quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O falso Sócrates

Antes que me ponham um processo, o que não costuma acontecer a jornalistas culturais, deixem-me esclarecer o título. Longe de mim afirmar aqui que sua excelência, o primeiro-ministro de Portugal, é uma pessoa falsa. Nem quero dizer que este Sócrates que nos governa é relativamente falso comparando com o original grego. Quero apenas chamar a atenção para o facto de que existe um falso Sócrates no Facebook.

Este Sócrates postiço, chamemos-lhe antes assim para evitar a ambiguidade da palavra falso, farta-se de jogar ao Farmville e é amigo do Alberto João Jardim (não sei se do falso se do verdadeiro). À parte disso, até à data, ainda não proferiu quaisquer declarações que o prejudiquem. Pelo contrário, mostra-se dialogante com os regimes mais improváveis, lúdico e preocupado com questões agrícolas.

No mural uma mensagem moral: «Caros Portugueses, Deixem por aqui as vossas ideias para o país. Certificar-me-ei que todas as mensagens serão lidas em tempo útil por um membro do estado. Com os melhores cumprimentos, José Sócrates». Uma ideia inócua e oportuna. Aliás, a Câmara de Lisboa. Liderada pelo (seu) amigo António Costa, lançara já um Orçamento Participativo, tendo em vista uma comunicação mais próxima com as pessoas.

O Facebook do falso Sócrates encheu-se de mensagens verdadeiras, de verdadeiros amigos do primeiro-ministro ou eleitores socialmente atentos, empenhados em construir um Portugal melhor. Ana Barbosa revela-se disponível e alertada: «Primeiro-ministro de Portugal: tenho a honra em tê-lo como amigo!... Sempre que possível, vou dando-lhe umas dicas para o país... até naquilo que concordo ou não...». A Iolanda mais intimista: «Sr. Primeiro-ministro! Convido-o a visitar o meu álbum do Quénia! Estive lá no mesmo ano 2005!» O Cunha Manuel mais céptico: «Este país, assemelha-se muito ao Vaticano que apesar de perder fiéis todos os dias, não muda a sua forma rígida de proceder e pensar’.»

Quanto a mim, fui honrado com um convite de José Sócrates para aderir à página de fãs do Farmville. Achei-me por isso no direito de meter conversa com o dito. Só que sempre que eu o cumprimentava no chat, ele saía do Facebook. Imagine-se, um primeiro-ministro com medo de mim. Até que uma fonte próxima de Sócrates me garantiu que aquele Sócrates não é o Sócrates, nem o actual nem o antigo. O que me levou à questão socrática ou pós-socrática: até que ponto é que o Sócrates é o Sócrates? O que é ser Sócrates?

1 comentários:

M. Araújo disse...

Palavra de honra que gostei deste comentário ao falso Sócrates, que aliás sempre me pareceu falso. O Cunha Manuel sou eu em pessoa e não sou tão séptico como isso, às vezes até acredito nele.