Quinta-feira, 27 de Agosto de 2009

Primeira carta

Tudo começou com Águas de Verão. «Era em Setembro que chegávamos em bando». Eu deveria ter uns 5 anos e, nas noites de Verão algarvio, a minha irmã, seis anos mais velha, deitada na outra cama, lia para mim, em voz alta, o romance acabado de sair de Alice Vieira. Foi assim que conheci os quatro irmãos Bé, Marta, Francisco e António; o senhor Gualberto, o do saxofone, as termas carregadas de sais, de achaques e de muita brincadeira entre a «canalha», como diria a Irene, com o cesto de roupa branca à cabeça, o que levaria a Mãe da história, a um quase desmaio. Parece que a estou a ouvir – «Chamar canalha aos meus filhos! Isso é que não!» – e com ela a lembrar-me da angustia, daquela que se prende atrás da garganta, pela injustiça de, nas últimas páginas, terem despedido o senhor Gualberto, só porque ele era um bocadinho doido («O menino é sócio dos que são sócios ou é sócio dos que não são sócios», costumava perguntar aos miúdos que por ele passavam), um bocadinho músico, um bocadinho alegre no meio dos vapores e da comida sem sal – onde nem a sobremesa, aletria acho, escapava à insipidez. Foi ali, com aquelas personagens vivas na voz da minha irmã, na escrita da Alice Vieira que, antes de aprender as letras, eu aprendi a ler.
E foi já sozinha que li Rosa, minha irmã Rosa, Lote 12, 2.º Frente, Chocolate à Chuva, o hilariante Graças e Desgraças da Corte d-El Rei Tadinho, A Espada do Rei Afonso, Este Rei que Eu Escolhi. Foi com Flor de Mel que imaginei, cantarolando sempre para dentro, a canção de embalar que ainda hoje sei de cor. Com Úrsula, a Maior que descobri o Frei Luís de Sousa, e com Joana Ofélia, de Se Perguntarem por mim digam que voei, que aprendi que todas as janelas servem para voar. E sorri com os jantares dos velhotes de Às dez a porta fecha, chorei com o Touro Sentado desaparecido nas pradarias do corredor, sem poder nunca mais ver Os Olhos de Ana Marta.
Em cada novo livro uma surpresa, longe do tonzinho didáctico que sempre me irritou nos livros ditos para a infância. Esse tom que Alice Vieira nunca quis ter, como diz na entrevista que publicamos nesta edição, onde conta que troca correspondência com alguns dos seus leitores há quase 30 anos. Para mim, foram precisos mais de 20 – e tantas outras histórias – para encontrar coragem para lhe escrever. Aqui fica a minha primeira carta.

Quarta-feira, 26 de Agosto de 2009

O mundo do fim do mundo


Chega-se ao fim do mundo e vira-se à direita. Ali, onde o mar começa e o mar acaba, nos confins da Europa, a caminho da América. O fim do mundo, neste caso, é a Ilha das Flores, com os seus 4000 habitantes, sem contar com vacas, coelhos e hortênsias. Provavelmente, um dos sítios mais belos do planeta, com a sua harmonia selvagem. Dizem que é o ponto mais ocidental da Europa, embora, a rigor, a ilha se situe já na placa tectónica americana. Quando se vira à direita, por assim dizer, apanhando o barco Ariel, vai-se dar ao Corvo. Esse sim, seguramente, um dos pontos mais remotos do mundo. Longe de tudo, menos de si próprio, e da vizinha Flores, com a qual, em tempos que já lá vão, comunicava com sinais de fumo: duas fumaradas quando precisavam de um médico, três quando precisavam de um padre.
O Corvo está agora menos isolado. Há um aeroporto que é quase do tamanho da vila e barcos diários. Ainda assim, quando o Inverno aperta, o mar se balança em fúria e as nuvens descem à terra, não há barco que se desafie à travessia nem avião que arrisque a aterragem.
A ilha tem pouco mais de 400 habitantes, todos vivem na Vila do Corvo. Segundo me foi garantido, não há um único eremita, um aventureiro que seja, que se disponha a viver na montanha. As casas que lá existem servem apenas de apoio à agricultura. A terra é fértil e há uma enorme densidade de vacas. A ilha é curta. Atravessa-se a pé ao longo de um dia. Mas há uma carrinha que percorre a única estrada de alcatrão existente, que nos conduz ao sopé da montanha, onde se pode observar um monumento natural de beleza rara: o caldeirão.
De uma das encostas da montanha, a terra é de privados, do outro é pública, quem quiser cultiva ou leva as vacas a pastar. No Corvo há pleno emprego, só pode haver. A crise ali é outra. Se começarmos a contar as pessoas necessárias para o seu funcionamento prático, logo nos sobram os dedos. Ali há Correios, Polícia, Escola, Junta, Café, Mini Mercado, Igreja, Hotel, Bombeiros…
Também há televisão e rede no telemóvel. O senhor simpático, de bigode farto, que me conduz pela curta estrada da ilha, servindo também de guia turístico das pequenas coisas, leva no auto-rádio da carrinha uma espécie de pen. Explica-me que é um leitor de MP3 e que, naturalmente, serve para ouvir música. O mundo e o fim do mundo tornam-se cada vez mais próximos.

Terça-feira, 25 de Agosto de 2009

Nas Bancas!

JL 1015

De 26 de Agosto a 8 de Setembro

Alice Vieira do outro lado do espelho
Entrevista de Maria Leonor Nunes e texto de Ana Margarida Ramos

PEPETELA: O PESO DAS PALAVRAS
Escrita, Angola, crise, ganância, ética, Universidade e outros tópicos, num texto do Prémio Camões.
O Planalto e a Estepe lido por Pires Laranjeira

Raul Solnado (1929-2009)
Textos de Leonor Xavier, Millor Fernandes e poema de Manuel A. Valente

Tiago Gomes : Um apóstolo das artes
Figura e crítica ao livro e ao disco

Art Deco em Serralves e no CCB

O elogio da política, por Mário Soares

Allgosto, a crónica de Helder Macedo

A autobiografia de Isabel Fraga

JL/Educação
: Ana Maria Bettencourt, a nova presidente do CNE e entrevista a Fernando Catroga

Camões • Agenda Cultural