sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Doces memórias

Quantas vezes as colheres volveram e revolveram as gemas e o açúcar, até a Física tomar conta da massa, e molécula a molécula se anunciar o doce milagre? Quantas vezes as mãos untaram as formas e as polvilharam de farinha e encheram de massa ainda esbranquiçada , antes que o forno tratasse de lhe dar cores e consistência? Não haverá fórmula que facilite o cálculo, foram milhares os bolos e os dias e os gestos habituais, os preceitos, por eles multiplicados milhares de vezes. O olhar do fotógrafo, porém, tomou a medida do tempo, as rasuras das formas, a poalha dos castelos de claras nas varas de arame, o pau gasto das colheres que bateram toneladas de ovos manteiga e farinha, que naquela cozinha nunca entrou uma máquina eléctrica. E é esse rasto da passagem do tempo pelo mundo, a sua marca nas coisas como nas paisagens que interessa a Duarte Belo. Em Olívia e Joaquim, um livro que recentemente publicou, na Assírio & Alvim, fotografou a casa dos seus avós maternos – os seus nomes dão título à obra – em Vila do Conde, onde décadas a fio tiveram uma pastelaria. E fixa o que resta intacto dessa doçaria nos objectos, mas também na sua memória.
É que Duarte Belo, um verdadeiro andarilho que tem palmilhado o país, prescrutando todos os lugares com a sua objectiva, num meticuloso inventário do território, passava as férias da sua infância nessa casa que sabia a bolos. Olívia e Joaquim tem assim o sabor de um louvor a essa doce memória. E quem lhe quiser tomar o gosto pode experimentar uma das receitas do caderno da avó. Mesmo que os dotes culinários sejam duvidosos, as receitas, que vieram do convento de Santa Clara, são garantidas.

1 comentários:

hothot disse...

Parabens !otimo blog show de bola..

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