segunda-feira, 7 de abril de 2008

O chão de Pollock



Era uma questão de perspectiva. Sempre foi. No seu caso, como em toda a História da Arte. Mas a questão não era só de conteúdo, também era de forma. Ao contrário dos pintores do Renascimento, cujas preocupações se centravam na ampliação das possibilidades narrativas de um quadro, o que interessava a Jackson Pollock, nascido em plena erupção do século XX, era um relacionamento diferente com o trabalho.
Estavam em causa o cavalete e as suas limitações. Bem como a formatação do estilo dominante e consagrado, mesmo que reiventado muitas vezes, por muitos artistas, todos eles com muitos objectivos. Era, no fundo, a tradição ocidental, assente na compostura do artista, inclusivamente quando feita de marginalidade, que Pollock desejava esquecer. O contraponto encontrava-o na «verdade» que dizia haver na prática dos índios do seu país e na simbiose entre objecto e criador, arte e artista, homem e deus.
«Preciso da resistência de uma superfície dura», afirmou numa das muitas entrevistas em que explicou o seu método criativo, a Action Painting. «No chão estou mais à vontade, sinto-me mais próximo, faço parte da pintura». Estendendo a tela no seu atelier, mais do que contemplar o que fazia, Pollock podia andar à volta dela, trabalhar a partir de todos os lados, «mergulhar literalmente» no que fazia. São lendárias as imagens que o fixam de lata de tinta na mão, num gotejar constante, aparentemente desordenado, instintivamente irracional, movido por impulsos, regido pela vibração do «inconsciente».
A ousadia pollackiana pressupôs ainda a renuncia aos utensílios do metiér, a paleta e os pincéis. O artista americano preferia servir-se de ramos, espátulas, facas ou da própria fluidez da tinta que depois lançava «sobre a tela ou em denso empasto de areia, vidro quebrado ou outro tipo de materiais». Com esta desmedida artística, que para sempre marcou as tendências das artes plásticas, Jackson Pollock acreditava que a pintura tinha vida própria. Fazendo da arte uma ligação directa entre gesto e pensamento.

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