Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

Novos comissários na Arte Contempo


Adriana Delgado Martins, Leonor Veiga e Marisa Vinha foram as vencedoras da iniciativa anual Novos Comissários, da Associação Arte Contempo, cujo principal objectivo é contribuir para a divulgação de novos criadores, tanto na área artística, como na curadoria. Com o sugestivo título Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, esta proposta procura reflectir sobre a existência fragmentada e sobre o ténue equilíbrio diário que cada pessoa enfrenta no quotidiano.
As próprias comissárias são mulheres «desterritorializadas», recém-chegadas a Lisboa depois de longos e diferentes percursos por outras latitudes, inquietas e contraditórias, entre explosões e apatias que tocam, por vezes perigosamente, os seus limites psicológicos», como se pode ler na apresentação da mostra.
Para trabalhar este conceito Adriana Delgado Martins, Leonor Veiga e Marisa Vinha convidaram dez artistas. São elas Ana B, Claudia Fischer, Daniela Krtsch, Eduarda Silva, Margarida Palma, Paula Albuquerque, Raquel Schefer, Silvia das Fadas, Tatiana Macedo e Valeria Galizzi.
Neste diálogo entre as mulheres e a cidade, as noções de territorialidade e identidade são exploradas através de obras que evocam a paixão, ansiedade, stress, pânico, medo, dor, melancolia, apatia e vazio. Almodôvar, Deleuze e Homi Bhabba são algumas referências cinematográficas, sociológicas e filosóficas presentes nestes trabalhos, num constante confronto com o Outro.
A exposição é inaugurada hoje, na sede da Associação Arte Contempo, na rua dos navegantes, em Lisboa, ficando patente até 28 de Março de 2009.

Duas obras, e respectivas sinopses, presentes na exposição:

GMT minus 5, de Paula Albuquerque (2009, 5’’ DV Pal – Stereo): Duas jovens semi-nuas trabalham num bar em Nova Iorque. É Inverno. Matam o tempo a retocar maquilhagem e a falar ao telefone, esporadicamente recebem clientes. Através de um trabalho de montagem de imagem e de som constroem-se e desconstroem-se possíveis narrativas, desestabilizadas pela inclusão de ruídos, música atonal, sons de rua, manipulações e sugestões de soundscapes. Nos espaços intermédios da imagem, encontramos a experiência de uma proximidade artificial com o objecto. Um objecto virtual, no espaço e no tempo (imagens recolhidas através de uma web cam oculta).

Sem Sobressalto, de Silvia das Fadas (2009, 8’’ DV Pal): Inspirado no livro Memórias de um Amnésico, do escritor e músico Eric Satie, este é um exercício que nos permite várias camadas de leitura. Da precisão à obsessão, da rotina à loucura. O branco. Pautado pelo som de um microondas, o gesto do universo doméstico sobrepõem-se ao gesto do universo do conto.

Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

Thoreau reeditado

Walden ou a vida nos bosques, de Henry David Thoreau, vai ser reeditado pela Antígona. Com uma nova capa, mas com a mesma tradução (de Astrid Cabral, com revisão e adaptação de Júlio Henriques), a obra do poeta, ensaísta e filósofo norte-americano chega às livrarias a partir de 9 de Março. «Fui para os bosques porque pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os factos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que ela tinha a ensinar-me, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido» escreve, nas páginas iniciais, Henry Thoreau. Walden conta essa experiência de isolamento da sociedade, que durou dois anos. Em vários capítulos, o autor de A Desobediência Civil, também editado pela Antígona, fala sobre a sua economia de subsistência, a cabana que construiu, as leituras, os sons, os silêncios, os animais, as visitas que recebeu e as notícias que foi ouvindo, entre muitos outros assuntos. Publicado em 1854, Walden é um libelo contra a alienação provocada pela sociedade urbana, numa defesa da liberdade individual.
A lição de Thoreau, que não terá sido tão radical como o livro sugere, foi levada às últimas consequências por Chris McCandless, um estudante norte-americano que quis viver uma experiência semelhante de isolamento nos confins do Alasca. Uma tragédia pessoal que Sean Penn adaptou ao cinema, a partir do livro de Jon Krakauer (editado pela Presença), no filme O Lado Selvagem.

A sorte dos filmes



Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

Ondjaki na Pó dos Livros

Materiais para confecção de um espanador de tristezas, de Ondjaki, é lançado hoje, quarta-feira, 25, às 18 e 30, na livraria Pó dos Livros. Ao lado do escritor angolano vão estar alguns poetas, cujos os nomes não foram divulgados para não estragar as muitas surpresas preparadas para esta sessão.
«Você pode imaginar uma esquina do mundo onde Ondjaki encontra Manoel de Barros, Luandino Vieira, Guimarães Rosa, Adélia Prado, Raduan Nassar. Você pode imaginar que essa esquina fica em Luanda, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Lisboa ou Campo Grande», escreve Paulinho Assunção sobre o terceiro livro de poesia do autor de AvóDezanove e o Segredo do Soviético. «Você também pode imaginar o que eu imagino ao ler este novo livro de Ondjaki. É um livro que tem um jeito de apalpar a língua como quem apalpa o dorso de um rio. Ou tem um jeito de escrever as palavras da língua como quem rumoreja sussurros para não assustá-las. E acho que o Ondjaki não tem medo de trazer para o seu livro os seus afetos todos literários. E faz bem o Ondjaki não ter medo disso porque é uma coisa muito bocó a gente esconder os afetos e as dívidas e os tributos aos que, também, como Ondjaki, gostam e gostaram de apalpar a polpa da língua como quem apalpa o dorso de uma fruta.»

Transplantes: Vila Nova de Foz Côa, há 5.000 anos, hoje

Por Vítor Oliveira Jorge*

Para a Susana...

Quando penso no que poderiam pensar e sentir as pessoas que "fizeram e refizeram" Castelo Velho e Castanheiro do Vento há 5.000, 4000 anos, como me aconteceu ainda hoje de manhã a acordar, e tenho a sensação de que era outra humanidade com pressupostos totalmente diferentes dos nossos, sinto uma espécie de vertigem. Por breves segundos afigura-se-me intuitivamente o que poderia ter sido, mas logo se esvai. É muito difícil meter isso em texto depois, porque pôr em texto é evidentemente uma encenação dessa vertigem que já se desvaneceu. Foi como quando tive consciência (c. dos meus 15 anos) do absurdo da pretensão de querermos acreditar na existência de Deus: tive a vertigem do nosso nada, da minha absoluta desqualificação, ou seja, de que a vida tem de ser vivida no luto do sentido, da perda abissal do princípio ordenador, e que de certo modo a beleza da vida é esse desamparo trágico. Sem perceber (sentir) isso fica-se sempre na menoridade. Mas para um puto de 15 anos é uma vertigem sentir/perceber isso como num relâmpago insofismável. É quando começa a deixar de ser miúdo, ou seja, quando começa simbolicamente a ser pai dos pais, a libertar-se deles, a ver a sua menoridade a olho nu, a perceber-se sozinho no batel em que se safou do grande barco protector, e a sentir-se no alto mar, exposto e entregue unicamente à sua capacidade própria de sobreviver, ou seja, à iminência constante da morte, à sua instanciação permanente.Para voltar aos tipos de Castelo Velho e de Castanheiro do Vento.
Aqueles indivíduos manipulavam uma série de coisas que iam buscar/trabalhar aqui e ali, uma série de materiais, como troncos, plantas em geral, sedimentos, afloramentos, animais, líquidos, enfim, todo o meio-ambiente. E faziam nele, com esses elementos, uma série de TRANSPLANTES. É esta a palavra-chave. Por exemplo, Castelo Velho, na sua frente sul, a do esporão, era um espécie de pedreira que esteve sempre a ser trabalhada, como uma escultura. Mas todas estas palavras nos enganam, porque chamar "pedreira" é um funcionalismo simples e falar de "escultura" uma esteticização abusiva. Fazia-se transplantes de coisas de um lado para o outro, e em sítios como Castelo do Velho e Castanheiro do Vento vemos ainda concentrado o "resto" (o "resultado" alterado pelo tempo) dessa sequência por certo interminável de transplantes. Lascar a rocha xistosa de base para, com esses pedaços daí saídos, partidos em diferentes formas, compor e recompor um espaço, através da sua reaplicação (transplante) em muretes, embasamentos, etc. Certamente porque para além das suas propriedades "geológicas" (nossa visão) cada "pedra" tinha, conotadas, propriedades outras que nós hoje também identificamos (mas são as nossas, de hoje): peso, textura, cor, forma de se deixar talhar, etc, etc. O mesmo com o arvoredo, com os ramos que serviam para estacas, ou postes, ou armações de coberturas: as conotações que damos a um tronco mais ou menos grosso, a uma vara ou fibra que se mantém em tensão com outras para fazer um cesto, a ramos longos e elásticos que podiam entrecruzar-se no tecto de uma "cabana", etc. Transplantes, transformações de elementos usados depois noutros compostos, noutras composições: essa a tarefa humana.
Mas as suas conotações de cada "momento", ou seja, as suas relações com o conjunto ideológico/explicativo do mundo, suscitam-nos a tal vertigem da irrecuperabidade. Irrecuperabilidade do que nunca existiu, porque nunca houve decerto um sentido fixo, bem definido, para cada coisa, em cada época o que se verbalizava ou fazia dependia de um acordo inconsciente entre os intervenientes, ou seja, na reprodução, reafirmação ou enfraquecimento desse sistema de transformações. Ora, um pensamento actual que passe pela ideia de inconsciente (tão presente desde a psicanálise, tão recuperado pelo estruturalismo e seus "avatares" posteriores, que ainda estamos a digerir) dilui de imediato a ideia de um sentido para qualquer coisa, presente ou passada. Dissolve, subverte a transparência do signo. Há uma barreira entre significante e significado, como disse Lacan, muito para além de uma simples convencionalidade de relação como queria Saussure. O que significa, como acentuam Labarthe e Nancy ("Le Titre de la Lettre. Une Lecture de Lacan", Paris, Galilée, 1990) uma subversão da linguística saussureana. Estamos entregues à deriva infinita dos espelhos. Assunto a desenvolver...
Voltando ao passado: ou seja, a esse modo de se pensar, aqui no presente, é claro (não somos miúdos em máquinas do tempo), a que convencionadamente chamamos passado. O que aqueles tipos faziam era transplantar, tirar daqui, pôr ali, unir e desunir uma série de "qualidades", trabalhando sempre (como nós hoje, pois partimos do princípio de que eram humanos como nós, não extra-terrestres) com os princípios da metáfora e a metonímia, quer dizer com a ambiguidade e mutiplicidade dos sentidos, quer ao nível consciente, quer inconsciente. PORTANTO O SEU PRESENTE NUNCA SE LHES MOSTRAVA A ELES MESMOS COMO PRESENTE COMPREENSÍVEL, TAL COMO O NOSSO PRESENTE, QUE PENSAMOS O PRESENTE DELES, JAMAIS SE NOS REPRESENTA COMO COMPREENSÍVEL, TOTALMENTE ABRAÇÁVEL POR UMA TEORIA. Há que ultrapassar uma filosofia da representação, que é uma teologia, uma vontade de recuperar a unidade do sentido. Isso é um empreendimento muito difícil.As pessoas manipulavam o mundo, transplantando partes dele de um lado para outro, partindo, colando, unificando, demolindo, em suma, transformando, mas não para chegar a uma "obra acabada" (a arquitectura pronta), mas pelo próprio acto de arquitectar. Arquitectar (o que só podia ser em conjunto) significa, pressupõe, o estabelecimento prévio de uma certa confluência de intenções. Mas não há um momento original em que uma série de tipos antes isolados (como se fossem seres contemporâneos, indivíduos segundo a nossa maneira de ver/sentir) contratam entre si, por exemplo numa clareira da sociabilização: "pessoal, temos de nos organizar, temos de começar a manipular isto de uma maneira concertada." Não, esse momento primordial (e depois repetido em cada grande suposta fase, forma de reiterar o primordial) da constituição do grupo a partir de indivíduos é mítico, nós já nascemos num grupo e como produto de um "projecto" já em execução, quer dizer, cada um de nós vem ao mundo tarde e a más horas, e parte dele (morre) bem antes do que supunha (do que queria, um dos nossos enigmas é que mesmo caquéticos e a sofrer nunca admitimos a morte), não temos mão nisto, não sabemos quem somos, etc. O inconsciente é o essencial de nós, o embraiador dos desejos, das crenças, das convicções, e portanto é preciso pensar a chamada "pré-história" incorporando a psicanálise (Freud, pois, mas também Lacan, aquele que se adentrou mais, filosoficamente falando, em Freud, para trazer o seu legado para a filosofia - e por isso é que se não pode já pensar um sem o outro) senão não se sai do realismo ingénuo da ciência corrente.Transplantes de água para com a terra moldar a argila, misturada com desengordurantes, e "fabricá-la" em formas multivariadas. Transplantes de pedra. Transplantes de ossos humanos ou de animais. Transplantes de artefactos de todo o tipo, incluindo muitos intencionalmente transformados (lâminas de machados embotadas, moinhos manuais partidos, uma imensidão de coisas "alteradas"). Manipulação em suma do mundo, do ambiente, em que o papel da crença é crucial, da crença em que o que se está a fazer em comum tem um alcance que vai para além de uma qualquer conceptualização nossa (ou deles), de uma qualquer representação, porque grande parte desse elo de união é inconsciente.É aqui que Pré-história e psicanálise se unem, e que se torna evidente que um sítio arqueológico é tão bom para pensar o humano como um livro de filosofia ou a experiência do divã: são formas de concentrar a atenção, de nos separarmos do senso comum dos outros, de nos sociabilizarmos (entre aqueles que se interessam por estas coisas, quer dizer, o enigma do ser humano) e de criarmos uma rede de controvérsias, de transferências, de transplantes. Entre nós, sozinhos, com o cosmos à frente, na sua beleza infinita, sem o ruído de deuses nem de fadas: resplandecendo apenas pelo encantamento do nosso olhar.A beleza do mundo é a beleza do nosso olhar.
O espanto do passado está a acontecer, aqui e agora, mais uma vez, e sempre.


*O arqueólogo, Prof. da Universidade do Porto e poeta, Vítor Oliveira Jorge, assina mensalmente uma coluna sobre Arqueologia bo Blogue do JL






Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009

Cenas de Espera

Um exercício de teatro contruido a partir da observação de um grupo de actores sobre a cidade de Coimbra. São memórias de pessoas comuns, momentos de uma cidade que se perdem pelos dias, mas que o Teatrão quer resgatar. Cenas de Espera, a ver hoje, às 22 horas, na Oficina Municipal do Teatro, em Coimbra (Rua Pedro Nunes). Segue-se um debate com o público onde se vão discutir temas como a velocidade com que vivemos, o medo do outro, a falta de interesse. A 12 de Março chega ao mesmo palco Cenas de Espera II...

Cenas de Espera. Fotografia de Paulo Abrantes

Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

La Bohème

Paris está cheia de luzes no fundo do palco a desenhar o recorte da cidade. Imagem forte no escuro iluminado que prende os olhos de quem, da janela da água-furtada de Rudolfo, espreita a primeira cena de La Bohème, de Giacomo Puccini, no Teatro Nacional de São Carlos – récitas dias 14 e 22 (às 16), 16,18 e 20 (às 20). Uma encenação de Peter Konwitschny, que conta com a direcção musical de Julia Jones. Esta La Bohème convence. Sem nenhuma voz se destacar particularmente – embora talvez as de Musetta (Chelsey Schill) e de Rodolfo (Alessandro Liberatore) tenham tido melhores momentos – todos os cantores cumprem bem o seu papel numa encenação feliz. Os dois primeiros quadros contrastam a pobreza do quarto do poeta Rudolfo com a alegria do Quartier Latin, com o Coro do TNSC e o Coro dos Pequenos Cantores da Academia de Amadores de Música em sintonia. Uma diferença substancial ao intervalo com as vozes, agora mais próximas da boca de cena, com uma amplitude maior do que nos dois primeiros onde pareciam um pouco ‘abafadas’.
A neve de um Fevereiro rigoroso inunda o palco nos dois últimos quadros. Outra imagem feliz, na tristeza geral que o frio traz à história. Mimi (Ausrine Stundyte) está gravemente doente, quer abandonar Rudolfo que a atormenta em crises de ciúmes. Rudolfo fá-lo apenas para disfarçar o facto de não conseguir dar-lhe tudo o que ela precisa para vencer a doença. A expressividade do soprano Ausrine Stundyte é fundamental na sequência da morte de Mimi, havendo apenas um senão, em nada relacionado com a qualidade do canto: as luzes do teatro estão quase todas acesas não permitindo ao espectador viver a intensidade do momento. O grito de Rudolfo por Mimi não precisa de luz, enquanto a voz do tenor persistir impregnada de escuridão.
Alessandro Liberatore e Ausrine Stundyte em La Bohème. Foto de ensaio de Alfredo Rocha

O medo ou o fascínio do desconhecido




Moacyr Scliar foi a cabeça de cartaz da quinta mesa-redonda das Correntes D'Escritas, O Medo ou o fascínio do desconhecido, que juntou ainda os escritores Andrea Blanqué, Jesús del Campo, Joaquim Arena e Rui Machado. "Para falar sobre este tema vou ter de falar sobre a banana", brincou o autor brasileiro. E falou sobre o seu pai, que saindo da Rússia se fixou no Brasil. Os emigrantes, na altura, não faziam ideia do que os esperava, disse, e partiam para o desconhecido. Ao desembarcar, depois de cinco semanas de viagem, cheio de fome, ofereceram ao seu pai uma banana, que ele nunca tinha visto na vida. Pensando que se tratava de uma fruta como as outras, abriu a banana, deitou fora o que lhe pareceu um grande caroço e comeu a casca... "O certo é que ele arriscou no desconhecido", lembrou Moacyr Scliar, recordando as duzentas vezes que o pai lhe contou esta história e as milhares de vezes que ele a recontou em encontrou deste género. E acrescentou: "O escritor é aquele que olha para a banana e come a casca"

Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

O olhar e a caneta

Sala cheia para mais uma mesa, O olhar escreve ou melhor a caneta vê, com Almeida Faria, Alice Vieira, Álvaro Uribe, Luis Fernando Veríssimo, Mário Cláudio e Paulina Chiziane.




Estou farto de palavras





O tema era provocatório e os escritores responderam à altura? Estou farto de palavras era o mote da terceira mesa redonda das Correntes D'Escritas, mas Antonio Sarabia, Daniel Galera, Eduardo Bettencourt Pinto, Paulo Teixeira Pinto, Rui Cardoso Martins e Victor Andresco deram a volta ao texto. Num pacífico motim, evidenciaram a impossibilidade da proposta. É verdade, disse Sarabia, que há palavras que estão gastas, despidas de sentido, que enchem as páginas dos jornais, como "bloqueio no médio Oriente, terrorismo, liberdade ou até democracia". Mas "sem palavras", como acrescentou Rui Cardoso Martins, "não somos nada". O escritor recordou os e-mails e os sms que tem recebido no último mês, devido à morte da sua mulher, Tereza Coelho. As pessoas diziam-lhe que as suas palavras certamente não significavam nada nesta hora de dor, mas Rui Cardoso Martins sublinhou a sua importância. "As palavras são salvadoras, são o que nos faz continuar".

Os desafios da folha em branco



A mesa-redonda Os desafios da página em branco abriu o segundo dia das Correntes D'Escritas. Amilcar Bettega, Ángela Ramos Díaz, Germano Almeida, Héctor Abad Faciolince, Helder Macedo e Teolinda Gersão falaram sobre a sua relação com a escrita, com as suas dificuldades e facilidades. "Escrevemos contra o vazio", afirmou Bettega, "nas infinitas possibilidades da criação". Com um grande sentido de humor, Faciolince esclareceu: "Como nem deus, nem o diabo me ajudam, e como não tenho ideias, escrevo com a recordação. Mas como não tenho memória, não sei se estou recordando ou inventando". O melhor, como sugere Helder Macedo, é assumir a página em branco, não matado-a com palavras excessivas. Ou, segundo Ángela, transformar a página em branco numa página negra. E enchê-la com a luz das palavras"

Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

Língua e liberdade

A Língua enquanto ferramenta de liberdade e formação pessoal foi o tema que José António Pinto Ribeiro escolheu para a conferência de abertura da 10.a edição das Correntes D'Escritas, a decorrer na Póvoa de Varzim até ao próximo sábado, 14. O ministro da Cultura, apresentado por José Carlos de Vasconcelos, salientou a importância da leitura e da escrita na construção de uma identidade individual e colectiva, lançando a ideia de um Plano Nacional de Escrita. Ensinar os jovens a ler e a escrever bem, a saber argumentar, a desenvolver ideias, a ser sedutor no seu discurso são, na sua opinião, prioridades para se poder responder às grandes e eternas questões do Mundo: o que somos, de onde vimos, para onde vamos. Isso passa pela valorização da língua materna, neste caso o Português, nomeadamente através da sua uniformização (Acordo Ortografico), da sua difusão (através da internet) e reinvenção. "A Língua é dos seus falantes", defendeu José António Pinto Ribeiro, referindo-se aos 190 milhões de brasileiros que falam português, num universo de 230 milhões. No fim, expressou o desejo que estas Correntes D'Escritas possam ser também correntes de leitores e que, em conjunto, possam divulgar o modo de pensar e sentir que está subjacente à Língua Portuguesa. E acrescentou: "Porque cada língua encerra em si a narrativa e identidade de um povo".

Um fascista na mesa, um anarca na cama

...ou no sofá ou nos campos da Quinta do Vimieiro. Ao que parece, segundo uma mini-série transmitida no início da semana, Salazar, uma figura que sempre tomei por assexuada, não teve sequer umas poucas namoradas, como as pessoas normais. Era um autêntico Don Juan. Melhor, um James Bond. Sempre que uma mulher bonita lhe chamava «Doutor Salazar», ele emendava: «António. Trate-me por António». Conquista meninas do campo, virgens de boas famílias, jornalistas francesas, astrólogas e feministas sensuais, mas não fica com nenhuma. Claro que ao seu lado tem a apaixonadíssima e muito devotada Maria, governanta de origens simples, trabalhadora, leal e excelente dona de casa. No fundo, o que propagandeava como mulher ideal – para os outros, não para si.
Como qualquer ditador, Salazar até teria esse poderoso talento da persuasão. Mas, sejamos razoáveis, aquele homem seco e aparentemente nascido já velho teria sérias dificuldades em conquistar a Soraia Chaves. A escolha do cheio-de-atributos Diogo Morgado para o papel não chega para nos esquecermos da falta de charme do verdadeiro.
Está na moda mostrar que o nosso tão fraquinho ditador também tinha vida pessoal, coitado, que até era de bons sentimentos. Foi mal aconselhado! Quem sabe se não foi mesmo obrigado por outros a perseguir, torturar, censurar; o pobre que era só um romântico. Se vasculharem bem nos empoeirados documentos escondidos na biblioteca de Santa Comba Dão, ainda descobrirão que Salazar, quando caía a noite, de mascarilha preta, espada em punho e capa esvoaçante, saltava de telhado em telhado no casario lisboeta, salvando os fracos e oprimidos (por ele, provavelmente).
Nasci em 84. Já andávamos a tentar ser uma democracia há dez anos. O sr. Oliveira Salazar, para mim, é figura de livros de História e personagem de conversas de pessoas mais velhas – sempre ditador, sempre de pensamento mesquinho, sempre uma das razões do atraso do nosso país, por tão bem personificar o que Portugal tem de pior: a pequenez, o provincianismo, o cinzentismo, a paralisia. Mas, afinal, atrás da cortina, deitava-se primeiro e olhava para ver quem estava na cama depois, sem regras, charmoso e sensual. Nunca se casou, porque se dizia casado com a Pátria. Se é assim, e acreditando no que vi na mini-série, Salazar deixou a Pátria enfeitada com muitos e bem grandes pares de cornos.

Prémio Literário Correntes D'Escritas

Gastão Cruz, com o livro A Moeda do Tempo (Assírio & Alvim), é o vencedor do Prémio Literário Correntes D'Escritas/Casino da Póvoa, anunciou Ana Luísa Amaral, dintinguida com o mesmo prémio em 2007, na sessão de abertura do Encontro de Escritores de Expressão Ibérica.

Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2009

Capas escolhidas - 5


Era um daqueles temas que vai passando de edição para edição, até que um dia, tem que ser. E foi. Calhou-me em sorte para meu azar. Nunca sou capaz de domar a megalomania temática, ouvir este, aquele, toda a gente. Não estou só nesta nefasta mania de totalidade. Tanto escritor ouvi sobre a sua vida mais ou menos movimentada que acabei por me fazer a vida negra. Mas recordo ainda o alívio com que pus um ponto final à coisa já ao romper de alba. Mas não há noites verdadeiramente perdidas, quando o que fazemos é um ganho, sempre um ganho. A escolha desta capa é um tchim-tchim aos escritores e às suas vidas e a todas as noites e dias perdidos e achados neste jornal. Além disso, gosto da ilustração do Richard Câmara. Muito.
Podia evidentemente escolher mais umas quantas por muitas e boas razões: a minha primeira capa, a mais cool, com uma entrevista com o Luís Villas-Boas, o primeiro trabalho que cá vim entregar a tentar a sorte; a da Cibercultura, bem esgrimida lance a lance, a da Beleza, que não deixou de ter o seu princípio de «terror»; e sobretudo uma muito antiga, difícil de digitalizar, a mais surrealista, por certo, com Diogo Dória, que parecia descer as escadas da Assembleia da Republica a acelerar a sua vespa… Ilusões de veículos motorizados: curiosamente, ao fazer-lhe as fotografias, já satisfeito de enquadramentos ao guiador da moto, o fotógrafo buscou com os olhos outro ângulo. Dória foi rápido na mudança de cenário. Fez-se à objectiva, junto de um grande descapotável vermelho, estacionado ali perto. Mão na porta, porte a condizer como quem vai meter-se ao ufano volante de tão formidável bólide. Quase nem sentiu alguém que lhe tocava no ombro. Era o verdadeiro dono do carro, agitava-lhe as chaves da máquina para completar a cena… Não é de estranhar que tudo tenha acabado numa aceleradela escadaria parlamentar abaixo. Afinal, toda a capa tem o seu quê de ilusão: de óptica, de marketing, de poder vender mais ou dizer o que é um jornal e a sua vida interior.

Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009

Capas escolhidas - 4


O meu primeiro dia de estágio no JL foi uma segunda de fecho. O grafismo tinha mudado há pouco, houve alterações de última hora, fotografias que chegaram atrasadas e… cheguei a casa às cinco da manhã. Feliz da vida. Esta capa não é desse primeiro dia, mas antes do primeiro tema que fiz com a Leonor, dois números depois de ter cá chegado. Foram tantos escritores, tantos livros, tantas palavras que despertaram ainda mais vontade de ler tudo. O princípio dos romances foi o meu princípio na profissão. Acho que me deu sorte.

Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

Capas Escolhidas 3

Este foi o primeiro. O meu primeiro. No nº1 do JL eu ainda não estava sequer a pensar nascer.

Cheguei e das primeiras coisas que oiço é o Manel, ao meu lado, perguntar: «gostas de música?». Foi melhor do que se tivesse dito «bem-vinda, faz como se estivesses em casa». Ainda por cima, não era só música – era bossa nova.

O primeiro trabalho que fiz foi um glossário de músicos, uma ajuda ao trabalho do Manel e um alimento para a minha ávida vontade de conhecer música. Nomes que já conhecia desfilaram pelos meus olhos, factos desconhecidos entraram na minha cabeça. Pensei: se for sempre assim… estou pronta para fazer mil destes.

O lado irreverente da vida

Só hoje soube pela crónica do Lobo Antunes que o meu querido professor Rodrigues da Silva morreu. Como é possível? Ele que me tirou a mim e aos outros 15 das trevas, que nos mostrou o mundo da cultura, que nos fez descobrir que podíamos ser tudo o que quiséssemos desde que nos entregássemos por inteiro. Ele que entre 1983-85 esgotou a verba da Esc. Sec. D. Maria I para nos levar a tudo o que era agenda cultural, desde a Cornucópia ao Quarteto, passando pela Cinemateca e pela Comuna. Ao longo destes mais de 20 anos, sempre que se cruzava com um de nós em Lisboa, lembrava-se de nós, reconhecia-nos. Sempre a sorrir, com a sua roupa saída do Maio de 68. Mostrou-nos o lado irreverente, não-alinhado, da vida. Fez-nos ver que continua a fazer sentido ser de esquerda, que não nos devemos conformar. Assustou-se quando lhe disse que ia para Direito, pediu-me que fosse para Teatro. Fui para Direito mas não me esqueci do que me ensinou e levei a irreverência comigo, nunca perdi o olhar crítico com que me ensinou a mim e àquela turma fantástica a filtrar o que nos rodeia. Deixou-me uma directiva escrita na despedida do 11.º ano - Nunca perca a alegria de viver! Tornei essa frase no meu imperativo categórico de vida. Mas, hoje não posso deixar de estar triste, muito triste. Fiquei mais velha com esta minha perda.Desculpe lá, stôr, mas tenho mesmo que chorar.

Rita Torroais

Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2009

Norma e Medeia na Gulbenkian

Ainda que com a chuva do mundo a abater-se sobre nós, houve um oásis de música neste fim-de-semana. No grande auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, sábado e domingo, pelas 20 horas, duas óperas em versão concerto. Duas mulheres fatais – Norma e Medeia – heroínas trágicas da Antiguidade, como foram apelidadas no ciclo organizado pela Gulbenkian, que se iniciou com Elektra, a 19 de Janeiro. Norma, de Vincenzo Bellini, contou com a interpretação segura do soprano Silvana Dussmann – ainda que tenha falhado alguns (poucos) agudos. A sua Casta diva foi verdadeiramente sublime. Mas o ‘herói’ da noite foi o tenor Johan Botha, na sua interpretação de Pollione – uma surpresa depois de uma prestação sem grande chama no seu papel em Elektra. Todas as notas foram cantadas com precisão e timbre maravilhosos, e a sua presença em palco ‘prendeu’ a plateia. Destaque também para o soprano Heidi Brunner – Adalgisa.
Em Medeia, de Luigi Cherubini, houve um aviso inicial. O maestro Lawrence Foster dirigiu-se à plateia para avisar que existiam pequenas alterações de forma no texto, daí que o programa de sala não correspondesse na íntegra ao que se estava a cantar no palco. «Para que não pensem que nos estamos a enganar», disse. Pausa. Risos na sala. «Embora seja possível!». Mais risos ainda. Soam as primeiras notas de um prelúdio lindíssimo e magistralmente tocado pela Orquestra Gulbenkian. Medeia, o soprano Iano Tamar, esteve bem, embora nalguns momentos lhe faltasse a força da personagem. A força de Medeia soou inteira na voz e dicção perfeitas da actriz Manuela de Freitas que, de negro vestida, leu excertos de Medeia, de Séneca. O tenor Alan Woodrow, na sua interpretação de Jasão, não foi feliz, tendo sido abafado pela presença e timbre do barítono Jochen Schmeckenbecher, como Creonte. Ambas as óperas contaram com as prestações incisivas da Orquestra e do Coro Gulbenkian, dirigidos pelo extraordinário Lawrence Foster. Quer em Norma, quer em Medeia, o palco foi aberto para o jardim. Na grande janela podia ver-se a chuva a cair constantemente sobre o verde. Cenário perfeito para ajudar a
ca(o)ntar a história destas heroínas trágicas.



Medeia. Ilustração de André Carrilho