Para além de Capricórnio, de Peter Trickett
Nem ingleses, nem holandeses. Os portugueses foram os primeiros a chegar à Austrália e à Nova Zelândia, em 1522, numa frota comandada por Cristóvão de Mendonça. Esta é a teoria defendida pelo jornalista australiano Peter Tricket no seu livro Para Além de Capricórnio (ed. Caderno), sustentada na descoberta e no tratamento de mapas da época, encontrados na Biblioteca de Camberra. A propósito deste lançamento, recuperamos o dossier que dedicámos ao livro no JL 955 (altura do lançamento na Austrália). Inlui entrevista a Peter Trickett, as opiniões dos historiadores Vitorino Magalhães Godinho e Luís Filipe Barreto e recordamos ainda o percurso de dez grandes navegadores mundiais
terça-feira, 13 de maio de 2008
Portugal descobriu a Austrália?
Publicada por Manuel Halpern à(s) 12:50 2 comentários
Etiquetas: Descoberta da Austrália
segunda-feira, 8 de maio de 2006
Quem descobriu o quê?
Rezava o ano da graça do senhor de 1522. Uma frota portuguesa de quatro barcos, comandada por Cristóvão Mendonça, a mando d’el Rei D. Manuel, atingiu a costa da Austrália. Estar-se-ia à procura da ilha do Ouro, da Terra Java, descrita por Marco Polo. A viagem manteve-se secreta, como era política na época. Talvez, para mais tarde aproveitar. Na altura, seria difícil para um país com pouco mais de um milhão de habitantes colonizar um território tão vasto. E a Austrália não se afigurava atraente enquanto entreposto comercial. Dois séculos e meio depois, o capitão James Cook, ao serviço da coroa britânica, alcançou aquela longínqua terra e proclamou ter chegado tão longe como nunca nenhum homem havia antes chegado. Não era verdade. Ou, pelo menos, esta é a teoria do jornalista australiano Peter Tricket, explicada no livro Beyond Capricorn, publicado na Austrália pela East Street Publications, com edição prevista para Portugal, lá para o final do ano, com a chancela da Caderno.
A teoria, na verdade, já é antiga. Foi uma hipótese avançada ao longo dos anos por historiadores portugueses como Duarte Leite, Jaime Cortesão e Gago Coutinho. E por ingleses e australianos, como Thomas Phillipps, Richard Henry Major, George Collingridge e Lawrence FitzGerald. A grande novidade de Tricket foi a descoberta (na Biblioteca Nacional de Camberra) de fragmentos de 15 mapas, muito detalhados, da costa australiana. Segundo Tricket, é uma prova irrefutável da presença portuguesa. O jornalista passou oito anos a remontar os mapas, e chegou a um desenho bastante similar ao da actual Costa, onde 120 acidentes geográficos estão identificados com nomes portugueses. Para tal a dedicação que o jornalista até aprendeu português só para poder ler as crónicas da época.
Vitorino Magalhães Godinho, no entanto, em declarações ao JL, observa a descoberta destes mapas com desconfiança: «Tal implicaria várias viagens de reconhecimento». Contudo, segundo Tricket terá havido apenas uma viagem. Quanto muito, duas. De resto, Magalhães Godinho é claro: «Sabe-se que os portugueses estiveram por lá, mas não souberam aproveitar. Teriam que estabelecer capitanias, ou pelo menos feitorias para possíveis exportações. Não interessava como escala para o continente americano. Estas reivindicações não têm grande razão de ser. O processo é muito mais complexo. Integra-se num todo. É natural que os próprios indígenas das outras ilhas tenham chegado à costa norte da Austrália. Mas isso na nossa perspectiva não são descobrimentos».
Luís Filipe Barreto concorda: «Uma coisa é chegar a um ponto. Outra é fazer viagens regulares. Os portugueses terão navegado por ali, possivelmente com a ajuda de asiáticos. É natural que haja o reconhecimento dessa zona. É como no Brasil. A partir da década de 1480 temos conhecimento de que existe uma ilha grande». E explica, ao JL, o desinteresse português pela maior ilha do mundo: «O objectivo de todas estas viagens era dar lucro. Na Austrália não havia nada, na perspectiva do séc. XVI. E era impraticável para uma população de um milhão e 200 mil habitantes. Doze por cento estava envolvida nesta investida. Tinham que se preocupar com o jogo do comércio e ainda com a fronteira terrestre com Castela. Se achasse aquela costa interessante, poderia ter apostado, como aconteceu com o Brasil. Mas nós éramos uma espécie de nómadas marítimos. Interessavam-nos pontos de relevância»
Por isso tudo, Magalhães Godinho dá a maior importância à viagem de Cook. E refuta a possibilidade de fazer de Cristóvão Mendonça um novo ícone das nossas navegações: «Nos Descobrimentos não há um herói, uma data, um local. As viagens seguem-se a viagens anteriores. Às vezes de pescadores. Há que estabelecer rotas, a latitude. Só a partir daí é que há um descobrimento real. No Atlântico Sul temos a certeza de que houve muitas viagens antes de estabelecer a rota certa.» Luís Filipe Barreto chama a atenção para a relatividade dos Descobrimentos. E, a propósito dessa deturpação, da perspectiva ocidentalizada, conta uma anedota: «Quando nós chegámos os nativos terão gritados ‘Fomos descobertos! Fomos descobertos!» Contudo, não deixa de valorizar o trabalho de Peter Tricket e a viagem de Cristóvão Mendonça, como mostra da capacidade dos nossos quadros: «Fomos a vanguarda em redes de exploração marítima global. Devemos ter orgulho nisso. A costa de Nova Iorque foi descoberta por um português, Estêvão Gomes, ao serviço de Castela. Os nossos quadros tiveram um papel fundamental na chamada primeira globalização»
Vitorino Magalhães Godinho é muito mais céptico: «Este mapa desmistifica-se. Também já foi dito que foram os chineses a descobrir o Atlântico ou que Cristóvão Colombo nasceu no Alentejo. São modas que vêm ciclicamente.»
E se Portugal tivesse mesmo colonizado a Austrália? Na história não há ses. Mas, como exercício de pura ficção, poderemos perguntar: por cá comeríamos carne de canguru, construir-se-iam favelas nos arredores de Sydney e Melbourne (cidades que não teriam estas nomes) e o acordo ortográfico teria mais um entrave. Ou, como imagina Peter Tricket, «os australianos já teriam ganho o Campeonato do Mundo de Futebol».
Publicada por Manuel Halpern à(s) 17:03 0 comentários
Etiquetas: Descoberta da Austrália
Entrevista com Peter Trickett
Jornalista de profissão, Peter Trickett já escreveu para várias publicações da Austrália, Nova Zelândia e Reino Unido. A sua especialidade é investigação histórica e científica, tendo recebido um prémio pelo seu trabalho na Nova Zelândia. Em 1998, descobriu uns mapas na Biblioteca de Camberra, cidade onde vive, que indicavam a descoberta da Austrália pelos portugueses. Desde então fez um minucioso esforço de corte e costura, enquanto procurava documentação adicional que sustentasse a teoria. A sua dedicação foi tal que até aprendeu português, primeiro num curso nocturno e depois como autodidacta. O resultado destes anos de investigação é Para Além de Capricótnio. Em conversa com o JL, afirma: «Os portugueses devem-se sentir orgulhosos deste feito.»
Blogue do JL: A teoria de que os portugueses chegaram à Austrália antes do capitão Cook já é antiga. Mas, com estes mapas, passamos a ter a certeza?
Peter Tricket: As provas são conclusivas. Temos cerca de cem nomes de locais em português, que correspondem a sítios concretos da costa australiana. Os mapas são bastante precisos. Isso por si só seria o suficiente. Mas nos últimos anos também foram descobertos artefactos portugueses da época.
Isso significa que os portugueses terão feito mais do que uma viagem?
Certamente, houve uma só viagem para a costa Este, que foi explorada primeiro. Mas é possível ter sido feita uma segunda para a costa Oeste. As viagens foram mantidas em segredo.
Porquê?
Essa era a política portuguesa. Era imposto um segredo para todas as explorações, e quem o violasse seria condenado à morte. Ninguém põe isso em causa: essa política existia mesmo.
Por que motivo não terão os portugueses colonizado a Austrália?
A população era muito reduzida, de menos de dois milhões tinha que se estender para controlar o império marítimo. Tinham que manter os barcos, as forças, os postos de troca. Simplesmente, não existiam recursos humanos para ir mais longe. A Austrália é um território enorme e praticamente vazio. Julgo que quando a descobriram terão pensado que poderia ser explorada mais tarde. Mas depois houve a malfadada expedição de D. Sebastião a Marrocos, que destruiu o Estado português, e que fez com que se submetesse a Espanha. Isso com tudo.
Alguns historiadores portugueses defendem que não tem grande importância avistar uma terra, o que realmente marca um descobrimento é a sua exploração. Concorda?
Não concordo. Esta descoberta tem que ser considerada. Sabemos que a viagem foi encomendada por D. Manuel. Disponibilizou, no mínimo, quatro barcos: um número equivalente à frota de Vasco da Gama para a sua expedição. Por isso, era considerada da maior importância. Tudo isto é bastante claro.
Deveriam então os portugueses considerar Cristóvão de Mendonça um dos heróis da sua História?
Sim. Precisávamos ainda de mais provas que terá sido ele? Talvez um autógrafo... Mas, nunca se sabe, pode ser que se descubram mais factos em alguns arquivos.
O que se sabe de Cristóvão de Mendonça?
Fiquei muito desiludido quando fui a Portugal. No catálogo da Biblioteca Nacional só havia sete entradas em Mendonça. Aqui em Camberra descobri 77 referências. Deve haver muito mais coisas sobre Mendonça em Lisboa, que nunca foram catalogadas. Alguém terá que dedicar alguns anos a descobrir isso.
Como é que o seu livro foi recebido na Austrália?
Para minha surpresa, foi muito bem recebido. Estava à espera de ser atacado com críticas severas. Mas, apenas com uma excepção, não houve quaisquer críticas. As pessoas ficaram surpreendidas, mas aceitaram a ideia.
Acha que esta teoria poderá alterar a forma como os australianos vêem os portugueses em geral, e a comunidade imigrante em particular?
Sim, de forma modesta, poderá contribuir para isso. Mas não é fácil fazer passar a ideia. Porque todos os historiadores ortodoxos dirão que não faz qualquer sentido que tenha sido Portugal a descobrir a Austrália. Mas com o tempo a ideia terá que ser aceite.
Como espera que os portugueses recebam o livro?
Espero que fiquem contentes. Foram os verdadeiros descobridores da Austrália, em vez dos holandeses ou dos ingleses. Um feito incrível, de enorme dificuldade, em águas que nenhum europeu tinha alguma vez navegado. Isto, em 1522, com meios de navegação relativamente primitivos. Inclusive, conseguiram definir o Trópico de Capricórnio apenas com um erro mínimo de poucos quilómetros. É mostra do elevadíssimo nível da navegação portuguesa há 500 anos. Espantoso.
Se os portugueses tivessem colonizado a Austrália o mundo seria muito diferente…
Seria um outro Brasil. Se calhar, já teríamos ganho o Mundial de Futebol.
É jornalista. Como se interessou por esta área?
Sempre me interessei por jornalismo histórico. Até ganhei um prémio por isso, na Nova Zelândia. E, uma vez envolvido, simplesmente tinha que seguir até ao fim.
Foram oito anos de trabalho para este livro. Porque demorou tanto tempo?
Havia uma série de avenidas por onde seguir. Várias pistas falsas. Becos sem saída. Alguns acabaram por ser úteis e encaminharam-me para outras possibilidades. E ajudaram-me a chegar a conclusões.
E continua a investigar nesta área?
Bom, se alguma pista interessante aparecer, vou segui-la.
Publicada por Manuel Halpern à(s) 16:59 0 comentários
Etiquetas: Descoberta da Austrália
domingo, 7 de maio de 2006
Dez navegadores
Muito tempo antes de cientistas e investigadores dedicarem o melhor do seu conhecimento à procura de longínquos planetas, sobretudo com as mesmas características da Terra, como o que agora foi encontrado, já homens e aventureiros partiam em busca de Novos Mundos. Alguns por conta própria, muitos ao serviço de uma Coroa. Uns pela fama, outros pelo dinheiro. Mas todos ambicionavam chegar mais longe do que os seus antecessores. E para isso tinham escassos recursos. Umas quantas naus, uma tripulação por vezes mal formada, poucas defesas contra as doenças que se propagavam facilmente e inimigos escondidos em cada porto, cabo ou estreito. Para não falar no desconhecimento. Os grandes descobridores marítimos, do século XV ao século XVIII, rumavam sobretudo contra a ignorância. Para o mundo de então, que ajudaram a explorar, a cartografar e a dominar, alcançaram feitos impensáveis. De alguns, a história encarregou-se de perpetuar o nome. De outros, o esquecimento persiste em desvalorizá-los. Aqui ficam alguns «companheiros de profissão» de Cristóvão Mendonça, a quem a fortuna e audácia permitiram ouvir, pelo menos uma vez na vida: «Terra à vista!»
BARTOLOMEU DIAS
Não cabe à Poesia o rigor da História, mas por vezes encontra-se mais verdade num verso do que numa descrição baseada em factos. Sobretudo quando se fala da epopeia de Bartolomeu Dias, que transformou tormentas em esperanças, e fez do mostrengo uma medalha igual às que os militares usam ao peito, digna de memória. Segundo Fernando Pessoa, terá dito o navegador português, já meia tripulação em pânico, a outra à beira do desmaio: «Mais que o mostrengo, que me a alma teme/ E roda nas trevas do fim do mundo,/ Manda a vontade, que me ata ao leme,/ De El-Rei D. João Segundo!» O resto é conhecido: depois de pequenas expedições, em rotas já estudadas, Bartolomeu Dias é encarregue do grande projecto marítimo português: chegar ao Índico contornando África. A intuição e informações mantidas habilmente em segredo asseguraram o feito. A fé num Prestes João que, do outro lado do continente, pudesse ajudar a conversão dos hereges calou as dúvidas. E as caravelas partiram, corria o Verão de 1487. Aproveitando ventos e marés, Bartolomeu afastou-se um pouco da costa da actual África do Sul. Estávamos em 1488. E quando uma revolta dos marinheiros o obrigou a regressar à metrópole, já o mostrengo tinha sido dominado. Para memória futura colocaram-se, no regresso, padrões a divulgar o acontecimento. E a sublinhar que tinha sido realizado em nome do Rei de Portugal, d’aquém e d’além-mar. À expedição de Vasco da Gama, que Bartolomeu Dias integrou, bastou seguir a trajectória definida. Dias foi ainda membro da armada de Pedro Álvares Cabral que avistou o Brasil, mas o mostrengo «vingou-se» quando velejavam a caminho da Índia. No cabo que lhe rendeu fama.
CRISTÓVÃO COLOMBO
Poucos erros produziram tantos proveitos. Não duvidava Colombo que a Terra fosse redonda, achava-a apenas mais pequena. Daí que, pelas suas contas, fosse possível chegar rapidamente às Índias, o sonho de todos, dos monarcas aos simples representantes do povo. «Que ao cheiro desta canela/ O reino nos despovoa», disse-o Sá de Miranda. Mas a Colombo o cheiro vinha-lhe do Oeste. Para onde ninguém acreditava que houvesse terra. Falhada a negociação com D. João II, restou ao navegador, que algumas teorias fazem nado e criado em Portugal (mas esperemos pelo filme de Manoel de Oliveira, baseado no estudo de Manuel Luciano e Lúcia Jorge da Silva), virar-se para os reis espanhóis, a segunda potência marítima do séc. XV. Concluída a reconquista cristã, os reis Fernando e Isabel aceitaram o desafio. Rivalizar com os vizinhos portugueses era, seguramente, um «pecado» difícil de evitar. Com a garantia de, em caso de sucesso, se tornar governador e vice-rei das terras descobertas, Cristóvão Colombo partiu de Sevilha, em 1492, com as três famosas caravelas: Pinta, Niña e Santa Maria. Estava a viagem bastante alongada, com os cálculos a revelarem-se errados, quando se ouviram as palavras mágicas. Terra à vista. Só mais tarde se percebeu que de indianas tinham pouco. Colombo voltou lá mais três vezes, explorando grande parte das Caraíbas.
FERNÃO DE MAGALHÃES
Não viveu o suficiente para receber a glória que os seus feitos merecem. Mas nem por isso foi esquecido. O seu nome foi atribuído a um dos mais importantes estreitos do mundo, decisivo nos séculos que não usufruíram dos canais do Panamá e do Suez. E em várias localidades, espalhadas pelos quatro cantos do mundo, sobretudo no hemisfério Sul, Fernão de Magalhães é sinónimo de ousadia, aventura, descoberta. Às vezes, no entanto, esquece-se a sua nacionalidade. Apesar de ter nascido em Portugal, informação segura, foi ao serviço da coroa espanhola que efectuou a primeira circum-navegação da terra. Se dúvidas houvesse que ela era mesmo redonda, ficaram de vez esclarecidas. Foi também o primeiro europeu a navegar nas águas do Oceano Pacífico, no qual, de resto, viria a falecer, junto às Filipinas, antes de completar a viagem. O objectivo era muito concreto: permitir ao Império Espanhol chegar às Índias por Ocidente, como Colombo sonhara, nunca violando as águas que pertenciam aos portugueses, segundo o Tratado de Tordesilhas. O sucesso desta expedição deu origem a uma longa disputa sobre a propriedade das Molucas, que haveria de gastar recursos às duas partes beligerantes. Para a História ficou a partida de Sevilha, 1519, com uma tripulação de 234 homens. Dois anos passados, voltaram 18.
FRANCIS DRAKE
Não se pense, pelas descrições anteriores, que os homens que alcançaram estes feitos foram sempre honrados e honestos. A valentia nem sempre rima com ponderação. E não será preciso recordar o filme de Kurosawa para saber que os maus também sonham. Piratas e corsários, a expensas próprias ou ao descarado serviço da coroa, foram muitos os que chegaram mais longe, encontraram portos para comércio e novas riquezas para a Europa. Um dos mais destacados, no uso das armas e na perícia das velas, foi Francis Drake, que liderou, em 1588, a marinha inglesa contra a Invencível Armada espanhola, a mais potente da altura. Antes, noutras águas, dedicou-se à pirataria, sobretudo contra os domínios de Filipe II. A guerra, na altura, já era global. E foi a primeira pessoa a seguir a rota de Fernão de Magalhães, efectuando a segunda circum-navegação da terra. Que repetiria três vezes. A Passagem de Drake, entre a América do Sul e a Antárctica, perpetua o seu nome, apesar de nunca por lá ter passado. Optou sempre pelo estreito de Magalhães.
JAMES COOK
Para a História ficaram as palavras, escritas pelo seu punho: «A ambição leva-me não só a ir mais longe do que qualquer outro homem antes de mim já foi, mas também a ir tão longe quanto creio ser possível a um homem». A este sonho James Cook dedicou toda a vida. Mas no século em que viveu, o XVIII, o mundo era quase todo conhecido. Escolheu, por isso, o Oceano Pacífico, ocultando, talvez, ou desconhecendo, de todo, que outros antes de si já tinham navegado por essas paragens. Inclusivamente na Austrália, da qual reivindicou a descoberta. James Cook regressava então de mais um expedição científica, na sequência de várias circum-navegações que realizou. Deparou-se com diversos arquipélagos, que baptizou à sua vontade. Fez o reconhecimento da Nova Zelândia e chegou à costa ocidental da Austrália, que contornou pelo norte. Em vida, ainda lhe coube ser o primeiro homem a cruzar o Círculo Polar Antárctico.
JOÃO FERNANDES LABRADOR E ESTÊVÃO GOMES
A data não ajudou. E é fácil de explicar. Como a presença física, a atenção por vezes também não tem o dom da ubiquidade. E na mesma altura em que a armada de Vasco da Gama concluía a descoberta do caminho marítimo para a Índia, em 1498, do outro lado do planeta, João Fernandes, na companhia de Pêro de Barcelos, chegava à costa do Canadá. Agia por conta própria, ou seja, era patrocinado pela coroa portuguesa, mas não na totalidade, e realizava expedições fora da estratégia real. Pelo que lhe foi atribuída a propriedade das terras descobertas, que ficaram a ser conhecidas pelo seu nome: Labrador. Seguia, também, os mesmos caminhos que levaram os irmãos Cortes Real, João Vaz e Gaspar, à Terra Nova, em 1472. Divulgada na Europa, esta viagem motivou outras de navegadores portugueses. Depois de ter pertencido à tripulação de Fernão de Magalhães que deu a volta ao mundo, Estêvão Gomes foi incumbido, por Carlos V de Espanha, em cujo império o Sol nunca se punha, a de chegar à Índia pelo Atlântico Norte. O que acabou por fazer, cartografando, pela primeira vez, toda a costa Leste dos actuais Estados Unidos da América.
VASCO DA GAMA E PEDRO ÁLVARES CABRAL
Pouco importa que a semântica histórica esteja a esclarecer a verdadeira dimensão dos factos, substituindo «descobrimento» por «achamento» ou por «encontro». A verdade é que, à parte a arrogância e outras atitudes menos felizes, as viagens de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral trouxeram «Novos Mundos ao Mundo», usando a expressão da época. Iniciaram a primeira globalização, facilitando comunicações, o mercado livre e a aproximação de culturas. Eram ambos grandes navegadores, além de estarem rodeados dos maiores especialistas. O primeiro chegou à Índia, em 1498, o segundo, ao Brasil, em 1500. Ambos fizeram de D. Manuel um dos reis mais poderosos do mundo. Sol de pouca dura, é certo, mas mesmo assim de uma intensidade raramente vista em Lisboa. Aos portos da capital chegaram especiarias, mais tarde ouro, que depois seguiram para as grandes praças e feitorias da Europa. Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral são, acima de tudo, símbolos da vocação marítima portuguesa. A ponta do iceberg que escondia a identidade do país.
WILLIAM DAMPIER
Nem todos os grandes navegadores tiveram a oportunidade de descobrir algo de novo. Muitos, como dizia Álvaro de Campos, pertenceram àquele género de pessoas que «depois de estar a Índia descoberta/ ficaram sem trabalho». É o caso de William Dampier. Chegou a andar por mares pouco navegados, como os da Austrália e da Nova Guiné, mas distinguiu-se sobretudo pela sua arte de marear. E pelos livros que publicou ao longo da vida, fruto das duas circum-navegações que cumpriu, entre 1670 e 1679, a primeira, e 1701 e 1707, a segunda. Os relatos de viagens, como A New voyage around the world, Voyages and descriptions ou A voyage to New Holland, e os manuais técnicos, como A discourse of winds, foram autênticos best-sellers. Numa altura em que a corrida às peles de leões-marinhos dos mares do Sul moviam muitos empresários e aventureiros, essas obras fizeram de William Dampier um dos pilotos mais requisitados. A título de curiosidade diga-se que foi um dos seus homens, Alexander Selkirk, que inspirou Daniel Defoe para o Robinson Crusoe. De facto, quando aquele marinheiro se encontrava numa ilha de difícil localização, um dos muitos segredos de William Dampier, uma frota de espanhóis atacou a tripulação que, em desespero, partiu em fuga. Selkirk só seria resgatado quatro anos e quatro meses depois.
Publicada por Luís Ricardo Duarte à(s) 12:34 1 comentários
Etiquetas: Descoberta da Austrália