quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Amália nunca cantou Guerra Junqueiro


Penas é de Fernando Caldeira

Como a propósito do 10.º aniversário da morte de Amália se tem repetido erroneamente que Guerra Junqueiro foi o primeiro poeta erudito que Amália cantou, republicamos o nosso artigo de 2005, onde se demonstra por A + B que a grande fadista nunca cantou tal poeta


O erro repetiu-se ao longo de décadas. Amália nunca cantou Guerra Junqueiro. O famoso poema Penas, que a fadista cantou no início da carreira, sobre o Fado Bacalhau, é da autoria de Fernando Caldeira, um outro poeta seu contemporâneo.

Quem, em carta ao nosso jornal, revelou o facto foi Maria Cristiano Moniz Ribeiro, uma atenta leitora , apaixonada por Amália, que tem quase 1400 gravações da fadista. O JL confirmou que o poema não é de Junqueiro, com a especialista da obra do poeta, Manuela Rêgo, e com a Casa-Museu Guerra Junqueiro, no Porto. Dentro do espólio não foi encontrado qualquer escrito que se assemelhasse.

Fica assim desfeito um erro que se tem repetido ao longo dos anos.

Em sucessivas edições de discos (incluindo a que o nosso jornal recentemente publicou) e em textos teóricos de ilustres especialistas em fado, o poema aparece sempre atribuído ao poeta portuense. O que é perfeitamente compreensível, pois, passando uma vez a informação errada, é natural que os teóricos do fado não se dediquem a verificar a autenticidade da autorias da diversas letras. Fernando Caldeira foi assim o primeiro poeta erudito que Amália cantou, logo em 1947. Terá descoberto o poema numa página de jornal, quando viajava para o Brasil. O fado, de resto, acabou por ser gravado apenas em terras de Vera Cruz e só posteriormente chegou a Portugal (diz-se que o dono do Café Luso não queria que Amália editasse em Portugal, porque tinha medo que os admiradores assim deixassem de ir vê-la ao vivo). Maria Cristiano desconfiou do equívoco logo de início, mas não quis expor a situação com medo de prejudicar Amália: «Quando, em Angola, em 1958, comprei discos da Amália vi, num 78 rpm, que o fado Penas vinha atribuído a Guerra Junqueiro disse ao JL. Estranhei, mas não me competia desfazer o erro; e, no meu pouco contacto com ela, não me atrevi a chamar-lhe a atenção. Mas quando em 2001 se começou a falar no Panteão e na 'coincidência' de o túmulo dela ser ao lado de Guerra Junqueiro 'o primeiro poeta erudito que ela cantou', achei demais que ele ficasse com os louros que são Fernando Caldeira (...)».

E chamou a atenção de várias personalidades, entre as quais Vítor Pavão dos Santos: «Como tenho visto recorrer-se a ele para quase tudo o que se queira fazer sobre Amália, escrevi a esse senhor e mandei-lhe fotocópias do livro; ele telefonou-me dizendo que 'não valia a pena falar no erro'».

Contudo, posteriormente, como explica a Maria Cristiano, o biógrafo reincidiu, no booklet de um vídeo dedicado a Amália: «Na página nove do livrinho que acompanha os vídeos, diz o Vítor Pavão do Santos que «julga que Amália deveria voltar a cantar Guerra Junqueiro».

Mas de quem é o erro? Nem Maria Cristiano nem o JL conseguiram descobrir o original da publicação consultada pela fadista, mas, das duas uma, ou Amália enganou-se a ler ou o jornal enganou-se a escrever. Maria Cristiano avança com uma tese: «A minha teoria é que os brasileiros arredados da nossa literatura erroneamente achavam que não existia o tal Fernando Caldeira e substituíram-no pelo conhecido Guerra Junqueiro e Amália, na sua proverbial modéstia e timidez, calouse! E o erro perpetuou-se, tendo embora havido possibilidade de o corrigir.» Este equívoco histórico tomou tal dimensão que quando se falou da transladação dos restos mortais de Amália para o Panteão Nacional vários se referiram à coincidência de ficar sepultada ao lado de Guerra Junqueiro, incluindo o Presidente da República, Jorge Sampaio.

O fado Penas teve uma importância decisiva na carreira de Amália e na história do próprio Fado. Foi o primeiro prenúncio do que havia de ser um dos mais pertinentes contributos da cantora para o fado: a adaptação de poemas eruditos.

Tal intuito ganhou maior relevância com a adaptação de Fria Claridade, de Pedro Homem de Mello e, mais tarde, já com Alain Oulman, ao chamar para o fado grandes poetas como Camões, David Mourão-Ferreira, Alexandre O'Neill ou Manuel Alegre.

Essa tendência para adaptar poetas eruditos, de resto, foi-se mantendo ao longo dos tempos, até à actualidade, com nomes como Carlos do Carmo, Mísia, Cristina Branco, Katia Guerreiro ou Liana. Nascido na Casa da Borralha, em Águeda, Fernando Caldeira (1841-1894) foi governador civil de Aveiro, deputado em várias legislaturas, pintor e músico amador. Licenciou-se em Direito, pela Universidade de Coimbra. Escreveu várias peças de teatro, sobretudo comédias, que foram interpretadas pelos melhores actores do seu tempo, como Lucinda Simões, Rosa Damasceno ou Ferreira da Silva. Entre outras obras é o autor de O Sapatinho de Cetim, Os Missionários, A Mantilha de Renda, Sara, As Nadadoras, As Médicas, A Congressista, A Mosca e Madrugada.

O livro de poesia Mocidades, editado em 1882, com reedição em 1903, prefaciada por D. João da Câmara, inclui meia centena de poemas, entre os quais Penas, dedicado ao seu irmão, Eduardo Caldeira. Fernando Caldeira é ainda o patrono da Escola Básica do 2º e 3º ciclos de Águeda. Não há qualquer livro do autor disponível no mercado.


2 comentários:

rui disse...

Guerra Junqueiro não era um "poeta portuense". Nasceu em Freixo de Espada à Cinta.

Fanzine Episódio Cultural disse...

REGULAMENTO DO “IX CONCURSO PLÍNIO MOTTA DE POESIAS”

A Academia Machadense de Letras (Machado-MG / Brasil) comunica a realização em novembro de 2013 de seu IX Concurso de Poesias. As inscrições encerram-se no dia 14 de outubro (2013). Para receber gratuitamente o regulamento em arquivo PDF, entre outras informações, favor entrar em contato através do e-mail: machadocultural@gmail.com

Obs (PS): O tema é livre e aberto a todos de Língua Portuguesa e Espanhola e a taxa de inscrição é de R$5,00 pode ser enviada dentro do envelope.

Favor verificar o recebimento do regulamento em pdf e jpeg. Estarei aqui para novos esclarecimentos. Caso sua poesia seja classificada e você não puder aparecer, a Academia indicará um membro para declamá-la.
O concurso será realizado no dia 09 de novembro, às 20:00hs no Anfiteatro da Prefeitura Municipal de Machado-MG.