros: invariavelmente a partir de dentro e com as mesmas consequências letais. Compassivo com as suas personagens (que parece conhecer tão intimamente), o realizador nunca as reduz a uma só dimensão: hesitam, confundem-se, perdem-se, reencontram-se até ao momento em que uma tragédia as submete a um esforço da clarificação. A entrada em cena de Combo destruiria, para sempre, a cândida proposta subversiva dos amigos de Shaun e colocava-os precocemente face a escolhas de vida ou da morte. Destas, há-de depender a perda ou a salvação de todos eles.

This is England, de Shane Meadows, com Thomas Turgoose, Stephen Grahanm, Jo Hartley, Andrew Shum, Vicky McClure, Joseph Gilgun.122 minutos. G.B, 2006

O mais novo coro mais velho do mundo


Young@Heart, de Steven Walker






O filme começa com uma senhora de 90 anos a cantar, sussurrando, ao microfone, Should I Stay or Should I go, dos Clash. É um delicioso aperitivo na apresentação do mais insólito coro do mundo. Os Young@Heart são formados por cerca de 20 idosos e o seu reportório é feito, essencialmente, à base de punk, soul e rock. Clash, James Brown, Talking Heads ou Sonic Youth são algumas das bandas visitadas por estes indomáveis gerontes. O documentário, de Stephen Walker, é construído num tom de Isto é Incríve!l. E na verdade é. Apanham-se momentos encantadores e quase insólitos, ao mesmo tempo que se aprecia uma fantástica vontade de viver a vida, numa idade em que, aparentemente, não há muita vida para viver. É essa adrenalina que os move nesta adolescência mais que tardia, mesmo quando, confessos apreciadores de música clássica, vão para os ensaios de tampões nos ouvidos, porque tudo aquilo faz muito barulho, ou discutem que lado do CD deve ficar para cima. Um filme fresco e ironicamente jovem.

Sexta, 24, 15 e 30, Classic Alvalade 3
Sábado, 25, 21 e 45, Classic Alvalade 3
Terça, 28, 15 e 30, Classic Alvalade 3

quinta-feira, 2 de abril de 2009

A importância de se chamar Ernesto






É difícil não sucumbir ao peso de um nome que se tornou mito, estampa de t-shirt, ícone sagrado. Che Guevara é um símbolo da revolta e da contestação. Foi apropriado pelos Clash, nos anos 70 e 80, e pelos Rage Against the Machine, nos anos 90. Nos anos 2000, tornou-se definitivamente objecto de merchandising. Acima de tudo, desconfio, porque a silhueta daquele homem bonito, barbudo, de boina, calha bem na roupa e em outros objectos. Diz a moda. Che sobreviveu, melhor do que Fidel, até à actualidade. Mas a verdade é que este Che que ficou já não se sabe quem é. Nem que ideias defende quem veste as suas t-shirts. Em muitos casos, tudo leva a crer que nenhumas. A apropriação da imagem de Che pela sociedade de consumo está na antítese dos seus ideais. E é também por isso que o díptico de Steve Soderbergh ganha particular pertinência. E é importante na forma como está feito: inimaginativo, fiel `as memórias, tentando reproduzir a história tintim por tintim. Mesmo que para isso cinematograficamente se perca e não seja, seguramente, uma obra maior.
Não sei se foi uma intenção didáctica que esteve na base desta empreitada de quatro horas de Soderbergh e Benicio del Toro (actor e produtor), dividida em duas partes, O Argentino e Guerrilha. É certo que numa altura em que se questiona de forma generalizada o sistema capitalista, faz sentido recuperar um mito que simboliza os grandes ideais românticos. Mas Che não foi apenas um sonhador, um utópico, mas um homem que acreditava nos seus ideais com tal convicção que se dispôs a morrer por eles. O filme pode desfazer esses laçarotes cor-de-rosa, com que se embelezou a figura no tempo, procurando resgatá-la da sua existência real. A dimensão mitológica, a enormidade da figura e a preocupação didáctica, contudo, tornaram-se num constrangimento à liberdade criativa no díptico, transformando-o numa obra seca, de ritmo por vezes entediante, ao estilo de uma encomenda da televisão cubana ou da recriação do 25 de Abril feita pela SIC há 10 anos. Com a importante diferença que Soderbergh tem uma qualidade fílmica superior. Sabe onde colocar a câmara para fugir ao óbvio.
Benicio del Toro é outro problema: não está ao nível que a personagem exigia. Pedia-se-lhe que desse ao Che uma aura romântica e profunda, e ele revestiu-o de uma atroz banalidade. Outros actores não correspondem, numa tarefa difícil, com diálogos declarativos e cenas de exposição pouco subtis. Joaquim de Almeida, que faz de ditador boliviano, contudo, não compromete.
A primeira parte termina bem, com a chegada ao poder em Cuba. A segunda, acaba mal, com a morte de Che na Bolívia. As duas podem ver-se separadamente ou em conjunto. E é bom que se veja e que se recorde a história de uma das maiores lendas do século XX, num retrato desalmado, mas fiel.
Leia sobre outros filmes no Final Cut

quarta-feira, 25 de março de 2009

Laranja Mecânica

Numa obra tão genial como diversificada quanto a de Stanley Kubrick fazer uma escolha torna-se realmente difícil. No inquérito promovido pelo JL houve um equilíbrio notável quase até final. Acabou por vencer o mais impressionante e violento de todos os seus filmes: A Laranja Mecânica (1971). O filme gerou uma polémica imensa aquando da sua estreia e houve quem o acusasse de tudo. Uma coisa é certa, depois deste filme, e do sintetizador de Wendy Carlos, nunca mais se ouviu Beethoven da mesma forma.

A Laranja Mecânica 25
2001 Odisseia no Espaço 21
Shining 10
Dr. Estranho Amor 9
De Olhos bem Fechados 8

quinta-feira, 19 de março de 2009

A sorte dos filmes

quarta-feira, 18 de março de 2009

Um conto de reis

O canto dos pássaros, de Albert Serra





Apenas o Evangelho segundo São Mateus fala dos Reis Magos, referindo-se a eles como «uns magos que vieram do Oriente a Jerusalém». Não há qualquer menção dos seus nomes, nem que um deles era de raça negra, nem sequer explicita que eram três. Tal pode ser deduzido pelo número de ofertas: ouro, incenso e mirra. Foram enviados pelo Rei Herodes (personagem histórica), alegadamente, para O adorar. Mas o que ele realmente pretendia era matar Jesus, pois temia que, cumprindo as profecias, este se tornasse o rei dos Judeus, tomando de assalto o seu trono. Os magos foram avisados em sonhos e alertaram José e Maria para o perigo que corriam.
Este conto de reis serve para contextualizar outro: depois de se ocupar dos tempos mortos de Dom Quixote e Sancho Pança, em Honra e Cavalaria, o catalão Albert Serra regressa com um trio de personagens de ficção, ou, pelo menos, amplamente ficcionadas ao longo da história, na tradição cristã. E, apesar de, ao contrário de Honra e Cavalaria, O Canto dos Pássaros ser rodado a preto-e-branco, a essência mantém-se. Trata-se de um filme com um ritmo lentíssimo, com personagens à deriva, não só no argumento, mas no próprio ecrã. Um estilo muito próprio de filmar os nadas, ou o que acontece quando nada acontece.
Na apresentação, em Lisboa, Serra, talvez com alguma ironia, apelidou-se o melhor realizador espanhol desde Buñuel, e queixou-se de uma incompreensão geral do público. Claro que os seus filmes estão reservados a uma elite. Uma elite esteticamente sofisticada, capaz de apreciar a beleza de uma boa fotografia, conhecedora da história do cinema e da sua cumplicidade com as outras artes, e sem sono. Os planos fixos, a montagem minimal, a reduzida acção, repudiam os espectadores mais irrequietos. A obra (sem dúvida que é uma obra na mais nobre acepção da palavra) tem uma inequívoca riqueza estética, cheia de bons pormenores e o burlesco das personagens é bem explorado, mas apenas na parte final do filme.
Ironicamente, Albert Serra, que é um catalão feroz e independentista, ao ponto de se queixar por ter de falar castelhano no estrangeiro, nos seus dois filmes exportados foi pegar nos maiores ícones de Espanha e de Castela: em primeiro lugar Dom Quixote e depois os Reis Magos (nenhum dos países vizinhos, França, Portugal, Itália ou Inglaterra lhes dá tanta importância, como a Espanha, da Galiza à Catalunha).
Tal como em Honra e Cavalaria, tentou contar o que não está escrito, no ambiente onírico sugerido pela passagem da Bíblia. E se o que está escrito é sempre menos do que está por escrever, aqui a diferença é abissal, por que a passagem do Evangelho resume-se a um parágrafo. Cria-se todo o espaço para que estas personagens tão confundíveis com as de contos de fadas, se desenvolvam e se recriem enquanto personagens. Tal é bem conseguido no diálogo perto do final, uma conversa própria do surrealismo, num universo de sonhos e adivinhações, em que um dos reis afirma, vindo de nada: «Um dia vi um homem que voava». E mais à frente, outro diz: «Há muitos anjos e são todos bons». Enfim, depois de visitar o menino, os reis vão à sua vida… e nós vamos à nossa.

O Canto dos Pássaros, de Albert Serra, com Lluís Carbó, Lluís Serrat Batlle e Lluís Serrat Masanellas, 98 min, Espanha 2008


quarta-feira, 11 de março de 2009

O Sentido da Vida por $9.99

$9.99, de Tatia Rosenthal




Trata-se muito provavelmente da primeira longa metragem de animação por marionetas realizada por uma mulher. Trata-se muito provavelmente da primeira longa metragem de animação co-prioduzida por Israel e Austrália. Trata-se certamente de um dos melhores filmes de animação do ano. $9.99, de Tatia Rosenthal, é uma película fascinante sustentada num argumento multi-plot, onde marioentas animadas procuram o sentido na vida, numa sociedade sem rumo, decadente e opressiva. Um filme de social e metafísico, grande candidato ao grande prémio do Monstra, que terá exibição comercial no nosso país, ainda este ano.
Hoje, dia 11, às 22.30, no S. Jorge (lisboa), outro grande candidato ao grande prémio do Monstra:: Idiots and Angels, do americano Bill Plympton, que ganhou o principal prémio do fantasporto.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Inquérito Stanley Kubrick



Nos dez anos da morte de Stanley Kubrick, o Blogue do JL lança um inquérito, que pretende ser uma homenagem àquele que foi um dos mais subversivos e incatalogáveis realizadores da história do cinema.
Fica aqui uma peculiar retrospectiva da sua obra, em apenas dois minutos...

segunda-feira, 2 de março de 2009

George Schwizgebel, um monstro da animação

George Schwizgebel, um dos maiores génios do cinema de animação experimental europeu, vai estar em Lisboa, no Festival Monstra, de 9 a 15 de Março, no Cinema S. Jorge, Museu da Marioneta, Museu do Oriente, Museu Nacional da Etnologia e Teatro Meridional.

Fica aqui 78 tours (1985), o exemplo máximo da sua capcaidade lúdica, de como tudo se transforma, numa espécie de constante citação de Escher elevada a um extremo

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

A sorte dos filmes



terça-feira, 27 de janeiro de 2009

A sorte dos filmes




segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Pedro Costa entre os melhores do ano nos Cahiers




Juventude em Marcha, de Pedro Costa, foi considerado o segundo melhor filme estreado em França em 2008, pela conceituadíssima revista Cahiers du Cinema. O filme do cineatsa português, realizado em 2006, ficou em primeiro lugar nas listas pessoais dos críticos Jen Pierre Rehm, Charlotte Garson e Cyril Neyrat.

Ver aqui texto de Rodrigues da Silva sobre o filme!


Top ten 2008:

1 Redacted, de Brian de Palma
2 Juventude em Marcha, de Pedro Costa
3 Cloverfield, de Matt Reeves
4 Este país não é para velhos, de Joel e ethan Cohen
5 Two Lovers, de James Gray
6 Valsa com Bashir, de Ari Folman
7 Dernier maquis, de ranbah Ameur Zaïmeche
8 Fome, de Steve McQueen
9 A short filme about the indio nacional, de Raya martin
10 De la guerre, de Bertrand Bonello

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Os melhores filmes de 2008

Os melhores filmes estreados em Portugal em 2008, segundo os 'dados' do Blogue do JL





  1. 4 meses, 3 semanas e 2 dias,
    de Cristian Mungiu
  2. Walle.E, de Andrew Stanton
  3. Este Pais não é para Velhos, Joel e Ethan Coen
  4. No Vale de Elah, de Paul Haggis
  5. Destruir depois de ler, de Joel e Ethan Coen
  6. O Lado Selvagem, de Sean Penn
  7. O meu Irmão é filho único, de Daniele Luchetti
  8. Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes
  9. O Segredo de um Cuscuz, de Abdellatif Kechiche
  10. Quatro Noites com Anna, de Jerzy Skolimowski

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A sorte dos dados