Quinta-feira, 30 de Abril de 2009

Chapéus há muitos

Governantes e governados. Pessoas sem nada que fazer, pessoas com ideias, com dores de cabeça, com vontade, sem vontade, com coragem, sem coragem. Tristezas e Carnavais, amor e inveja e uma saudável esquizofrenia. De tudo isto é feito Chapéus há muitos, o espectáculo que assinala os 15 anos da companhia Pim Teatro, onde os chapéus (e os narizes vermelhos) ajudam a falar de uma coisa «séria, perigosa e ridícula»: o poder. A encenação é colectiva, mas coordenada por João Sérgio Palma. E as interpretações são de PAlexandra Espiridião, Diogo Duro, João Sérgio Palma e João Sol. Para ver no Teatro Garcia de Resende, em Évora, até 9 de Maio (de quarta a sábado, às 21 e 30).
A Pim Teatro está neste momento a preparar a ida, em Junho, ao Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, no Brasil.

Feira do Livro de Lisboa abre hoje

Novos horários, novas datas e novos pavilhões. É com espírito de mudança que a 79.ª edição da Feira do Livro de Lisboa, organizada pela APEL, abre hoje, quinta-feira, 30, ao público, prolongando-se até 17 de Maio. As expectativas, por isso e também por causa da crise, são muitas.
Apesar da inauguração oficial apenas estar marcada para as 17 horas, a Feira do Livro de Lisboa arranca às 12 e 30. Essa é, de resto, uma das grandes novidades deste ano. Uma abertura antes da hora de almoço, aproveitando a oferta de restauração. O fecho, por seu turno, é às 20 e 30. Com este novo horário, que só se aplica de segunda a quinta-feira (durante o fim de semana o fecho é às 23 horas), a organização pretende cativar o público escolar. Objectivo que também ditou a antecipação da Feira, que normalmente se realiza em finais de Maio.
Quando aos pavilhões, embora mais pequenos, a organização assegura que são mais práticos e confortáveis, tanto para os trabalhadores, como para os visitantes.
Com um auditório principal e várias esplanadas no Parque Eduardo VII, a programação cultural da Feira do Livro deste ano promete ser uma das mais intensivas. Tudo para que comprar um livro continue a ser uma festa.

Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

Venham mais Cinco

Parece que o saudosismo falou mais alto. Com o expressivo valor de 42%, os leitores do Blogue do JL escolheram Os Cinco, da escritora inglesa Enid Blyton, como a sua colecção infanto-juvenil de eleição. É daquelas que passa certamente de pais para filhos, às vezes em livros de páginas já amarelas. Os irmãos Júlio, Ana e David (na versão portuguesa) e a amiga maria-rapaz Zé viveram vinte e uma aventuras, onde prenderam ladrões, desvendaram mistérios e descobriram tesouros, com a ajuda, claro, do famoso cão Tim.
Em segundo lugar, com 27%, ficou Uma Aventura, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Tal como Os Cinco é a referência de uma geração também esta colecção é um ícone para gerações mais recentes. São poucos os que não terão ouvido falar das gémeas Teresa e Luísa, dos amigos Pedro, João e Chico e os inevitáveis cães de estimação, Caracol e Faial.
As restantes hipóteses, que incluem outros títulos das mesmas autoras, tiveram votações bem menos simpáticas. O que lhes faltou para terem o mesmo sucesso? Eu cá aposto no cão...

Paisagens em Trânsito, em Aveiro

No átrio de uma estação de comboios imaginária, há um homem carregado de malas. Viajante sem destino com uma história guardada na bagagem. O comboio não chega. Desesperado o homem vai abrindo uma mala atrás da outra e vai revelando pedaços da sua vida: das malas cai palha, badalos de ovelhas, uma farda de combate, terra e outros objectos. Paisagens da memória aos poucos descobertas no fundo de cada mala. Um retrato de Paisagens em Trânsito, projecto da companhia Circolando, com direcção artística de Patrick Murys (que também interpreta), estreia a 8 de Maio, às 22, no auditório Estúdio PerFormas, em Aveiro. A peça conta com as composições musicais de Luís Pedro Madeira e Isabelle Fuchs.
Foto de João Vladimiro

A Parte pelo Todo, de João L. B. Guimarães

Páscoa Baixa

Durante a manhã inteira a barba
ainda cresceu. O vórtice que me picava
ao fim de um dia de trabalho
já o posso adivinhar
neste círculo de flores.
O seu torso é imóvel. Nada
diviso a mover-se (um relâmpago das pálpebras?
o pensamento de um dedo?)
velo a hesitação da barba qual
néscio agarrando tempo.
Durante a manhã de março a
barba ainda cresceu
qualquer coisa dentro dele ainda
não queria morrer.

As Cadeiras

À aula de
quarta-feira assistiram 13 alunos e
27 cadeiras. Em resumo: a sala cheia.
Quando a
lição terminou os 13 alunos partiram e
acto contínuo contei 20 casais de cadeiras.
Às aulas que tenho dado nunca faltam
as cadeiras
ficam a ouvir-me atentas
(as costas muito direitas).
É bom de ver que as cadeiras entendem
tudo à primeira
parecem ser mais maduras (mais
pés
assentes na terra).

Botox®

Procura as minhas mãos uma mulher
nos quarenta
pedindo que lhe atrase o outono dos olhos
cansados: «Só queria perder dez anos». E
tento o que de amargo possa ter acontecido
para a ter a desejar punir
um decénio da idade -
dou comigo a lamentar não saber delir
memórias somente
rugas e rídulas (ruínas
pouco marcadas). Na armadilha do tempo
ninguém tomba por engano:
não se expurga a pele por décadas quanto muito
dano a
dano.

Do novo livro de poemas de João Luís Barreto Guimarães, A Parte pelo Todo, uma edição da Quasi.

Terça-feira, 28 de Abril de 2009

Conferência de João Lopes na Católica

Com conhecimento de causa e por certo pela voz da experiência e do muito saber dela feito, João Lopes vai falar hoje, terça-feira, às 18 e 30 horas, sobre o seu métier na conferência Crítico e Argumentista, integrada num ciclo dedicado às Profissões do Cinema, promovido pela Universidade Católica de Lisboa. O encontro é na sala 122 da Faculdade de Ciências Humanas daquela universidade e o crítico, que começou no República e passou pelo Expresso, colaborando agora no DN ou na revista Prémiere, vai enquadrar o exercício da crítica e da escrita de argumento no contexto da prática e do universo cinematográfico.

Sexualidade pessoana

É próprio dos mitos terem aspectos biográficos que fazem correr muita tinta, desencadear muitas polémicas e incendiar muitas plateias. Fernando Pessoa não é excepção. E Salomó Dori – o pseudónimo do colectivo de escritores valencianos Jordi Botella, Gustavo Cardenal, Pep Jordà, Ximo Lllorens e Manel Rodríguez-Castelló – não se deixou enganar pela teoria da sexualidade branca que os especialista atribuem ao autor de A Mensagem. Foram investigar o assunto, mais pela ficção do que pela suposta veracidade dos factos, e o resultado são estes cinco contos autobiográficos de Pessoa e dos quatro heterónimos Ricardo Reis, Alberto Caeiro, Alexander Search e Álvaro de Campos, reunidos em A Vida Sexual de Fernando Pessoa, uma edição da Palimpsesto. Um curioso e pouco ortodoxo exercício literário que evidencia a projecção internacional da obra pessoana, capaz de chegar à intimidade de leitores de vários pontos do mundo. O que, bem vistas as coisas, também é próprio dos mitos.

Vozes Búlgaras: workshop e digressão

Vozes Búlgaras Angelite, um dos mais originais coros do mundo está em digressão no nosso país. Hoje, terça-feira, 28, pelas 17 horas, no Instituto Franco-Português, alguns dos elementos do coro fazem um workshop destinado a pessoas que praticam canto ou ligadas a grupos corais. Os participantes poderão confrontar-se com as vozes quase 'irreais' destas mulheres, com o seu canto difónico (com a utilização da dupla corda vocal) e suas escalas modais com harmonias dissonantes. À noite, pelas 21 horas, o grupo actua em concerto. As inscrições para o workshop (15 euros por pessoa) podem ser feitas através do Instituto Franco Português (21 3111400) ou das Produções Ocarina (214121136 ou 969002573). O JL vai participar neste workshop e conta o que por lá se passou numa reportagem a sair no próximo número (nas bancas a 6 de Maio).
A digressão das Vozes Búlgaras segue no dia 30, para o Auditório do Ramo Grande, na Praia da Vitória. E nas seguintas datas: 1 de Maio, Teatro Faialense, na Horta; 2 de Maio, Teatro Micaelense, Ponta Delgada; 5 de Maio, Pazo da Cultura de Pontevedra, na Galiza; 6 de Maio, Fundação Eugénio de Almeida, Évora; 7 de Maio, Centro de Ares de Sines; 8 de Maio, no Cineteatro Pax Julia, em Beja (concerto com a participação de António Zambujo); 9 de Maio, no Teatro Baltazar Dias, no Funchal; 10 de Maio, na Casa das Artes, de Arcos de Valdevez.

Segunda-feira, 27 de Abril de 2009

A não perder no Indie


Encounters at the End of the World, de Werner Herzog

Não se percebe porque é que Herzog, que já se deslocou aos locais mais improváveis do planeta, não há-de vir também a este fim do mundo, ou fim da Europa, que é Portugal, durante a 6ª edição do Indie, onde é homenageado, enquanto herói independente. Pode ser que venha, ainda não está é confirmado. De qualquer forma, o público irá encontra-se com ele, em mais um dos seus filmes de fim do mundo, que nunca teve oportunidade de ver as luz dos projectores nas salas de cinema portuguesas. Encounters at the End of the World é um documentário rodado no ponto exacto para onde todas os meridianos do planeta convergem. Não se espere mais um filme sobre pinguins… Encounters… vem sempre acompanhado pelo olhar assombrado e pela própria voz de Herzog, em off. E, de facto, é um documentário especial, porque o realizador alemão (que agora é mais ou menos do mundo) tem um daqueles olhares de criança, ou de poeta, que ainda guardam a extraordinária capacidade de se deslumbrar com as coisas mais corriqueiras da vida. Diz-se que as pessoas normais se ocupam de coisas especiais, os verdadeiros sábios apenas de coisas normais – tão normais como uma estalactite de gelo numa gruta ou um catterpiller a abrir caminho entre a neve suja. Herzog faz do cinema uma reflexão, a muitos graus abaixo de zero, na latitude sul 66º, onde durante cinco meses não existe noite. Este pólo não está ocupado, como nos clichés, de iglus, mas de laboratórios, barracões, escavadoras, barulho, confusão como nas terreolas recentes dos filmes do faroeste. E é este ponto, infinitamente branco – tão branco que se torna azul – , que Herzog filma e disseca. Não só as focas e as estrelas-do-mar debaixo de gelo. Mas a outra fauna humana tão especial, que na realidade o habita: cientistas, sábios, biólogos, glaciologistas… Herzog chama-lhes «sonhadores profissionais».

Domingo, 3, 16 , São Jorge 1


Singularidades de uma Rapariga Loira, de Manoel de Oliveira

É um dos grandes acontecimentos do IndieLisboa, que tem sido amplamente publicitado. Singularidades de uma Rapariga Loira, o primeiro filme de Manoel de Oliveira depois dos 100 anos, vai ter a sua ante-estreia nacional no festival. Oliveira adapta o conto de Eça de Queirós transpondo-o para os nossos tempos, numa média-metragem de 63 minutos. Num estilo muito seu, cria facilmente uma sensação de espanto, um anacronismo transversal à obra e uma despreocupação com pormenores importantes para a credibilidade da história. Do elenco fazem parte os habituais Ricardo Trêpa e Leonor Silveira, mas quem realmente se destaca é Catarina Wallenstein. A jovem actriz tornou-se a figura do momento do cinema português, e aqui é uma rapariga loira deslumbrantemente singular.

Terça, 28, 22, Cinema São Jorge 1

The Happiest Girl in the World, de Radu Jude

O cinema romeno teve a sua efervescência, com uma mão cheia de bons filmes surgidos nos últimos dois anos. Mas agora corre o risco, no caso dos seus autores não reincidirem com filmes de qualidade, de se tornar fora-de-moda. Radu Jude era uma das promessas. E este ano tornou-se certeza. Em 2007, ganhara o prémio para a melhor curta-metragem, num filme sobre a Roménia profunda, chamado The Tube with a Hat. Agora estreia-se no formato longo, com A Rapariga mais feliz do mundo. Não será um Sr. Lazarescu, nem um 4 meses, 3 semanas e 2 dias. Aproxima-se antes do realismo satírico de 12:08 A Este de Bucareste, de Corneliu Porumboiu. A obra conta a história de uma jovem que ganhou um carro num concurso de um sumo de laranja e consequentemente é forçada a gravar um anúncio à marca. Numa estrutura minimal, Radu Jude expõe as contradições de um país em vias de desenvolvimento, mas que sabe rir de si próprio

Sexta, 1, 21.45, Londres 1

Ricky, de François Ozon

No ano passado, François Ozon trouxe ao Indie um filme chamado Angel. Mas só este ano ganhou asas, com Ricky. Ganhou asas literalmente. O filme tem todos os contornos de banalidade, até com alguns pormenores de mau gosto, com o uso abusivo de lugares comuns. Mas a meio tudo muda, quando Ricky, o bebé, filho de um casal disfuncional, deixa crescer umas asas e aprende a voar. Tudo se transforma. E é, acima de tudo, o próprio filme que se liberta, no domínio de um fantástico realista. Ou de um surrealismo contido. Há todo um universo de possibilidades que se abre juntamente com as asas do bebé. Mas o filme, tecnicamente exemplar, também pode ser entendido como uma metáfora sobre a perda de um filho. Certo é que Ozon se transcende e se eleva ao nível do coração dos pássaros, onde mora a felicidade.

Sexta, 1, 21 e 45, São Jorge 1

Dernier Maquis, de Rabah Ameur-Zaïmeche

Durante os 90 minutos desta película, não aparece uma única mulher. Nem como secundária, nem como figurante, nem sequer a passar distraidamente em plano de fundo. É um filme de homens num mundo de homens. De imigrantes, operários e muçulmanos. Onde tudo se mistura como faces concorrentes da mesma luta: religião e relação patronais. Não há Satã. Não há infiéis. O filme passa-se numa extraordinária comunidade árabe algures perdida em França, que é, acima de tudo, uma comunidade laboral. Parece enquadrar-se na tendência, apontada em O Segredo de um Cuscuz, para dar voz à larga comunidade árabe em França. Para espreitar pelo buraco da fechadura e descobrir este mundo que nos é particularmente estranho. Só que radicaliza o conceito, abolindo todos os franceses, e deixando de parte as questões de integração. Ali está tudo perfeitamente integrado, aquela fábrica é uma colónia islamita, e desenquadrados estão aqueles que ainda não se converteram. O chefe constrói uma mesquita, com o duplo objectivo de chegar ao paraíso e manter a concertação social com os seus trabalhadores. Mas a luta de classes é inevitável. E não se pode servir dois deuses ao mesmo tempo.

Sexta, 1, 18 às 30, Cinema Londres 1

Crítico, de Kleber Mendonça Filho

Todo o mundo tem pele fina, mesmo… Este documentário brasileiro, filmado ao longo de dez anos, foca os dois lados da barricada: de um lado a crítica, do outro os criticados, realizadores e actores de cinema. Curiosamente em vez de um tiroteio de parte a parte, Kléber consegue uma polifonia de discursos e análises. Em vez de duelo, Kléber consegue diálogo. Aliás, o filme passa na secção Director’s Cut, que tem esta vocação de pensar o cinema. Recorrendo a cerca de 70 testemunhos, recolhidos em festivais e ante-estreias (de Gus Van Sant a Carlos Saura), a imagens de épocas díspares, entremeadas de uma forma particularmente hábil e feliz, relata-se como se sente esta estranha metamorfose, das imagens em movimento da tela até às palavras estáticas dos jornais. Muitos contam como uma má crítica, uma análise leviana ou mesmo injusta pesa tanto como uma agressão a um filho. Outros realizadores não se sentem tão pessoalmente atingidos por estas reinterpretações das suas obras. Os mal-amados críticos são intermediários entre o filme e o público. E, neste sentido, «todo o crítico é um passador». Afinal, só pode haver uma boa crítica quando a matéria-prima é boa. O bom cinema é formador. E, como se diz no documentário, é impossível ser-se especialista em samba no Japão.

Terça, 28, 15 e 15, Classic Alvalade 1, Domingo, 3, 21e 30, Classic Alvalade 1

Muitos Dias tem o Mês, de Margarida Leitão

O endividamento das famílias portuguesas é um tema deste documentário de Margarida Leitão. Um filme de uma actualidade extrema, que procura mostrar a complexidade deste problema que assola milhares de famílias. A realizadora procura abordar a questão de diversos ângulos, desde o balcão da DECO, às casas de penhores, passando pelos leilões imobiliárias e as confissões intimistas de vários devedores. Sobretudo revela uma notável dimensão humana. Num filme urgente, que pode ser tomado como uma obra sóbria de intervenção social. Porque a maior lição que se toma é que é preciso manter-nos alerta numa sociedade em que o apelo ao consumo se torna tantas vezes irresistível.

São Jorge, dia 27, às 21 e 45; Londres, dia, às 21 e 45

La belle personne, de Christophe Honoré

Não é de agora o interesse do cinema pela escola. Basta lembrar Jean Vigo, e o seu Zero em Comportamento (de 1933), para perceber quão frutíferas são as relações, os conflitos e as paixões sociais que se desenvolvem durante as aulas, os convívios nos pátios e as tertúlias dos cafés. Em intensidade, talvez se assemelhem mesmo ao ambiente das cortes das velhas monarquias absolutas. Não é, por isso, descabida esta adaptação que Christophe Honoré, realizador de Dans Paris, fez do clássico romance psicológico de Madame de La Fayette, La Princesse de Clèves. A chegada da bela Junie, a meio do ano lectivo, vem desconcertar o equilíbrio da turma. Rapidamente se estabelecem jogos amorosos, que escondem, substituem e se sobrepõem aos já existentes. Amantes e amados, traidores e traídos desfilam perante a câmara num subtil bailado que tem tanto de encenado, como de familiar. Se os atributos de Louis Garreal, que participou em quatro filmes de Christophe Honoré, eram conhecidos, é surpreendente o desempenho de Léa Seydoux. É o fio condutor desta comédia de enganos, reclamando a atenção do espectador quando estes sentimentos se revelam excessivamente contidos para os dias de hoje.

Cinema City Classic Alvalade (Sala 3), dias 29 Abril, às 18 e 15, 1 de Maio, às 21 e 45, e 3 de Maio, às 18:15

João Rosas: London Calling

De um lado, Yasujiro Ozu, do outro, Pedro Costa. De um a forma de conceber o enquadramento. Do outro a radical postura face à indústria do cinema. É nestas duas grandes referências que João Rosas procura inspiração para mergulhar no mundo da sétima arte, na qual começa a dar os passos decisivos. Depois de algumas curtas-metragens e da frequência do Programa Gulbenkian Criatividade e Criação Artística, o realizador português, nascido em Lisboa, em 1981, leva ao Indie Lisboa a sua estreia na longa-metragem. Em Birth of a City, que passa hoje, às 21 e 45 , no Cinema Londres (com nova exibição, na mesma sala, dia 1 de Maio, às 15), lança-se um olhar sobre a cidade onde viveu nos últimos três anos. E é no confronto com a pintura de Claire Fahys que Londres, afastada dos circuitos turísticos, se revela. Num registo íntimo e diarístico, esta «tentativa de filme», como João Rosas lhe chama, feita de fragmentos do quotidiano, é uma resposta ao apelo da cidade.

Jornal de Letras: Este documentário é o testemunho de uma relação ambivalente com Londres, entre o amor e o ódio, a identificação e a estranheza?
João Rosas: Sim, há muita admiração, mas também distância. Por um lado, sentia-me londrino, por outro, continuava a ser um estrangeiro. Mas essa é a própria riqueza da cidade, como digo no início do filme. Por mais coisas que não goste, continuo a adorá-la. Acima de tudo, é uma homenagem a uma Londres que senti necessidade de ‘embalsamar’ dentro de mim.

É por isso um retrato de uma cidade habitada por pessoas e por circuitos turísticos?
Exactamente, porque esses circuitos turísticos não faziam parte do meu dia-a-dia. O filme é fruto de uma relação directa com Londres, como se estivesse a fazer um diário daqueles bairros do leste da cidade, que estão a passar por uma profunda recuperação urbana e artística, por causa dos Jogos Olímpicos.

Como surgiu depois a pintura?
Sempre me interessou fazer um filme sobre Londres, sobretudo porque me fascina a quantidade de vidas que é possível viver nela. Mas a certa altura via-me num beco-sem-saída. A dificuldade era ter a cidade como personagem principal. A pintura surgiu por acaso. Uma noite, estava à porta de um bar, a fumar um cigarro, quando conheci uma rapariga que me disse que pintava cidades. Outro acaso levou-me ao conhecimento da sua obra. Quando me disse que ia começar um novo quadro decidi arriscar, mesmo não tendo nada planeado. As filmagens no estúdio foram feitas primeiro, só depois o discurso sobre a cidade.

Num jogo de espelhos, a montagem do documentário sugere que se conhece melhor a cidade através da pintura, e a pintura através da cidade.
Foi essa a intenção, embora tenha evitado fazer um filme sobre artes. Tal como ela usa padrões e colagens, eu tentei criar essa sensação de camadas, de sentidos que se sobrepõem, como se fosse de facto um diário da minha vida em Londres. Porque os jornais, as lojas e os transportes que faziam parte do meu dia-a-dia estão lá todos.

Por que razão privilegiou a câmara fixa, sem movimento?
É uma opção estética, um registo que sempre me interessou e que já vem das curtas-metragens, na linha de um realizador japonês que gosto muito, Yasujiro Ozu. Além disso, há um aspecto prático: filmei sempre sozinho. No entanto, mesmo com outros meios, seria igual. A ideia foi escolher os enquadramentos e deixar que a cidade entrasse na sua coreografia.

O Senhor Valéry no palco

«O Senhor Valéry era pequenino, andava sempre a pé, vestia sempre de negro. Tinha medo da chuva, tinha uma casa sem volume onde passava férias e um animal doméstico que nunca ninguém tinha visto. Não gostava da sua sombra, não gostava de competir, era perfeccionista. Era distraído: não confundia a mulher com um chapéu, como sucedia com algumas pessoas, mas confundia o chapéu com o seu cabelo. Conhecia apenas duas pessoas: a pessoa que ele era, nesse exacto instante, e aquela que ele tinha sido, no passado». Palavras de O Senhor Valéry, de Gonçalo M. Tavares que (a 1 de Maio, pelas 21 e 45) vão subir ao palco pela mão da companhia Pé de Vento, no Teatro da Vilarinha, no Porto. Com encenação de João Luiz, conta com as interpretações de Anabela Nóbrega e Rui Spranger. O texto é o primeiro do conjunto dos Senhores, de M. Tavares, que com ele recebeu o Prémio Branquinho da Fonseca, atribuido pela Fundação Calouste Gulbenkian. Já em 2007, o Pé de Vento encenou O Senhor Juarroz, da mesma série. O espectáculo, classificado para maiores de 10 anos, estará em cena até 30 de Maio - sextas, às 21 e 45, e sábados, às 16 e às 21 e 45; de 3.ª a 6.ª, às 11 e às 15 horas, para público escolar.

Domingo, 26 de Abril de 2009

Rita Lello nomeada para o Festival de TV de Monte Carlo

A actriz Rita Lello acaba de ser nomeada na categoria de Outstanding Actress (Drama), na 49.ª edição do TVFest09 – Monte Carlo Television Festival, pela sua prestação na série da RTP1 Liberdade 21. Rita Lello, 38 anos, actriz e encenadora, está na Barraca há vários anos, tendo recentemente encenado Peça para Dois, de Tennessee Williams do qual foi protagonista. Está neste momento a encenar A Bicicleta de Faulkner, um texto contemporâneo da dramaturga Norte Americana Heather MacDonald, distinguida com o Prémio Hellen Hayes para Outstanding Play. O espectáculo contará com Maria do Céu Guerra no papel principal e música original de Bernardo Sassetti. A actriz estreou-se no teatro em O Conto de Inverno, de Shakespeare, numa encenação de Luís Miguel Cintra. Mais recentemente participou em peças como A Profissão da Sra. Warren, de Shaw, Deixa-me rir, de Alistair Beaton ou Jantar de Idiotas, de Francis Weber sendo actualmente responsável pelo núcleo de produção para a infância d’A Barraca.

Rita Lello, em Peça para Dois, de Tennessee Williams. Foto de: Luís Rocha

Sábado, 25 de Abril de 2009

25 de Abril: uma revolução com banda sonora

Grândola Vila Morena, na versão de Amália Rodrigues





É uma das muitas incongruências da mítica figura: o que terá levado Amália a cantar Grândola Vila Morena? Com o 25 de Abril, a fadista passou de heroína popular a memória do fascismo e, por isso, alvo a abater. Houve quem lhe chamasse uma Senhora PIDE, com nítido e exagero, pois Amália nunca teve qualquer conivência com a polícia política. Sabe-se, contudo, que chorou no enterro de Salazar. E o sinistro ditador referia-se a ela como a «criaturinha». Mas também se diz que entregou dinheiro ao PCP ou a alguém ligado ao PCP. Álvaro Cunhal quis levá-la à Festa do Avante!, mas ela sempre se recusou. De esquerda ela não era. Mas no pós-25 de Abril confundiram-na com uma fascista que talvez também não fosse. E numa altura que até a direita tinha um discurso de esquerda, Amália, para dissipar qualquer dúvida, gravou o hino da Revolução dos Cravos, Grândola Vila Morena. Mas nunca ergueu o punho a cantar, isso é grantido.
Este vídeo tirado do Canal História vale também pelas imagens e pela forma com explica a Revolução. Uma revolução com banda sonora: primeiro E Depois do Adeus, cantada por Paulo de Carvalho. Depois A Grândola, de José Afonso. Outras revoluções virão.

Sexta-feira, 24 de Abril de 2009

Não mais do que desamparo

THIS IS ENGLAND, DE SHANE MEADOWS




Poucos sentimentos humanos são mais devastadores do que o medo. Com a ganância, é talvez a causa que mais vezes encontramos associada ao mal e a todas as suas formas. No filme de Shane Meadows, This is England (vencedor do BAFTA para melhor filme britânico do ano), Shaun (deslumbrantemente interpretado pelo muito jovem Thomas Turgoose) é uma criança aterrorizada pela sua própria fragilidade: o pai morto na Guerra das Malvinas, o bullying de que é alvo na escola, a desesperança da mãe e a fealdade da cidade em que vive mergulham-no num estado próximo da depressão. Até ao dia em que um grupo de punks o toma sob protecção e Shaun volta a ter pequenos sonhos que lhe iluminam o rosto: umas botas Doc Martens, um novo corte de cabelo, uma primeira namorada, mais velha e experiente como fica bem a um rapaz da sua (pouca) idade. Não são felizes para sempre. No seio desta nova e benigna família há-de infiltrar-se Combo, um skinhead saído da prisão, a quem o desamparo há muito conduziu à violência e ao racismo.
Shane Meadows (nascido em 1972) é um herdeiro confesso da tradição realista britânica, de que são intérpretes maiores realizadores como Ken Loach ou Mike Leigh. This is England, ambientado na democracia musculada (chamemos-lhe assim) de Thatcher, é dominado por conflitos laboriais e sociais muito graves, em que o desemprego (ou o subemprego) do proletariado desencadeia, entre outros fenómenos, a hostilidade contra os emigrantes (nomeadamente indianos e paquistaneses) e o chauvinismo. Para este panorama sombrio, o regime encontra fórmulas anestesiantes de diversão como o «casamento do século» entre Carlos e Diana e a «última guerra patriótica», contra a Argentina, pela posse das minúsculas ilhas Malvinas. Em pano de fundo, bandas punk como os Joy Division ou os Sex Pistols dão o mote musical: temas como Anarchy in UK ou God Save the Queen não deixavam margem para dúvidas. O mau-estar grassava e tomava a forma de uma crise de identidade. Perdido o sonho do Império e do rule Britannia, o que restava ao britânico médio?
Shane Meadows, que cresceu nesta Inglaterra proletária e sombria (mas, como tantas vezes nos dois últimos séculos, na vanguarda cultural), constrói uma narrativa brilhante, sem maniqueísmos nem lições de moral. Demonstra como, insidioso, o mal cresce num grupo humano à semelhança dos cancros: invariavelmente a partir de dentro e com as mesmas consequências letais. Compassivo com as suas personagens (que parece conhecer tão intimamente), o realizador nunca as reduz a uma só dimensão: hesitam, confundem-se, perdem-se, reencontram-se até ao momento em que uma tragédia as submete a um esforço da clarificação. A entrada em cena de Combo destruiria, para sempre, a cândida proposta subversiva dos amigos de Shaun e colocava-os precocemente face a escolhas de vida ou da morte. Destas, há-de depender a perda ou a salvação de todos eles.

This is England, de Shane Meadows, com Thomas Turgoose, Stephen Grahanm, Jo Hartley, Andrew Shum, Vicky McClure, Joseph Gilgun.122 minutos. G.B, 2006

Os contos de John Cheever

John Cheever (1912-1982) é um dos grandes nomes da tradição norte americana da história curta, na linha de Sherwood Anderson, J. D. Salinger e Raymond Carver. Ao longo da vida escreveu inúmeros contos, quase todos publicados inicialmente na revista The New Yorker. É essa monumental produção que a Sextante começa agora a publicar em Portugal, em dois volumes, depois de ter editado um dos seus romances, Falconer.
Os contos estão organizados cronologicamente, sendo o primeiro volume, já nas livrarias, preenchido com os passos iniciais de Cheever neste género literário, após a sua passagem à reserva no fim da II Guerra Mundial. São histórias de um «mundo há muito desaparecido, quando a cidade de Nova Iorque ainda era inundada pela luz do rio, quando se ouvia Benny Goodman no rádio da papelaria da esquina e quando quase toda a gente usava chapéu», escreve o escritor norte-americano no prefácio. E acrescenta: «Os pontos comuns que procuro nesta parafernália por vezes datada são o amor pela luz e uma determinação em definir um elo moral da existência. Calvino não desempenhou papel nenhum na minha educação religiosa, mas a sua presença parecia pairar nos celeiros de quinta da minha infância, tendo-me deixado uma excessiva amargura».

O mais novo coro mais velho do mundo


Young@Heart, de Steven Walker






O filme começa com uma senhora de 90 anos a cantar, sussurrando, ao microfone, Should I Stay or Should I go, dos Clash. É um delicioso aperitivo na apresentação do mais insólito coro do mundo. Os Young@Heart são formados por cerca de 20 idosos e o seu reportório é feito, essencialmente, à base de punk, soul e rock. Clash, James Brown, Talking Heads ou Sonic Youth são algumas das bandas visitadas por estes indomáveis gerontes. O documentário, de Stephen Walker, é construído num tom de Isto é Incríve!l. E na verdade é. Apanham-se momentos encantadores e quase insólitos, ao mesmo tempo que se aprecia uma fantástica vontade de viver a vida, numa idade em que, aparentemente, não há muita vida para viver. É essa adrenalina que os move nesta adolescência mais que tardia, mesmo quando, confessos apreciadores de música clássica, vão para os ensaios de tampões nos ouvidos, porque tudo aquilo faz muito barulho, ou discutem que lado do CD deve ficar para cima. Um filme fresco e ironicamente jovem.

Sexta, 24, 15 e 30, Classic Alvalade 3
Sábado, 25, 21 e 45, Classic Alvalade 3
Terça, 28, 15 e 30, Classic Alvalade 3

Noé Sendas na Filmoteca Espanhola

The Indifferent, um vídeo de Noé Sendas, passa hoje, às 22 horas, na Filmoteca Espanhola, em Madrid. Trata-se de um trabalho em que o artista plástico português, a viver em Berlim, usa fragmentos de filmes negros e de obras dos anos 70, trabalhando as imagens numa remontagem e construindo uma narrativa própria.
Noé Sendas apresenta, entretanto, Reserved, na Galeria Fernando Santos, no Porto, até 27 de Maio. É uma exposição em que se pode ver um conjunto de imagens digitais, inquietantes e estranhamente familiares, trabalhadas a partir de imagens risqué anónimas, caídas em domínio público. São uma pequena parcela do novo corpo de trabalho do artista, constituído por 9000 dos anos 50, retiradas da Net, um arquivo que permite a continuidade do projecto que tem desenvolvido nos últimos anos, fortemente implicado nas próprias ideias de colecção e de coleccionador.
Fotogramas de The Indifferent (em cima) e imagens da exposição Reserved.

O Deserto dos Tártaros, Dino Buzzati

«Parece-me que foi ontem que cheguei à Fortaleza, dizia Drogo e era mesmo assim. Parecia que tinha sido ontem, contudo o tempo não deixara de se dissipar com o seu ritmo imóvel, igual para todos os homens, nem mais lento para quem é feliz, nem mais veloz para os desventurados».

Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

Cada ribanceira é uma nação

«Rio de ladeiras/ Civilização encruzilhada/ Cada ribanceira é uma nação», sempre que entro no Facebook ou no Twitter ocorre-me esta música de Chico Buarque. Naturalmente, quando Chico escreveu Estação Derradeira, estava a pensar nas favelas, que escorrem pelos morros do Rio de Janeiro, como se fossem ribanceiras, ao mesmo tempo que se fecham nas suas próprias leis como se fossem estados.
O Facebook e o Twitter são mundos enclausuradamente abertos. Existe um eu hiper-enfático, numa arrogância existencial, como se o mundo girasse à volta do ego e se interessasse por cada passo, cada impressão ou cada sentimento do indivíduo. E assim se transformam os mais insignificantes pormenores do quotidiano em algo digno de ser noticiado e comentado, muitas vezes numa voluntária abdicação da privacidade.
Essa abdicação da privacidade transforma estes mundos em algo exemplarmente aberto, de entidades desprotegidas de capas, segredo e mistérios, iludindo-nos com uma transparência que, evidentemente, nunca chega a ser efectiva. Os programas em causa espelham uma necessidade de comunicação, de exasperadamente alcançar o outro, numa sociedade que, segundo se diz e se queixam os analistas, perigosamente se fecha. É essa bipolaridade que torna a coisa interessante: estes cibernautas ao mesmo tempo que se fecham percorrendo com o teclado todos as saliências dos seus umbigos, exibem esplendorosamente o umbigo ao mundo, sobrevalorizando-o para bem da auto-estima.
O Facebook e o Twitter são ou podem ser, claramente, mais do que isso. É um meio de comunicação totalmente novo com potencialidades brutais. Que de outra maneira se poderia comunicar como 50, 100, 200 ou mil pessoas em simultâneo? É uma forma de estar diferente. Há amigos do Facebook que quando se cruzam na rua fazem de conta que não se conhecem, porque, simplesmente, não têm nada para dizer um aos outro. E há outros que se tornam amigos no Facebook. Enquanto as instituições já se aperceberam da importância que os meios estão a adquirir e investem massivamente. Mas o balanço é positivo. O Facebook e o Twitter aproximam as pessoas, num mundo cada vez mais distante.

Narrativa do tempo

O conceito de memória e a condição da fotografia são as linhas de força da quarta exposição individual de João Leonardo. A ideia de tempo tem sido constante no seu trabalho, nomeadamente através da apresentação do resultado acumulado de uma mesma actividade ao longo de dias, meses ou anos. Assim era com as palavras cruzadas e os maços de cigarros utilizados para as concluir, em As Time Goes By, e agora em Timeline.
O artista, nascido em 1974, em Lisboa, partiu do seu arquivo de imagens digitais, que tem vindo a criar nos últimos cinco anos, para dar corpo a uma enorme instalação de 48 metros, que se estende ao longo da Galeria 111, em Lisboa, onde a exposição está patente até 30 de Maio. Os temas são os mais variados – paisagens, natureza mortas, retratos, abstracções, animais, viagens, manifestações políticas, edifícios, objectos, comidas, mas é nessa dispersão que as peças deste puzzle formam uma inesperada narrativa. «A diversidade e o aparente caos são tão mais surpreendentes como a própria simplicidade do trabalho», lê-se na apresentação da mostra. «O olhar individual de quem produz a imagem é o fio condutor real que nos permite ver – como num espelho – a própria imagem do criador». A exposição encerra com um vídeo em que João Leonardo se auto-entrevista, inspirado na obra do artista plástico Lucas Samaras. Porque esta linha do tempo, esta narrativa, é sobretudo interior.

14.º Festival Sementes

«Mostrar às crianças e jovens do nosso país, um leque o mais variado possível das diferentes estéticas e áreas artísticas, de forma a muni-los de referências que os permitam formar um espírito crítico em relação à forma e aos conteúdos veiculados por esses objectos artísticos», é segundo Rui Cerveira, director do 14.º Festival Sementes – Mostra de Artes para o Pequeno Público, um dos objectivos principais da programação, organizada, como sempre, pelo Teatro Extremo. De 2 de Maio a 7 de Junho, mais de 30 companhias de países como Portugal, Espanha, França, Itália, Holanda, Reino Unido e Suíça apresentam espectáculos de teatro, dança, marionetas, música, circo, magia, além de exposições e animações de rua. As actividades estendem-se por palcos, praças e jardins de 11 municípios (Almada, Aveiro, Barreiro, Cascais, Moita, Montemor-o-Novo, Odivelas, Palmela, Santarém, Seixal e Sesimbra) e iniciam-se com a animação de rua Cogumelos, da companhia francesa Théâtre de la Toupine, às 10 e 30, no mercado do Feijó, e às 16, no Largo Gabriel Pedro, em Almada. Às 22, na Praça da Liberdade, também em Almada, pode ver-se Colecção de Borboletas, pela companhia britânica Neighbourhood Watch Stilts International Street Theatre. Ao longo do período do festival, de terça a sexta, às 10 e 30 e 15 horas (para escolas, por marcação), sábados, às 16, e domingos, às 11, o Teatro da Malaposta e Klássikus apresentam João e o Pé de Feijão, com texto e encenação de Fernando Gomes. Na Biblioteca D. Dinis, em Odivelas, dias 8 e 9 de Maio, decorre uma das actividades mais originais do Sementes: Contar Carneiros – Adormeço num conto, acordo no teatro, no qual crianças e pais são convidados conhecer a biblioteca e a visitar a exposição O tamanho da minha altura, com ilustrações de Marta Neto, para o livro de Suzana Ramos, e a passar a noite a contar e a ouvir histórias, e depois adormecer ao som de histórias, poesias, canções e lengalengas. De manhã haverá o atelier de pintura com Teresa Roriz. Estas e muitas outras actividades compõem o Sementes. Mais informações através do 212723660.
Foto: Colecção de Borboletas, pela companhia Neighbourhood Watch Stilts International Street Theatre

Quarta-feira, 22 de Abril de 2009

O Anel do Poço, de Paulo Teixeira

O Poço

Mas é aí que tudo acontece,
nos lugares aonde nunca fomos -

o ar ergue a ponte pênsil,
elevada meio tom acima da voz,

acima das frases que se precipitam
e a si chamam as atenções gerais,

membros da confraria sem o sabermos
na pausa fumegante, aérea:

consoante surdas, explosivas,
viajam no ar e na água,

abruptamente caem,
o centro de interesse,

no poço do elevador ou da mina,
para sempre desfocado.


A inquilina em Motzstrasse

Um desígnio: escapar às malhas do real,
enredar na sua vidas imaginárias,
ídolos, crenças, tabus, ordenar
os nomes onde se perde, em elipses,
nas palavras das baladas e canções,
o rasto aos amigos alegóricos;
dispô-los de maneira a regurgitarem
a página de segredos, mitos,
pseudónimos, máscaras,
construir uma biographia literaria
onde a vida verídica, a vénus
oriental & o andrógino verdadeiro
renunciam à vida oficial,
a vida que não passa de um ensaio
entre gentes, lutos, leitos, parábolas,
trocar, títere e personagem
vestida de roupas masculinas,
a escura vida em que desposou
este e aquele, o Bárbaro, o Nibelungo,
por um reino de poder e domínio
no Egipto ou no Eufrates.

A hora nua e os dias breves
de Janeiro verão seguir,
com o séquito de sombras,
na barca de passagem, o rei,
o imperador invisível de Tebas.

Se não tardar o mestre das horas.


O empregado

So gegen sieben Jahre lebte ich
dann in Berlin als ems'ger Prosaist
[Durante cerca de sete anos também eu
vivi então em Berlim como diligente prosador]
R. W.

Não tinha morada fixa
nem cartão de visita.

Nada na sua vida,
à parte a crispação nervosa
e as hesitações da escrita,
parece digno de menção.

A caligrafia mínima
e uma particular disposição
para a tristeza não constam
da magra folha de serviços.

Sem carta de rota,
sem identidade conhecida,
foi evitando as vias principais,
abrindo com os passos um trilho
neste sudário: passou traves, cancelas,
foi, duende, estranho fantasma,
ver tinir a luz das cidades na distância.

Tendo desistido de tudo
(família, relações, as simples
futilidades da conversa),
o único prazer era este: evadir-se,
ser como o vadio onde a desventura
como o pedaço de carvão incandescente
brilha, é um sol interior que arde
e ilumina a casa sem portas nem janelas
que é o ser - ir, só, melancólico, absorto,
até ao limite da resistência passiva,
até à capitulação final.

Vestiu o casaco de lã e hoje
deixou na neve escrita a vida
tão gratuita como uma pantomima.

Do novo livro de poemas de Paulo Teixeira, O Anel do Poço, uma edição da Caminho.

Nas Bancas

Indie, 2009 - Cinema do Mundo
Homenagem a Herzog • A ante-estreia de Manoel de Oliveira • Entrevistas a três realizadores portugueses • 10 filmes a não perder • Indie Júnior

Curadores, anos 2000 - A Arte de fazer exposições

Entrevistas: Ian McEwan, Paul Theroux, Juan Manuel de Prada e Sebastian Barry

Um inédito de Pessoa, comentado por Jerónimo Pizarro

Murilo de Carvalho: a língua e o livro, por Manuel Alegre

Os Dias da Música em Belém

Mísia e Tereza Salgueiro falam dos novos discos

As crónicas de Gonçalo M. Tavares, Helder Macedo e José Luís Peixoto

A autobiografia de Carlos Vale Ferraz

As páginas infinitas de Saramago

Chamou-lhe a página infinita e dificilmente se poderia dar melhor nome à blogosfera. Difícil ainda seria achar um blogueiro mais arguto e interventivo do que José Saramago. Eis que chega às livrarias, a 23 Dia Mundial do Livro, O Caderno (uma edição Caminho), que recolhe o que o Nobel da Literatura escreveu diariamente nessa página infinita, no seu blogue, entre Setembro de 2008 e Março de 2009. São reflexões, opiniões, críticas de Saramago sobre os mais variados assuntos, agora em páginas impressas. Uma viagem na net, depois do magnífico A Viagem do Elefante.

Tomar o Sol

Esta é a história dos trabalhadores da Al-Bababule, uma fábrica de bules em pleno Alentejo. A vida corre ligeira até que surge uma notícia: o combustível vai acabar. Que fazer? Como será possível continuar a produção? Vão ser todos despedidos? Ou haverá maneiras alternativas de encontrar energia? A peça compõe a iniciativa Tomar o Sol, que o Teatro Fórum de Moura acaba de estrear - em cena até 29 de Maio - e que tem como objectivo ser «um projecto artístico, científico e didáctico sobre o sol enquanto energia alternativa, renovável e não poluente». Texto e encenação de Jorge Feliciano (com o colectivo). Destinada à população escolar, mas também a outros grupos organizados, Tomar o Sol, é também uma exposição pedagógica baseada em pesquisas científicas e na sabedoria popular onde se explica, por exemplo, por que se diz que o sol é a alegria de cada dia. Em Moura, no Bairro da Saluquia (R. Cardeal Lacerda, 8), às 10 e às 14 e 30. Marcações através dos telefones: 931162816 e 285254464. Mais informações em: www.teatrofmoura.org.

Terça-feira, 21 de Abril de 2009

Paisagens familiares



Há uma profunda melancolia nas imagens que compõem a nova exposição de Raquel Mendes, Verosímil, patente na Galeria Sopro, em Lisboa, até 16 de Maio. Recorrendo à fotografia e ao vídeo, a artista capta ambientes e paisagens familiares, em que os recantos, os objectos, as mobílias, os rostos e as marcas do quotidiano revelam histórias que as palavras não sabem contar. Porque é de tempo e de espaço, de silêncio e de memória, de imaterialidades que estas imagens nos falam. São retratos de casas habitadas por pessoas, de pessoas habitadas por emoções. São retratos de uma vivência concreta, que não foi encenada e que Raquel Mendes, nascida em 1978, em Setúbal, registou para criar, no seu conjunto, uma narrativa que tem tanto de verdadeira, como de imaginária. «Existe uma elegante, directa simplicidade no [seu] trabalho multi-media. Os trabalhos de vídeo são filmados em tempo real, sem edição, nenhuma manipulação. Os assuntos que capta com a câmara – a casa, pertences pessoais, e reuniões de família – são familiares a todos nós», escreve John Calcutt na apresentação da mostra. «E ainda o poder real do seu trabalho decorre de coisas – o chamado abstracções – que escapam totalmente à câmara: tempo e mortalidade, amor e perda. Debaixo da superfície de mundanas aparências do quotidiano, além do poder de descrição, Verosímil consegue transmitir algo mais, algo que evita o olho».

(clicar nas imagens para aumentar)

Nadir Afonso em livro

Mais de uma centena de pinturas e desenhos de várias fases, fotografias e textos do próprio pintor, num livro: Nadir Afonso: Itinerário (com)sentido. É um caminho possível para (re)descobrir os sentidos do trabalho de um artista de referência. A obra organizada por Agostinho Santos e editada pela Afrontamento será apresentada por João Fernandes dia 23, às 21,30 horas, na Biblioteca do Museu de Serralves.

Teatro da Terra

Teatro da Terra é o nome da mais recente companhia de teatro portuguesa, fundada e dirigida pela actriz Maria João Luís. Com sede em Ponte de Sor, no Alto Alentejo, pretende apresentar um repertório que «estabeleça, pela sua temática, uma relação de proximidade com a população, ao mesmo tempo que a coloca fora do seu meio num sentido cosmopolita que as artes em geral garantem», lê-se no primeiro comunicado da companhia. A Casa de Bernarda Alba, de Federico García Lorca foi a peça escolhida para a primeira apresentação «pela cercania do distrito de Portalegre com Espanha e pelo imediato reconhecimento da população deste constante ‘mourejar’ da vida do campo, dificultado pela falta de um homem em casa».

A batida de Fernando Pinto do Amaral

Depois de conhecer O Segredo de Leonardo Volpi, o recém-lançado romance de Fernando Pinto do Amaral, fiquei com curiosidade em saber da música do próprio Leonardo. Estará algures entre um Luís Gonzaga de segunda linha e um Tom Jobim de terceira, e é certo que, nos últimos anos, perdeu o fulgor. Mas ainda assim possui os dotes carismáticos dos grandes artistas, aqueles que iluminam tudo por onde passam, ou ensombream... Indiferente para o caso, desde que qualquer coisa aconteça.
Claro que o irremediável e velho Leonardo é apenas uma personagem de um romance, que simboliza os voos e quedas de uma geração que não se perdeu nem se encontrou. E o poeta que aqui se arrisca numa prosa longa separa claramente os géneros: um romance não é um poema, nem as palavras têm o mesmo preço. Contudo, numa estrutura criativa, interrompe ou congela a narrativa, com pequeno parágrafos que se podem assemelhar a uma reflexão, rasando por vezes a prosa poética. Como quem sustém a respiração. Opções hábeis num livro musical.

Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

O pequeno guerreiro de Xangai

O cinema tem esta capacidade avassaladora: James Graham Ballard, conhecido por JG Ballard, é autor de dezenas de novelas importantes, mas, no momento da morte (ocorrido no passado domingo, 19, aos 78 anos), os obituários publicados abriram invariavelmente com a referência à adaptação de O Império do Sol, por Spielberg, e com o facto da história nele contada, passada na Segunda Guerra Mundial, ser autobiográfica. Jamie, o pequeno inglês sobrevivente a um campo de internamento nipónico durante a IIª Guerra Mundial (brilhantemente interpretado por Christian Bale), não era outro senão o próprio escritor, nascido em Xangai a 15 de Novembro de 1930, filho de um químico que dirigia uma multinacional britânica instalada na China. O mundo privilegiado e glamouroso em que vivia, entre quadros ocidentais, foi bruscamente estilhaçado pela violência da guerra sino-japonesa e, posteriormente, pela entrada do Japão na IIª Guerra, ao lado de Alemanha e Itália.
Esta experiência brutal em tão precoce idade marcaram definitivamente a vida e a percepção dela no escritor, como testemunha nas obras O Império do Sol e A Bondade das Mulheres, mas o seu universo literário excede-a largamente. Nos últimos 40 anos, JG Ballard tornou-se um dos nomes maiores da literatura contemporânea britânica, primeiro na área da ficção científica e depois também noutras. Entre os seus livros mais conhecidos contam-se Crash (que deu origem a dois filmes, um de 1971 realizado por Harley Cokliss, e outro, de 1996, de David Cronenberg); The Day of the Creation; Cocaine Nights, Running Wild e Millennium People. Em Portugal, Solveig Nordlund adaptou ao cinema o conto de Ballard, Aparelho Voador a Baixa Altitude.

Gabriel Abrantes, Prémio EDP

Gabriel Abrantes é o vencedor do Prémio EDP Novos Artistas 2009. Com um trabalho desenvolvido na pintura, no cinema ou na instalação e na performance, o artista foi distinguido pela «energia criativa» do seu projecto, que aborda de forma «singular» o mundo contemporâneo globalizado, segundo o entendimento do júri internacional, que sublinhou ainda a capacidade de criação de «universos narrativos», onde se cruzam, através de várias linguagens, «visões sarcásticas da cultura, da política e do quotidiano». Mauro Cerqueira foi distinguido com uma menção honrosa, o que acontece pela primeira vez na história do Prémio EDP. As obras dos nove artistas finalistas podem ser vistas na exposição patente no Museu da Electricidade, em Lisboa. O filme Visionary Iraq, de Gabriel Abrantes, de que o JL traçou o perfil no seu número 1001 e que agora recuperamos, passa no Festival Indie Lisboa dias 24, às 19, no Cinema São Jorge, 26 e 30, às 15 e 45 e às 21 e 15, respectivamente, no Cinema Londres.

«Primeiro, foi a pintura, ainda no liceu em Washington, seguindo as pinceladas do irmão. Era então «muito pequeno» e pintar dava-lhe altura, elevava-lhe a auto-estima e o reconhecimento alheio. «Era quase o meu único poder social, a minha identidade», recorda. Carregou nas tintas, tirando o retrato aos colegas. De compulsiva e útil socialmente a pintura, inicialmente muito à maneira de Paula Rego ou de Lucien Freud, tornou-se ao correr do tempo uma prática constante e que lhe valeu a atenção da crítica logo nas primeiras exposições – Shitfest 2006 or Oh my god it was amazing, you should have been there, na Houghton Gallery, em Nova Iorque, Visionary Iraq ou 20 30 experiências no relativismo moral, na Galeria 111, entre outras. Tem agora outra utilidade: financiar os seus filmes.
Gabriel Abrantes, 24 anos, encontra no cinema uma forma de «preenchimento em termos sociais»: «No atelier, estou a fazer um esforço intelectual, mas a actividade social não é grande. O cinema tem vindo a cumprir esse espaço que foi a razão principal que me levou a trabalhar em arte». Também a possibilidade de realização de todas as artes. Tanto mais que o seu cinema está «longe de obedecer a qualquer convenção». Prepara agora um filme, em três «capítulos», que irá apresentar em locais distintos, a Maumaus - Escola de Artes Visuais, a ZDB e o Museu da Electricidade – é um dos finalistas do Prémio EDP Novos Artistas 2009 – para contar a história de um casal homossexual, em eco-férias na Amazónia, que decide ter um filho com recurso a uma barriga de aluguer e aos óvulos de uma irmã. Em cada um dos lugares, irá construir um cenário e filmar lá mesmo o que vai projectar nesse espaço. «É um filme dividido na cidade», adianta, sublinhando por outro lado a importância do «públicoalvo». «Houve uma grande abertura nas artes plásticas, como na escrita ou na filosofia, o que resultou numa grande perda de sentido. O capitalismo tem o objectivo de fazer dinheiro e esse é também o de Hollywood, que produz os filmes que têm sentido para o seu público-alvo. Eu opero da mesma maneira, procurando um público-alvo e um objectivo claro, até porque a maior parte das coisas que vemos hoje não querem dizer absolutamente nada».
Procura, aliás, diferentes ângulos de abordagem, como aconteceu em Visionary Iraq, um filme que fez sobre o Iraque. Aposta sempre num «exercício de imaginação». Fez já uma longa-metragem, O grande abraço de Gabriel Abrantes, em Trás-os-Montes, na aldeia dos seus bisavós paternos, onde costumava passar os Verões e que um dia demandou numa tentativa de encontrar qualquer coisa que não achava em Nova Iorque, onde vivia. Instalou-se na velha casa da avó e pensou rodar um dilúvio, usando os jovens locais como actores: «Tenho sempre a ideia de escolher audiências muito estranhas, que não têm voz, como a desta aldeia, uma das que
vão desaparecendo por causa da globalização », diz. Usou também elementos de telenovelas como contos tradicionais, do folclore transmontano e da recolha de Leite de Vasconcelos. É um filme que pretende fazer passar no circuito dos festivais, não em galerias. E não esconde o desejo de fazer um épico. Assim venda quadros para isso. Em todo o caso, experimenta já um certo toque conservador, «no caminho do ICAM», comenta irónico.
Gabriel Abrantes nasceu em Chapel Hill, na Carolina do Norte, Estados Unidos, para onde os pais médicos, haviam emigrado. Veio para Portugal aos quatro anos, seguindo depois para Bruxelas, até aos sete, e de novo para os EUA. Fez o curso de Fine Arts and Cinema, na Cooper Union for the Advancement of Science and Art, em Nova Iorque, onde experimentou intensamente as diferentes práticas artísticas, da escultura ao cinema. Frequentou no ano passado um mestrado no Le Fresnoy, Studio Nacional des Arts Contemporains, em França e actualmente vive em Lisboa.
A inclinação para a arte, que vem de alguma maneira de família – o pai também pintava e é parente do pintor João Vieira e de Manuel João Vieira – tornouse total. Também faz música e performance, o projecto de one man band, em que pode tocar bombo com o pé, bandolim com as mãos e ainda cantar. Apresentou-se pela primeira vez em público se recentemente no Maxime. Não correu mal: «Algum pessoal disse que tinha muita lata e houve algumas pessoas que gostaram da música. Eu estava muito nervoso eenvergonhado. E nesse sentido foi importante no meu trabalho. Porque há muita vergonha na arte contemporânea».
Em Agosto vai expor em Brasília um filme que irá fazer na Amazónia e em Novembro terá uma exposição em Paris.

A polémica biografia de Paulo Coelho

O subtítulo é prometedor. Nele se promete a incrível história de um «menino que nasceu morto, seduziu o anjo da morte, sofreu em manicómios, mergulhou nas drogas, experimentou diversas formas de sexo, encontrou-se com o diabo, foi preso pela ditadura, ajudou a revolucionar o rock brasileiro, redescobriu a fé e transformou-se num dos escritores mais lidos do mundo».
É a muito aguardada biografia do escritor brasileiro Paulo Coelho, uma das figuras mais controversas da literatura mundial, desprezado por críticos e adorado por leitores. Um fenómeno de vendas (mais de 100 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo) e de popularidade (já recebeu várias condecorações) que dava um livro fascinante.
Foi a essa tarefa que se lançou Fernando Morais, autor de várias biografias de referência, como Olga, Chatô, Na Toca dos Leões ou Montenegro. Seguindo o rastro da sua vida, o conceituado jornalista brasileiro tentou compreender Paulo Coelho nas suas múltiplas dimensões, em particular no confronto entre a esfera pública e privada. Para isso, teve o privilégio de poder consultar inúmeros documentos pessoais do autor de Brida, O Alquimista, O Monte Cinco ou A Bruxa de Portobello, incluindo um baú que continha 40 anos de diários, alguns gravados em cassetes.
«Procurei Paulo Coelho em todos os lugares possíveis e fui atrás dos acontecimentos que tantas cicatrizes haviam deixado na sua história», escreve Fernando Morais na introdução a O Mago, uma edição da Planeta. «Procurei-o nos becos sombrios dos bas-fonds de Copacabana, nos prontuários dos loucos e nas ruínas da antiga Casa de Saúde Dr. Eiras, no perigoso mundo das drogas, nos arquivos da repressão política, no satanismo, nas misteriosas sociedades secretas, na parceria com Raul Seixas, na sua família e na sua genealogia».
No total, entrevistou mais de 100 pessoas. «Vasculhei sua vida, revirei sua intimidade, remexi no seu testamento, fucei bulas de seus remédios, li suas contas pessoais, mexi nos seus bolsos, procurei filhos que eu imaginava terem sido gerados em seus casamentos e aventuras amorosas», conclui o jornalista brasileiro. E, no fim, descobre-se o retrato de alguém que bem poderia ser uma das muitas personagens que Paulo Coelho criou para os seus romances.

Sexta-feira, 17 de Abril de 2009

A Ciência vai ao Teatro com os diabos que carregam a Cultura

Talvez a Ciência nunca tenha estado tanto na ribalta como nos tempos que correm. Mas é sobre uma zona de convergência de saberes e renovadas interrogações que as luzes se acendem ao fim da tarde do próximo dia 21, no foyer do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. Em ‘palco’ vai estar o cientista Alexandre Quintanilha para falar Dos mefistófeles na literatura e na ciência. Uma conferência em que irá percorrer os paraísos e infernos que sempre envolveram a criação e a busca do conhecimento.
O cientista propõe abordar a evolução das diferentes representações do ‘proibido’ a partir de Godot de Samuel Beckett. E nem sempre o diabo está à espera… É a primeira de um ciclo que decorre até 14 de Julho, naquele teatro, com a participação de personalidades de diferentes áreas.

Novo inquilino n'O Bairro


O Bairro literário de Gonçalo M. Tavares tem novo inquilino. É O Senhor Swedenborg, um livro que a Caminho publicará brevemente.
A mesma editora informa que 400 alunos da Universidade Lusíada vão projectar casas para o bairro criado pelo escritor português, onde já moram os senhores Valéry, Henri, Juarroz, Calvino, Brecht, Kraus, Walser e Duchamp. «O projecto é elaborado num sítio real, na rua de s. mamede / rua da saudade, na zona do castelo, em Lisboa. O tema é: "uma casa para um livro" e, mais especificamente, para uma personagem. E os alunos entregarão projecto, maquete, etc.», lê-se no comunicado de imprensa da Caminho.
«Este projecto envolve 14 docentes de arquitectura, da cadeira de projecto, da Universidade Lusíada, coordenados pelo Professor Fernando Hipólito. Prevê-se uma exposição dos trabalhos no final e, eventualmente, a entrada de alguns projectos, de uma forma ou de outra, no bairro dos senhores de Gonçalo M. Tavares.» Aos alunos do 5.º ano do curso de Arquitectura caberá a projecção do bairro no seu conjunto. Cada casa terá várias divisões, todas adaptadas à especificidade de cada escritor.

Entrevista a Juan Manuel de Prada

Foto de José Carlos Carvalho

Diz que é missão do intelectual polemizar o seu tempo. E nesta entrevista, como nas suas crónicas e nos seus livros, o escritor espanhol Juan Manuel de Prada, 39 anos, não foge a essa «obrigação». Fala da crise do Ocidente, dos males da Literatura, das suas fórmulas gastas, do maniqueísmo de muitas personagens, da verdade e da mentira, do mal e da culpa, da identidade e da natureza humana. Acredita que, como no seu novo romance, O Sétimo Véu, agora editado em Portugal com a chancela da Dom Quixote, é preciso escavar o passado para encontrar um sentido para o presente. Aqui antecipamos alguns excertos dessa entrevista, que pode ler na íntegra na próxima edição do JL, nº 1006, nas bancas dia 22 de Abril.

Por que razão decidiu enquadrar a história inicial de O Sétimo Véu na II Guerra Mundial e na França ocupada?
A minha formação literária é muito francófona e tenho um grande interesse pela História e Cultura francesas. Isso não me inibe de ser crítico em relação ao seu passado. Sempre me chamou a atenção que um país supostamente civilizado, onde floresceram os pressupostos da modernidade, tenha capitulado, durante a II Guerra Mundial, perante a Alemanha, quase sem batalhar. Era algo que me intrigava. Queria saber como isso foi possível.

Chegou a alguma conclusão?
O desenvolvimento, a prosperidade e as vantagens do progresso converteram a França num país acomodado, sem pulso, nem força de reacção. Nesse sentido, o que lhe aconteceu é um pouco o símbolo do que se passa actualmente no Ocidente. Perante uma crise económica, tudo se desmorona. Não há convicções nem princípios fortes que possam afrontar a contrariedade. Perante ela, desfalecemos sem resistência.

É um pessimista?
Só em relação ao futuro do mundo tal como está organizado hoje em dia. Penso, no entanto, que tudo isso cairá e que surgirá uma ordem nova. A queda da economia ocidental é o fim de uma ordem injusta. E as crises, ao longo da História, sempre provocaram uma renovação da Humanidade. Nessa perspectiva, sou optimista. Claro que as mudanças são precedidas por uma dor muito grande – e parece-me que o drama humano que estamos a sofrer será ainda maior. Mas também acredito que a seguir haverá espaço para a esperança.

Um Xuto no Engenheiro


Sem Eira nem Beira, Xutos & Pontapés




Vai ser o grande sucesso deste Verão. Ao vivo, será insuperável. O Kalú salta da bateria e canta Sem Eira nem Beira, para delírio da multidão, e depois mergulha para o público.
Quem trouxe a canção para o reportório dos Xutos foi o próprio Kalú. Mas a letra é do Tim. Segundo ele me explicou, inicialmente dizia «senhor doutor» e imaginava uma cena no tribunal, o reu já a ser levado e a proferir ainda aquelas palavras. Mas depois mudou para engenheiro: «A grande diferença entre o PS e o PSD é mesmo essa, antes era doutor, agora é engenheiro».
Não é a primeira vez que os Xutos usam palavrões. O primeiro discos, 1979-1982, está cheio deles. E no tema Esta Cidade falam em 'Filhos da Puta'.
Falar em 'Foder' também não provoca pasmo maior na música portuguesa, depois do hit de Pedro Abrunhosa. Em Sem Eira nem Beira a palavra é usada no seu sentido não literal, como sinónimo de 'tramar' e não de 'fazer amor'.
Musicalmente é muito interessante, porque tem aquela acentuada mudança melódica no referão. Lembra-me O Gingão, dos Peste & Sida, naquela parte em que cantam «Senhor Aníbal, arranje-me mais um copo, que eu ainda não estou bem, aguento mais um pouco». Outra música que usa a palavra 'puta', não no sentido de prostituta, mas de outra coisa qualquer.
Anda tudo do avesso
Nesta rua que atravesso
Dão milhões a quem os tem
Aos outros um passou - bem

Não consigo perceber
Quem é que nos quer tramar
Enganar
Despedir
E ainda se ficam a rir

Eu quero acreditar
Que esta merda vai mudar
E espero vir a ter
Uma vida bem melhor

Mas se eu nada fizer
Isto nunca vai mudar
Conseguir
Encontrar
Mais força para lutar...

(Refrão)
Senhor engenheiro
Dê-me um pouco de atenção
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Não tenho eira nem beira
Mas ainda consigo ver
Quem anda na roubalheira
E quem me anda a comer

É difícil ser honesto
É difícil de engolir
Quem não tem nada vai preso
Quem tem muito fica a rir

Ainda espero ver alguém
Assumir que já andou
A roubar
A enganar
o povo que acreditou

Conseguir encontrar mais força para lutar
Mais força para lutar
Conseguir encontrar mais força para lutar
Mais força para lutar...

(Refrão)
Senhor engenheiro
Dê-me um pouco de atenção
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Não tenho eira nem beira
Mas ainda consigo ver
Quem anda na roubalheira
E quem me anda a foder

Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Mas eu sou um homem honesto
Só errei na profissão

Quinta-feira, 16 de Abril de 2009

Nova tradução de A Montanha Mágica

A Montanha Mágica, a obra-prima de Thomas Mann, vai estar novamente disponível nas livrarias portuguesas, a partir de 30 de Maio, com a chancela da Dom Quixote. Trata-se da primeira tradução feita directamente do alemão para português europeu. A responsável é Gilda Lopes Encarnação, que prepara uma nova tradução de Os Buddenbrooks.

Esta é a primeira tradução para português feita directamente do alemão?

Não, trata-se apenas da primeira tradução para português europeu, porque já havia uma no Brasil, também feita directamente do alemão por Herbert Caro. Foi uma tradução que depois teve uma adaptação estilística, ao ser publicada em Portugal, que na minha opinião não foi bem sucedida, como acontece muitas vezes nestes casos.

Como explica que um romance desta importância tenha tão poucas traduções?
Não é caso único. Basta pensar em Robert Musil, que só no ano passado teve uma segunda tradução do seu O Homem Sem Qualidades. Aliás, os casos de Thomas Mann e Musil são muito semelhantes. Ambos tinham sido editados na Livros do Brasil e têm agora novas traduções, mais cuidadas, para português europeu. E em relação à Literatura Alemã há um manancial enorme de poetas, escritores e dramaturgos que não têm tradução para português, nem em Portugal, nem no Brasil.

Traduzir A Montanha Mágica é uma tarefa difícil?
Não só pela enorme extensão da obra, mas também pela especificidade da linguagem de Thomas Mann, que tem muitas referências culturais, filosóficas e políticas. Foi um trabalho moroso, mas também gratificante. Até porque n'A Montanha Mágica encontramos lá tudo, em termos de História, de Filosofia e da visão do mundo do início do século XX.

O que mais a fascina na obra de Thomas Mann?
O cuidado com a linguagem. Todas as palavras, frases e construções são muito elaboradas, mas sem que o leitor tenha consciência disso. São elaboradas em termos conceptuais. Como se cada palavra, frase ou construção fosse pensada e estivesse no lugar certo. O grande desafio do tradutor é conseguir devolver essa riqueza na língua portuguesa.

Inaugurações simultâneas

A Associação Portuguesa de Galerias de Arte promove este sábado, 18, às 15, mais um ciclo de inaugurações simultâneas, em 24 espaços de Lisboa e do Porto. Eis a lista completa.

Em Lisboa:


E no Porto:

Fotografia de Raquel Mendes

Quarta-feira, 15 de Abril de 2009

A Razão dos Avós em debate

Publicado em 2008, A Razão dos Avós, de Daniel Sampaio, pretendeu lançar um novo olhar sobre o papel dos avós na sociedade contemporânea. Na próxima segunda feira, 20 de Abril, pelas 21 e 30, no Teatro São Luís, em Lisboa, haverá um debate intitulado O Papel dos Avós no Mundo Actual, moderado por Luís Osório, com Isabel Alçada, Marcelo Rebelo de Sousa Maria Barroso e Daniel Sampaio. A entrada é livre. Em entrevista ao JL/Educação, na altura da publicação da obra, disse-nos o psiquiatra, lançando algumas pistas para o debate: «Reconheço que uma relação entre avós e netos é mais fácil, muito mais lúdica e baseada no afecto. Não há a tensão de os educar e de exigir tanto quanto os pais precisam de fazer. Mas também é importante que os avós disciplinem, que não façam tudo o que os netos pedem, e que saibam traçar limites».

Tiago Baptista, Prémio Jovens Pintores


Tiago Baptista é o vencedor do Prémio Fidelidade Mundial Jovens Pintores, no valor de 7 500 euros. O júri, constituído por Miguel Lobo Antunes, João Queiroz, José Loureiro, Leonor Nazaré e Miguel Wandschneider, atribuiu ainda três menções honrosas, no valor de 3 750 euros, a André Trindade, Inês Rebelo e Sara Bichão. A exposição com os finalistas está patente, até 8 de Maio, na Galeria Chiado 8, em Lisboa.

Luz indecisa, de José Mário Silva

rua serpa pinto, n.º 6. 2.º esq.

O corredor, a alcatifa, a mesa
da cozinha, a disposição dos
quartos, a cor dos azulejos,
o branco das paredes, a vista
para o muro das traseiras.
As casas que habitámos
ainda nos habitam.

formiga

«Pai, anda cá», diz a minha filha.
Pela parede branca sobe uma formiga,
minúscula, muito lenta, obstinada.
A minha filha encolhe o corpo
pequenino para olhar. Não sei se é
a primeira vez que vê uma formiga;
mas é, parece-me, a primeira vez
que se apercebe da enorme diferença
de escala que a separa do insecto.
A minha filha acompanha a subida
heróica da formiga pela parede
branca, vira-se para mim, sorri.
É nesse espaço subitamente tenso,
criado entre a alegria infantil da
descoberta e o esforço irracional
da formiga, que nasce o poema,
mesmo se eu já desisti dele para
limpar o ranho que a minha filha,
absorta, deixou chegar até à boca.

segundo soneto nocturno

Dizias: a poesia não nos protege
nem salva, é só um consolo inútil.
As folhas rasgadas ardiam melhor,
o fogo contorcia as estrofes, brilho

negro o destas cinzas. Dizias: foi
ontem que o anjo me veio arrancar
os olhos, amanhã virá à procura do
coração. Na tua voz, restos de vidro

moído, metal gasto, ferrugem. Lá
em cima as estrelas continuavam
a cintilar, indiferentes. Nenhuma

catástrofe que nos aconteça ficará
registada nos sismógrafos. Dizias:
afinal não há anjo, são só palavras.

Do novo livro de poemas de José Mário Silva, Luz Indecisa, uma edição da Oceanos.

Terça-feira, 14 de Abril de 2009

Prémio Fidelidade Mundial Jovens Pintores

André Silva, André Trindade, Inês Rebelo, Jorge Lopes, Sara Bichão e Tiago Baptista são os finalistas da exposição referente ao Prémio Fidelidade Mundial Jovens Pintores 2009, que se inaugura hoje, terça-feira, 14, às 19, no espaço Chiado 8, em Lisboa, ficando patente até 8 de Maio. Na altura, serão conhecidos os quatros artistas premiados.

Pensar a arte

Eduardo Matos, João Fonte Santa, João Pombeiro, João Tabarra, Mafalda Santos, Miguel Carneiro, Miguel Palma, Paulo Mendes, Pedro Amaral, Pedro Barateiro, Pedro Cabral Santo + Ruy Otero, Sara & André e Susana Gaudêncio são os artistas que compõem a exposição A Escolha da Crítica, um projecto de Lígia Afonso, patente na Plataforma Revólver, em Lisboa, até 2 de Maio. Trata-se de uma selecção de obras de artistas de várias gerações, dos anos 90 à actualidade. O denominador comum de todos estes trabalhos é o posicionamento crítico, sistemático ou episódico, dos seus autores face ao sistema da arte contemporânea e a reflexão sobre os papéis sociais e económicos que a cultura desempenha. «Querer pensar acrítica e descontextualizadas as práticas artísticas contemporâneas é assumir passivamente o lugar do conforto dentro da sua estrutura estabelecida e alienar a possibilidade de encontro pelo diálogo e a criação, aos quais assiste a própria ideia de provocação e conflito», defende Lígia Afonso no texto introdutório a esta mostra. Nesse sentido, esta exposição «é uma tentativa de mapeamento de um discurso, mais ou menos polémico e interventivo, tornado possível com a lenta ultrapassagem dos limites e fronteiras historicamente herdados, ainda que porém, e agora em democracia, mais frequentemente normalizado que radicalizado.»

Segunda-feira, 13 de Abril de 2009

Ian McEwan em Portugal

O escritor inglês Ian McEwan estará em Portugal, entre os próximos dias 17 e 20 de Abril, para lançar o seu novo livro, Por Ti, o libreto que escreveu para a ópera homónima de Michael Berkeley. O autor de Amesterdão, Expiação e Sábado conversará com Clara Ferreira Alves numa sessão aberta ao público que se realiza no dia 18, sábado, às 16, na sala Luís de Freitas Branco do Centro Cultural de Belém, em Lisboa.

Foto de Eamon McCabe.

A montanha de Thomas Mann

A Dom Quixote vai reeditar A Montanha Mágica, a obra-prima de Thomas Mann. Será a primeira tradução para português europeu feita directamente do alemão, da responsabilidade de Gilda Lopes Encarnação. O livro chega às livrarias a 30 de Maio.

A formação literária de Fiama

A reedição do primeiro livro de Fiama Hasse Pais Brandão, Em Cada Pedra Um Voo Imóvel, é a grande novidade do volume recém-lançado pela Assírio & Alvim que reúne a sua prosa poética e duas ficções.
Escrito em 1957, quando a poetisa tinha 19 anos, essa obra inaugural era composta por poemas em prosa e por várias «recitações dramáticas» de carácter diverso, como explica Gastão Cruz, responsável pela edição: «Tratava-se de curtas cenas líricas, ou poéticas, com alguma influência do teatro japonês, pelo qual a autora, na época, muito se interessara. Dele tinha Fiama retirado a epígrafe, que definia a tonalidade do seu próprio livro, em que as imagens ocupavam um lugar central: «O orvalho dos crisântemos gotejando cada madrugada/ quantas miríades de gerações levará/ até formar um lago?».
Talvez por o considerar muito juvenil, Fiama nunca incluiu este livro, tal como Aquário, de 1960, na sua obra reunida. A publicação de ambos, contudo, permite-nos acompanhar a sua formação literária e identificar alguns temas que estarão presentes em obras posteriores.
O volume inclui ainda os poemas em prosa que compõem o livro Falar sobre o Falado, dado à estampa inicialmente em 1988, e duas ficções: Sob o Olhar de Medeia, com a sua narrativa mais longa, e O Retratado, com reflexões poéticas sobre temas ligados à literatura.
Com Em Cada Pedra Um Voo Imóvel e Outros Textos, a Assírio & Alvim prossegue a publicação das obras completas de Fiama, onde já constam Obra Breve, a poesia reunida, Contos da Imagem e Noites de Inês-Constança.

Quinta-feira, 9 de Abril de 2009

Marvin Gaye é o maior




Uma vitória esperada: Marvin Gaye é o artista favorito da Motown segundo o público do Blogue do JL. Ou talvez nem tanto. Na votação que a Motown fez no seu site, para escolher as melhores músicas da editora, os Jackson 5 ocupam os lugares cimeiros. No nosso inquérito, surpreendentemente, tiveram apenas um voto. E garanto-vos que não foi o meu.

Quarta-feira, 8 de Abril de 2009

As passadeiras de Jaime Vasconcelos

É muito curiosa a relação de Jaime Vasconcelos com a pintura. Acompanhando algumas tendências da arte contemporânea, o seu ponto de partida é quase sempre a fotografia, que depois, através de processos digitais, é metamorfoseada em jogos cromáticas que encerram um profundo mistério. E também inesperadas texturas. É um trabalho aturado nos programas informáticos da especialidade, na sobreposição de cores e num hábil jogo de formas. Isso era particularmente visível na série Viagens, feita de paisagens, e também sobressai agora em De Passagem, patente na Galeria das Salgadeiras, até 16 de Maio. São imagens de passadeiras com que nos cruzados diariamente na rua. «Aquelas riscas brancas, entretanto gastas pelo tempo e pelo uso, revelam inúmeras histórias, personagens e situações», escreve Ana Saramago Matos, na apresentação da mostra. «Nesta exposição encontramos fragmentos de passadeiras transformados pelo re-enquadramento da fotografia original e pela introdução da cor.» A essência pictórica fica desde logo assegurada pela sua íntima familiaridade com as telas de grandes dimensões de Mark Rothko. Como se a pintura fosse independente do suporte a partir do qual emerge.