sexta-feira, 11 de abril de 2008

Contos d'Hoffmann

Hoffmann é omnipresente. A sua imagem enorme vive numa tela que nunca chega a abandonar verdadeiramente o palco. Vemos a cara, os óculos, cada contorno do rosto e os seus olhos prendem-se nos nossos, mesmo antes da ópera Les Contes d’Hoffmann, de Jacques Offenbach, começar. O maestro Gregor Bühl entra no fosso da orquestra do Teatro Nacional de São Carlos, a sala já está escura e ouve-se, numa voz precisa, uma frase do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa. Ainda não sabemos, mas o reflexo do verso vai soar inteiro ao longo do primeiro acto, como uma glosa daquilo a que assistimos no palco - as dúvidas, os sonhos, a «vida perdida» descritas nos poemas fixam-se no canto de Hoffmann. Uma aposta ganha do encenador Christian von Götz. Mas virão outras. Como a ‘estrela’ azul néon que intercala diversas cenas e que nos parece sempre mostrar um outro prisma para descobrir a obra. Também as vozes trazem novos matizes a esta que é considerada a obra-prima da produção lírica do compositor, a cuja estreia Jacques Offenbach nunca assistiu - morreria pouco tempo antes.
Nesta produção - que estará em cena até dia 20 - destaque para o tenor Jean-Pierre Furlan, um Hoffmann exemplar, e para o baixo-barítono alemão Johannes von Duisburg, que interpretando quatro personagens consegue sempre surpreender. Também o meio-soprano Stephanie Houtzeel nunca perde precisão ou volume. Realce ainda para a prestação do coro, não só pela postura em palco, mas sobretudo pela expressividade e vivacidade do canto.
Na ópera o escritor Hoffmann, sempre acompanhado da sua musa, disfarçada de fiel amigo, conta-nos três histórias de amor. Fala-nos de três mulheres Olympia, Antónia e Giulietta por quem se apaixonou. Descreve cada momento no seu caderno vermelho, onde aponta as frases mais bonitas, relata sentimentos, emoções. Serão todas paixões impossíveis. Até ao acorde final.

1 comentários:

João disse...

como é que se pode fazer uma critica destas.
Foi o pior espectáculo que vi desde há muitos anos.