quinta-feira, 10 de abril de 2008

O homem sem qualidades


É o acontecimento editorial do ano. A obra-prima de Robert Musil, O Homem Sem Qualidades, acaba de chegar às livrarias portuguesa, com tradução de João Barrento e a chancela da Dom Quixote. Dois volumes com o grosso da história publicada em vida pelo escritor austríaco e um terceiro (a lançar no Outono) com capítulos e fragmentos inéditos que fazem parte do espólio da fundação dedicada ao autor de As perturbações do pupilo Törless. Recuperamos alguns excertos da entrevista a João Barrento, que o JL publicou na edição passada (n.º 978, de 26 de Março).


Jornal de Letras: O Homem sem Qualidades é um dos livros mais importantes do século XX. Muito citado e pouco lido, como diz no prefácio. Como explicar este paradoxo?
João Barrento: Talvez se deva ao facto de ser um romance complexo, de uma grande densidade narrativa, um enorme elenco de personagens, com muita acção a vários níveis. Mas sobretudo pela complexidade da componente fi losófi ca e psicológica. Engenheiro de formação, Musil doutorou-se em Psicologia e mais tarde dedicou-se exclusivamente à literatura. Isso dá-lhe um espectro de referências muito diverso. Os leitores nem sempre estão dispostos ou conseguem desbravar essa selva e avançar por certos capítulos que interrompem deliberadamente o ritmo da narrativa. Por outro lado, Musil desapareceu muito do espaço público.

Como explica esse desaparecimento?
Penso que tem a ver com a própria natureza de O Homem sem Qualidades e com o enorme quebra-cabeças que foi, para os especialistas, tentar ordenar os fragmentos do seu espólio. Durante anos julgou-se possível apresentar uma versão do romance com um desfecho. Mas não é. E as pessoas que actualmente se ocupam do Arquivo Musil, no qual se prepara uma edição digital de O Homem sem Qualidades e de toda a sua obra, chegaram à conclusão que estamos perante a obra inacabada e inacabável por excelência.

Como podemos entender O Homem sem Qualidades hoje?
A História da Literatura situou-o muitas vezes ao lado de outros três nomes que, nos anos 20 e 30, acabaram por revolucionar a própria forma do romance. Seguramente que há mais nomes, mas estes quatro (Proust, Joyce, Kafka e Musil), de uma maneira ou de outra, enveredaram por novas vias. Proust pelo aprofundamento do lado psicológico e intimista das personagens. Joyce pela grande experimentação da linguagem. Kafka pelas personagens que cria, extremamente próximas do quotidiano mais corriqueiro, mas ao mesmo tempo com um nível de problemática metafísica que o romance realista não tinha. Musil, que não é um experimentalista, nem tem pretensões metafísicas, procura o rigor em todos os planos, sobretudo nas ideias e na refl exão. Mas sem prescindir desse rigor científico, ele contrapõe também o que poderíamos dizer o seu oposto: o espaço da alma, ou uma espécie de misticismo sem mística, na construção de um mundo alternativo.
(…)
A nossa sociedade tem falta de homens sem qualidades, de anti-heróis como Ulrich?
Se virmos o mundo de hoje, o comum é toda a gente querer ou fazer algo que lhe proporcione um estatuto. A começar por ser uma figura pública, nem que seja por alguns minutos. Mas também porque o mundo que é o nosso, que aparentemente baniu todos os códigos de moralidade, é totalmente permissivo. Há um conservadorismo de raiz muito mais instituído do que há 20 anos. E é exactamente contra a adesão a essas qualidades que o protagonista de Musil se insurge. É também a construção ideal de alguém que se rege por um princípio de integridade total, hoje coisa impensável, neste mundo de corrupção generalizada. A actualidade de Ulrich é estar nos antípodas do que me parece ser o mundo contemporâneo.
(…)
Que critérios seguiu no terceiro volume?
Não me pareceu que a edição alemã servisse para o leitor português. É uma fl oresta demasiado confusa para nós. Alguns princípios parecem-me aproveitáveis e vou segui-los, como o de proporcionar ao leitor, que leu os dois primeiros volumes, uma continuação, com os 20 capítulos que Musil escreveu para o efeito mas nunca publicou. Só depois vêm três conjuntos de fragmentos, com núcleos narrativos e temáticos, que têm a ver com as personagens principais, a acção paralela ou a mística do dia claro, temas que aparecem ao longo do romance; com as versões preliminares, que vêm de 1918; e com os textos em que o próprio Musil reflecte sobre o que seria este romance, esboços do prefácio que pensava escrever.

3 comentários:

carlos disse...

Já está anotado para comprar.

Ente lectual disse...

já era tempo. O jovem Thorless também merecia uma tradução digna.

parabéns pelo blogue e pelo jornal

Luís Ricardo Duarte disse...

Era mesmo. Há muito que O Homem Sem Qualidades andava afastado das livrarias portuguesas. O mesmo se passava com O Jovem Törless, que entretanto também foi traduzido por João Barrento, embora com um título diferente: As Perturbações do Pupilo Törless. De resto, este romance de formação de Robert Mussil inaugurou o projecto de publicação das Obras Completas do escritor austríaco, que a Dom Quixote vai levar a cabo em oito volumes, num total de seis mil páginas…