quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Saldos

Via-as subir, às clientes, numa pressa desavergonhada. Vinham todas na minha direcção, eu lá em cima, que lá me ia desembrulhando, de crachá amarelo-pardo com um nome que não era o meu, a distribuir senhas verdes numeradas para os provadores inundados com lixo. Doze chapas, doze cabines. Know your stuff, motivavam-me os cartazes da cantina do staff à hora do almoço. A elas, às clientes, topava-lhes a milhas o número de peças que traziam, o limite era seis, já todas conheciam, poucas queriam saber, cabecinhas lado-a-lado com um repuxo danado de saias, jeans, casacos, gabardines, havaianas, botins, barretes, fatos de banho.
Toalhas de praia e sacos de cama para as temperaturas polares. Ao fim de semana então era um gozo. Traziam-me os manequins das lojas, queriam que eu lhes despisse os calções, a última saia de cabedal. As crianças esborrachavam os joelhos correndo atrás das perucas dos bonecos. Deixava qualquer um logo de rastos, ver aquele cordel espesso de mães e filhas numa zanga pegada para ver quem conseguia equilibrar mais roupa no colo, nos ombros, nos braços que não tinham. Subiam também os namorados, em inquietações suavizadas, as avós, famílias inteiras, seguranças à paisana, crianças perdidas, clientes lesados. Colavam com toda a devoção pastilha elástica no tecto dos provadores, escondiam as grapas da roupa nas dobradiças da porta. Eu olhava de esguelha, do meu posto. Think customer, insistia comigo o rosa choque dos cartazes nas reuniões semanais.
Não me importava nada aquilo. Perguntavam-me sobre tamanhos, apontavam para onde ficava curto, onde era necessário apertar, ouvia-as explicar tudo muitíssimo bem, como era atroz quando as suas formas se apagavam debaixo do tecido. Exigiam-me bainhas, pequenos arranjos, passava as tardes de joelhos arregaçando calças de cetim. Tantas cabeças por minuto, por dia, chegadas suspirantes e derrubadas ao topo daquelas escadas. Eu ia desfiando um labirinto de cabides de plástico e metal. De caminho para casa, lembrava-me desta estranha forma, minha e delas, de passar os dias. Era um sossego, por segundos chegava a ver Derrida e Beckett por um canudo, a razão pela qual estava lá longe, as gentes da British Library muito chupadas e mal enjorcadas, que também era eu mas não era.

3 comentários:

Relvas disse...

Texto em saldo? Não compro!
Na blogosfera e no jornal? Ler. Li. Reler? Não reli.

Nem par, nem ímpar... Prefiro números compostos.

Usando o "ingliu", be affraid... be very affraid. E faço um apelo:
Think customer (please).

"Compro" a moda e aceito a sugestão de deixar o papel. Espero a mesma qualidade.

Manuel Halpern disse...

Estimado leitor,

O nosso objectivo não era de todo enfadá-lo com textos repetidos. Como poderá ver pelos outros posts, não seguimos a moda de republicar textos do jornal. O par ou ímpar é excepção e não regra. E nós nunca sugerimos deixar o papel. Até porque os blogues não têm cheiro…
Espero que este Blogue de Letras seja do seu agrado.

erika disse...

que bonita essa foto. de quem é?