Terça-feira, 29 de Setembro de 2009

Pedro Costa, sublime!

A propósito da edição em DVD de Onde Jaz o teu Sorriso, de Pedro Costa, republicamos um texto de Rodrigues da Silva



Permitam-me a ênfase. E a sinceridade. Este é um dos mais inteligentes e também dos mais belos filmes que já vi. Este filme chama-se Onde Jaz O Teu Sorriso?, realizou-o o português Pedro Costa, e se não dispenso o «português» é porque é um orgulho saber nosso aquele que é hoje (e não só por este filme, mas por toda a sua obra anterior) um dos mais importantes cineastas vivos. Em todo o Mundo.
E vamos ao filme. Ou ao que é. Ou, para já, ao que lhe esteve na origem.
Na origem esteve um convite feito a Pedro Costa: fazer para o canal televisivo ARTE um filme a inserir na série Cineastas do Nosso Tempo. Os cineastas foram Jean-Marie Straub/Danièlle Huillet, que, desconhecendo a filmografia de Costa, só aceitaram depois de Jacques Rivette, que admiram, se confessar grande entusiasta dela.
A partir daqui foi o trapézio sem rede, já que, para fazer um filme sobre cineastas, há (ou haveria) um número ilimitado de modus faciendi. Atrevo-me a dizer que Pedro Costa escolheu não o melhor, mas aquele que para mim é, a partir de agora, o único. O único possível.
O único justo. Qual? Este que vos revelo.
Sabendo que o casal Straub/Huillet estava a fazer uma terceira montagem do seu filme Sicília! para um auditório de alunos do Studio National des Arts Contemporains de Fresnoy (Lille/França), Costa foi para lá que se dirigiu e foi lá que filmou. Praticamente tudo o que se vê passa-se, assim, na sala de montagem. Com três intérpretes: os dois cineastas e o seu filme. Melhor dizendo: os fotogramas do seu filme que Huillet, na mesa de montagem, vai deixando correr de frente para trás e de trás para a frente em busca do ponto exacto do corte. Isto enquanto Straub, na sombra, discute com a mulher a opção, deambula e fala de cinema.
Deveria haver um quarto personagem se Onde Jaz O Teu Sorriso? fosse um documentário, no sentido clássico do termo. Esse quarto personagem seria o auditório, isto é, os alunos que ocupam o espaço atrás da mesa de montagem. Pois, mas Costa eliminou esses alunos, esse auditório, esse espaço. Não documentou, ficcionou (todo o documentário ficciona, toda a ficção documenta), para se concentrar (e nos concentrar) apenas no trabalho dos cineastas.
Não só por saber (como alguém já referiu) que os filmes de Straub/Huillet são «feitos à mão».
Também na certeza de que para eles «aquilo que se filma é mais forte que o cinema».
Trabalho, sem dúvida, portanto. Logo, também paixão. Ou essa simbiose magnífica entre as duas entidades que acontece (quando acontece...) se os caminhos da Paixão são os caminhos do Calvário e vice-versa. Após o que há a Ressurreição. Pela obra feita. Perfeita. A obra acabada. E assim, porque o trabalho (dirá Straub durante o filme) só para uma ínfima parte da Humanidade é aquilo que as pessoas gostam de fazer. Straub/Huillet fazem parte dessa pequeníssima percentagem de humanos que fazem o que querem. Como querem. «Mas isto paga-se», dirá Straub. Paga-se com a natureza inerente à criação, mas paga-se também com a circunstância da incompreensão da sociedade do consumo de imagens pelo trabalho/paixão, no caso em apreço por aquilo que Bresson chamava «cinematógrafo», opondo o termo a «cinema».
O que vemos, com Huillet a trabalhar os fotogramas e Straub por detrás em solilóquio por vezes rabuja, é algo como um fazer amor. Amor com os fotogramas, na ânsia do melhor, do absoluto. Os fotogramas são a Matéria. Antes dela, dirá Straub, há a Ideia. E no final a Forma.
«Como uma escultura», conclui, e está tudo dito, nem é preciso dizer mais nada sobre o percurso de uma criação. Mas voltemos a Pedro Costa.
Já percebemos que, inteligentemente, ele dispensou o auditório, renegando a forma clássica do documentário, para se concentrar nos dois cineastas e na sua obra em mãos. Porquê? Por uma razão simples. Para que nós (espectadores), através dele e da sua câmara, nos concentrássemos no processo criativo. E aqui somos reconduzidos ao seu filme anterior, No Quarto da Vanda, onde nos obriga a confrontar com o essencial de um outro processo, uma outra realidade.
Mas Pedro Costa dispensa mais. Dispensa o cliché habitual de um filme sobre dois cineastas: a biografia.
Que se imagina intercalada com bocados de filmes + entrevistas. E fá-lo, convicto, decerto, que aquilo que verdadeiramente dá a ver um criador é a sua criação. Ou o labor que a ela conduz.
E sobre este labor, sim, Costa é exaustivo. Porque ele sabe que a obra acabada é precedida de um labor/dor que o público obviamente ignora. A pedra contém já em si a estátua, mas é o escultor que dela a fará brotar. Assim, Pedro Costa revela. Qual parteiro que nos expusesse o trabalho de um parto. Difícil, moroso, mas apaixonado e imensamente feliz.
Poderia eu ainda dizer (e digo) que Straub, nos seus peripatéticos passos em volta da mesa de montagem, alude a Pavese, a Brecht e a Vittorini, bem como a um sem número de cineastas tutelares, de Chaplin a Hitchcock, de Bresson a Dreyer, de Buñuel a Mizogouchi. Pelo meio, ficamos a saber também que o casal se conheceu em 1954, e da sua vida praticamente mais nada. Excepto o resto, que é a teoria que, a partir de uma prática longa de mais de 40 anos, foram, a dois, elaborando. Estética e ética em harmonia. Sobre a margem de liberdade que deve ser dada aos actores. Sobre essa outra margem de liberdade que deve sobrar ao espectador para que seja ele próprio, pela imaginação, a completar a obra, razão pela qual cada fotograma não deve jamais bloqueá-lo, mas libertá-lo. Sobre o tempo, a durée, esse tempo que não é dinheiro, ou por ele não deve ser medido. Sobre a montagem, também, que, tal como a arte toda ela, não é a vida, embora dela parta, e Straub explica-o de uma maneira lapidar: «Na vida não andamos a fazer planos».
Sabemos isto e como o sabemos? Sabemo-lo, via Pedro Costa, que (com duas câmaras, uma pequena Panasonic e uma digital, mais um técnico de som) tudo captou. Como? Dando-nos a ver os dois cineastas, criadores, sempre na penumbra e nunca em primeiro plano, porque o primeiro plano e a luz o destinou ele à obra que vai sendo criada, a partir da montagem.
Ideia-Matéria-Forma. Um filme assim, como Onde Jaz o Teu Sorriso? vai muito além do seu ponto de partida.
Na verdade, filmando Jean-Marie Straub/Da- nièlle Huillet, o que Pedro Costa filmou e nos oferece é uma autêntica ontologia da criação.
Graças a um acto de amor e conhecimento.
Absolutamente sublime!
JL 843, de 22 de Janeiro de 2003

Segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

Concerto do Retrospect Ensemble ajuda Jardim Botânico


O Retrospect Ensemble dá um concerto único de apoio à reabilitação do Jardim Botânico da Universidade de Lisboa, amanhã, 29, às 21 e 30, na Aula Magna (Lisboa).
Vindo do Reino Unido, depois de uma temporada no Wigmore Hall, aquele que é um dos mais conceituados ensembles europeus de música antiga apresenta ao público português um Grande Concerto Barroco, com obras de Handel e Telemann.
O grupo esteve em Portugal nos Dias da Música 2009, no Centro Cultural de Belém, sob o nome “King’s Consort”. Este ano voltará a integrar a programação dos Dias da Música, já como Retrospect Ensemble. A renomeação traduz o facto de o grupo não se limitar a um período histórico preciso, nem a uma configuração rígida.
É o primeiro grupo a dar a cara pelo projecto Música pelo Jardim, que tem como objectivo angariar fundos para a reabilitação do Jardim Botânico. Outros concertos decorrerão até ao final do ano.

Bilhetes à venda: Fnac, Worten, C.C. Dolce Vita, El Corte Inglés, Lojas Viagens Abreu, Lojas Mega Rede e www.tickectline.sapo.pt e no local (dia do espectáculo)

Preço bilhetes
Doutorais – 40€
Anfiteatro inferior – 30€
Anfiteatro Superior – 20€

Quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

Método para um voto consciencioso


Os partidos que se candidatam às próximas legislativas são 15. À partida não se deve excluir nenhum só porque tem um nome esquisito. O primeiro passo do eleitor dedicado é ler, de forma exaustiva e atenta, os programas de todos os partidos. Sublinhar com um marcador os principais pontos de vista nas diversas áreas de actuação e elaborar uma tabela comparativa, para perceber o que os une e o que os separa. De seguida deve confrontar as ideias dos partidos com as suas próprias, estabelecendo uma regra de ponderação, assinalando e valorizando as coincidências. Por exemplo, pode classificar de 1 a 10 cada uma das ideias e depois fazer as contas, para perceber o que mais lhe agrada. Quem marcar mais pontos merece o seu voto.

O esquema seria perfeito não fosse a demagogia. Funciona se acreditar que o que está escrito no programa dos partidos corresponde ao que estes realmente pretendem pôr em prática. Além disso dá uma trabalheira capaz de desesperar os mais picuinhas. Porque os programas dos partidos são, regra geral, longos, maçudos e mal escritos, e ninguém em seu perfeito juízo se predispõe a fazer essa leitura. E se porventura alguém o fizer, o mais provável é que perca o juízo a meio caminho.

Na Internet está disponível uma ferramenta que, supostamente, poupa-nos este exaustivo trabalho de leitura. Basta responder a 28 perguntas e a bússola eleitoral (http://www.bussolaeleitoral.pt) indica-nos a que zona ou família política pertencemos. Se não o partido exacto, pelo menos uma área. Porque há diferenças concretas entre os partidos, entre as esquerdas, entre as direitas e entre os centros. A bússola pode revelar algumas surpresas. Conheço militantes do BE que se descobriram no PS e outros do PS que se descobriram no PP. É um teste que todos os políticos deveriam fazer. Talvez alguns descobrissem que estão no partido errado. Pessoalmente, tinha alguma curiosidade em saber das coordenadas, à luz desta bússola, de figuras como Zita Seabra, Freitas do Amaral, Manuel Alegre, Joana Amaral Dias ou – porque não? – José Sócrates.

Quarta-feira, 23 de Setembro de 2009

Nas bancas!

JL1017


Pedro Costa: O sangue do Cinema
Os 20 anos do primeiro filme do realizador, que agora volta às salas. E a monografia que faz a retrospectiva da sua obra. Um texto inédito de João Bénard da Costa

Vitorino Magalhães Godinho: A Grande Ilusão
Ensaio sobre a crise, suas causas e consequências

Oito jovens músicos
Perfis dos vencedores do Prémio RDP

Bolaño e Larsson: dois fenómenos editoriais

Eduardo Lourenço e Helder Macedo escrevem sobre Jorge de Sena

Figura: Legendary Tigerman, o homem-banda

Gabriel García Márquez, uma grande biografia

A autobiografia de Daniel Sampaio

JL/Educação • Camões • Agenda Cultural

Sexta-feira, 18 de Setembro de 2009

Black Vox

O Teatro do Eléctrico regressa à cena com Black Vox, Histórias Negras em Teatro de Terror. Uma mulher perseguida ou louca, uma princesa ou uma bailarina, um mágico ou um tolo? Personagens que se cruzam com vídeos e que ganham uma dimensão de bonecos de animação. Texto e encenação de Ana Lázaro, Patrícia Andrade e Ricardo Neves-Neves. Também com Sílvia Figueiredo e Vítor Oliveira. Teatro da Comuna, Lisboa, 20 de Setembro, às 21 e 30.

Quinta-feira, 17 de Setembro de 2009

A minha beatlomania




Já tinha feito a experiência há meia-dúzia de anos. Agora, a pretexto da reedição da discografia, voltei à carga. E propus-me a ouvir os álbuns dos Beatles todos de seguida, sem respirar entre as canções, por ordem cronológica (por ordem alfabética também seria curioso). Não sei se por carolice se por masoquismo. Talvez por prazer. Ainda é uma catrefada de álbuns. Para mim, que não sou um beatlomaníaco, daqueles que coleccionam crachás e palhetas, é um exercício entre o estimulante e o exasperante, com uma ânsia permanente: quando é que chega o Sgt Peppers?. Para já vou nos dois primeiros: Please, please, please me e With the Beatles, ambos de 1963. Álbuns curtos com muitas canções. Fica a sensação de que cada suspiro é um hit fácil e que os temas da imbatível dupla Lennon/McCartney sobressaem em relação às várias versões (à excepção de Twist and Shout). Ou seja, a descoberta da mais famosa dupla de compositores, numa fase ainda muito adolescente e ingénua. Aliás, convém não esquecer que vivia-se a idade de ouro dos singles e a imposição de lançar um álbum, após o sucesso estrondoso das canções traduziu-se numa concentração desses singles e apressada criação de alguns outros.
Gosto particularmente de I saw her standing there (esta é a parte Jukebox). É uma daquelas questões que se colocam nos bailaricos. Eu próprio, se a visse por ali seria incapaz de empernar, com outra qualquer, enquanto ouvia Chuck Berry, Roy Orbinson ou - porque não? - os Sheiks. Uma canção dos mais puros sixties, completamente datada, mas ainda assim cheia de ritmo.
O vídeo aqui acupulado não é obviamente o original. Algum brincalhão resolveu fazer uma releitura da letra à luz da história do triângulo amoroso Beatles (Paul McCartney), John Lennon e Yoko Ono, que sucedeu muito mais tarde. Como é que Lennon poderia continuara a dançar com os Beatles quando a Yoko Ono estava ali à espera? Mas não vamos avançar já para o final da história.

Quinta-feira, 10 de Setembro de 2009

Os números da sorte

É tão provável ganhar o Euromilhões quanto ganhar o Euromilhões. Desculpem a redundância, mas é que é tão improvável acertar em cheio nos números da sorte, que poucas serão as comparações válidas. Por exemplo, um estudo revelou que a probabilidade de ganhar o Euromilhões é equivalente à de um jovem adulto saudável morrer dentro de uma hora. Tétrico? Altamente improvável. Mas também não é por deixar de jogar que se livra da segunda parte do algoritmo. No meu caso, ganhar o Euromillhões seria ainda mais difícil, uma vez que raramente jogo. Seria necessário que alguém apostasse em meu lugar (amigos desses já não se fazem) ou que tropeçasse num papelinho premiado no meio da rua.
Há que ter esperança, claro. Não tenho nada contra estas e outras apostas. Por mais improvável que seja ganhar, não é impossível. E Portugal é dos países onde mais se aposta, reflexo das piores condições de vida. No Brasil, paupérrimo, também se investe massivamente no Jogo do Bicho. Se não há dinheiro, resta-nos a fé. E não nos cortem a emoção semanal.
Feitas as contas não sai assim tão barato. Com uma aposta simples, gastam-se oito euros por mês e 104 por semana. Não apostando, a probabilidade de ganhar 104 euros é certa. Para quem faz mais do que uma aposta, o que é vulgar, multipliquem-se estes valores e verifique-se a despesa.
Em Histórias de Cabaret, um excelente filme de Abel Ferrara, Willem Defoe, um viciado no jogo, faz uma mega-aposta na lotaria, através de um cálculo rigoroso, que reduz o risco ao mínimo, e consegue… ganhar. No Euromilhões tal não é viável, a cobertura dos riscos sai demasiado cara.
Mas também há estatísticas. O número que mais vezes saiu é o 50. E o que saiu menos vezes é o 28. Como a probabilidade à partida igual, as ocorrências têm tendência a equilibrar-se pelo que, aparentemente, o 28 seria uma boa aposta. Há outras questões mais certas: as pessoas têm uma propensão para apostar em datas, sobretudo aniversários (de nascimento, casamento, namoro…), tal provoca que haja uma predilecção a nível de palpites por números entre 1 e um 31. Indo as estrelas de 1 a 9, a maior incidência dá-se mesmo entre 10 e 31. Tal não tem qualquer influência no apuramento da chave, mas significa que se, apostar em números entre 32 e 50 e ganhar é mais provável que seja o única totalista. Para já, dou-lhe a certeza que esta chave não vai sair: 7, 22, 38, 45, 46 + 4, 7. Vai uma aposta?

Quarta-feira, 9 de Setembro de 2009

Nas Bancas!

JL 1016

Quinta-feira, 3 de Setembro de 2009

Contadora de histórias

Paula Rego, uma Contadora de Histórias é o título da sessão que decorre hoje, quinta-feira, 3, na livraria Bertrand do Chiado, pelas 18 e 30. Com Dalila Rodrigues, directora do Museu Paula Rego, o cronista José Manuel dos Santos (que trabalhou com a artista aquando da série de quadros para o Palácio de Belém) e a jornalista e poeta Ana Marques Gastão (que escreveu um livro-diálogo com quadros de Paula Rego Nós/Nudos, 25 imagens sobre 25 poemas de Paula Rego (Gótica, 2004)). A moderação está a cargo de Anabela Mota Ribeiro. Em destaque, o carácter narrativo na obra de Paula Rego, a duas semanas da inauguração, a 18, do Museu Casa das Histórias, em Cascais.